Ciência
e sexismo

Alizia Stürtze
(publicado em Gara, 16 de Fevereiro de 2004
Abundam os dados
que demonstram que a actividade científica, alegadamente racional,
objectiva e autónoma, continua impregnada desses preconceitos sexistas
que consideram a mulher o segundo sexo, e justificam biolótica ou evolutivamente
mitos retrógrados sobre a sua tendência monogámica, o
seu menor apetite sexual, a sua falta de interesse polo êxito, a sua
inferior capacidade para a visualizaçom espacial ou para a matemática,
a sua passividade e, conseqüentemente, a diferença social entre
os sexos e, nomeadamente, a divisom sexual do trabalho. Metáforas como
a da ecundaçom do óvulo som bom exemplo da influência
que o sexismo tem na ciência, que concebe o acto sexual como um acto
masculino de conquista. O esperma representa-se como um exército, um
de cujos soldados consegue penetrar no óvulo, que se limita a mostrar
os seus "encantos". Recentes descobertas semelham demonstrar que
o óvulo nom se limita a esperar, senom que "agarra" o espermatozóide.
Mas a esta linha de investigaçom tem dificuldades para avançar,
porque as ideias preconcebidas sobre a passividade feminina continuam a contagiar
a biologia da fecundaçom, impedindo-a de formular outras hipóteses.
Também,
a falocracia tem algo a ver na escasseza de recursos científicos dedicados
a eliminar
essa crença dominante segundo a qual as mulheres provimos da costela
de Adám, que converte o homem no legítimo Primeiro Sexo, no
sexo organizado ou activado, e a mulher no sexo por exclusom ou neutro. Ao
longo da evoluçom, há espécies partenogenéticas,
quer dizer, que se reproduzem por divisom de células sexuais femininas,
sem necessidade do componente masculino. No entanto, nom existe o contrário:
nom há nengumha espécie onde nom haja fêmeas. Originariamente,
estas nom necessitárom os machos. O sexo ancestral seria portanto feminino,
diga a Bíblia o que dixer.
Também
nom é por acaso que a literatura científica e médica
sobre o clítoris seja escassa, e centre as suas escassas análises
neste órgao e o seu companheiro, o orgasmo múltiple. E é
que nom deixa de ser curioso o facto de sermos as mulheres, ligadas à
reproduçom, quem possuamos um órgao dedicado exclusivamente
ao prazer sexual (que nom se atrofia com a menopausa), enquanto o sexo masculino,
alegadamente consagrado ao prazer sexual, tem de usar o seu para outra série
de funçons mais pragmáticas (reproduzir-se e urinar).
A investigaçom
científica e o estudo das origens e evoluçom do corpo feminino
precisam dos valores feministas para aproveitar a ciência em sentido
libertador e poder enterrar de vez a persistente representaçom negativa
do sexo feminino, que indubitávelmente influencia a tremenda violência
contra a mulher de que ultimamente se fai eco até a misógina
Igreja católica.
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