Estados Unidos: o inexorável caminho da democracia burguesa para o fascismo

Heinz Dieterich

12 de Outubro de 2004

Na sua imparável tendência de exploraçom e subjuzaçom da humanidade inteira, o complexo militar-industrial estado-unidense expande os seus negócios da morte, com um orçamento recorde para o ano próximo de por volta dos 580 mil milhons de dólares.

Esta quantidade é 1.14 vezes superior ao Produto Interno Bruto (PIB) do maior país da América Latina, o Brasil; 4.4 vezes superior ao PIB da Argentina; mais de dez vezes superior ao de qualquer outra naçom sobre a terra; superior ao das despesas militares combinadas das 25 naçons seguintes e é praticamente equivalente aos custos directos da Guerra do Viet nam, de 584 mil milhons de dólares.

O total compom-se da seguinte maneira: 420 mil milhons de dólares para o Pentágono; à roda dos 80 mil milhons para as guerras no Iraque e no Afeganistám; quase 40 mil mihons para o Departamento da Segurança Interna (Department of Homeland Security, DHS) e por volta dos 40 mil milhons para as dúzias de agências de espionagem e segurança, entre elas as catorze que proporcionam "inteligência positiva estratégica sobre países estrangeiros", segundo o Programa Nacional de Inteligência Externa (NFIP), mais aquelas que se dedicam ao nível "táctico militar e de segurança" e a dar "respostas de segurança a ameaças transnacionais", como o narcotráfico, a guerra informática e o terrorismo.

144 mil milhons de dólares desta quantidade serám destinados polo Ministério da Guerra dos EUA, o Pentágono, à investigaçom e construçom de novas armas que som ainda mais terroríficas do que as existentes. Ao todo, som 77 projectos de desenvolvimento armamentista, com um custo total de 1.3 bilhons de dólares, entre eles:

A extensom da frota de bombardeiros "invisíveis" (B-2); a construçom de trinta novos submarinos nucleares da classe Virgínia; de 200 caça-bombardeiros avançados F-35; do novo destrutor "invisível" DDX com um custo por unidade de 2.7 mil milhons de dólares; a aquisiçom de novos mísseis cruzeiros Tomahawk; o desenvolvimento de novas cabeças termonucleares para a destruiçom de fortificaçons subterráneas; de um aviom de reconhecimento de atinge sete vezes a velocidade do som; de soldados robóticos com armas de alta energia que combaterám nas futuras guerras urbanas, quando, a partir de 2010, mais de 60% da populaçom mundial viverá em cidades.

Parte dessas armas de alta energia já som operativas, como, por exemplo, armas que emite microondas. Algumhas armas de microondas estám praticamente prontas e o seu primeiro uso está previsto para a ofensiva geral contra os insurgentes no Iraque, em Novembro e Dezembro deste ano. Como num forno de microondas convencional, esta arma de radiaçom electromagnética, cujas ondas penetram 0.4 milímetros na pele humana, fai com que as moléculas de água vibrem com umha freqüência muito superior à normal, gerando um forte ardor e dor insuportável para a vítima. Umha outra arma em provas é o uso de pulsons de láser para cegar tomporariamente (?) o adversário.

Um outro programa é o Global Area Strike System, que consistirá num sistema de láser de alta energia instalado nos EUA, que envia emissons de láser contra espelhos situados no espaço, donde som redirigidas para alvos no espaço, na atmosfera e a superfície da terra.

Similar, mas ainda mais terrorífico, do que o programa de High-Frequency Active Auroral Research Program (HAARP), que mediante o esquentamento deliberado da ionosfera (camadas de ar ionizado a partir dos quase 80 km. Sobre a superfície terrestre até 640 km.) altera o clima, os sistemas eléctricos e as comunicaçons em regions escolhidas da terra, por exemplo, mediante chuvadas, furacáns, nevoeiros e trovoadas extremas. Encetado nos anos noventa no Alasca, a instalaçom de centenas de antenas que emitirám a energia necessária para esquentar a ionosfera e aplicar a guerra climatérica, ficou essencialmente terminado sob o governo de Bush, num grande negócio partilhado entre a quarta corporaçom armamentista mais importante dos Estados Unidos, Raytheon, e a quarta transnacional armamentista mais importanto do mundo, a británcia BAE Systems (BAES).

De tal maneira que o sonho da Força Aérea estado-unidense, exprimido nas suas projecçons programáticas do futuro, Air Force 2025, de que as forças aeroespaciais dos EUA podam ser "donos do clima" no ano 2025 (>US forces can "own the weather," as they "own the night" now<) e que a modificaçom do clima será "parte da segurança nacional e internacional", provavelmente seja realizado muito antes do programado nos seus centros e cérebros perversos de investigaçom bélica. A vocaçom antidemocrática do complexo militar-industrial estado-unidense é formulada explicitamente no programa integral das suas forças militares, "Joint Vision 2010", que exprime a necessidade de atingir a "dominaçom em todos os aspectos" na sociedade global (full spectrum dominance) e que reafirma a vontade de dominar e explorar unilateralmente o mundo inteiro. "Estados Unidos é a única superpotência global" e tem de assegurar "a sua preeminência em qualquer género de conflito". ("The US is the only global superpower", and "must ensure it is preeminent in any form of conflict.")

A insistência totalitária da dominaçom unilateral sobre um sistema global que se desenvolve em direcçom à multipolaridade, é umha alarmante expressom da involuçom da democracia plutocrática estado-unidense em direcçom a umha crescente fascistizaçom. De facto, pode ser interpretado como o anúncio dessa fracçom do grande capital estado-unidense, sobre o fim da democracia burguesa.

A manifestaçom aberta dessa vontade fascista, avalizada polos programas de armamentismo e política exterior, reflecte a oligarquizaçom do sistema estado-unidense, quer dizer, a amalgamaçom da classe política com a elite económica que converte as instituiçons democráticas formais crescentemente em puro enfeite da realpolitik desta nova oligarquia.

Quando treze membros do Congresso estado-unidense requerêrom ao Secretário Geral da ONU, Kofi Annan, que enviasse observadores internacionais às eleiçons presidenciais dos Estados Unidos em Novembro deste ano, a mensagem nom pudo ser mais reveladora.

A mensagem é a que se segue: Um grupo de ladrons eleitorais do Partido Republicano e os seus patrocinadores do grande capital roubárom as eleiçons presidenciais no ano 2000. Estes usurpadores roubarám novamente as eleiçons neste ano e nem a Constituiçom, nem a Corte Suprema, nem os media, nem a polícia, nem o Congresso, nem os partidos, nem os cidadaos estado-unidenses podem impedir o novo roubo.

Em bom romanço, todas as instituiçons do sistema inventadas para impedir a sua paralisaçom estám falhando, facto polo qual apenas umha intervençom extra-sistémica pode torná-lo funcional dentro dos seus parámetros originais.

No fundo deste processo de involuçom da superestrutura democrático-burguesa em direcçom à oligarquizaçom e fascistizaçom acha-se umha legalidade do seu processo de acumulaçom que é a concentraçom e centralizaçom do capital.

"Um capitalista mata muitos outros", descreveu Karl Marx graficamente o implacável processo de centralizaçom do capital num sistema baseado na produçom privada de mercadorias. À primeira fase de centralizaçom, na qual o capitalista expropria o produtor imediato, convertendo-o em proletário e as suas condiçons de reproduçom em capital, segue-se a expropriaçom dos capitalistas fracos polos mais fortes.

Essa segunda fase de centralizaçom implica profundas mudanças qualitativas na arquitectura do sistema, ao introduzir duas dinámicas de acumulaçom de poder assimétricas: enquanto os magnates capitalistas sobreviventes concentram cada vez mais poder económico nas suas maos, o poder institucional dos funcionários políticos fica essencialmente igual, operando-se, por conseqüênica, umha crescente mudança na correlaçom de forças entre o segmento político da classe dominante e o segmento económico.

Em determinado momento do processo, esse crescente poder eoncómico torna-se, num salto qualitativo, em poder político e esbate as fronteiras entre a classe política e a classe económica, entre a esfera pública e a privada. Nasce, deste jeito, umha nova oligarquia que tem um interesse em invalidar as leis da democracia. Este é o processo de involuçom que estamos a observar no sistema estado-unidense na actualidade.

Esse processo estrutural em direcçom à plutocracia integral observa-se entre diversas fracçons do grande capital e a classe política, mas talvez se encontre mais avançado no complexo militar-industrial, onde se chegou a umha verdadeira simbiose oligárquica entre o Partido Republicano e a indústria da morte.

Durante os últimos seis anos, mais de 40% das compras do Pentágono, quer dizer, um total de 362 mil milhons de dólares, fôrom realizadas sem qualquer licitaçom pública concorrencial, quer dizer, de umha maneira monopolística entre o complexo militar-industrial e a classe política.

As cifras respectivas para as maiores empresas beneficiadas som as que se seguem:

1. Lockheed Martin, 74% de todos os contratos militares, igual a 69.7 mil milhons (mrd) de dólares, sem concorrência;
2. Boeing, 60%, igual a 48.6 mrd $;
3. Raytheon, 67% igual a 26.5 mrd $;
4. Northrop Grumman, 59%, igual a 23 mrd $;
5. United Technologies, 95%, igual a 17.1 mrd $;
6. General Electric, 88%, igual a 9.4 mrd $;
7. Newport New Shipbuilding, 98% igual a 8.7 mrd $.

Por volta de 80% de todas as despesas contractuais do Pentágono fôrom aos bolsos do 1% mais importante de todas as empresas que procurárom contrátos. Actualmente, aproximadamente metade do orçamento do Pentágono é gerido por empresas privadas (outsourced), que som supervisadas por outras empresas privadas, enquanto o controlo através de funcionários do Estado está a ser reduzido sistematicamente.

O Estado já só serve para repartir o dinheiro público entre o grande capital bélico, "supervisado" polas empresas privadas de contabilidade, abandonando as suas funçons soberanas de ente político condutor do sistema. Mas os benefícios som mútuos. No ano 2000, a indústria armamentista deu 9 milhons de dólares a candidatos republicanos, o dobro do que recebêrom os democratas. O valor bolsista das empresas militares aumento no mesmo ano, quando se viu que Bush podia ganhar as eleiçons e, desde 1998 à actualidade, essas empresas tenhem entregado 62 milhons de dólares ao Partido Republicano, comparado com 24 milhons para os Democratas.

Isto nom quer dizer que com um triunfo de Kerry se pudesse fazer retroceder a influênica do complexo militar-industrial. Kerry nom se atreveu a mexer no orçamento do complexo nas suas propostas eleitorais, e também nom é previsível que vaia reduzir a intervençom militar estado-unidense na América Latina, que mostra preocupantes aumentos de intensidade.

O número de militares latino-americanos capacitados por militares estado-unidenses, por exemplo, aumentou em 52% entre os anos fiscais de 2002 e 2003, atingindo um total de 22.855 latino-americanos. E no ano 2003, Washington treinou mais tropas na Colômbia do que no Iraque ou o Afeganistám.

A salvaçom dos interesses dos povos latino-americanos e da humanidade inteira nom virá de nengum presidente estado-unidense, embora na situaçom actual seja necessário fazer os possíveis para derrotar a oligarquia neofascista que representa Bush.

A verdadeira alternativa a Bush e Kerry é o Novo Projecto Histórico anticapitalista, o socialismo do século XXI ou a democracia participativa. Só a luita pola civilizaçom anticapitalista pode propocionar à humanidade umha alternativa capaz de derrotar o futuro neofascista que prepara o capitalismo estado-unidense.

O namorico com o desconhecimento desta alternativa e a sua necessidade estratégica e táctica, desde Paris até Chiapas, só pode dificultar esta luita.

 

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