A Revoluçom radicaliza-se ou será derrocada no curto prazo

3 de Dezembro de 2007

A Revoluçom Bolivariana viveu ontem umha derrota no referendo para a reforma constitucional da Venezuela, abrindo numerosas incógnitas sobre as causas e conseqüências dessa apertada vitória eleitoral da oposiçom burguesa.

Para as forças que apoiamos o processo revolucionário, é este o momento de reafirmar esse apoio à transformaçom da sociedade venezuelana. Para acedermos reflexons directas a partir da própria Venezuela sobre o acontecido ontem, oferecemos a análise publicada no web Aporrea, por Roberto López Sánchez, historiador e intelectual venezuelano comprometido com a revoluçom.

A Revoluçom radicaliza-se ou será derrocada no curto prazo

Roberto López Sánchez. 3 de Dezembro de 2007

A derrota que sofreu a proposta de reforma constitucional abre um cenário de profunda crise política no interior do governo bolivariano, tal como tínhamos previsto em documentos anteriores.

As causas da derrota que sofremos no referendo devem ser procuradas dentro da revoluçom, e esses mesmos factores causantes da derrota vam continuar a agir no futuro imediato, contribuindo para agravar a situaçom de precária governabilidade em que ficou o presidente Chávez. A análise do acontecido implica considerarmos umha complexidade de variáveis, as quais por sua vez som geradoras dos factos que estamos a viver.

Achamos que o presidente Chávez se encontra actualmente em areias movediças. Deve reflectir muito bem os passos a dar no imediato. Mas, em simultáneo, torna imperativo a adopçom de medidas urgentes de rectificaçom, pois perante a derrota no referendo ficam apenas duas opçons claras: negociar com a direita pró-imperialista (tal como já propujo Manuel Rosales e o seu grupo), ou entom radicalizar a revoluçom, tentando corrigir no curto prazo as falhas e fraquezas da gestom do governo, que fôrom a causa desta derrota eleitoral.

A negociaçom com a direita pode conduzir para a derrocada do presidente Chávez em questom de meses ou semanas. Qualquer concessom ao inimigo será tomada como sintoma de fraqueza, e a direita vai ir contra o presidente (tanto a direita escuálida externa como a direita endógena, infiltrada nas fileiras da revoluçom). Nom sobeja lembrarmos que esta situaçom estava friamente calculada pola CIA no documento que analisamos semanas atrás, intitulado, “Treza passos para sair do labirinto”.

As perguntas que há que responder perante esta primeira derrota eleitoral da revoluçom bolivariana som as seguintes: porque diminuiu o apio eleitoral ao processo? Porque a direita mantém invariável a sua quota eleitoral desde há anos, apesar de ter sido derrotada umha vez e outra vez, e apesar de todas as políticas governamentais em prol do povo? Porque os recursos enconómicos derivados dos altos preços do petróleo nom impactam favoravelmente na populaçom?

 

Causas da derrota:

1. O rumo burocrático e clientelar que tomou a gestom do governo nestes nove anos. Na maioria de ministérios e missons dominou a mesma prática ‘adeco-copeyana’ de repartir favores e dádivas, junto ao desenvolvimento de práticas generalizadas de corrupçom administrativa, muitas das cuais som desenvolvidas de maneira pública e notória.

2. O anterior gera umha debilidade geral da acçom do governo, que se mostra incapaz de resolver problemas fulcrais como o desabastecimento, a insegurança ou a inflaçom. Estas variáveis continuarám a agravar, pois a causa das mesmas está nos ministros e funcionários incapazes de abordar e resolver os desafios estruturais e conjunturais que o processo revolucionário coloca.

3. A proposta de reforma constitucional nom foi adequadamente desenvolvida. A assembleia nacional incorporou desnecessáriamente 36 novos artigos à propsota inicial de Chávez, situaçom que contribuiu para criar confusom na populaçom. Mas também é certo que a proposta inicial de Chávez de reformar 33 artigos enfermava de importantes falhas na redacçom das mesmas, e deixou de fora aspectos tam importantes como o sistema educativo.

4. A proposta de conformar o PSUV implicava assmir umrisco político sem ter claro os benefícios a obter dessa proposta (tal como advertimos há um ano). Nom é só o facto de que mais de um milhom dos inscritos no PSUV deixárom de votar ou votárom Nom. O processo de constituiçom do PSUV estivo atravessado polas mesmas práticas burocráticas e clientelares imperantes no MVR, e o futuro deste partido unitário nom está claro, pois nem sequer pudo ser realizado o seu congresso fundacional.

5. A destruiçom do movimento operário bolivariano, promovida a partir das próprias instáncias do governo. O reiterado desconhecimento da existência de umha diversidade considerável de tendências políticas revolucionárias dentro do movimento sindical bolivariano gerou a confusom e a desorganizaçom dentro das fileiras dos trabalhadores que apoiam a revoluçom. Nom pode existir revoluçom sem movimentos sociais organizados, e este aspecto constitui umha das profundas fraquezas deste processo. A destruiçom da UNT promovida polo Ministério do Trabalho foi a derradeira estocada de umha política errada cujas carências se tenhem maniefstado em todos estes anos de governo de Chávez.

6. A ausência de políticas revolucionárias no sistema educativo, o qual é umha das grandesomissons desta revoluçom. As missons educativas tenhem-se desenvolvido à margem do sistema educativo, e tanto a educaçom báscia como as universidades ficárom à deriva, permitindo o fortalecimento enorme da direita fascista que agora se prepara para aprofundar o combate ideológico contra a revoluçom bolivariana. A educaçom tem um enorme impacto social, que nom tem sido valorizado até agora pola gestom do governo de Chávez. Nom se pode fazer umha revoluçom quando se tem contra a esmagadora maioria de mestres e professorado, cuja acçom venenosa começa a manifestar-se com o movimento estudantil opositor que começou a crescer desde Maio deste ano.

7. Em 1999 dixemos que nom se podia fazer umha revoluçom sem revolucionários. Essa realidade continua em vigor e é a que bate no processo bolivariano. Chávez constitui praticamente o último esquerdista, o único revolucionário do seu comboio de governo. Tem existido umha excessiva concentraçom de decisons no presidente, unido a umha igualmente excessiva louvança dos seus colaboradores mais próximos. Nom se pode governar com bajuladores, com cumpre-ordens, umha revoluçom dirige-se com quadros que tenham cabeça própria, que contradigam e proponham alternativas de trabalho diferentes às do líder do processo. O problema está na envolvente de Chávez demonstrou nestes nove anos que é incapaz de produzir ideias, nem boas nem más. Nom som os mais capazes nem os mais comprometidos, além da sua aparente lealdade ao presidente.

8. Numha perspectiva de longo prazo, também temos dito desde há anos que o tempo histórico do chavismo, se considerávamos todas as suas fraquezas e as escassas virtudes, era muito mais curto que o de AD (Acción Democrática) em 1959. O chavismo nom conta com um grande partido com raízes no movimento operário e camponês (como as tinha AD), nom conta tampouco com quadros políticos e intelectuais de primeira linha que assumam tarefas de governo e de conduçom popular (como os tinha AD). Conta só com o programa revolucionário proposto por Chávez, muito mais avançado que o de Acción Democrática na sua época, mas que nom tem actores de carne e osso para o efectivar, pois o mesmo presidente se tem rodeado de personagens que quase na sua totalidade nom partilhem e talvez nem entendam que caralho é que significa umha revoluçom socialista.

9. Em Outubro passado afirmamos isto. “Já nos fins de 2004 escrevemos que esta forma de agir do chavismo vaticinava-lhe umha curta duraçom no tempo, se comparado com o que foi a chegadaao poder de AD em 1959. Mais cedo do que tarde, o chavismo burocrático, clientelar e reformista conduzirá o governo bolivariano a umha crise política, que amanhece o seu poder e incluso poda voltar a derrocá-lo, como aconteceu a 11 de Abril de 2002. A miopia e a ignoráncia de muitos dirigentes chavistas estám a minar as bases sociais da revoluçom e a semear o terreno para umha grande crise política que pode rebentar nos próximos meses ou anos”. Lamentavelmente, esta análise fijo-se realidade com a derrota sofrida no referendo.

Como dixemos ao início, o caminho errado percorrido nestes nove anos torna difícil que qualquer rectificaçom atinja frutos no curto prazo. O terreno que Chávez pisa é movediço. Tem que tomar medidas urgentes, mas ao mesmo tempo, medir bem os efeitos de cada passo, pois se continuarem a ser cometidos erros podemos terminar afundando no pántano.

Em termos gerais, a única alternativa para Chávez é radicalizar o processo revolucionário. O imperialismo deseja derrocá-lo. Qualquer concessom que conquiste perante Chávez vai serivir-lhe para fortalecer o plano golpista para dar cabo da revoluçom bolivariana. Nom pode caber a esperança de que umha rectificaçom de direita, cedendo às pressons dos ‘escuálidos’ e dos seus próprios colaboradores ‘moderados’, permita a Chávez um respiro político. Se Chávez cede a estas pressons, serám o sinal definitivo do seu enfraquecimento, o que aproveitará o império para desatar o seu plano chamado “Fevereiro de Glória” (cuja localizaçom no tempo pode ser antes desse mês). Por outras palavras, embora Chávez tente moderar-se e negociar, essa conduta simplesmente servirá para o enfraquecer ainda mais e acelerar os planos para o derrocar.

Chávez deve desarticular progressivamente à direita endógena que mantém dentro da sua estrutura de governo, antes de que essa direita o derroque em aliança com o imperialismo e as forças opositoras. Nom pretendemos possuri a verdade absoluta, e estamos conscientes que qualquer análise da situaçom deve manejar variáveis muito complexas. Apenas defendemos a necessidadee de continuar avante no processo revolucionário, seguindo as ensinanças do Libertador Simón Bolívar. Vacilar é perdermo-nos.

Se até agora a acçom de governo enferma de tantas falhas devido às circunstáncias que assinalamos, imaginemos o que aconteceria se, em lugar de avançar, som introduzidas na gestom de governo elementos mais conservadores inclusive que os que dirigem actualmente as instituiçons do estado. Podemos ter certeza que dar mais poder à direita servirá, em todos os casos, para aprofundar a sabotagem aberta e encoberta contra os planos governamentais, o que redundará em que cada vez mais sectores sociais continuarám a tirar o apoio à revoluçom, continuará a crescer o sector opositor e o sector de indecisos, e a mesa estará servida para umha crise similar à do 11 de Abril de 2002.

Já antes exigimos a saída de numerosos ministros abertamente incapazes, e provavevlmente causantes conscietnes ou inconsistentes do fracasso de políticas para resolver o desabastecimento, controlar a inflaçom, acabar com a delinqüência e transformar o sistema educativo. Mas isso fica mui curto. Nom é um problema só de purgas dentro do comboio executivo. Tem-se caminhado nove anos numha direcçom, e torcer esse rumo errado nom é assim tam fácil. Nom temos a vara mágica para resolver isto, mas oferecemos mais umha vez o nosso concurso.

Estamos plenamente conscientes que nesta revoluçom jogamos a vida. A derrota do processo bolivariano pode abrir períodos de aberta repressom e violência contra o povo e as suas organizaçons revolucionárias. Nesta hora trascendental, o movimento popular e revolucionário deve unir-se e levantar umha plataforma política que permita sair da crise e avançar no caminho da revoluçom socialista.

 

 

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