Como a CIA ajudou Saddam a tomar o poder e a dizimar a intelectualidade iraquiana

Dezembro de 2003

Mohamoud A Shaikh

Os iraquianos sempre suspeitárom que o golpe militar de 1963 que pujo Saddam Hussein a caminho do poder absoluto foi planeado nos bastidores pola Central Intelligence Agency (CIA) americana. Novas provas que acabam de ser publicadas revelam que a agência nom só projectou o putsch como também forneceu a lista das pessoas a serem eliminadas umha vez assegurado o poder - um estratagema monstruoso que conduziu à dizimaçom de muitos profissionais iraquianos.

A derrubada do presidente Abdul Karim Kassim em 8 de Fevereiro de 1963 nom foi, naturalmente, a primeira intervençom da agência na regiom, mas foi a mais sangrenta - de longe mais sangrenta do que o golpe orquestrado em 1953 para restaurar o poder do xá do Irám. Quam sanguinária ela foi, e quam profundo foi o envolvimento da CIA na mesma, é demonstrado num novo livro de Said Aburish, que escreve sobre assuntos políticos árabes.

O livro, A Brutal Friendship: The West and the Arab Elite (1997), revela os pormenores nom só de como a CIA controlou de perto as etapas do planeamento como também como ela desempenhou após o golpe um papel central no expurgo subseqüente de elementos suspeitos de serem de esquerda.

O autor estima em 5000 o número de mortos, dando os nomes de 600 deles - incluindo muitos médicos, juristas, educadores e professores universitários que formavam a elite educada do Iraque. O massacre foi executado com base nas listas de mortes fornecidas pola CIA.

As listas fôrom compiladas em estaçons da CIA por todo o Médio Oriente com a assistência de exilados iraquianos como Saddam, que tinha base no Egipto. Um responsável da inteligência egípcia, que obtinha umha boa parte da sua informaçom de Saddam, ajudou a estaçom da CIA no Cairo a minutar a sua lista. Segundo Aburish, entretanto, o agente americano que produziu a lista mais longa foi William McHale, que operava sob a cobertura de correspondente do escritório de Beirute da revista Time.

A carnificina começou logo que as listas chegaram a Bagdad. Ninguém foi poupado. Mesmo mulheres grávidas e homens idosos fôrom assassinados. Alguns fôrom torturados em frente aos seus filhos. Segundo o autor, Saddam que "tinha corrido de volta ao Iraque do seu exílio no Cairo a fim de se juntar aos vitoriosos, estivo pessoalmente envolvido na tortura de gente de esquerda nos centro de detençom separados para fellaheen (camponeses) e Muthaqafeen ou classes educadas".

O rei Hussain da Jordánia, que mantivo ligaçons estreitas com a CIA, afirma que as listas de mortes fôrom transmitidas pola rádio para Bagdad a partir do Kuwait, a base estrangeira para o golpe iraquiano. Segundo ele, foi feita umha transmissom secreta de rádio a partir do Kuwait no dia do golpe, 8 de Fevereiro, "que transmitia àqueles que executavam o golpe os nomes e endereços dos comunistas ali, de modo a que pudessem ser capturados e executados".

O real colaborador da CIA também dá um vislumbre de quam estreitamente o partido Baathista e os operacionais da inteligência americana trabalhárom em conjunto durante as etapas do planeamento. "Muitas reunions fôrom mantidas entre o partido Baath e a inteligência americana - as mais críticas delas no Kuwait", afirmou ele.

Naquele tempo, o partido Baath era um pequeno movimento nacionalista com apenas 850 membros. Mas a CIA decidiu utilizá-lo devido às suas estreitas relaçons com exército. Um dos seus membros já tentara assassinar Kassim em 1959. Saddam, entom com 22 anos, foi ferido na perna e depois fugiu do país.

De acordo com Aburish, os líderes do partido Baath - em troca do apoio da CIA - concordárom em "empreender um programa de limpeza para livrar-se dos comunistas e dos seus aliados de esquerda". Hani Fkaiki, um líder do partido Baath, di que o homem de contacto do partido que orquestrou o golpe foi William Lakeland, o adido militar assistente dos EUA em Bagdad.

Um dos líderes do golpe, o coronel Saleh Mahdi Ammash, antigo adido militar iraquiano em Washington, foi de facto preso por estar em contacto com Lakeland em Bagdad. A sua prisom levou os conspiradores a moverem-se mais cedo do que tinham planeado.

O livro de Aburish mostra que os líderes do Baath nom negavam conspirar com a CIA para derrubar Kassim. Quando responsáveis do partido Baath sírio pedírom para saber porque eles cooperavam com a agência americana, os iraquianos tentárom justificar isto em termos ideológicos, comparando o seu conluio com "Lenine a chegar num comboio alemám para executar a sua revoluçom". Ali Saleh, o ministro do Interior do regime que substituíra Kassim, declarou: "Nós chegámos ao poder num comboio da CIA".

Nom deveria ser surpresa que os americanos estivessem tam ansiosos para derrubar Kassim ou tam desejosos de provocar um tal banho de sangue para alcançar o seu objectivo. Na altura da guerra fria, eles estavam a provocar semelhantes desordens propositais na América Latina e na Indochina, derrubando quaisquer líderes que ousassem mostrar o mais ligeiro grau de independência.

Kassim era um alvo importante da agressom e arrogáncia americana. Depois de tomar o poder em 1958, ele retirou o Iraque do Pacto de Bagdad, a aliança anti-soviética apoiada polos EUA no Médio Oriente, e em 1961 ele ousou nacionalizar parte da concessom da Iraq Petroleum Company controlada polos británicos e ressuscitou umha antiga reivindicaçom iraquiana quanto ao Kuwait (o regime que a ele se seguiu imediatamente abandonou a reivindicaçom do Kuwait).

Mas a guerra fria nom pode por si própria explicar a propensom do Tio Sam para a violência. Quando o presidente George Bush bombardeou o Iraque em pedacinhos, matando milhares de civis, a guerra fria estava ultrapassada. Clinton nom pode mencionar a guerra fria a fim de insistir em que o regime brutal de sançons impostas ao país deva permanecer.

De facto brutal, a natureza manchada de sangue do Tio Sam remonta aos chamados "Pais Fundadores", que nom figérom qualquer tentativa de dissimulá-la. Já em 1818, John Quincy Adams saudava a "saudável eficácia" do terror ao tratar com as "hordas mistas de índios e negros sem lei". Ele estava a defender as operaçons frenéticas de Andrew Jackson na Florida que virtualmente exterminárom a populaçom indígena e deixárom a província espanhola sob o controle americano. Thomas Jefferson e os seus colegas ficariam impressionados pola premuniçom das suas palavras.

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