Galiza insurgente


Polo seu interesse, Primeira Linha em Rede apresenta traduzido para o nosso idioma o artigo do redondelano Ignacio Ramonet, actual director de Le Monde Diplomatique, que foi publicado por La Voz de Galicia no passado dia 3 de Dezembro.

Galiza insurgente

Ignacio Ramonet

Embora as comparaçons nem sempre sejam pertinentes, permitem às vezes compreendermos melhor umha situaçom afastada da nossa própria experiência. Assim, por exemplo, o do Iraque. Como entender essa resistência tam encarniçada -e por vezes tam cruel- contra umhas forças estrangeiras portadoras, segundo o presidente Bush, de liberdade, democracia, progresso e prosperidade? Dentro de algum tempo começarám sem dúvida a publicar-se os testemunhos de militares ocidentais expressando a sua perplexidade e o seu desconcerto frente à brutalidade dos ataques perpetrados contra eles por aqueles mesmos que fôrom salvar.

Penso nisto enquanto olho um livro recém descoberto numha livraria: o testemunho precisamente do capitám francês Nicolas Marcel (Campagnes en Espagne et au Portugal 1808-1814, éditions du Grenadier, Paris, 2001), quem, às ordens do marechal Soult, participou na feroz repressom da insurreiçom galega. Os levantes populares na Galiza tinham começado no Verao de 1808 e já em Janeiro de 1809 Galiza se convertera no assentamento da primeira insurreiçom guerrilheira generalizada de Espanha. De Fevereiro a Junho de 1809, quase 56.000 camponeses galeg@s combatêrom numha clássica campanha guerrilheira contra um exercito francês de 40.000 soldados às ordens do marechal Soult e umha força adicional de 18.000 homens sob comando do marechal Ney. E acabárom por vencê-los apesar da incrível brutalidade da repressom, encenada por Goya nas imagens terríveis dos Desastres da guerra.

Conta por exemplo Marcel como, em Maio de 1809, tendo sido degolados pol@s insurgentes os membros de um esquadrom de húsares em Camarinhas, recebêrom a ordem de queimar essa povoaçom e de exterminar todos os seus habitantes. "Quando chegamos ante a vila, já nom pudemos duvidar da insurreiçom geral deste país; tod@s @s habitantes, armad@s com fusis, gadanhas e fouces aguardavam-nos". Mas a força superior dos militares napoleónicos impujo-se "Creio inútil descrever os horrores que cometemos nesse aziago dia. Executamos tod@s à baioneta, mulheres e crianças incluídas; nom houvo clemência. Apesar das lágrimas e das súplicas, homens e mulheres -e estas depois de terem padecido toda classe de ultrajes- fôrom imolados".

Mas essa mesma violência da repressom vai estimular ainda mais a resistência d@s galeg@s. As emboscadas aos soldados recuados e aos pequenos destacamentos isolados vam-se repetir. Conta Marcel: "De regresso a Santiago, demo-nos conta de que os ataques e os assassinatos se multiplicavam en toda a Galiza; todos os nossos homens que voltavam dos hospitais ou viajavam isolados eram massacrados". Um dia recebem a ordem de se dirigirem "ao vale de Redondela e, ao primeiro disparo de qualquer camponês, de atacar a ferro e fogo". "Sessenta aldeias queimamos nesse vale. Um dia, perto de Redondela, umha jovem de entre 16 e 18 anos, bela como um anjo, tendo visto morrer o seu pai e a sua mae, e rejeitando se submeter aos desejos desenfreados de alguns soldados, prefiriu atirar-se às chamas e perecer queimada viva, a cair entre as nossas maos ...".

As guerrilhas galegas fôrom tam efectivas -liquidando também os traidores urbanos, nobres, clérigos e proprietários, colaboradores dos invasores- que se pudo recuperar Vigo em Março, Tui em Abril, Santiago em Maio, e a Corunha e Ferrol após a derrota de Ney na batalha de Ponte Sampaio a princípios de Junho. Quando, no Verao de 1809, as forças napoleónicas abandonárom para sempre a Galiza, só conservavam metade dos 58.000 homens que invadiram a nossa terra em Janeiro. A Galiza foi a primeira em demonstrar ao mundo que mediante umha estratégia de guerra de guerrilhas, de emboscada e retirada, de golpear e fugir, era possível derrotar um exército regular superpoderoso.


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