Dez criancinhas

Santiago Alba Rico
Dezembro de 2002

Eu tinha dez criancinhas.
Umha nasceu em Tucumán, novo como a aurora. O papai FMI abalava-o no seu colo: "o pam que che tiro agora, dentro de cem anos será caviar". Nom morreu à fame, nom, mas de vida breve.
Nom me restam mais que nove.
Das nove que restavam, umha nasceuem Tulkarém. Suicidou-se umha manhá na sua morada, contra um mísil israelita, enquanto molhava um copo de água a códea de um biscoito.
Nom me restam mais que oito.
Das oito que restavam, umha nasceu no Sengal. Com trinta dentes e umha patera quijo invadir Gibraltar e para afogar sem entraves abandonou entre as ondas o seu único brinquedo.
Nom me restam mais que sete.
Das sete que restavam, umha nasceu no Afeganistám. Escondia-se abaixo de um farrapo e um cartom, mas Deus, que estava na Flórida, notou-no, tronou e deitou-lhe acima um cacho de coriscos que lhe arrincárom os braços e os pés.
Já só me restam seis.
Das seis que me restavam, umha nasceu em Basora. Cheirava flores de uránio, bebia néctar de pregos, caídos do Olimpo, e apodreceu-lhe a face e derreteu-se-lhe um pulmom. Pediu licença para curar, mas foi-lhe denegada lá muito longe, o pai gringo.
E só me restam cinco.
Das cinco que restavam, umha nasceu na Guatemala. O tio Nestlé tirou-lhe o leite, a cunhada vivendi a água, o primo Monsanto o milho, o avô Bayer as vacinas e o colega Enron o candieiro. Um canhom tirou-lhe a terra e um juiz o lar e logo chegou o governo e dixo-lhe: "como vivas, mato-te".
Nom me restam mais que quatro.
Das quatro que restavam, umha nasceu em Medelhim. Cheio dos pegamentos, lambedor de montras, o pícaro deambulava por um centro comercial; e como nom podia comprar os seus sapatos, um grande senhor comerciante disparou-lhe entre os dentes e pendurou-o do revés.
Já só me restam três.
Das três que me restavam, umha nasceu no Congo. Inservível já para extrair coltám por um dólar ao dia vigiado por três exércitos, dobrou a cabeça e, porque assim o exigiam os balanços da Companhia, a tose levou-no embora.
Nom me restam mais que duas.
Das duas que me restavam, umha nasceu no Viet Nam. Nasceu com pata de pau e com tam má sorte que, enquanto cortava umhas canas, pisou umha das minas que plantou ontem o tio Sam e que hoje recusa tirar; e a sua perna de carne e a sua pata de pau voárom até Neptuno.
Já só me resta umha.
A derradeira que me restava nasceu em Madrid (ou em Valência ou em Euskádi, sei lá) Esta, que nom estava com fame nem frio nem sede nem doenças nem medo de um mísil, tinha em troca a testa despejada e a moral kantiana e protestou pola sorte dos seus nover irmaos. Entom chegou a polícia, amarrou-lhe as maos, espancou-lhe as costas e encadeou-no no caldeiro.
Já nom me resta nengumha.
Mas das minhas báguas, como das pedras de Deucaliom, nascerám milhares de cuates, meninos, gachupines e chavales. Florença, mamae da Itália, acaba de parir um milhom. E a mae Caracas e Lima e Manágua e Barcelona e Lisboa e Califórnia e França e a Alemanha e a Iterpátria toda, mamíferas de justiça e de razom, estám parindo já novas crianças para as creches abertas da resistência total).


Voltar à Documentaçom

Voltar à página principal