Vale mais fazê-lo que mandá-lo

Artigo publicado no periódico mensal Novas da Galiza, da autoria de Maurício Castro, dedicado a analisar a intensa actividade da esquerda independentista galega contra a simbologia franquista nos últimos anos

Vale mais fazê-lo que mandá-lo

Maurício Castro (Janeiro de 2004)

Existem determinados factos, históricos e constatáveis, que dontradizem o tópico da docilidade galega. Nom vamos dizer que esta pequena naçom esteja na vanguarda da resistência internacional contra a uniformizaçom imperialista, até por nom se corresponderem as condiçons do esmorecimento nacional que padece a Galiza com o agudo genocídio imposto a outros povos em diversos cantos do planeta, como demonstra na actualidade o martirizado Oriente Médio. A nossa pátria nom deixa de fazer parte dessa periferia privilegiada do centro capitalista mundial, que nos impom a condiçom definida polo nosso nacionalismo como "colonialismo interior", um espaço em que as contradiçons se apagam numha paz macia que só periodicamente rebenta em surtos de rebeliom colectiva como a recentemente nucleada no movimento "Nunca Mais".

Dentro deste contexto que vivemos, o certo é que outras iniciativas sociais indicam a persistência da Galiza rebelde que nom se resigna a perecer sob a imposiçom do actual modelo institucional e económico. Recentemente, Ignacio Ramonet lembrava nas páginas de um jornal publicado no nosso país o papel activo do nosso povo na invençom do conceito de guerrilha moderna, aquando da invasom francesa no século XIX. Aquela heróica insurgência que acabou por obrigar as tropas invasoras francesas a abandonar o país face a impotência do recurso à repressom para afogar o levante popular. Mais recentemente, a violência fascista espanhola, espoletada contra milhares de galegos e galegas mortas em 1936 e nas décadas seguintes, ao lado de outros dados objectivos como a fortaleza da guerrilha antifranquista que de maneira ininterrompida se prolongou quase até o fim da ditadura, significárom novas provas da dignidade e empenho de nom poucos galegos e galegas na defesa de valores como o progresso social e a identidade colectiva da nossa comunidade nacional.

A tendência geral dos povos a magnificar os seus factos passados bate no nosso caso com um autodesprezo que nos foi incutido por séculos de menosprezo por parte do expansionismo hispano. Daí devermos esforçar-nos por manter um equilíbrio entre a necessária restituiçom da nossa história, quase sempre ocultada e tergiversada, e a reivindicaçom do presente como mais umha fase desse longo percurso que deve conduzir-nos à conquista da soberania nacional e das liberdades colectivas para a maioria social galega.

Sirvam portanto estas linhas para reivindicar a acçom que nos últimos anos tem desenvolvido o independentismo galego como ponta de lança da reivindicaçom dos direitos civis e a memória histórica na Galiza. A luita contra a permanência dos símbolos franquistas nas nossas ruas e prédios públicos é um bom exemplo desse esforço por parte de um sector social ainda minoritário, esse que contra vento e maré mantém em pé o facho da liberdade nacional como irrenunciável direito colectivo do nosso povo.

Sem esquecermos dignos precedentes como os que na década de oitenta tentárom fazer voar o monumento ao genocídio que presidia a principal praça da cidade de Ferrol, queremos agora lembrar como a esquerda independentista iniciou o presente século alçando a sua voz, e agindo em conseqüência, contra a permanência da simbologia fascista. É bom recordarmos isto agora que se estendem iniciativas que recuperam a memória das vítimas do fascismo, indo ao encontro da linha reivindicada polo independentismo galego desde há vários anos. Em 2000, lembremos, a estátua eqüestre do ditador foi pintada de cor-de-rosa, deixando a nu as contradiçons do governo municipal dito progressista no Ferrol da altura. Com efeito, BNG e PSOE gastárom logo a seguir meio milhom de pesetas em lavar a horrenda peça de bronze, preocupados por marcar distáncias com as actuaçons independentistas, num contexto de crescente criminalizaçom das posiçons soberanistas no Estado espanhol. Posteriormente, e coincidindo com as obras de remodelaçom da praça, ambas forças acabariam por retirar "por motivos técnicos" a estátua da histórica Porta Nova ferrolana, mantendo-a, isso sim, em instalaçons militares da mesma cidade. BNG e PSOE renunciárom também a recuperar o nome próprio dessa praça que ainda hoje, com a volta da direita espanhola ao poder municipal, continua a manter o durante a ditadura: a inevitável e constitucional "plaza de España" presente em cada cidade e em cada vila da Galiza como legado simbólico do franquismo.

Pouco depois, em Compostela, militantes independentistas pintárom da mesma cor-de-rosa um enorme escudo imperial espanhol num acto público em 2001, coincidindo com o julgamento dos quatro activistas que meses antes pintaram a estátua eqüestre em Ferrol. Posteriormente, a esquerda independentista galega tem promovido diversas iniciativas contra os símbolos franquistas ao longo do país. Em Ponte Areas criou-se em 2002 umha plataforma cidadá que reivindicou a eliminaçom do chamado "cabeçom", busto dedicado ao general Franco por iniciativa do PP. Só a insistência e pressom contínua da citada plataforma obrigou a que a instituiçom municipal acabasse por retirar tam macabra semblança do fascismo nessa vila do sul da Galiza. A própria plataforma optou por retirar directamente as placas com nomes de ruas dedicados a notórios assassinos fascistas, umha vez que o governo PSOE-BNG-PP adiava indefinidamente as suas responsabilidades na questom.

Também em 2002, militantes independentistas pintárom o escudo fascista gigantesco que preside em Ourense, de maneira eloqüente, o palácio de Justiça. O prédio acabava de ser restaurado, e nem as instituiçons nem os partidos que se gabam de democráticos tivérom a elementar iniciativa de aproveitar as obras para retirar o escudo, nem sequer "por motivos técnicos" como em Ferrol meses antes.

Já a inícios de Dezembro de 2003, foi novamente o nosso independentismo que pujo em evidência as contradiçons das forças do sistema, que comemoravam os "25 anos de paz constitucional" condenando a eliminaçom de umha estátua de Franco na paróquia de Sam Mateu de Trasancos, no Concelho de Narom. Voluntários e voluntárias independentistas faziam coincidir um acto de homenagem às vítimas da repressom franquista na comarca, organizado pola Associaçom Memória Histórica, com a queda a golpes de maça da figura infame em cimento do general golpista espanhol.

Como outras vezes, nom só políticos abertamente pró-franquistas como os do PP condenárom a acçom. Significados líderes comarcais do PSOE e da supostamente galeguista "Unidade por Narom", governante nesse concelho, condenárom a "imposiçom" da organizaçom política independentista, NÓS-UP, que deu cobertura a umha acçom que vinha somar-se à homenagem às centenas de represaliados e represaliadas por parte do franquismo na comarca de Trasancos. Nengum deles denunciou, naturalmente, as manobras policiais de caça e captura contra jovens polo único motivo de serem independentistas e antifascistas, incluindo acusaçons falsas e construçom de provas com base em falsos testemunhos. Sentou mal que as pessoas que realizárom a audaz acçom desaparecessem antes da chegada ao lugar das forças repressivas, e alguém tinha que pagá-lo.

Cómico e patético resultou, no mesmo dia 7 de Dezembro, ver como os membros do serviço de informaçom da polícia espanhola procuravam entre as silveiras a cabeça em cimento do ditador espanhol, misteriosamente desaparecida após o golpe de maça que a fijo cair do topo da peanha. A cabeça nom apareceu mais…

A realidade é que os partidos autoproclamados progressistas governárom nos concelhos da comarca trasanquesa durante a maior parte das legislaturas durante as últimas décadas, sem que nengum deles tenham mostrado o mais mínimo interesse por retirar umha simbologia imposta sem qualquer consulta popular. Umha simbologia nunca legitimada e que, como afirmou o poeta Dario Joám Cabana no acto poético decorrido na mesma manhá em que a estátua franquista caía, deve ser eliminada por qualquer meio, umha vez que as instituiçons emanadas do constitucionalismo espanhol continuam a mostrar, 25 anos depois da sua imposiçom, o seu absoluto desinteresse no tema.

Parabéns, portanto, à militáncia e base social independentista, que neste tema está a representar a dignidade de um povo nom tam dócil como alguns suponhem. Nestes últimos anos de actividade contra a permanência da simbologia fascista no nosso país, e ante a passividade institucional, tem-se demonstrado que, em ocasions, vale mais fazê-lo que mandá-lo.


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Em Ferrol, Franco "cavalga de novo" graças à cessom por parte do Governo BNG-PSOE da estátua eqüestre do genocida aos militares espanhóis, que a situárom em lugar preferente das instalaçons que ocupam na cidade