Umha vitória histórica no Nepal

16 de Abril de 2008

A vitória maoista nas eleiçons convocadas no Nepal levará ao poder a guerrilha levantada em armas em 1996 contra a monarquia ditatorial governante nesse país asiático. Carlos Aznárez, director de Resumen Latinoamericano, analisa o significado dessa surpreendente e esmagadora vitória popular no Nepal enquanto os meios ocidentais olhavam para o vizinho Tibete.

Umha vitória histórica no Nepal

Carlos Aznárez

Nom é pouca cousa o que aconteceu no Nepal. Som anos de luita guerrilheira, de sacrifícios e resistências no campo de batalha, de milhares de trabalhadores, camponeses e camponesas massacrados pelas bombas e polas balas de umha da piores ditaduras monárquicas da regiom, que agora revertem numa vitória popular impecável.

"Estamos surpreendidos", dizem os adoradores do "terrorismo mediático"; "estamos consternados", sustentam em Washington aqueles que bebem no discurso ingerencista de George W. Bush, porque nom podem entender como aconteceu aquilo que para eles é umha hecatombe. Maoismo nestas épocas?, sussurrou, preocupado, a um jornalista o genocida espanhol Javier Solanas. A resposta foi-lhe dada nas ruas polos e polas nepalenses que com umha tenacidade e umha consciência blindada nom só combatêrom na guerrilha como também – recordemo-lo – desafiárom a polícia e o exército do rei Gyanendra, e fôrom encarcerados, golpeados, torturados e até desaparecidos devido à sua rebeldia, mas nunca cessárom de combater.

Assim, durante anos, na selva e nas montanhas, como guerreiros e guerreiras, e a seguir em imponentes manifestaçons que a partir de 2005 inundárom as ruas de Kamandu e outros centros urbanos do país, exigindo a abdicaçom do monarca, foi-se gestando a vitória do presente.

Por isso, nom se trata de nengumha surpresa. Surpreendidos podem estar os cúmplices internacionais daqueles que afundárom o Nepal nom acreditavam naquilo que há muito tempo era anunciado nos muros das ruas do Nepal: "A monarquia cairá e governará o povo dirigido polo camarada Prachanda". Agora que chegou o momento, som os mesmos "observadores" europeus e ianques que tenhem de dar a "ingrata notícia" às suas diferentes metrópoles. Para eles, começa um pesadelo que nom fora pensado. Para o povo do Nepal, abre-se um caminho de esperança e construçom do poder popular.

Cabe assinalar que o Nepal é um pequeno país situado entre a regiom chinesa do também convulsionado Tibete e o norte da Índia, com umha superfície total de 140 mil quilómetros quadrados. Ali vivem aproximadamente 24 milhons de habitantes, a maioria deles em zonas rurais e em condiçons de extrema pobreza.

O actual Estado nepalês, criado há dous séculos e comandado por um punhado de feudais moribundos, adoradores do capitalismo, foi acossado por muitas contradiçons irreconciliáveis. Todos os esforços reformistas para remendar a superestrutura político-cultural, assim como a base económica, nom pudérom conter o deslizamento gradual para o seu colapso total, e dessa cinzas surgírom os fogos actuais.

O Nepal agora é o segundo país mais pobre do mundo. Como bem afirmou o PCN(M) num dos seus apelos ao povo para que se rebelasse nas urnas: "A desigualdade económica, na qual 10% dos ricos é dona de 46,5% do rendimento nacional, é umha das piores do planeta; 71% da populaçom vive abaixo do nível de pobreza absoluta; 90% da populaçom vive no campo em condiçons primitivas e 81% trabalha em agricultura primitiva; só 10% da populaçom tem trabalho e 60% está subempregada; quase um terço da força laboral viu-se obrigada a ir trabalhar na Índia e em outros países onde os salários miseráveis ou incorporárom-se às forças armadas mercenárias da Índia e da Inglaterra; o domínio imperialista e de potências expansionistas em todas as esferas está a aprofundar-se e mais de dous terços do orçamento para o desenvolvimento depende de empréstimos estrangeiros".

O contraste com esta situaçom de vida paupérrima é dado, no Nepal, pola sua belíssima geografia onde se situam os montes Himalaias e o monumental pico do Everest, tam visitado por excursons planificadas por sectores da alta burguesia europeia e nom poucos aventureiros juvenis que com as suas mochilas costumam chegar à maravilhosa Kamandu.

Da luita armada ao triunfo nas urnas

Nom som poucas as organizaçons político-militares que tentárom percorrer o caminho que hoje parecem estar a atingir os partidários do maoismo nepalense. Contudo, quase todos os esforços nesse sentido culminaram em negociaçons entre o poder que tentavam derrubar e as forças insurgentes. Aquilo que marca a diferença neste caso é que enquanto em outras experiências as guerrilhas encontraram-se frente à impossibilidade de obter umha vitória militar, neste caso o poderoso exército popular construído durante anos polo PCN(M) e a sua influência indiscutível entre o povo pobre (ali está a recordaçom das grandes greves contra a monarquia) foi forjando umha realidade de ferro que nem sequer a pressom internacional a favor da realeza pudo desconhecer.

Vejamos entom quem som os vencedores deste presente nepalês e de que rincons da história recente do país provem este reconhecimento concedido polo povo nas urnas.

O Partido Comunista do Nepal (Maoista) foi fundado em 1949, mas só em 1994 se verificou o seu relançamento como organizaçom político-militar maoista liderada por Pushpa Kamal Dahal (mais conhecido como Camarada Prachanda). Foi formado após umha cisom do Partido Comunista do Nepal (Centro de Unidade), cuja denominaçom utilizou até 13 de Fevereiro de 1996, quando os seus seguidores decidírom levantar-se em armas contra o governo monárquico. Nesse dia, por todo o território nepalês, ouviu-se o grito de batalha que começou a guerra popular prolongada: "A rebeliom justifica-se".

Nesse momento, o Partido estabeleceu inequivocamente, no denominado "Plano do início histórico da guerra popular", que esta guerra popular propunha-se construir um Estado de Nova Democracia, para a seguir "marchar ao socialismo e finalmente ao comunismo, passando por umha série de revoluçons culturais sob a ditadura do proletariado, e portanto é parte integral e um componente da revoluçom proletária mundial". Como manifestou o líder do PCN(M) num documento de 1996, "esta luita seguirá as leis objectivas do desenvolvimento da guerra popular por meio das suas diferentes etapas estratégicas e voltas e revoltas, sem nunca se deter até que consiga sua meta final: a sociedade sem classes, o comunismo universal que tam brilhantemente enunciou Mao na sua teoria de continuar a revoluçom sob a ditadura do proletariado. Portanto, muitos mais dos nossos irmaos e irmás de classe terám que fazer o supremo sacrifício e dar a vida para que continuem a arder as chamas da revoluçom até que todo rastro da sociedade classista fique em cinzas e alcancemos o comunismo porque, como dixo Mao: ou todos entramos no comunismo ou ninguém entra".

Antes de converter-se em partido político e em opçom eleitoral vitoriosa, a guerrilha maoista dominava 80% do país, estabelecendo governo locais e regionais em vários distrito. Após um ano de pequenas escaramuças, conseguírom assentar na parte central do país junto às terras baixas do Himalaia (a leste e oeste de Katmandú). Os guerrilheiros fôrom criando organizaçons nacionais de apoio entre as minorias de Magar, Gurung, Tamang, Newar, Tharu, Rai, Limbu e Madhise, assim entre os nepaleses, formando umha frente ampla chamada Samyukta Jana Morcha (SJM) ou Frente Popular Unida (Maoísta), cujo presidente era Baburam Bhattarai.

Os que apoiam os maoistas argumentavam que libertárom a populaçom do tiránico sistema de castas, dando igualdade de direitos às mulheres (tanto na luita guerrilheira como nas frentes de massas elas desempenhárom um papel destacadíssimo), e que enfrentavam umha monarquia opressora e autoritária, agora finalmente derrotada.

Umha estratégia de guerra popular

O PCN(M) aderia à estratégia maoista de guerrilhas e guerra popular, pola qual tomaria o controlo gradual do campo até cercar as cidades, luitando contra as forças governamentais só quando superassem em número significativamente o inimigo. Em 2001 o exército nepalês começou umha campanha militar contra os rebeldes maoistas, especialmente nas áreas ocidentais do país, com intermintentes altos de fogo.

O Departamento de Estados dos Estados Unidos incluiu este partido na sua lista de organizaçons terroristas (algo que ainda está em vigor) e enviou centenas de milhons de dólares de ajuda ao governo do Nepal a fim de combatê-los.

Quando em 2005 o rei Gyanendra tomou o poder absoluto, em Abril de 2006 o partido convocou umha greve geral indefinida, juntamente com outros sete partidos opositores, o que levou o rei a anunciar que restabelecia o Parlamento. Ainda que os outros partidos tivessem acabado as mobilizaçons e nomeado um candidato a primeiro-ministro, o Partido Comunista do Nepal (Maoista) recusou a decisom do rei, pola boca do mesmo Prachanda, por considerá-la umha conspiraçom para permitir que continuasse no poder.

Prachanda também acusou a aliança opositora de nom cumprir o acordo de doze pontos que firmaram e de haver traído as aspiraçons do povo nepalense. Além disso, anunciou que continuariam a bloquear Katmandú até que se cumprissem suas exigências, mas a 26 de Abril de 2006 levantaram o bloqueio das estrada com a exigência de que os partidos políticos iniciassem a criaçom de umha assembleia constituinte na sua reuniom seguinte.

Em Maio do mesmo ano fôrom retiradas as acusaçons de terrorismo aos membros do PCN(M) e transmitiu-se à Interpol a petiçom de anulaçom das ordens de prisom internacional contra os membros do Partido. Finalmente, em Dezembro de 2007 o parlamento aboliu a monarquia por ampla maioria e decidiu a reforma da constituiçom e integraçom dos maoistas no exército.

Este partido fai parte do Movimento Internacionalista Maoista e do Comité de Coordenaçom dos Partidos e Organizaçons Maoistas do Sul da Ásia.

Agora, contra ventos e tempestades, e no ámbito de um aluviom de observadores europeus (como Mr. James Carter), os maoistas levantárom-se com um triunfo indiscutível. Vitória que tem muito a ver com a tenacidade de umha luita guerrilheira de anos e a convicçom de que as ideias do PCN(M) estám profundamente enraizadas na populaçom do Nepal, que sofreu nas suas costas umha cruel ditadura monárquica amparada polos EUA e os países europeus.

O triunfo anti-monárquico no Nepal abre, sem dúvida algumha, perspectivas mais que estimulantes em outros países que ainda sofrem governos monárquicos na Europa, Ásia e África. Som também umha chamada de atençom para aqueles que tentam reiteradamente desalentar os que luitam com as armas nas maos (quando se fecham todos os caminhos pacíficos) contra os opressores dos seus povos. Sem essa actividade insurgente, constante e prolongada, teria sido impossível alcançar a vitória que os nepaleses hoje festejam nas ruas.

 

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