Quatro dias que abalárom a Espanha de Aznar
Nom foi a ETA, foi o PP

24 de Março de 2004

Carlos Morais é Secretário Geral de Primeira Linha e membro da Permanente Nacional de NÓS-Unidade Popular

Dezenas de milhares de pessoas, que participárom na Galiza nas mobilizaçons de 13 e 20 de Março contra a última grande mentira do PP e a guerra imperialista, empregárom esta palavra de ordem para exprimirem sem paliativos o estado de comoçom e indignaçom social com a direita autoritária espanhola.

A anódina campanha eleitoral ao Parlamento estatal foi violentamente modificada polo atentado de Madrid do 11 de Março e a posterior reacçom da extrema-direita e do conjunto das forças políticas e sociais institucionais. O brutal ataque contra centenas de trabalhadoras/es, jovens, estudantes e imigrantes foi atribuído automaticamente à ETA.

O Governo espanhol, o lehendakari vascongado e a totalidade das forças políticas parlamentares sem excepçom identificárom o massacre com a organizaçom armada basca e pugérom em andamento umha obscena campanha contra a esquerda independentista utilizando todo o tipo de qualificativos. O PP, desde primeira hora, tentou capitalizar eleitoralmente os cadáveres e os corpos mutilados de Atocha, Pozo del Tio Raimundo, Santa Eugenia e Téllez, ocultando informaçom, manipulando factos e concentrando as responsabilidades sobre a ETA. A supeditaçom do conjunto dos meios de comunicaçom aos ditados de Aznar provocou que o conjunto das emisoras de televisom e rádio, dos jornais com ediçons especiais, mantivessem como única tese válida sobre a autoria do atentado a que o aparelho de propaganda do regime impunha, quando já destacados dirigentes da esquerda abertzale o tinham condenado e manifestado que era praticamente impossível achacá-lo à ETA, quando meios de comunicaçom internacionais falavam de Al Qaeda, quando a polícia e os serviços secretos espanhóis tinham dados fiáveis sobre o islamismo.

A imediata suspensom da campanha eleitoral que o candidato Rajói pactuou com o PSOE foi assumida pola totalidade dos partidos políticos que optárom por obedecer sem matizaçons o guiom elaborado polos estrategas da Moncloa. As declaraçons dos líderes do autonomismo galego nom tenhem desperdício. O BNG, como vem sendo habitual, concorria com o ministro do interior por adjectivar a ETA e por deixar bem clara a sua lealdade à Constituiçom e ao sistema vigorante.

A partir de aqui, o Estado convoca as manifestaçons de sexta-feira 12 que, cumpre nom esquecer, fôrom secundadas por todos os partidos políticos institucionais e os sindicatos maioritários e que, mais do que condenar o atentado concreto, foi um acto de adesom ao Regime, com a insólita presença do herdeiro da coroa espanhola e destacados representantes da direita e extrema direita europeia (Berlusconi, Durão Barroso, Jean Pierre Raffarin) na manifestaçom central realizada em Madrid. Porém, as imagens de Fraga, Tourinho e Anxo Quintana da mao dos secretários gerais da CIG, CCOO e UGT, acompanhados pola patronal e outras autoridades do Regime, numha faixa em prol da Constituiçom e pola derrota do terrorismo, foi a versom sucursalista da manifestaçom de Compostela que nom deixa lugar a dúvida sobre o suicida seguidismo do reformismo e do autonomismo com a estratégia golpista do PP.

A escalada de manipulaçom mediática de todos os Urdaci que dirigem os meios de comunicaçom públicos e privados continuam a alimentar as necessidades eleitorais de Rajói. A estratégia ensaiada em Julho do 97, quando o seqüestro e posterior execuçom de Miguel Angel Blanco pola ETA, foi simbolicamente recuperada quando as televisons incorporárom a bandeira espanhola com crespom preto, -imediatamente suprimido quando já se reconhece que era obra da resistência islámica-, e bombardeavam as massas trabalhadoras com o discurso único de defesa da Constituiçom, da unidade espanhola, de medidas excepcionais para combater o terrorismo, manipulando sem escrúpulos a dor e a consternaçom popular.

As horas passavam-se, o número mortos aumentava e a irresponsabilidade da social-democracia e dos projectos autonomistas tam só contribuia para reforçar a cortina de fumo da intoxicaçom governamental, enrarecendo e tensionando o clima de crispaçom social que emanava da magnitude do atentado. A participaçom espanhola na agressom e ocupaçom do Iraque, -causa directa dos atentados-, foi deliberadamente evitada polos líderes políticos que optárom por aderir a essa fraude denominada "responsabilidade institucional e consenso antiterrorista".

A medida que as mentiras do PP iam perdendo consistência, -fruto da informaçom internacional e da excepcional atitude de certos meios do grupo PRISA que com o bom olfacto e oportunismo optárom por "filtrar" relevantes dados que todos os meios já possuíam, e que nom faziam mais do que confirmar o que já era umha evidência popular: Ángel Acebes mentia sem o mais mínimo rubor-, a esquerda social optou por abandonar a parálise inicial, recuperar a iniciativa e passar à ofensiva que cristalizou nas mobilizaçons do sábado 13 diante das sedes do PP. Apesar do relevante papel da SER e da CNN Plus à hora de divulgar a mobilizaçom é erróneo considerar que esta foi promovida polo grupo mediático de Polanco.

Foi a rua novamente, tal como acontecera com a greve geral de 20 de Junho de 2002, com o Prestige, com a guerra, o cenário em que rui a manipulaçom e o férreo controlo mediático que o PP logrou impor com a estimável colaboraçom por activa e por passiva das forças políticas da "oposiçom".

Quando o nervoso ministro do Interior e activista da seita de extrema direita Legionários de Cristo confirmou que Al Qaeda, mediante umha fita de vídeo, anunciava a sua responsabilidade, que tinha sido localizada a carrinha empregada no atentado com detonadores e umha cassete com versículos do Corám, que a polícia tinha abertas novas vias de investigaçom, o PP sabia que era factível a derrota nas urnas e portanto, polos antecendentes e a natureza fascista do núcleo duro da fracçom da oligarquia que representa, nom se pode considerar umha delirante conclusom nom descartar que o gabinete de crise, o Conselho de Ministros, a direcçom entrincheirada em Génova, optassem por um golpe de mao consistente em declararem o estado de excepçom, reprimirem as manifestaçons populares que cercavam as suas sedes tal como solicitou em conferência de imprensa Mariano Rajói, e suspenderem as eleiçons do dia seguinte.

A segunda-feira dia 15, o líder da ilegalizada Batasuna denunciou que tinha dados filedignos segundo os quais o Estado pretendia suspender a autonomia vascongada, deixar a ertzaintza sob controlo do Ministério do Interior e deter dirigentes da esquerda independentista.

Mas o regime, desta vez, nom permitiu que os interesses particulares dumha das suas fracçons figesse perigar a estabilidade do capitalismo espanhol mediante umha deriva involucionista de incalculáveis conseqüências que poderia fazer abalar o status quo emanado da transiçom franquista, e que a comunidade internacional nom poderia justificar nem apoiar. O núcleo duro do PP nom foi capaz nesta ocasiom de consolidar e alargar as políticas autoritárias que aplicou nos últimos quatro anos.

Esta situaçom, -a mais do que factível saída golpista-, que importantes sectores das massas trabalhadoras e da mocidade fôrom capazes de detectar fruto da transmissom das experiências vividas em 36, dos quatro anos de autoritarismo aznariano, e do tenso clima dessas horas, tivo como efeito imediato, provocou a vitória eleitoral de Zapatero e a inesperada derrota do PP no dia 14 de Março.

É absurdo pretender desligar a perda das eleiçons de Mariano Rajoi com a utilizaçom dos atentados de Madrid. O PSOE conseguiu activar à sua volta multidom de votos antifascistas, dezenas de milhares de pessoas que habitualmente nom participam nas eleiçons ou orientam o seu voto para outras opçons, desta vez considerárom que Zapatero era o melhor instrumento para derrotar a extrema-direita. É fundamental nom esquecermos que o PSOE, sem a excepcionalidade dos quatro dias de Março, nom tinha possibilidades reais de evitar que o PP continuasse na Moncloa. A incógnita da noite de 14 de Março gravitava entre maioria relativa ou maioria absoluta.

Para a esquerda independentista galega, que foi a única expressom política deste país que nom perdeu a calma e agindo com prudência nom emitiu nengum posicionamento até vinte e quatro horas depois do atentado, nem obviamente participou nas manifestaçons do Regime, os resultados devem ser avaliados positivamente porquanto abrem um novo cenário institucional caracterizado pola substituiçom da fracçom fascista da oligarquia pola liberal representada polo PSOE, pola ausência de maioria absoluta, pola pontual mas determinante reactivaçom social que no curto prazo permitirá um respiro da pressom a que nos vimos submetidos os movimentos político-sociais anti-sistémicos na última legislatura, e pola recuperaçom da confiança na luita popular.

Mas nom é altura de pôr os sinos a tocar, de avaliar ingenua e superficialmente que agora todo vai ser melhor.

Os resultados do 14M devem ser lidos com base nas seguintes chaves:

1ª- Parte das massas trabalhadoras do conjunto do Estado, após anos de seguidismo com as políticas mais extremistas do fundamentalismo espanholista, com base num imprevisto factor exógeno que provocou umha mudança radical dos acontecimentos, decidírom nom continuar a secundar a estratégia fascista do PP.

2ª- O conjunto das forças políticas institucionais, sem excepçom, cativas do golpe de Estado mediático das primeiras horas, mas também, da inércia da "lógica antiterrorista" imposta polo PP e o PSOE, deixárom-se arrastar pola estratégia involucionista.

3ª- BNG, PNB, ERC, CiU, IU, etc, seguírom sem resmungar o guiom político marcado polo PP. Carecêrom da valentia e da honestidade que devem caracterizar as forças autodenominadas democráticas e progressistas e, igual que os estrategas do aznarismo, nom fôrom capazes de detectar o que é umha evidência: o tempo político, social, económico, cultural, etc, no mundo ocidental de 2004 está parcialmente determinado polas novas tecnologias da comunicaçom que permitem aceder directamente, em tempo real, sem intermediários, nem censuras, à informaçom. O PP, obnubilado polo poder absoluto acumulado, polo seguidismo que os meios mantenhem com os gabinetes de imprensa dos ministérios correspondentes, foi incapaz de perceber que na Europa do século XXI é impossível manter durante mais de vinte e quatro horas umha monumental falácia como a que pretendêrom alargar entre as 8.30 horas do dia 11 até as 20 horas do 14 de Março. É inviável manter durante mais de 100 horas, quase quatro dias, umha determinada leitura sesgada dum acontecimento do calibre que pretendêrom impor, sem que amplos sectores da populaçom, mediante o acesso à Internet, canais internacionais de televisom e rádio, etc, comprovem como falsa. Nom estamos na Alemanha de Fevereiro de 1933, quando os nazis responsabilizárom o KPD polo incêndio do Reichstag; nem em Abril de 1937, quando o franquismo atribuiu aos "vermelhos" a queima de Gernika, a vila basca destruída pola aviaçom alemá no que foi o primeiro bombardeamento massivo contra populaçom civil.

4ª- A mobilizaçom social foi determinante para forçar umha mudança do rumo dos acontecimentos e as novas tecnologias (telemóvel e Internet) constatárom-se como poderosos instrumentos para a mobilizaçom e luita popular.

Os comentadores do programa especial de RNE que às 19.45 horas do domingo 14 de Março iam valorizar os resultados eleitorais e que nesse momento tam só pretendiam criminalizar as manifestaçons das horas anteriores, pois além de as considerej "um grave delito eleitoral" que pretendia modular a orientaçom de voto, manifestavam sem eufemismos que umha das primeiras medidas que devia adoptar o novo Governo, -o do PP evidentemente segundo os seus cálculos-, era legislar para limitar e restringir a utilizaçom do telemóveis e da Internet à hora de convocar manifestaçons e protestos.

5ª- A vitória do PSOE nom deve ser interpretada mais do que como a ánsia da maioria social por eliminar o PP da Moncloa. O profundo mal-estar com a política socioeconómica do desemprego, precariedade e pobreza, do recorte das liberdades e as medidas de excepçom, das mentiras do Prestige, da reforma educativa da LOU, mas especialmente do seguidismo com o militarismo imperialista ianque na Guerra do Iraque, unido aos temores que provocou o 11M e a posterior atitude governamental, provocárom umha detonaçom em cadeia. Mas como nom podia ser de outro jeito, pola ausência de relevantes organizaçons revolucionárias, as massas optárom por umha explosom controlada que susbtituísse o PP polo PSOE, e que no caso da Galiza significou a fagocitaçom eleitoral do autonomismo e a regeneraçom da corrupta social-democracia felipista.

É tarefa da esquerda independentista matizar e esclarecer as "naturais" expectativas depositadas pola classe trabalhadora e a mocidade nas políticas do PSOE. Cumpre combatermos o desmedido entusiasmo que promove a "progressia" para evitar que acabe novamente em frustraçom popular. O actual PSOE é herdeiro directo dos 14 anos de felipismo; Zapatero era deputado e dirigente socialista na etapa do PSOE dos GAL, da NATO, do desemprego, da reconversom industrial, do centralismo espanholista, da negativa a legalizar o aborto.

A social-democracia tam só vai continuar com as linhas mestras da política que aplicou entre 1982-1996 e que o PP posteriormente aprofundou. Nesta nova fase vai aplicar de forma ralentizada as medidas anti-operárias e contrária aos direitos nacionais que exige a burguesia para superar a profunda crise do capitalismo espanhol.

Embora vaia ter que aparentar no imediato que é umha força antagónica com o PP, certas promessas eleitorais: retirada das tropas do Iraque, combater a precariedade laboral, facilitar o aceso à vivenda, democratizar a vida política, abrir vias de negociaçom com as reivindicaçons autonomistas da burguesia basca e catalá, adopçom de medidas de choque contra a violência machista, vam ter um novo tratamento, mas nom vam ser inteiramente cumpridas.

O PSOE nom vai ter fácil retirar o exército espanhol do Iraque porque isso significa questionar abertamente os interesses do imperialismo norte-americano, -nom só de Bush-, ao qual deve tantos favores. Talvez a ONU poda facilitar-lhe as cousas, mas nom vai ser factível cumprir a principal promessa eleitoral emanada do clamor popular, nem tampouco achar umha airosa soluçom que poda ser compreendida polas massas.

A esquerda independentista deve solicitar e pressionar o PSOE para agudizar as contradiçons. Devemos exigir o levantamento das leis de excepçom e a legalizaçom de todas as forças políticas, devemos solicitar a aboliçom da reforma laboral e o final dos contratos lixo e das ETT´s, devemos solicitar que modifique a Constituiçom e reconheça o direito do exercício de autodeterminaçom, devemos pressionar para que retire as tropas espanholas do Iraque e abandone a participaçom do Estado espanhol na guerra mundial do capitalismo ianque contra a humanidade.

6ª- Entre 11 e 15 de Março nom houvo umha crise do Estado, tam só emergírom com maior intensidade as contradiçons inerentes do bloco de classes dominantes e das suas respectivas expressons políticas. O PSOE basicamente, mas também o resto das organizaçons parlamentares, agírom em todo o momento na defesa da ordem social vigorante evitando qualquer mensagem e posiçom de pedagogia política de massas que desmascarasse a natureza antidemocrática do actual sistema democrático-burguês.

7ª- O reforçamento da dialéctica bipartidista que procura o capitalismo provocou na Galiza o descalabro eleitoral do BNG, que perdeu 100.000 votos, um terço dos atingidos em 2000, passando de 18.62% para 11.77%, favorecendo o PSOE que logrou o melhor resultado da sua história na Comunidade Autónoma Galega com 653.597 votos (37.43%). As causas desta devacle nom só há que buscá-las nos acontecimentos que estamos analisando. Nom se deve desconsiderar a deriva autonomista e a perda de referencialidade como força de esquerda à hora de avaliar porque foi novamente nos núcleos urbanos, entre a classe operária e a mocidade, onde o BNG perdeu a maioria dos apoios. O discurso centrista, de atrofiado galeguismo, que evitou em todo o momento questionar as políticas do PP, praticamente homogável a determinados sectores do PSOE, que ofertava apoiar o governo que emanasse das urnas, independentemente da sua cor, sempre que servira para que "Galiza seja tida em consideraçom", som factores muito importantes para compreendermos este retrocesso eleitoral.

O BNG já nom é a força que concentra o voto útil da esquerda e do nacionalismo. O BNG é um partido mais do sistema, semelhante ao PSOE, mas que nom consegue aparentar ser útil na defesa dos interesses quotidianos das massas, pois estes ou bem estám diluídos, ou abertamente desaparecidos, no "correctíssimo" programa que "pensa em chave de país" do discurso elaborado nos gabinetes universitários.

8ª- A crise eleitoral do autonomismo provocou contrariamente às tendências estatais um avanço de IU no nosso país, que passa dos 21.000 votos de há quatro anos a ultrapassar os trinta mil. Este cenário abre novas vias e novos reptos para NÓS-Unidade Popular que nesta ocasiom solicitou a abstençom. É óbvio que as condiçons do 14M dificultárom a opçom do abstencionismo consciente e político. Na CAG houvo um incremento de mais de seis pontos na participaçom batendo todos os recordes, situando a abstençom por baixo de 24%. As fórmulas do voto nulo (perto de 12.000 e 0.68%) e do voto branco (28.716, 1.63%) tivérom um incremento em cifras absolutas e percentuais.

Mas o espaço eleitoral que o BNG abandonou continua sem ser coberto, e nom é tarefa fácil ocupá-lo, mas sim chegou o momento de caminhar nessa direcçom.

 

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