Mensagem urgente em forma de carta aberta ao presidente espanhol

12 de Janeiro de 2008

Publicamos a traduçom galega do artigo publicado hoje mesmo polo jornal basco Gara, assinado polo dramaturgo e intelectual Alfonso Sastre, com motivo dos novos casos de torturas da Guarda Civil espanhola contra militantes independentistas bascos verificados nos últimos dias.

Agitaçom e verdade

Mensagem urgente em forma de carta aberta ao presidente do Governo espanhol

Senhor presidente:

Nom confio em que o senhor chegue a conhecer esta mensagem, mas escrevo-a e publico-a neste meio, o único ao meu alcance, que ao senhor decerto lhe há de parecer suspeito, porque nom sei a quem, que goze de algumha autoridade, dizer o que tenho de dizer com algumha esperança de que as minhas palavras sirvam para algo. Ao tema da tortura policíaca (um dos grandes horrores da história de Espanha, hoje infelizmente em vigor) dedicou Eva Forest umha muito boa parte –muitíssimos anos— da vida, e eu próprio algumhas horas da minha; ambos, primeiro durante a ditadura e depois durante a actual situaçom democrática, que nom fascista como afirmam alguns observadores superficiais. (Também ambos temos as nossas publicaçons ao respeito, em que a perenidade deste horror está suficientemente documentada, e a elas me remeto eu, agora que ela já nom pode fazê-lo). As pessoas que conhecemos o tema sabemos, com efeito, que a tortura em Espanha nom é –e continua a nom o ser– um acontecimento insólito. Amnistia Internacional já está a dar provas mui responsáveis deste lamentável fenómeno, que pom em questom os protestos dos dirigentes políticos espanhóis em prol do respeito aos direitos humanos noutros países. Até onde chega a hipocrisia e o cinismo desses dirigentes é um assunto a dilucidar. Estamos perante umha grande vergonha histórica.

Quanto a hoje mesmo, vou tentar voltar à luz um termo que E. F. Utilizava com lucidez à vista de determinadas situaçons como a que estamos a viver durante estes dias: esse termo é ‘a agitaçom’. O caso é que se permite e tolera, quando nom se preconiza, o uso da tortura policíaca, e isso por parte dos políticos em exercício nas alturas do poder; e, de repente, um dia, algun dos episódios dessa prática quotidiana nos quartéis da Polícia ou da Guarda Civil é alvo de umha grande ‘agitaçom’, como no outro dia, quando se conhece o relatório médico de um detido (Igor Portu), tendo-se produzido uns dias antes um arrepiante testemunho de torturas (Gorka Lupiañez). Neste caso, é clara a causa da agitaçom: a publicaçom do relatório médico; pois, se nom se tivesse produzido esta, o caso teria sido ocultado sob o mesmo silêncio de sempre, e o ministro do Interior nom se teria apressado a convocar os jornalistas, embora o certo seja que fijo isso para recolher a agitaçom e desmentir a legitimidade das inquietaçons reais lançadas contra ele. Quer dizer, para tentar estabelecer o facto de que a tortura é um facto insólito entre nós e está pronto a sancionar tais factos com a devida severidade no caso de serem confirmados; o que, simplesmente, nom é certo, embora algum dia talvez –oxalá– venha a ser. Mas isso depende, aqui e agora, particularmente do senhor e dos seus colaboradores, senhor Presidente.

Portanto, o que aconteceu agora –umha certa ‘agitaçom’– nom foi, ai!, que o ministro Pérez Rubalcaba se tenha inquietado sinceramente pola gravidade da situaçom e que, por isso, tenha convocado logo umha conferência de imprensa, porque há escassos quinze dias que se produziu um testemunho arrepeiante e que cheira a verdade por todos os poros –o de Gorka Lupiañez– sem que o senhor ministro tenha mexido um dedo, polo menos publicamente, sobre tal caso.

Aginha se advertiu que nom é que qualquer cousa tenha mudado –algo tenha começado a mudar– na cabeça ou no coraçom desse ministro, mas que chegou a altura da ‘agitaçom’, com a qual se tentará precisamente ocultar a questom mais umha vez, na mais fétida tradiçom de aquele ministro de apelido Rosón, que cobriu no Parlamento espanhol o repugnante caso de Almeria, em que três jovens pacíficos operários santanderinos iam à primeira comunhom da irmazinha de um deles em Almeria, e aparecêrom mortos, com os ossos partidos, e queimados dentro do seu carro numha estrada secundária, após terem sido retidos pola Guarda Civil, que os tinha confundido com bascos. O ministro informou os senhores deputados de que tinham falecido num acidente de estrada quando eram transferidos de um a outro quartel e tentavam fugir e assassinar os guardas civis que os transferiam. Naquele caso, a Guarda Civil superou os horrores do chamado no seu dia ‘crime de Cuenca’.

Agora, o senhor Pérez Rubalcaba aceita como verdade indiscutível que as lesons fôrom produzidas segundo o conto da Guarda Civil, que noutras ocasions tem ferido na tripa manifestantes ao disparar tiros ao ar; e poderíamos desenhar aqui umha grande galeria de outros horrores, muitos ainda na memória desta geraçom. Na realidade, trata-se de episódios que deixam pequena a que Borges chamou ‘história universal da infámia’.

Senhor Rodríguez Zapatero, considere apadrinhar umha actividade em prol da erradicaçom destes usos e costumes. Nom se instale definitivamente nas fileiras do cinismo e da hipocrisia em que se instalárom os seus antecessores, por exemplo mediante tam grandes façanhas como a criaçom e a manutençom dos GAL. Será possível esperar do senhor qualquer cousa ainda? Com esta esperança, muito maltreita polos factos, é verdade, escrevim-lhe hoje esta pequena e honesta mensagem, a partir do meu convencimento da indesejabilidade de toda violência.

Respeitosamente.

Alfonso Sastre

 

 

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