NOVAS TECNOLOGIAS E INTERVENÇOM SÓCIO-POLÍTICA. Antxón Mendizabal
Publicado no número 17 de Abrente
É conhecido que
a aplicaçom no sistema produtivo dos novos descobrimentos tecnológicos
e científicos modifica as relaçons técnicas e sociais
que os agentes da produçom estabelecem entre eles e cos meios de produçom.
Assi, a necessidade de aproveitar os sistemas de irrigaçom artificial
é também a base da relativa liberdade das comunidades camponesas
asiáticas e a aplicaçom em ocidente do "arado romano"
para o trabalho da terra está na base da queda da latifundia escravagista
e da sua substituiçom por um outro sistema com menor dependência
pessoal, como era "o colonato" da Época antiga. Assi, também,
a implementaçom do "sistema de máquinas" exige umha
classe de trabalhador/a libertado das relaçons de dependência
pessoal que caracterizava o feudalismo.
A aplicaçom no
terreno sócio-económico das "novas tecnologias" derivadas
desta revoluçom da microelectrónica (o robot industrial, as
máquinas com controlo numérico, os sistemas de fabrico flexível,
a aplicaçom da informática em campos como o design, o desenho
e o cálculo, a telemática, etc.) tem amplas repercussons na
dinámica económica, social e política do nosso mundo
actual.
Precisamente, umha característica
fundamental desta revoluçom da microelectrónica é a multiplicidade
dos seus efeitos nas diversas manifestaçons da vida em geral e do trabalho
em particular, provocando umha série de transformaçons na organizaçom
do trabalho, o contrato de trabalho, o mercado de trabalho, as políticas
de desenvolvimento e o mundo da comunicaçom, que exigem ao movimento
operário, às naçons oprimidas e ao movimento revolucionário,
umha urgente readequaçom da sua intervençom sócio-política.
Trataremos de colocar de maneira sintetizada, a nosso juízo sempre,
alguns grandes parámetros desta linha de intervençom.
Em primeiro lugar, cumpre abordar a organizaçom do trabalho. Em nossa opiniom, a acçom sindical deve apoiar aqueles aspectos das novas formas de organizaçom do trabalho que comportarem a requalificaçom da força de trabalho e umha melhoria da formaçom e do controlo dos processos produtivos. Trata-se de que quando o capital introduza novas tecnologias ou inovaçons que suponham mudanças significativas no andamento da empresa, sejamos nós quem imponhamos as condiçons sociais do processo (e nom situarmo-nos sempre na defensiva das condiçons sociais impostas pola empresa). O capital necessita cada vez mais um proletariado protagonista no terreno económico e tecnológico e idiota no terreno social e político (pola via do corporativismo, da desideologizaçom e da individualizaçom. Nós precisamos, polo contrário, umha classe trabalhadora protagonista no terreno económico e tecnológico mas também no terreno social, político e cultural.
Em segundo lugar, trata-se de integrar a actividade sindical centrada no domínio da organizaçom do trabalho na ampla luita pola participaçom e o controlo dos processos produtivos no seio da empresa; considerando esta, aliás, como parte da luita global pola democracia participativa no conjunto da sociedade. Trata-se cá de integrar a luita pola participaçom no interior dum sindicalismo sócio-político que reclame os nossos direitos cidadaos no seio da empresa, questionando a monarquia absoluta da empresa privada, a república burguesa de direitas da empresa cooperativa e o despotismo asiático do sector público.
Em terceiro lugar, trata-se
de implementar umha linha de intervençom sindical e popular que ultrapasse
o sindicalismo centrado na defesa das trabalhadoras e trabalhadores com emprego
fixo (minoritários hoje na populaçom laboral) abordando o
conjunto do mercado de trabalho (trabalhadores/as de empresas em crise,
trabalhadores eventuais, economia submersa, desempregados/as desanimados,
etc.). Aquí é mister considerar que as transformaçons
no mercado de trabalho durante a última década perfilárom
umha sociedade mais injusta e insolidária do que nunca e tal deve levar-nos
a abordar de jeito diferente, muito mais materialista, a problemática
dos sectores desfavorecidos da nossa sociedade.
A existência é
prévia à consciência, e hoje mais do que nucna é
necessário defendermos as condiçons de existência de todas
e todos os trabalhadores e membros das classes populares, a começar
polos mais fracos. Isso implica linhas de intervençom sindical e popular
específicas e adequadas para determinadas realidades (economia social,
juventude, mulher, economia submersa, etc.) e tomam aquí importáncia
estrátegica aquelas revindicaçons como "a exigência
de criaçom de emprego" nas regions periféricas e mais particularmente
"o reparto do trabalho existente" (isto é vital num contexto
em que a marge económica-ecológica para promocionar novas actividades
é reduzida) e "a generalizaçom do salário social"
para o conjunto da populaçom em idade laboral, que por atingir o conjunto
do mercado de trabalho defendem especialmente as e os mais desfavorecidos.
A consecuçom destas últimas reivindicaçons permitiria,
além do mais, reconstruir as condiçons materiais que possibilitassem
a recuperaçom do protagonismo dos sectores desfavorecidos na vida social
e política dos nossos respectivos países.
Em quarto lugar, para
os povos do mundo em geral e para as naçons periféricas em particular,
a aplicaçom na actividade humana das novas tecnologias evidencia umha
nova realidade: a revoluçom da microelectrónica é
também umha "revoluçom do conhecimento" e isso
converte o intangível social dumha comunidade (o seu sistema escolar,
as suas universidades, os seus sistemas de organizaçom do trabalho,
os seus sistemas de participaçom laboral e social, os seus sistemas
de comunicaçom, a sua consciência política e motivaçom),
numha base estratégica para o desenvolvimento e a emancipaçom.
É mais umha vez umha grande possibilidade para os povos que mantenhem
a sua coesom sócio-política, a sua autoestima e a sua confiança
nas forças próprias.
Em quinto lugar, cumpre
valorizar a autêntica significaçom da actual revoluçom
da comunicaçom e o enorme empacto derivado da sua utilizaçom
polo poder político para a conformaçom da consciência
social e a homogeneizaçom lingüístico-cultural. Isto pom
às naçons oprimidas e ao movimento revolucionário a exigência
de veiculizar o seu "próprio projecto de comunicaçom".
As experiências de imprensa própria para o movimento de resistência
e de sistemas populares-municipais de comunicaçom em língua
própria (imprensa, rádio, televisom) postos em andamento nalguns
lugares de Euskal Herria podem ser preciosos contributos para a sua generalizaçom
nas nossas comunidades nacionais. Mençom especial requer para o quefazer
revolucionário a utilizaçom da Internet para a acçom,
comunicaçom, socializaçom e solidariedade nacional e internacional,
devendo ser a análise das hipóteses deste último apartado,
pola sua decisiva significaçom, objecto dum estudo específico.
Em sexto lugar, a lógica
da nova intervençom sócio-política deve questionar
o modelo de desenvolvimento, imbricando os aspectos ecológicos,
as questons lingüístico-culturais, o movimento da mulher, a soberania
nacional, a solidariedade internacional, o novo discurso sobre a democracia,
e a participaçom popular, no design estratégico dum modelo próprio,
soberano, socialista e internacionalista para os povos do mundo.
Em sétimo lugar,
a nossa privilegiada situaçom para implantaçom das novas tecnologias
no contexto internacional deve considerar os relacionamentos Norte-Sul,
apostando pola comunicaçom entre as culturas e a solidariedade. Tal
exige optar por umha nova integraçom cos países do Terceiro
Mundo e as massas humanas deserdadas e marginalizadas do Planeta, de maneira
que converjamos quem temos fame de liberdade com que tenhem fame da pam e
podamos construir conjuntamente umha nova civilizaçom.
Antxón Mendizabal
é professor titular de Estrutura Económica na UPV e especialista
em temas de Economica Social, Autogestom, Questom Nacional, Organizaçom
do trabalho, Desenvolvimento e Globalizaçom. É autor de numerosos
artigos sobre estes temas e outros derivados da praxe sócio-política
em Euskal Herria (democracia, autodeterminaçom, reparto do trabalho,
etc.)
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