A ESQUERDA NO LIMIAR DO SÉCULO XXI.
Marta Harnecker
Publicado no número 18 de Abrente
Dificuldades para um perfilamento alternativo
Findando
o século XX temos que reconhecer que vivemos tempos angustiosos, cheios
de confusom e de incerteza. A deterioraçom do nível de vida da maioria da
populaçom do planeta, incluindo a sectores cada vez amplos das camadas médias,
é alarmante; a ameaça do desemprego é umha preocupaçom presente, quer nos
países desenvolvidos, quer nos países pobres; a fragmentaçom social e organizativa
tam chegado a graus extremos; a deterioraçom do ambiente ameaça a sobrevivência
das futuras geraçons; a corrupçom generalizada produz um largo efeito desmoralizador;
continua estando presente o perigo da guerra, incluso nuclear. Face a esta
realidade umha opçom alternativa, —socialista ou como se quiger chamar—,
torna mais urgente do que nunca, se nom estivermos dispost@s a aceitar esta cultura integral do desperdício, material
e humano, que, —como di o sociólogo cubano Juan Antonio Blanco— nom só gera lixo nom reciclável pola ecologia,
como também desperdícios humanos difíceis de reciclar socialmente ao
empurrar os grupos sociais e naçons inteiras ao desamparo colectivo.
Som enormes
os desafios que esta situaçom coloca à esquerda, e esta nom está nas melhores
condiçons para defrontá-los. A derrota do socialismo na Europa do Leste
e na URSS, nom só muda drasticamente a correlaçom de forças em favor das
forças mais reaccionárias, transformando os EEUU na potência hegemónica
sem contrapesos, senom que, ao mesmo tempo, fai desaparecer do horizonte
o principal referente prático na luita polo socialismo. O seu quefazer poítico
fica orfo de modelos explicativos e orientadores: a maioria dos velhos modelos
ruírom e os novos nom conseguem mostrar a sua efectividade. Existe um excesso
de diagnóstico e umha ausência de terapêutica.
Todo isto
dificulta o perfilamento alternativo da esquerda: mas há outros dous elementos
que contribuem para o mesmo: de umha parte, que a direita se tenha apropriado inescrupulosamente da linguage
da esquerda, o que é particularmente notório nas suas formulaçons programáticas:
palavras como reformas, mudanças de estrutura, procupaçom pola pobreza,
transiçom, fam hoje parte do discurso habitual da direita. Doutra parte,
a tendência cada vez mais generalizada da esquerda a adoptar umha prática
política muito pouco diferenciada da prática habitual dos partidos tradicionais,
forem de direita ou de centro.
E todo isto
dá-se no contexto dum crescente cepticismo popular em relaçom com a política
e os políticos: cada vez mais gente rejeita as práticas partidárias clientelistas,
pouco transparentes e corruptas; as mensages que ficam em meras palavras,
que nom se traduzem em actos. Reina a indiferença e esta apenas favorece
as classes dominantes, as que costumam atingir umha adesom limitada, mas
maior do que as forças da esquerda –que de resto, muito amiúde se apresentam
divididas às contendas eleitorais. É sintomático, por exemplo, que no Chile
mais de 800 mil jovens optassem por nom inscrever-se nos registos eleitorais,
ou que a abstençom nas últimas eleiçons presidenciais no Salvador fosse
de mais de 60%.
Rejeitamento da política como arte
do possível
Umha parte
da esquerda, nalguns países infelizmente maioritária, ao verificar a impossibilidade
imediata de mudar as cousas devido à tam desfavorável correlaçom de forças
existente no seu próprio país e no mundo, julgam que nom fica outro caminho
que ser realistas, reconhecer essa impossibilidade e limitar-se a adaptar-se
oportunisticamente na situaçom existente. Adopta, ao dizer de Gramsci,
a atitude dos diplomatas, que devem procurar a melhor forma de desempenharem-se
dentro dos quadros estatuídos, sem procurarem mudar a situaçom. A política
assi concebida exclui, de feito, toda tentativa por levantar umha alternativa
frente ao capital neoliberal.
Considero
que a esquerda, se quiger ser tal, nom pode instalar-se no já estatuído
como se as correlaçons de forças e as regras do jogo fossem imodificáveis;
nom pode, portanto, conceber a política como a arte do possível. Todo o
seu accionar deve ir justamente dirigido a mudar esta situaçom. Mas a concepçom
da política como a arte do possível nom deve opor umha política voluntarista,
que ignore as circunstáncias concretas em que há que agir, que pretenda
criar do nada. A esquerda deve partir agora da realidade efectiva, mas ao
mesmo tempo deve aplicar a sua vontade para a criaçom dumha nova correlaçom
de forças partindo do que nessa realidade há de progressismo para reforçá-lo
e de limitante ou freio para combatê-lo. Trata-se de partir da realidade
efectiva, nom para submeter-se a ela, como fai a esquerda "diplomática",
senom para elaborar umha estratégia que lhe permita dominá-la e ultrapassá-la
ou, polo menos, contribuir para isso.
Para a esquerda
conseqüente, a política deve consistir, entom, na arte de descobrir as potencialidades
que existem na situaçom concreta de hoje para fazer possível amanhá o que
no presente parece impossível. Trata-se de construir umha correlaçom de
forças favorável ao movimento popular, a partir de aquilo que dentro das
suas fraquezas constitui os seus pontos fortes.
E, quais
som os pontos fortes do movimento popular?. A resposta a esta pergunta depende
de cada época histórica e da situaçom de cada país. Para os trabalhadores
da revoluçom industrial a sua fortaleza radicava na sua força numérica,
a existência de grandes concentraçons operárias, a sua capacidade de organizaçom,
a sua identidade como classe oprimida. A organizaçom e a unidade dos trabalhadores,
quantitativamente muito mais numerosos do que os seus inimigos de classe,
era a sua força, mas era umha força
que havia que construir, e só tomando esse caminho virou possível aquilo
que inicialmente parecia impossível: dobregar os capitalistas obrigando-os
a reconhecer jornadas de trabalho cada vez mais curtas, a aceitar a sua
organizaçom sindical, a outorgar-lhes salários mais altos e em geral melhores
condiçons de trabalho e vida.
Hoje essa
situaçom tem variado muito, é necessário fazer um diagnóstico e determinar
qual é a situaçom actual, quais os pontos fortes que o movimento popular
deve potenciar para que se poda construir realmente umha força anti-sistema.
Nom basta já a unidade dos trabalhadores directamente explorados polo capital,
cumpre construir laços entre todos os sectores sociais prejudicados polo
capitalismo neoliberal, que cada dia som mais.
A política como construçom de força
social anti-sistema
Conceber
a política como construçom de forças implica abandonar a visom tradicional da política que tende para reduzí-la exclusivamente
ao relacionado coas instituiçons juridico-políticas e a exagerar o papel
do Estado; nesta visom caem tanto os sectores mais radicais da esquerda,
como os mais moderados: os primeiros centram toda a acçom politica na tomada
do poder político e a destruiçom do Estado, e os mais reformistas na
administraçom do poder político ou
exercício de governo. Todo se concentra nos partidos políticos e na
disputa à volta do controlo e orientaçom dos instrumentos formais do poder;
os sectores populares e as suas luitas som ignorados.
Pensar em
construçom de forças é também ultrapassar
a estreita visom que reduz o poder aos aspectos repressivos do Estado.
O poder inimigo nom só é repressivo senom também
–como di o sociólogo chileno Carlos Ruíz— construtor,
moldeador, disciplinante. Se o poder das classes dominantes só actuasse
como censura, exclusom, como instalaçom de obstáculos ou repressom, seria
mais frágil. Se é mais forte é porque, além de evitar o que nom quer, é
capaz de construir o que quer, de moldear condutas, de produzir saberes,
racionalidades, consciências, de forjar umha forma de ver o mundo e de vê-lo
ele próprio.
Pensar em
construçom de forças é também superar o antigo e arreigado erro de pretender
construir força política sem construir força social.
Ora bem,
o que mais temem e, por isso, o que mais combatem as classes dominantes
é justamente o surgimento dumha força social anti-sistema, quer dizer, que
os sectores populares se unam e se organizem para reivindicar os seus direitos
e rejeitar o sistema imperante. Os pobres dispersos e cumha atitude mendicante
nom lhes produzem problemas, daí a sua prédica em favor de soluçons individuais
e a sua restriçom da política ao palco jurídico-político-institucional.
E se isto
tem sido sempre válido, é-o mais ainda hoje, sob o neoliberalismo, quando
um elemento chave da estratégia de poder das classes dominantes é conseguir
a máxima fragmentaçom da sociedade, porque umha sociedade dividida em diferentes
grupos sociais minoritários, isolados uns de outros, impede que surja umha
maioria questionadora da hegemonia vigente.
A chave para
manter estes grupos isolados uns de outros é procurar conscientemente desorientá-los
a respeito dos seus possíveis objectivos comuns, estimular as contradiçons
que puderem existir entre eles para que nom assumam luitas colectivas e
impedir que se criem espaços em que se puderem projectar projectos objectivos
que forem para além de cada grupo particular, quer dizer, que puderem ser
partilhados por outros grupos, dando passage a potenciais acordos e alianças.
Daí que umha
das tarefas mais fundamentais da esquerda seja a superaçom da dispersom
e atomizaçom do povo explorado e dominado; a construçom da sua unidade.
E para lográ-la devem ter em conta os objectivos criados pola estratégia
das classes dominantes. Isto implica nom deixar-se levar pola situaçom,
senom actuar sobre ela selecionando, através dumha análise política global,
os espaços e conflitos onde deve concentrar a suas energias em funçom do
objectivo central: a construçom da força popular.
Concebo entom
a política como a arte da construçom dumha força social anti-sistema e ponho
o acento na palavra "construçom"; porque nom se pode conceber
como algo já dado, senom como algo que há que construir. Nom basta a soma
de grupos e movimentos sociais: coincido com Erich Hobsbawm em que se só
se somarem minorias, especialmente se se tratar de grupos heterogéneos,
nom se obtenhem maiorias.
Um instrumento político adequado
Mas para
construir esta força social requer-se dum sujeito construtor, dum instrumento
político capaz de orientar a sua acçom a essa construçom com base numha
análise da totalidade da dinámica política; um instrumento político dirigido
à sociedade, cuja fortaleza nom esteja tanto na quantidade de militantes
que possua e as actividades internas que realize, como na influência social
que tenha.
Para isso
deve ter muito presente as características específicas desse sujeito popular,
muito diferente do de décadas anteriores. Deve ter no alvo nom só a exploraçom
económica dos trabalhadores, senom também as diferentes formas de opressom
e de destruiçom da pessoa e a natureza que gera o sistema opressor e que
vam mais alá da relaçom entre capital e força de trabalho. Deve, portanto,
abandonar o reducionismo classista, assumindo a defesa de todos os sectores
sociais discriminados e excluídos económica, política,
social e culturalmente. Além dos problemas de classe, devem preocupá-la
os problemas étnico-culturais, de raça, de género, de sexo, de meio natural.
Nom deve ter presente só a luita dos trabalhadores organizados, mas também
a dos trabalhadores nom organizados, a luita das mulheres, indígenas, pret@s,
jovens, crianças, reformad@s, minusválid@s, homossexuais, etc.
De outra
parte, considero que a preocupaçom fundamental da organizaçom política nom
deveria ser a de procurar conter no seu seio os representantes legítimos
de todos os que luitam pola emancipaçom, senom gerar espaços de encontro
e esforçar-se por articular a suas práticas num projecto político único.
Umha nova esquerda que esteja à altura
dos desafios
Para terminar,
quereria dizer que os nossos povos merecem umha nova esquerda que esteja
à altura dos desafios que lhe coloca o mundo de hoje, um mundo muito diferente
do que existia quando eu me iniciava na política: cheio de obstáculos, mas
também de oportunidades. Ter presentes os primeiros para elaborar umha estratégia
que permita superá-los, e conhecer as segundas, para construir a partir
delas propostas alternativas solidárias é essencial. Estou convencida de
que o único caminho para avançar na luita por criar as condiçons dumha profunda
transformaçom social é evitar cair numha atitude nostálgica face ao passado
e decidir-se a construir criadoramente o porvir.
Marta Harnecker
é educadora popular chilena e autora de numerosos trabalhos de investigaçom
sobre a esquerda lationamericana. Na actualidade mora em Cuba, donde enviou,
a solicitude de ABRENTE, este artigo em que apresenta algumhas das ideias
que desenvolve no seu mais recente livro: Tornar possível o impossível.
A esquerda no limiar do século XXI. Campo das Letras Editores, Porto, 2000.
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