Cinema galego ou cine espanhol made in Galiza?

Maurício Castro

(publicado em Vieiros a 13 de Setembro de 2004)


Tivem ocasiom, na minha última semana pacense após dous anos de actividade laboral em terras estremenhas, de assistir por duas vezes ao cinema, atraído por dous títulos que, de um jeito ou outro, remetiam para a realidade galega. Eram duas recentes estreias: o louvado e já premiado "Mar adentro", do realizador espanhol Alejandro Amenábar, e "El año de la garrapata", primeira longametragem do galego Jorge Coira. Além de desfrutar os minutos que durárom, ambas fitas, nas suas profundas diferenças, convidárom-me a reflectir sobre a velha questom dos critérios para o enquadramento dos produtos culturais num determinado espaço e nom outro. Já sabem, os que nos fam incluir um romance ou um poema na literatura galega ou na espanhola, se Cela ou Valle Inclán escrevêrom literatura galega, etc… umha velha polémica agora actualizada pola irrupçom de obras cinematográficas pretensamente enquadráveis num alegado e etéreo "cinema galego".

Para começarmos polos numerosos pontos comuns de ambas peças, diremos que, no caso de "Mar adentro", protagonizado polo reconhecido actor espanhol Javier Bardén, encontramos um pouco habitual exemplo de como, efectivamente, os nossos vizinhos som capazes de tratar umha história galega com respeito para as personagens que a protagonizam e para a inteligência dos próprios expectadores. Descobrimos, com ledice, que pode haver umha outra opçom diante do tema galego para além da caricatura e a desconsideraçom. "Mar adentro" é a prova, com um realizador estrangeiro a reconhecer à Galiza umha identidade própria na sua obra; com uns actores e actrizes (a começar polo protagonista) a assumirem com profissionalismo o repto de encarnar personagens galegas plasmando a sua realidade lingüística, incluído o espanhol galeguizado da maior parte dos galegos espanholfalantes.

Apesar de todas as virtudes anteriores, e do facto de haver vários galegos no elenco artístico do filme de Amenábar, semelha evidente que se trata de umha fita enquadrada no cinema e, por extensom, no sistema cultural espanhol, e nom no galego. Mas, se tivéssemos de justificá-lo, que argumentos daríamos para tam evidente enquadramento? a nacionalidade do realizador? a língua em que foi maioritariamente rodada? a origem do capital com que foi financiada?

Antes de responder a essas perguntas, demos umha olhadela à outra fita a que figem referência. Trata-se de umha obra de realizador galego, com maioria de artistas galegos e capital também galego por trás. Quanto à língua de filmagem, foi o espanhol, embora exista umha versom dobrada para galego ("O ano da carracha"), exibida nalgumha sala da Compostela (sendo no entanto maioritariamente exibida em espanhol na própria Galiza). A história decorre em Lugo e o tema, ainda sendo "universal" –comédia juvenil-universitária com as dificuldades do acesso ao mercado laboral como pano de fundo, pode ser catalagado de "galego". Mesmo o universo de referências culturais que inclui é maioritariamente galego… pode haver algumha dúvida quanto ao seu enquadramento como "cinema galego" para além do uso parcial e subordinado da nossa língua, quer na rodagem, quer na distribuiçom?

Em minha opiniom, pode; e dúvidas bem sérias. E nom porque umha parte –minoritária?– do elenco seja espanhola, nem porque alguns referentes com que se procura a cumplicidade do público (como o recorrente aos sucessivos fracassos espanhóis nos festivais de Eurovisom) sejam encarados com essa perspectiva (que som); nem sequer porque a língua em que se rodou foi de facto o espanhol (se bem com certo intuito de lhe dar feiçom galega). Depois de ter visto de maneira consecutiva ambos filmes, julgo nom serem todos esses pontos em comum que os definem como parte do mesmo campo cultural, senom sobretodo a orientaçom para um mercado bem concreto, que nom é outro que o mercado cinematográfico espanhol. O mesmo mercado a que se dirigiu Amenábar nos seus três filmes anteriores, como é lógico. O mesmo a que se consagrou Antón Reixa como realizador do seu "Lápiz del Carpintero", e agora Jorge Coira no seu "Año de la garrapata". É claro que realizar umha versom dobrada para galego nom a converte em cinema galego, mas em rigor a escolha da língua, sendo sintomática do seu enquadramento sistémico, é mais a conseqüência de todos os factores que definem umha produçom como espanhola e nom galega, do que a causa dessa mesma definiçom.

Agora é altura de os autores replicarem com argumentos como as dificuldades de dirigir umha obra a um público (a um mercado) prioritariamente galego, numha língua em franco retrocesso, frente às pressons de quem paga, alegando até motivos "demográficos" (sic), como já fijo no seu dia o realizador de "El Lápiz del carpintero", justificando assim a "ambiçom" de produçons feitas por galegos como a que comentamos. Nom é a pretensom destas linhas avaliar tais razons, senom constatar o facto de esses filmes, como a generalidade dos produtos cinematográficos produzidos e realizados na Galiza, nom constituírem um campo alternativo, diferencial e soberano, senom um apêndice, um subgénero, umha "leira" autonómica do campo cinematográfico espanhol. Esse mesmo campo cinematográfico a que se vem abocadas as grandes figuras do teatro galego para a sua definitiva consagraçom como actores e actrizes de cinema. Luís Tosar é seguramente o exemplo mais recente e evidente.

E nom constituem, dizemos, um campo alternativo, nom tanto pola língua em que se filmam. Seria pensável, que nom desejável para quem fazemos do galego ingrediente insubstituível da nossa identidade, o desenvolvimento de um sector audiovisual galego em espanhol, tal como existe um sector audiovisual irlandês (e até umha literatura!) desenvolvido em inglês. De facto, se no caso da literatura, felizmente, se impujo até hoje a nossa língua como imprescindível no repertório literário galego, incluído o teatro escrito e representado, no caso do cinema está por ver nom apenas se o galego fará parte imprescindível desse repertório sistémico, mas sobretodo se o nosso povo conseguirá fundar esse Cinema Nacional com maiúsculas que nom encontramos nestes "filmes com sabor galego". Nem o lugar de nascença do realizador, nem os temas, nem mesmo a origem do capital, chegam para podermos falar de cinema próprio. Falta é sobretodo o reconhecimento de um público receptor e do ámbito galego como prioritário para a distribuiçom e interlocuçom entre produtores e receptores da obra artística. Aspectos estes que se cumprem, com as carências que quigermos notar, no caso da literatura galega, e que polo seu incumprimento equiparam a fita do nosso compatriota Jorge Coira com a de Alejandro Amenábar, como fazendo parte ambas do campo audivisual e cinematográfico espanhol.


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