Berthold Brecht no monte do Gozo

Carlos Morais, 13 de Setembro de 2004

No passado domingo ferveu-me o sangue quando escuitei Jesus Palmou citar Berthold Brecht. Pouco depois das duas e meia da tarde, a TVG oferecia informaçom em versom NODO da romaria do Monte do Gozo. Milhares de pessoas concentradas num magnífico dia de Setembro no acto político que substituiu os banhos de massas criados por Cuinha no monte Faro a inícios da década de noventa. Gaitas, bandeiras autonómicas, polvo, churrasco, vinhos da terra, os sectores populares transportados das zonas rurais perfeitamente separados por umha vedaçom da zona VIP, reservada a sectores da burguesia, cargos públicos e familares. Nada de novo, nada surpreendente. Porém, antes da intervençom de Rajói e Fraga, o secretário geral do PPdG, no mais puro estilo hagiográfico e de ordinária louvança que o caracteriza, citou um dos mais conhecidos versos atribuídos ao poeta e dramaturgo antifascista alemám Berthold Brecht para destacar as mil virtudes de Fraga Iribarne. Embora deixasse claro que o autor de "Os fusis da senhora Carrar" e de "Terror e misérias do Terceiro Reich" se encontra nas antípodas ideológicas do que a família popular representa, nom tivo o mais mínimo rubor em utilizar incorrectamente, todo há que dizé-lo, os conhecidos versos popularizados por Sílvio Rodríguez para destacar que se "Há homens que luitam um dia e som bons. Há outros que luitam um ano ano e som melhores. Há quem luite muitos anos e som muito bons. Mas há os que luitam toda a vida: esses som os imprescindíveis".

Fraga seria um destes. Que descaramento!, que falta de escrúpulos!, que infámia!, que manipulaçom!, que oportunismo oprobioso atinge a extrema-direita apropriando-se de Brecht. Quem seria o cretino que assessorou o secretário geral do PPdG para empregar os versos de um comunista, os versos que inspirárom heróicas batalhas, que dérom coragem e força nos momentos duros, os versos que ajudárom a resistir torturas e prisom, que injectárom energia na luita contra as injustiças e a exploraçom do capital, para adular o ex-ministro de Franco. Nom sabemos quem foi, tampouco interessa. Também desconhecemos que sentiu o carniceiro de Gasteiz ao ouvir a sua utilizaçom no panegírico. Nom importa. Nom é nada de novo o que se passou no Gozo. Já Lenine, de quem comemoramos este ano o oitenta aniversário da sua morte, ressalta no Estado e a Revoluçom, a obra escrita entre Agosto e Setembro de 1917, que às poucas semanas contribui para a tomada do poder polo proletariado russo, aludindo a Karl Marx, que "as classes opressoras, durante a vida dos grandes revolucionários, retribuírom-nos com incessantes perseguiçons, acolhiam a sua doutrina com a fúria mais selvagem, com o ódio mais feroz, com as mais furibundas campanhas de mentiras e calúnias. Depois da sua morte tenta-se transformá-los em ícones inofensivos, canonizá-los, por assim dizer, conceder ao seu nome umha certa glória para "consolar" as classes oprimidas e para as enganar, castrando o conteúdo da doutrina revolucionária, embotando o seu gume revolucionário, vulgarizando-o".

Isto é o verdadeiramente importante. A denúncia, mas sobretodo a necessária recuperaçom pola esquerda da Galiza, pola esquerda real, a anticapitalista, a independentista e feminista, a que nom capitula, a que nom se submete aos ditames do marqueting eleitoral, nem renuncia à transformaçom da sociedade para arranhar mais votos, das categorias, dos conceitos, do imaginário colectivo, da simbologia gerada polo movimento operário, polo proletaridao, em mais de cento e cinqüenta anos de luita. Sem isto, sem umha demarcaçom clara do discurso dos partidos e organizaçons que se reclamam de esquerda dos que se autodefinem de centro, ou seja a direita pura e dura, nom é possível construir força social revolucionária. Sem um sistema simbólico-material próprio, claramente diferenciado do burguês, actualmente já nom hegemónico, mas completamente absoluto nos meios de comunicaçom, nas relaçons sociais, nos gostos, nas preferências, na moda, na cultura, nom existem as mais mínimas possibilidades de dotar a classe trabalhadora galega da rede organizativa que necessita para num primeiro momento resistir e recompor-se, e posteriormente atingir a sua emancipaçom e libertaçom nacional e social de género.

É meramente trivial, raiando o absurdo, pura frivolidade, deslocar o alvo da acçom política em denunciar que Fraga seja com mais de oitenta anos candidato à Junta de Galiza. Como é puramente anedótico que Feijoo e Barreiro tenham sido nomeados vicepresidentes. Que Baltar chegasse tarde, que Cuinha continue no ostracismo. Nom podemos assumir os parámetros, os esquemas de pensamento da esquerda burguesa e autonomista à hora de realizar leituras da realidade. O problema nom é Fraga. Nom é umha questom de renovaçons, de idade, de nomes, é algo muito mais profundo, substancialmente diferente. É simplista seguir gerando falsas expectativas nas possibilidades de abrir um novo ciclo político aguardando a ruptura entre as boinas e os charutos, ou na sempre anunciada perda da maioria absoluta do PP. Todos som iguais, defendem os mesmos interesses, embora tenham as naturais contradiçons em funçom das fracçons e grupos empresariais e económicos que representam. Som produto da mesma classe. Que diferença há entre o Baltar tocando "Se nom és do pepê, fodetê", e os discursos solenes de Rajói denunciando as massas mobilizadas o 13 de Março como inimigas da democracia. Que o primeiro se realiza em "jhalhego" e tom populista, e o segundo no madrileno espanhol de Ponte Vedra. Que há de distinto na política realizada em Ourense por Baltar e a que impulsionou Rajói desde a Deputaçom de Ponte Vedra?. Absolutamente nada.

Ambos som as duas caras da mesma moeda. Pos isso a esquerda independentista nom denunciou, tal como figérom o BNG e o PSOE, que Fraga volte a ser por quinta vez candidato. É intrascendente. Nom queremos contribuir para mais cerimónias de confusom, continuar promovendo miragens e falsas alternativas. Nom entramos a valorizar questons puramente secundárias. O fundamental é denunciar a natureza antidemocrática dum regime que criminaliza o direito de autodeterminaçom e condena as massas a um futuro de precariedade e miséria. Sem umha estratégia clara apoiada num discurso táctico de acumulaçom de forças, de dinamizaçom de luitas, de promoçom da autoorganziaçom obreira e popular tam só estamos reforçando essa monumental falácia denominada parlamentarismo burguês.

Porque nós podemos citar Berthold Brecht, e sabemos que a luita é o único caminho.

·Carlos Morais é membro da Permanente Nacional de NÓS-Unidade Popular e Secretário Geral de Primeira Linha

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