Washington e a noite obscura

12 de Janeiro de 2008

Reproduzimos o artigo de Tariq Ali publicado em vários meios digitais, e dedicado a analisar a situaçom criada no Paquistám e em toda aquela regiom asiática.

Washington e a noite obscura

Tariq Ali

“Os matrimónios apalavrados podem ser assunto complicado. Concebidos primordialmente como instrumento de acumulaçom de riquezas, nom servem, no entanto, para superar aventuras amorosas indesejadas ou para evitar histórias amorosas clandestinas. Se é notório que os contraentes se detestam mutuamente, só um pai cruel, de sensibilidade embotada pola perspectiva do benefício imediato, insistirá num processo, cujo infeliz e ainda violento final conhece à perfeiçom. Que isso vale também para a vida política, é cousa que revelou cristalinamente a recente tentativa de Washington de unir Benazir Bhutto com Pervez Musharraf. De firme resolvido pai único, fijo neste caso as vezes um desesperado Departamento de Estado –com John Negroponte no papel de diabólico intermediário e Gordon Brown, no de damisela atordoada— possuído polo temor de nom conseguir impor-se aos potenciais contraentes e fazer-se demasiado velho para se reciclar».

Escrevim este parágrafo inicial num longo ensaio para a London Review of Books a começos deste mês. Que a violência tenha chegado a tal ponto tam cedo, nom deixou de me surpreender. O choque inicial do assassinato de Benazir Bhutto vai ficando atrás, e é preciso avaliar desapaixonadamente as suas prováveis conseqüências, evitando o pietismo que invade as colunas dos grandes meios de comunicaçom globais. Practicamente todo o que se escreve nos jornais ou mostram os ecráns televisivos é enganador e diria-se concebido para eludir a discussom do que anda verdadeiramente em jogo.

Porque Bush, Negroponte e os acólitos británicos estavam tam resolutos a pôr precisamente esse remédio à crise paquistanesa? Que pensavam conseguir? Que "mundo novo" tinham fantasiado? Quase todos os seu supostos fundavam-se em factos sistematicamente e selectivamente retocados, distorcidos ou exagerados, a fim de evitarem qualquer responsabilidade ocidental na actual crise. Já que, com insignificantes variaçons, todo isso o venhem repetindo até a náusea os meios de comunicaçom globais, nom será ocioso examinar especificamente cada um dos principais argumentos esgrimidos:

a) Paquistám é um Estado nuclear, o único país mussulmano em posse de armas atómicas e que realizou provas nucleares. Se os jihadistas/alQaeda metessem mao nessas armas, existe o perigo de que pudessem desencadear um holocausto nuclear. Há que apoiar Musharraf porque se opom vigorosamente a essa possibilidade.

Há que recordar que o Paquistám aperfeiçoou o seu armamento nuclear nos anos 80 sob a ditadura do general Zia ul Haq, ínclito aliado de Ocidente e peça central da entom chamada guerra contra o Império do Mal (a URSS) no Afeganistám. Os EUA estavam a tal ponto obsessionados com o conflito com os russos, que decidírom organizar umha rede jihadista global para recrutar militantes na guerra santa do Afeganistám e olhar para outro lado durante a pouco dissimulada construçom dos silos nucleares pakistaneses.

As instalaçons nucleares estám sujeitas a um controlo militar muito rígido. Nom há a menor possibilidade de que um grupo extremista poda safar-se do controlo de um exército de meio milhom de soldados. A única maneira que teriam os extremistas religiosos de se fazerem com o poder é pola decisom do exército de que isso é o que tem de passar. O Pentágono e a DIA (a inteligência militar do EUA) sabem muito bem que a estrutura de comando militar do Paquistám jamais foi derrotada, e que os generais dependem do financiamento e do armamento americanos. Mês após mês, o exército paquistanês rende contas ao CENTCOM da Flórida (o comando central estado-unidense para operaçons no estrangeiro) das suas actividades na fronteira afego-paquistaní. É o exército como instituiçom o que responde a essas exigências, nom só os generais. A Musharraf nom lhe resta a menor legitimidade neste assunto, porquanto abandonou o uniforme. De aqui a insistência de Bush em que o processo eleitoral siga o seu curso, apesar do boicote em massa, dos processos judiciais parados, do silêncio dos meios de comunicaçom, de políticos chave sob detençom domiciliar e da execuçom pública da senhora Bhutto. A se ter decidido Benazir a boicotar as eleiçons (o que teria significado romper com Washington), continuaria viva.

b) o Paquistám é um Estado em bancarrota, à beira do colapso e circundado de resolutos jihadistas furiosos à espreita. Daqui a exigência de umha alternativa nom religiosa e o papel de Benazir Bhutto para ajudar a Musharraf a conseguir um pouco da legitimidade de que precisa desesperadamente.

O Paquistám nom é um «Estado falido» no sentido em que som o Congo ou o Ruanda. É um Estado que funciona mal, e nessa condiçom se mantivo durante quase quatro décadas. às vezes, a situaçom é melhor; outras, pior. No coraçom do seu mau funcionar está a dominaçom do país por parte do exército, e cada novo governo militar nom fai senom piorar as cousas. Isso é o que impediu a estabilidade política e fijo impossível a apariçom de instituiçons consolidadas. Disso trazem os EUA responsabilidade directa, já que sempre considerárom –e continuam a considerar— o exército como a única instituiçom do país com a qual se pode tratar, o rochedo que contém as agitadas águas da impetuosa torrentada.

Economicamente, o país apoia-se desequilibradamente numha elite corrupta e ultra-rica; mas isso, certamente, é grato ao Consenso de Washington. E o Banco Mundial sempre foi próvido em elogios para as políticas económicas de Musharraf.

A última crise é resultado directo da guerra e da ocupaçom do Afeganistám polas forças da OTAN, que desestabilizárom a fronteira norocidental do Paquistám, gerando umha crise de consciência no seio do exército. Umha fonte de infortúnio, isso de ser pago para matar camaradas mussulmanos nas áreas tribais fronteiriças com o Paquistám e com o Afeganistám. A conduta arrogante e humilhante dos soldados da OTAN nom ajudou, decerto, a resolver os problemas entre ambos países. O envio tropas estado-unidenses para treinar os militares paquistaneses em labores de contrainsurreiçom provocará com toda a probabilidade umha ulterior inflamaçom dos ánimos. O Afeganistám só poderá ser estabilizado mediante um acordo regional que complique a Índia, Rússia, Irám e Paquistám e que venha acompanhado da retirada total das tropas da OTAN. As tentativas dos EUA por evitarem precisamente isso reforça a crise em ambos países.

Musharraf fracassou no seu papel de homem chave de EUA no Paquistám. A sua incapacidade para proteger a Benazir Bhuto tivo má acolhida em Washington, que poderia mudar de candidato no ano próximo e voltar a depositar as suas esperanças no general Ashfaq Kayani, quem relevou já a Musharraf como chefe do exército. Menos fácil será achar um substituto para Benazir. Os irmaos Sharif nom som de fiar, e som demasiado próximos aos sauditas. As eleiçons serám manipuladas grosseiramente, o que as privará de verdadeira legitimidade. A noite obscura está muito longe do seu fim.

Tariq Ali é membro do Conselho Editorial de SINPERMISO.

 

 

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