A democracia viciada

3 de Outubro de 2007

É mui pouco habitual podermos ler textos tam claros e independentes sobre o conflito que enfrenta Espanha com Euskal Herria. Menos ainda vindo de conhecidos jornalistas de projecçom mediática, como é o caso do veterano Antonio Álvarez Solís. Por isso resolvemos traduzir este artigo publicado hoje mesmo polo diário basco Gara, e recomendar assim a sua leitura na nossa própria língua.

A democracia viciada

Antonio Álvarez Solís. Gara, 3 de Outubro de 2007

Nesta altura da fita, comecemos pola conclusom: a chamada questom basca está absolutamente em maos de Madrid, porque é Madrid que a produz. É Madrid que nega as possíveis soluçons. É Madrid que impede qualquer processo razoável. É Madrid que submete qualquer remédio à ameaça radical. É Madrid que decide a imposiçom colonial mediante leis secas e sacralizadas que usurpam a cidadania da sua capacidade criadora de ordem e direito. Todos os que, a partir de Euskádi, convertem a questom basca num assunto interno, mediante umha astuciosa reflexom autoculpabilizadora, esquecem que nom é possível nengumha classe de progresso entre bascos enquanto Madrid circular polo caminho da direcçom única consttitucional. Mais ainda: quem a partir de Euskádi fala de negociaçom sem confronto ou transversalidade, som, simplesmente, peças da estratégia madrilena, que nom consiste noutra cousa que a rotundidade e elementaridade do ‘nom’ aos desejos profundos de um povo que, como naçom, simplesmente deseja possuir os instrumentos políticos que fagam desse povo umha naçom em plenitude, umha naçom sem adjectivos, umha naçom que nom pode apodrecer anó após ano no adjectivo maldoso da nacionalidade, pássaro sem asas.

Umha Espanha que tem sido triste exemplo histórico da conculcaçom de constituiçons, que tem feito das constituiçons águas de bacalhau desde Pavía até o 23 F, maneja agora a Carta mal nascida como se fosse a grande força magnética que reside na Arca da Aliança. E assim, sem qualidade nobre na reflexom pública, a vice-presidenta do governo fala de que a proposta de um pacto entre Euskádi e Espanha para abrir, segundo o ‘lehendakari’, o caminho final para dar ao referendo umha dimensom nobre e executiva, é simplesmente «um desvario mais do que um desafio», «umha radical desconexom da realidade». Loucura, portanto, pensar na nobre realidade de um povo. E acrescenta esse inconsistente e pitoresco personagem que é José Blanco que «nada poderá ser feito à margem da Constituiçom e da Lei». Da lei em geral, que ergue, como muro ideológico que horizontalmente impede a possibilidade das ideias e da criaçom política. Pepinho, grande sacristám dessa freguesia imóvel, sentenciou: «dixemos-lhes que ‘nom’ naquela altura –refere-se ao indigno e desprezativo rejeitamento parlamentar do texto enviado polo ‘lehendakari’ a Madrid– e havemos de voltar a dizer ‘nom’ desta vez». Mais ainda, o próprio Patxi López, que fura com o seu berbequim emprestado na dignidade do povo basco perante umha possível consulta ao mesmo, frisa que a iniciativa do ‘lehendakari’ «está destinada ao fracasso porque nom encaixa na legalidade». Quer dizer, o senhor López nom admite nem que poda existir umha legalidade basca, mas umha legalidade ‘para’ Euskádi, como derivada do poder colonialista de Madrid.

E o que é que di o inefável Rajoi, que custodia a grande herança franquista com a determinaçom da ‘escolta mora’? simplesmente isto: «a proposta de umha consulta é inconstitucional, pois tenciona tirar aos espanhóis a capacidade que lhes confere a Constituiçom para decidirem sobre a soberania de umha parte de Espanha». Sr. Rajoi o definido nom pode entrar na definiçom, já que o senhor teima em manejar a sua lógica sem ámago. Porque o que fica em questom é precisamente umha realidade fundamental: que Euskádi nom é Espanha. E assim, nom cabe tê-la por parte do espanhol para chamar os cidadaos do além Douro para resolverem sobre um assunto que nom lhes di respeito.

Nom teimem umha série de bascos, que figérom do seu nacionalismo umha voluta inapresentável do regionalismo, em negar o nobre confronto político, em propor o transversalismo que condena a linha recta e entendível, que agravam de fascistas os abertzales que luitam na esquerda real pola pátria basca. Falar de fascismo em Euskádi com as duas maos metidas na massa azeda de Madrid…! Nom teimem esses bascos em oferecer a cabeça do soberanismo sobre a travessa que compraza os amantes do grande poder central, derradeiro colonialismo que verá derrotado Espanha. Porque a batalha radical está colocada por Madrid. E nela um dos dous contendentes, Espanha ou Euskádi, deverám decidir sobre a vitória necessária e vital.

Apenas Espanha é que é responsável dos males derivados deste processo. E quem mecionar a ETA como o grande inconveniente nega a grande realidade política. Com a colher da ETA nom pode ser espumada a verdade em relaçom a Euskádi. Eles, os de aqui e os de lá; eles, os custódios da espanholidade escurialense, sabem. E mentem, mentem, mentem…

 

 

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