Cervantes, a nossa língua e a sua constituiçom

Maurício Castro. Artigo publicado no jornal Novas da Galiza nº 11 (Outubro de 2003)

Nas últimas semanas, tenhem-se ouvido vozes de repulsa ante a exclusom do nosso idioma do web que o espanhol Instituto Cervantes mantém na Internet, em concreto no chamado "Portal do Hispanismo", novo serviço que informa sobre a presença dos estudos universitários de espanhol no mundo.

Nom é a primeira vez que, de posiçons pretendidamente pró-galegas e até nacionalistas, se pronunciam queixas pola exclusividade com que essa instituiçom criada polo Estado espanhol fomenta esse idioma ao longo do mundo. O próprio BNG tem já reclamado nalgumha ocasiom que, umha vez que o Estado espanhol reconhece como oficiais outras três línguas em determinadas áreas do seu território, o Instituto Cervantes deveria entom promocionar internacionalmente também essas línguas "co-oficiais".

A instituiçom em questom, que conta com importantes recursos económicos provenientes do Governo espanhol, constitui como se sabe o autêntico mascarom de proa cultural nos afáns expansionistas da cultura espanhola, aproveitando o crescimento demográfico dessa língua em continentes como o americano. Trata-se da versom hispana de outros organismos similares como o alemám Goethe Institut ou o português Instituto Camões, todos eles dedicados a estender a influência das respectivas línguas em países e foros ao longo do planeta.

Na realidade, a própria concepçom do Instituto Cervantes, a sua natureza ao serviço de um modelo de Estado concreto, de um projecto nacional e um sistema lingüístico-cultural concretos, torna profundamente errada qualquer pretensom de "reformá-lo". Como poderia o principal responsável pola situaçom da comunidade lingüística galega, o Estado espanhol, vir a converter-se no nosso principal valedor além das nossas fronteiras? Agarrar-se à falsa declaraçom formal de serem todas as línguas "espanholas" objecto da promoçom do dito Instituto é dar por bom o esquema institucional que fai do galego umha variedade espanhola pitoresca a proteger, recluída e sempre subordinada à única e efectiva língua oficial do Estado.

No fundo, estamos ante a face lingüística da idealista procura de nom se sabe que reconhecimento no quadro de um modelo constitucional alheio por completo à nossa realidade nacional e contrário aos nossos interesses lingüísticos. Um modelo, o constitucional espanhol que agora cumpre 25 anos, que se instaurou precisamente para evitar o avanço das nossas posiçons como espaço alternativo para o verdadeiro desenvolvimento desta realidade nacional que chamamos Galiza.

Por mais paradoxal que resulte, essa absurda e inviável procura de reconhecimento "limitado" que certo nacionalismo galego protagoniza a respeito do Estado espanhol apresenta-se-nos como resultado do seu suposto "pragmatismo". Será que nom tivemos nas últimas décadas suficientes provas, nos mais diversos planos da nossa vida colectiva, de aonde nos conduz a suicida estratégia de procurar protecçom institucional para a nossa identidade precisamente nas instituiçons que a ameaçam de morte?
Recentemente, o director de Serviços de Língua Portuguesa e Intercámbio cultural do Instituto Camões, Francisco Nuno Ramos, reconhecia publicamente o carácter particular da Galiza a respeito do labor de promoçom que da nossa língua essa instituiçom portuguesa realiza no mundo. Na Galiza, dizia, o português nom é umha língua estrangeira, mas é a própria Galiza que tem de esclarecer qual a sua relaçom com o espaço lusófono, também em expansom no mundo, sobretudo a partir do crescimento demográfico brasileiro.

As alternativas para nós som claras: preferiremos continuar a esmolar a nossa inclusom como apêndice regional no sistema cultural espanhol, ou entom reorientaremos os nossos esforços à progressiva integraçom da Galiza no vasto espaço de fala galego-portuguesa no mundo?

Enquanto nom resolvermos esta questom, largando de vez as amarras que ainda nos atam mental e institucionalmente a Espanha, continuaremos a assistir, impotentes, ao esmorecimento da nossa identidade no seio do letal constitucionalismo espanhol, por mais que cresça a expressom eleitoral de um nacionalismo tam morno e inofensivo que até resulta simpático a sinistras personagens do espanholismo como Fernando Savater.

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