É a guerra total contra o planeta. Reina o caos (o capitalismo)!

31 de Janeiro de 2008

O veterano jornalista inglês William Bowles, tradicionalmente ligado à luita social sul-africana e a outros movimentos de libertaçom do chamado terceiro mundo, define neste artigo a caótica situaçom actual do capitalismo, às portas de mais umha das cíclicas crises económicas do sistema.

É a guerra total contra o planeta. Reina o caos (o capitalismo)!

William Bowles

"A tendência dominante que molda a actual situaçom … é o advento do 'neoliberalismo' – umha concertada ofensiva capitalista que pretende destruir as vitórias obtidas polos trabalhadores durante o último século e aprofundar a subjugaçom dos países do Terceiro Mundo.

— 'Cuban Communist Makes the Case for International Revolution'

Tenho de admitir o sentimento de estar totalmente arrasado polo estado do nosso planeta, apesar de eu saber que o caos que ameaça afogar-nos a todos é o resultado directo de um sistema económico – o capitalismo – sendo nada mais do que um vício anárquico pola acumulaçom de capital, transformado agora numha balbúrdia (os lucros que estám a ser obtidos som obscenos e o sofrimento das vítimas, que se contam aos milhons, é indescritível). Isto desde os anos 1970 e o advento do chamado neoliberalismo, tem sido um desenfreado vale-todo contra as pessoas e o planeta.

E se estám com a impressom de que aqueles que dim ter o controlo nom fam a mínima ideia e som incapazes de fazer o que quer que seja sobre isto, entom estám certos. À medida que saltam de crise (auto-induzida) em crise, invocando como causa todo o tipo de 'forças do mal', eles cavam um buraco ainda mais profundo para todos nós. Eles podem dominar as nossas vidas com base na força e no controlo exercido polas classes políticas dominantes, mas também eles som abalados por forças que apenas palidamente entendem (se é que).

De facto, pode-se dizer que neste ponto da nossa evoluçom social, as elites dominantes som as mais burras, mais estúpidas, e com menos visom, que já tivemos. Para nos enganarem eles tenhem primeiro de se enganarem a eles próprios e infelizmente há milhons de 'gestores' com grande vontade de fazer o engano por eles.

Mas a realidade é que tem sido assim durante séculos, literalmente, até chegarmos ao século XX, onde pola primeira vez na nossa história nós vimos umha oportunidade de avançarmos para umha nova era, na qual em vez de estarmos à mercê de forças sobre as quais nom tínhamos nengum controlo, era possível enveredar por umha sociedade que se preocupava mais com o bem comum do que com a ganáncia de umha minoria. O que mudou foi que a crise do capital é agora severa e com tantas ramificaçons que só um auto-enganado consegue evitar a verdade.

Alguns entendem que o período para o qual estes gangsters idiotas nos conduzírom é comparável aos anos 1930 – crise económica, o crescimento do fascismo e a guerra mundial – mas eu entendo que hoje a situaçom é bem pior, pois polo menos nessa altura havia umha verdadeira oposiçom de esquerda e algum sentimento de que o futuro podia ser nosso (se tivéssemos jogado as cartas certas, o que obviamente nom figemos, mas é assim que se espera que se aprenda com os erros e crimes do passado).

E para acrescentar ao nosso infortúnio, apercebemo-nos finalmente que dous séculos de capitalismo industrial ameaçam todo o planeta. Incrivelmente, fôrom precisos quatro mil milhons de anos para a Natureza criar um ambiente homeostático (em equilíbrio) onde todo o tipo de vida poda coexistir e num piscar de olhos vem todo abaixo.

Por esta altura, eu suponho que poda ser perdoado por atirar a toalha ao chao, depois de três geraçons da minha família (bem como milhons de outros progressistas do século passado) terem luitado para construir um mundo melhor, e agora ver todo o projecto cair por terra.

Mas antes de metaforicamente eu ir para as montanhas, vale a pena sublinhar que mesmo agora nom está todo perdido e, por coincidência, surge um livro do comunista cubano Roberto Regalado 'Latin America at the Crossroads' [o título original em espanhol é 'América Latina entre Siglos', ou seja, a América Latina entre Séculos/Épocas, ou como indica a traduçom para inglês, 'América Latina na Encruzilhada'.], que sucintamente explica os termos

Capitalismo,

"Depois de se ter apostado todo no estado providência", … "a falência dessa construçom ideológica coloca hoje [a social-democracia] no ridículo público". Se nom se considerar umha perspectiva de suplantar o capitalismo, o único caminho é a rendiçom total. Como resultado, da grande experiência reformista nos países imperialistas é que "nom foi a social-democracia que reformou a capitalismo, mas sim o capitalismo que reformou a social-democracia".

Aquilo a que agora chamamos neoliberalismo. Aqueles de nós que vivem nos chamados países avançados estám seguramente conscientes disto, pois no fundo nós vimos o desmantelamento sistemático, isto é, a privatizaçom do sector público, da saúde, educaçom, habitaçom, transportes e comunicaçons, o sistema penal, a segurança social, etc, todo em nome do 'mercado', essa terra da fantasia que apenas existe nos gabinetes editoriais da BBC e dos meios de comunicaçom corporativos e, claro, os leais subordinados, que vendêrom as suas almas ao sistema e que o fam (ou tentam fazer) funcionar.

E claro que os pobres do planeta vírom os seus países arrasados pola base, fôrom chacinados aos milhons, retirados de suas casas e postos à fame, todo em nome da 'defesa do mercado livre'. Os acontecimentos no Paquistám e agora no Quénia som o resultado directo dos últimos trinta anos de neoliberalismo, bem como os desastres que som o Iraque, Afeganistám, Jugoslávia, Palestina, Líbano e Haiti. E agora com o petróleo a 100 dólares, os países mais pobres ficarám ainda mais empobrecidos do que já estám.

E a nom ser que tomemos agora medidas drásticas, nós vamos ver muitos mais paquistaneses e quenianos a borrarem a pintura, à medida que os cartéis do petróleo e os bandidos do Bush aumentam as contradiçons que tenhem impacto primeiramente nos pobres.

Previsivelmente, os grandes meios de comunicaçom enchem as parangonas com 'conflitos tribais', 'limpeza étnica', 'estados falhados' e cousas assim, como sempre figérom, mas o que se passa no Quénia, tal como no Paquistám, é o resultado do domínio colonial, afinal quem é que apoiou Daniel Arap Moi, do Quénia, durante décadas? O Ocidente, especialmente o Reino Unido e os Estados Unidos da América.

Entretanto, aqui na barriga do monstro, podemos observar os efeitos do capitalismo tentando 'reformar' a social-democracia.

De forma irónica, as nossas elites dominantes, na sua tentativa de construir um Estado securitário corporativo apoiado em bases de dados, mostrárom nom apenas as suas verdadeiras intençons e, agradecemos, a sua incompetência total (nom que isso os torne menos perigosos, mas polo menos expom o grupo de bandidos incompetentes que eles som). Dam-nos saudades dos ganguesteres doutrora, como Churchill, polo menos eles tinham um plano e umha burocracia funcionante e algum sentido do seu lugar no esquema das cousas.

E nom é difícil entrar nas mentes destes 'génios' corporativos (já lá estivem). Obcecados com a alegada omnipotência da tecnologia e com a tentaçom do dinheiro fácil (o nosso), eles instalam-se em luxuosos gabinetes, admirando apresentaçons de Powerpoint, gráficos, e cousas do género, fazendo parecer que todo é como um passeio no jardim. E se figerem asneira (o que acontece a toda a hora), eles pegam nos seus bónus e simplesmente lavam daí as suas maos, deixando que um outro grupo de aldrabons venha tentar compor as cousas (e ganhar mais uns milhons). E estamos a falar de bilions de libras/dólares/euros de dinheiro público deitado pola sanita abaixo. As nossas classes dominantes som um verdadeiro desastre de proporçons globais.

Mas estes burlons tecnológicos som mal educados (no sentido tradicional do termo), tal como a maioria das pessoas para quem eles trabalham. Somos governados por um bando de bárbaros sem educaçom, que, se vinhermos a ter algum tipo de futuro que valha a pena, tenhem de ser varridos do gabinete antes que seja tarde de mais.

O apelo de Regalado a umha revoluçom mundial parece impraticável mas, que escolha temos nós, dadas as circunstáncias? Regalado advoga

"Um sistema politico baseado nos mecanismo de representaçom e participaçom populares, capaz de estabelecer um consenso que garanta a unidade de pensamento e de acçom nos pontos-chave da construçom socialista e o reforço mutuo desta unidade através do fluxo livre e construtivo de ideias e propostas que reflictam os diversos interesses dos sectores da sociedade, os quais beneficiam deste esforço a ser feito.

E isto, especifica Regalado, requer nada mais do que 'a tomada do poder político' em condiçons onde 'aqueles que detenham o poder no mundo se agarrem a ele até ao final'."

E esta é a parte que assusta, que aqueles que tenhem o poder podam ver o planeta destruído em vez de largarem o seu poder e privilégio.

Nota: Todas as citaçons som da excelente revisom de John Riddell do livro "Latin America at the Crossroads' de Roberto Regalado. Traduçom de Peter Gellert. Ocean Press www.oceanbooks.com.au 2007, US$17.95; America latina entre siglos. Ocean Press, 2007, US$17.95. John Riddell é co-editor da Socialist Voice www.socialistvoice.ca .

O original encontra-se em http://www.creative-i.info/?p=183 , a versom em português em http://www.tlaxcala.es/pp.asp?reference=4477&lg=po . Traduçom de Alexandre Leite, adaptaçom para o padrom galego nossa.

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