S.O.S., NA VÉSPERA DA RIO+10. Eduardo Galeano

20 de Agosto de 2002
Quem fica com a água?
O macaco que tem o cacete. O macaco desarmado morre de sede. Esta liçom
da pré-história abre o filme "2001, Odisseia no espaço".
Para a Odisseia 2003, o presidente Bush anuncia um orçamento militar
de 1 bilhom de dólares por dia. A indústria armamentista é
o único investimento confiável: há argumentos que som
irrebatíveis, na próxima Cimeira da Terra em Joanesburgo ou
em qualquer outra conferência internacional.
As potências donas
do planeta argumentam bombardeando. Elas som o poder, um poder geneticamente
modificado, um gigantesco Frankenpower que humilha a natureza: exerce a liberdade
de converter o ar em sujeira e o direito de deixar a humanidade sem casa;
chama erros aos seus horrores, esmaga a quem se coloca em seu caminho, permanece
surdo às advertências e arrebenta aquilo que toca.
Ergue-se o mar, e as terras
baixas ficam para sempre sepultadas sob as águas. Isso parece umha
metáfora sobre o desenvolvimento económico do mundo de hoje,
mas nom é: trata-se de umha fotografia do planeta amanhá, num
futuro nom tam longínquo, segundo as previsons de cientistas consultados
pola ONU.
Durante mais de duas décadas, as profecias dos ecologistas merecêrom chacota ou silêncio. Agora, os cientistas dam-lhes razom. E em 3 de Junho passado o próprio presidente Bush nom tivo saída se nom admitir, pola primeira vez, que acontecerám desastres caso a elevaçom da temperatura global continue prejudicando o planeta. "O Vaticano reconhece que Galileu nom estava errado", comentou o jornalista Bill McKibben. Mas ninguém é perfeito: ao mesmo tempo, Bush anunciou que os Estados Unidos aumentarám em 43%, nos próximos 18 anos, a emissom de gases que intoxicam a atmosfera.
Afinal de contas, ele
preside um país de máquinas que rodam devorando petróleo
e vomitando veneno: mais de 200 milhons de automóveis, e ainda bem
que bebés nom dirigem. Num discurso de fins do ano passado, Bush exortou
à solidariedade, e foi capaz de defini-la: "Deixe que as suas
crianças lavem o carro do vizinho".
A política energética
do país líder do mundo é ditada polos negócios
terrenos, que dim obedecer ao que di o céu. Umha que transmitia mensagens
divinas era a finada Enron, morta de estafa, que foi a principal assessora
do governo e a principal financiadora das campanhas de Bush e da maioria dos
senadores. O grande chefe da Enron, Kenneth Lay, costumava dizer: "Creio
em Deus e creio no mercado". E o mandachuvas anterior tinha um lema parecido:
"Estamos do lado dos anjos".
Os Estados Unidos praticam
o terrorismo ambiental sem o menor remorso, como se o Senhor tivesse lhe outorgado
um certificado de impunidade porque deixárom de fumar.
"A natureza já
está muito cansada", escreveu o frade espanhol Luis Alfonso de
Carvallo. Foi em 1695. O que diria se nos visse agora.
Umha grande parte do mapa da Espanha está ficando sem terra. A terra vai-se; e, mais cedo do que imagina, a areia penetrará polas frestas das janelas. Dos bosques mediterráneos, sobrárom uns 15%.
Há um século,
as florestas cobriam metade da Etiópia, que hoje é um vasto
deserto. A Amazónia brasileira perdeu selvas do tamanho de França.
Na América central, no ritmo atual, muito em breve poderám-se
contar as árvores como um careca conta os seus cabelos.
A erosom expulsa os camponeses
do México, que deixam o campo ou o país. Quanto mais se degrada
a terra do mundo, mais é preciso usar fertilizantes e pesticidas. Segundo
a Organizaçom Mundial da Saúde, esses insumos químicos
matam 3 milhons de agricultores por ano.
Como as línguas
humanas e as humanas culturas, vam morrendo as plantas e animais. As espécies
desaparecem num ritmo de três por hora, segundo o biólogo Edward
O. Wilson. E nom só devido ao desflorestamento e à contaminaçom:
a produçom em grande escala, a agricultura de exportaçom e a
uniformizaçom do consumo estám aniquilando a diversidade. Custa
crer que há apenas um século existiam no mundo mais de 500 variedades
de alface e 287 tipos de cenoura. E 220 variedades de batata, só na
Bolívia.
Cortam-se os bosques,
a terra fai-se deserto, envenenam-se os rios, derretem-se os gelos dos pólos
e as neves das cordilheiras. Em muitos lugares, as chuvas já deixárom
de chover, e em outros chove como se o céu se rompesse. O clima do
mundo mais parece um manicómio.
As inundaçons e
secas, os ciclones e incêndios incontroláveis som cada vez menos
naturais, embora a mídia insista, contra toda evidência, em chamá-los
assim. E parece umha piada de humor negro que as Naçons Unidas tenham
chamado os anos 90 de Década Internacional da Reduçom dos Desastres
Naturais. Reduçom? Foi a década mais desastrosa. Ocorrêrom
86 catástrofes, que deixárom cinco vezes mais mortos que os
muitos mortos nas guerras do mesmo período. Quase todos, 96%, para
sermos precisos, morrêrom nos países pobres, que os especialistas
insistem em chamar "países em vias de desenvolvimento".
Com devoçom e entusiasmo,
o Sul do Mundo copia e multiplica os piores costumes do Norte. E nom recebe
as virtudes do Norte, mas apenas o que é ruim: torna sua a religiom
norte-americana do automóvel e toda a mitologia da liberdade de mercado
e da sociedade de consumo. E o Sul também recebe, de braços
abertos, as fábricas mais porcas, mais inimigas da natureza, em troca
de salários que dam saudades da escravidom.
No entanto, cada habitante
do Norte consome, em média, dez vezes mais petróleo, gás
e carvom; e no Sul apenas umha em cada cem pessoas tem automóvel. Gula
e jejum no cardápio ambiental: 75% da contaminaçom mundial vem
de 25% da populaçom. E essa minoria nom inclui, quem dera, os 1,2 bilhom
que vivem sem água potável, nem o 1,1 bilhom que vam dormir
sem nada na barriga. Nom é "a humanidade" a responsável
pola devoraçom dos recursos naturais, nem pola putrefacçom do
ar, da terra e da água.
O poder dá de ombros:
"quando este planeta deixar de ser lucrativo, mudo para outro".
A beleza é bela
quando se pode venerá-la e a justiça é justa quando pode
ser comprada. O planeta está sendo assassinado polos modos de vida,
tal como as máquinas inventadas para apressar o movimento nos paralisam
e as cidades nascidas para o encontro nos isolam.
As palavras perdem sentido,
tal como perdem suas cores o verde mar e o céu azul, pintados pola
gentileza das algas que por 3 bilhons de anos liberárom oxigénio.
Essas luzinhas na noite, estarám-nos espiando? As estrelas tremem de estupor e medo. Nom conseguem entender como este nosso mundo continua dando voltas, ainda vivo, tam nervosamente dedicado ao seu próprio aniquilamento. E estremecem de susto, pois já vírom que os deste mundo andam invadindo outros astros.
Voltar à página de Documentaçom