"Dálle un si a Galiza", ou como querem vender-nos gato por lebre

28 de Fevereiro de 2004

Maurício Castro

Há por volta de um mês, enviei um pequeno artigo de opiniom ao semánario A Nosa Terra, com o intuito de possibilitar umha troca de pontos de vista sobre a recente reforma do padrom lingüístico que alguns chamam "de consenso" e outros de "de concórdia", desprezando a dissidência que o reintegracionismo ainda representa. O texto apresentava algumhas reflexons próprias, após a leitura de um artigo assinado pouco antes na mesma publicaçom por J. R. Freixeiro Mato, intitulado "Sermos reintegracionistas con ortografía oficial" e cujas duas principais teses eram a defesa do carácter reintegracionista das normas resultantes da reforma de Julho de 2003, e a convicçom de que a partir da "superaçom" do conflito normativo, deixava de ser justificável a utilizaçom de um "idioma deturpado e castrapizado por parte de quen ten preparación e capacidade suficientes como para o poder falar con corrección, a pouco que se esforzar".

O artigo que enviei a A Nosa Terra, sem que finalmente chegasse a ser publicado, contesta a primeira das teses de Freixeiro. Espero que o texto em questom poda finalmente ser lido nas páginas da revista Agália, se o seu Conselho de Redacçom lhe encontrar mais interesse do que lhe encontrárom os responsáveis do citado semanário.

Gostava agora de fazer alguns comentários que, com base em dados actuais, contestem a segunda tese defendida polo professor corunhês no seu artigo acima citado, isto é, a que afirma que o acordo de 12 de Julho de 2003 entre isolacionistas e "mínimos" abre o caminho à superaçom do uso "deturpado e castrapizado" do nosso idioma neste país chamado Galiza. E isso, mesmo deixando de parte o próprio uso ortográfico prescrito pola normativa de 82 reformada em 2003, em si mesmo um monumento à deturpaçom e castrapizaçom do galego.

Podemos, para rebater o pronóstico de Freixeiro, citar a péssima qualidade que nos meios de comunicaçom continua a ter o uso efectivo do galego hoje, similar à que já tinha no dia 11 de Julho, antes da "concórdia". Nos canais televisivo e radiofónico autonómicos, por exemplo, infaustos personagens como José Ramón Pinheiro ("Super Piñeiro") continuam a trabalhar pluriempregados na transmissom de um modelo de língua totalmente desfigurado, à beira da caricatura por espanholizado e absurdo, nuns meios que desempenham um papel importantíssimo na socializaçom do que deva ser o modelo de língua para a populaçom galega. De outra parte, e observando a sua concreçom perante a própria tv, semelha evidente que um dos critérios na escolha de locutores e locutoras de informativos continua a ser a proximidade na dicçom a respeito do modelo-teito: o espanhol.

No próprio meio radiofónico, e para nom insistirmos na própria empresa de RTVG, podemos citar a emissora decana entre as galegófonas na Galiza, Rádio Fene, de carácter público e municipal, que mantém um uso lingüístico de qualidade bem afastada da dignidade formal necessária para prestigiar um idioma, o galego-português, que se encontra em grave perigo de subsistência na nossa terra.

Nos meios impressos, o jornal diário Galicia Hoxe e o semanário A Nosa Terra servem de exemplos de qual é o modelo correspondente à nova "concórdia". Se o primeiro parece nom ter dado ainda pola aprovaçom da famosa reforma normativa, o segundo adiantou-se em dous anos na aplicaçom do padrom isolacionista na sua versom "remoçada". Porém, o resultado tem sido o mesmo em ambos os casos: um modelo de língua empobrecido e hispanodependente que transparece um bochornoso desinteresse por qualquer cuidado ou critério nos promotores de umha e outra iniciativas jornalísticas.

Em definitivo, nengumha das recomendaçons quanto a correcçom morfossintáctica apresentadas no citado artigo polo professor Freixeiro Mato, um dos "pais intelectuais" do acordo, é levada em conta polos escreventes oficialistas na nova etapa aberta polo acordo de Julho passado; nem polos isolacionistas de velho, nem polos recém convertidos à fé consensuada. Comprovarmos isto é tam fácil como conferirmos a lista de bem-intencionadas prescriçons de Freixeiro Mato e a ediçom do dia ou da semana de qualquer dos tablóides citados. E esta realidade é especialmente significativa no que di respeito ao sector "convertido", ex-utente dos mínimos, caracterizado por um importante desleixo no uso do galego que a dia de hoje semelha nom ter mudado apesar de ter julgado digno de tanto louvor o acordo normativo.

Um contra-argumento poderia ser apresentado a quanto dizemos: é o da tantas vezes repetida "necessária chegada ao poder" do nacionalismo representado polo BNG. Só o seu acesso a Sam Caetano possibilitaria a aplicaçom do que poderíamos chamar "novo espírito do 13 de Julho", segundo essa máxima, tam idealista como efectiva na mobilizaçom do dito "voto útil" em certas fatias do espaço eleitoral nacionalista e galego.

Porém, a realidade já verificável para qualquer observador ou observadora da política lingüística aplicada polo próprio BNG nos espaços de poder que tem gerido nos últimos anos (nalguns casos, como o da Cámara municipal de Fene e a sua emissora de rádio, bem anos) contradi esse idealismo possibilista. De resto, na mais "raivosa" das actualidades, temos um exemplo sintomático da falta de compromisso desse sector com a regeneraçom do corpus lingüístico galego, tam intensamente degradado. E iso para além de umha escolha ortográfica em si mesma degradante. Referimo-nos à legenda eleitoral que o Bloque apresentou nestes dias para as eleiçons espanholas do próximo dia 14 de Março: "Dálle un si a Galiza". Tínhamos já a experiência de algum mote eleitoral igualmente despropositado em partidos como o PSOE, aquando da sua campanha para as municipais de há duas legislaturas: "Porque trátase de Ferrol", era a legenda na minha cidade. Na campanha actual, é o BNG que, logo a seguir da aprovaçom dessas normas que, segundo Freixeiro Mato, "reafirman o galego nas súas raíces e tradicións", enche os placards publicitários do país com umha errática legenda que, com esse espanholíssimo pronome pleonástico, mantém o galego como "idioma deturpado e castrapizado por parte de quen ten preparación e capacidade suficientes como para o poder falar con corrección, a pouco que se esforzar", e continuamos a parafrasear o próprio Freixeiro Mato.

A assunçom definitiva polo BNG da norma isolacionista nom vem acompanhada, é já umha evidência, da "reafirmaçom do galego nas suas raízes e tradiçons", apesar das boas intençons exprimidas por defensores do acordo como Freixeiro. O exemplo simbólico que acabamos de citar revela o desleixo quanto à qualidade do galego escrito. Podemos citar ainda a renúncia à utilizaçom de formas admitidas polo ILG e a RAG há décadas, como os nomes dos dias da semana por feiras ou a recuperaçom de formas verbais tam caracterizadoras do nosso idioma como o futuro do conjuntivo. E existem outros indícios concretos da manutençom do rumo isolacionista da principal força política do nacionalismo galego, como a supressom no seu programa para as próximas eleiçons da demanda de recepçom das trasmissons televisivas portuguesas na Galiza, que sim incluía o programa das eleiçons espanholas de 2000; ou a teima em reclamar que o Instituto Cervantes promova o galego polo mundo adiante, dentro do sua utópica procura de "igualdade" entre galego e espanhol num quadro constitucional nascido e mantido só graças à indiscutível vigência do princípio de desigualdade. Além do mais, tanto a renúncia a reclamar a recepçom das ondas de tv portuguesa como a orientaçom "cervantina" da normalizaçom do galego som medidas claramente contraditórias com a "comunidade de idioma" que o próprio programa proclama para galego, português e brasileiro, "comunidade" que fica assim reduzida a simples retórica.

Ante este panorama, e apesar do que Freixeiro Mato afirma no seu artigo do passado mês de Janeiro, semelha evidente que nengumha das suas duas teses condizem com a realidade actual, como tampouco com a que projecta um hipotético triunfo eleitoral desse nacionalismo autonomista que pactuou umha saída em falso para o conflito normativo que chamam "norma de consenso". Como já afirmamos na primeira parte deste artigo, e achamos ter ilustrado com novos exemplos nestas linhas, com o consenso assinado em Julho de 2003, o oficialismo agora alargado só quer vender-nos gato por lebre.

- Outubro de 2004. Reintegracionistas com ortografia espanhola ou como querem vender-nos gato por lebre. Maurício Castro (+...)

 

Voltar à página de Documentaçom

Voltar à página principal