Reintegracionistas com ortografia espanhola ou como querem vender-nos gato por lebre

Maurício Castro

[Artigo enviado a A Nosa Terra -que recusou a sua publicaçom- em Janeiro de 2004, com o intuito de apresentar umha visom diferente sobre o novo acordo normativo à oferecida polo professor X. R. Freixeiro Mato no mesmo semanário em semanas sucessivas. O texto foi finalmente publicado na revista Agália, no número duplo 77-78, correspondente ao 1º semestre de 2004]

A recente aprovaçom, em 12 de Julho de 2003, de umha reforma das Normas Ortográficas e Morfolóxicas do Idioma Galego tem obrigado a umha paralela reforma do discurso por parte do sector até agora chamado "de mínimos", que nas últimas décadas configurou junto do isolacionismo e o reintegracionismo umha das três orientaçons actuantes na Galiza quanto a padronizaçom do idioma próprio.

Lembremos como preámbulo que, em 1982, a Junta de Alianza Popular (hoje Partido Popular) descartou a aprovaçom de umha norma escrita para o galego que pudesse consensualizar as tendências isolacionista e reintegracionista em torno da Comissom presidida por Ricardo Carvalho Calero. Essa Comissom, dous anos antes, tinha proposto um acordo que, sem romper ainda com a ortografia espanhola, dava passos sérios na reintegraçom lingüística galego-portuguesa. O consenso nom foi possível ante a intransigência do isolacionismo, no seu intuito de consagrar a ruptura da unidade lingüística entre as variantes faladas a Norte e Sul do Minho. Como o reintegracionismo diagnosticou na altura e como a realidade confirma hoje, nada de bom procurava AP com aquela orientaçom anti-reintegracionista imprimida ao galego. Pouco antes, em 1981, o nascimento da AGAL supunha a posta em prática de um dos velhos anseios do nosso nacionalismo histórico: a defesa da unidade lingüística galego-portuguesa.

Da mesma forma que o isolacionismo reflectia a pulsom política do espanholismo de direitas governante, interesses políticos ligados ao nacionalismo galego de esquerdas condicionárom que as forças sociais defensoras do idioma nom aderissem de maneira unánime à coerente proposta reintegracionista apresentada pola AGAL. O sector maioritário do nacionalismo galego, politicamente ligado ao BNG, continuou a reconhecer "filosoficamente" a unidade lingüística, sim, mas sem dar o passo nessa direcçom que a história exigia. Igual que Carvalho Calero apelava para dar esse passo numha altura em que o galego acedia pola primeira vez ao ensino, mesmo que fosse de maneira precária, agora, mais de vinte anos depois, som alguns relevantes vultos do próprio oficialismo lingüístico quem recordam, com o aval da história, que a proposta chamada "de mínimos" tem respondido apenas a um interesse partidista. Um interesse, acrescentamos nós, que conjugou durante duas décadas os "princípios" com um alegado "tacticismo" que só agora podemos confirmar em que estratégia ficava enquadrado. Parafraseando as palavras com que X. M. Beiras explicou recentemente (1) o papel do BNG no seio da sociedade galega desde a sua fundaçom, podemos afirmar que, no ámbito lingüístico, os mínimos tenhem servido de verdadeiro "dique de contençom", obstaculizando um avanço maior do reintegracionismo nestes anos por alegados motivos "tácticos", para acabar por se incorporar ele próprio ao "consenso" oficialista.

O único reintegracionismo realmente existente era, agora o verificamos, o nucleado primeiro pola AGAL e a primeira AS-PG, posteriormente alargado e socializado de maneira relativa em ámbitos juvenis e culturais, bem como a nível político por parte do minoritário independentismo. Um reintegracionismo que hoje continua a existir e a crescer, embora infelizmente nom ao ritmo necessário para combatermos eficientemente o grave estado em que se encontra a comunidade lingüística galega.

Os "mínimos", inicialmente apresentados como primeiro passo num prudente e progressivo avanço em direcçom aos "máximos", acabárom por assinar a sua carta de capitulaçom no ano recém concluído. Com a bençom do seu promotor político, o BNG, os representantes universitários desse sector culminárom duas décadas de oposiçom à filosofia e prática oficiais aderindo a essa mesma prática, que nega explicitamente a unidade lingüística galego-portuguesa. O oficialismo, que agora os acolhe no seu seio, ofereceu-lhes em troca umha mínima reforma que nem de longe aproxima o "novo" padrom da verdadeira norma de consenso: a da Comissom Lingüística presidida por Carvalho Calero em 1980 a pedido da Junta Pré-Autonómica.

Alguns representantes do sector chamado "de mínimos" tenhem reconhecido publicamente a derrota histórica da estratégia possibilista patrocinada polo BNG frente ao isolacionismo (e subsidiariamente face ao espanholismo). Essa foi a digna postura Francisco Salinas Portugal já em 2001, ao reconhecer nesta mesma publicaçom que a proposta de "acordo normativo" era "unha digna escusa ao noso descanso dos que estamos vencidos e derrotados" (2).

Outros, como o professor Freixeiro Mato no artigo publicado no número 1.112 deste semanário (3) [ANT] sob o título de "Sermos reintegracionistas con ortografía oficial", procuram agora autojustificaçons vendendo-nos gato por lebre. Inscrevendo-se numha nova modalidade chamada "reintegracionistas com ortografia oficial" (?), insistem em falar de "norma de consenso" para denominarem um acordo de rendiçom incondicional por parte do sector representante dos mínimos face ao oficialismo lingüístico, deixando à margem da "negociaçom" mais umha vez o reintegracionismo.

Se já antes era discutível a existência de um suposto "reintegracionismo nom praticante" oculto atrás dos mínimos, continuar repetir grandes palavras sobre a unidade lingüística ao tempo que se pratica e fortalece a tendência contrária é, no melhor dos casos, um discurso esquizofrénico.

Sendo legítima a confluência a que finalmente acedêrom uns e outros, nom é aceitável pretenderem negar a existência de umha verdadeira dissidência lingüística frente ao oficialismo. E Freixeiro semelha jogar a isso no seu artigo quando fala de "norma de consenso" (sic) e dá a entender que o reintegracionismo está incluído no mesmo. Mas fai mais do que isso, ao afirmar que as novas normas "poden ser consideradas reintegracionistas", umha vez que, segundo ele, reconduzem o galego "cara á súa plena autenticidade, liberándoo das interferencias foráneas". Será que as escassas cedências com que se retocárom as normas de 82 já as transformárom de espanholistas (como eram antes chamadas polos próprios promotores dos mínimos) em "reintegracionistas"? Será que mudárom assim tanto as normas, ou será mais bem que mudárom os seus antigos críticos?

Freixeiro parafraseia no citado artigo o discurso com que tantas vezes os oficialistas tenhem combatido o reintegracionismo, quando tenta desacreditá-lo afirmando que "a ortografía é unha convención que se pode mudar de modo relativamente doado, mais as estruturas internas da lingua non se poden mudar coa mesma facilidade". Contradizendo a suposta facilidade das mudanças ortográficas, a realidade é que precisamente a mudança da ortografia representa a possibilidade que mais veementemente tenhem rejeitado nas últimas décadas o oficialismo e os seguidores dos mínimos (a níveis diferentes, é claro), apesar de ser a que mais visivelmente nos afastaria do campo cultural espanhol, reintegrado-nos de facto no lusófono e abrindo-nos assim a um espaço de imensas potencialidades na regeneraçom do nosso deteriorado espaço cultural.

De resto, nom semelha Ferreiro Mato estar tam convencido do carácter reintegracionista das "novas" normas quando, já no primeiro parágrafo do seu artigo, escreve que "unha cousa é acatar unha norma lingüística e outra moi distinta é renunciar ás propias ideas ou inclusive deixar de traballar por elas". De que ideias será que fala Ferreiro? das reintegracionistas? Mas afinal nom som já reintegracionistas as novas normas?

Os que recentemente abraçárom a ortografia dita oficial som oficialistas, e nom reintegracionistas. Nom esqueçamos que eles próprios chamárom assim durante muitos anos os que a partir de agora passam a ser novos companheiros de viagem para nengures. Quando o próprio Bloque afirmou nestes dias ante os meios de comunicaçom que "o BNG apostou e ganhou", tentando dar a volta ao resultado da sua renúncia histórica, deveríamos respostar-lhe que, mais umha vez, confunde os seus interesses de grupo com os da Galiza como colectividade nacional ameaçada. Porque, se o BNG ganhará comodidade e reconhecimento por parte do regime espanhol dominante, a Galiza perderá com a cada vez maior indiferenciaçom entre as diversas forças políticas do sistema.

Quanto à língua, seguramente nem antes dependia nem agora depende o seu futuro das decisons partidárias do BNG, mas da capacidade da nossa comunidade lingüística para se articular como tal e dar os passos necessários que lhe garantam a viabilidade futura.

24 de Janeiro de 2004


[P.S. Com posterioridade à redacçom deste texto, alguns dados ajudárom-nos a confirmar a estrita manutençom do rumo oficialista em matéria lingüística apesar do "acordo normativo":

1. A RAG, por meio do seu secretário, Manuel González, colaborou com um julgado em Compostela dando-lhe "argumentos científicos" para dous galegos serem discriminados mediante o rechaço de um recurso de defesa por, segundo o magistrado, nom estar escrito em nengum dos dous idiomas oficiais.

2. As mesmas normas resultantes da reforma estám a servir tanto para que Freixeiro Mato faga a sua particular leitura "reintegracionista" das mesmas, como para outros como Ernesto G. Seoane fazerem o contrário (4), salientando num artigo na revista O Cartafol que "respectan escrupulosamente os principios inspiradores" das normas de 82. Mesmo assim, Seoane prefere a escolha das formas lingüísticas teoricamente arrumadas pola reforma de Julho de 2003.

3. A Mesa continua a promover iniciativas acordes com os "princípios inspiradores" a que Seoane se refere no seu artigo, como a que dirigiu a Microsoft requerendo a adaptaçom para o galego da RAG de Windows XP e Office, sem sequer apresentar qualquer consideraçom sobre a existência de software nas variantes portuguesa e brasileira da nossa língua.

Com efeito, nada de significativo parece ter mudado.]

1.- Xosé Manuel Beiras: "A estratéxia da dinamita". El Faro de Vigo, 5 de Novembro de 2003

2.- Francisco Salinas Portugal: "De normas e concórdias... de tempos e destinos". A Nosa Terra nº 1012, 13 a 19 de Dezembro de 2001

3.- Xosé R. Freixeiro Mato: "Sermos reintegracionistas con ortografia oficial". A Nosa Terra nº 1112, 15 a 21 de Janeiro de 2004

4.- Ernesto G. Seoane: "A reforma das normas". Revista O Cartafol nº 9, Outubro de 2003.

 

- Fevereiro de 2004. "Dá-lle un si a Galiza" ou como querem vender-nos gato por lebre. Maurício Castro (+...)


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