Iraque sob
o calcanhar de ferro
Alfonso Sastre
11 de Fevereiro
de 2003
Ao falar hoje de umha "calcanhar de ferro" estou a referir-me à
profecia que fijo, a inícios do século XX, o romancista norte-americano
Jack London: a fins desse século abateria-se sobre o mundo umha grande
ditadura generalizada ao serviço do capitalismo; ditadura que tomaria
esse nome, o calcanhar de ferro. Sobre aquela ficçom antecipatória
escrevêrom, ao longo dos anos, autores ilustres como Anatole France;
também Leon Trotski, que leu o romance muitos anos depois e fijo um
prólogo em que associou o "calcanhar de ferro" ao fascismo,
e nesse senso o romance teria sido profético. Vista a questom desde
hoje, está muito claro que o fascismo nom foi o momento histórico
do cumprimento de aquela antecipaçom, dado que no romance se tratava
da opressom mundial ejercida por umha estrutura capitalista e democrática;
de modo que está na hora -agora! - quando estamos a viver essa situaçom
nom fascista -pois nom é tal, embora assim convencionalmente se diga-
em que a democracia representativa evidencia, nela própria, as suas
próprias virtualidades opresivas sem conto.
Eis hoje, na realidade das nossas vidas, a opressons de aquele calcanhar de
ferro imaginado por um escritor, arroupada nos nossos dias por umha corte
de intelectuais com nomes e apelidos e outros desconhecidos, comprometidos
todos
com esse pensamento único que é um ersatz que o
imperialismo usa para pô-lo no local da realidade de um pensamento verdadeiro.
O momento em que escrevo este artigo encerra um patetismo particular e revela
algumhas questons esenciáis, nom apenas do ponto de vista humano e
social, mas também teórico, pois o que está em questom
é nada menos que umha sentença, ao menos moral, contra este
"sistema democrático", na medida em que ele é capaz
de agasalhar tais horrores; o que nom é umha questom nova, abofé,
pois as bombas atómicas sobre Hiroshima e Nagasaki, quando a segunda
grande guerra tinha virtualmente findado, dérom umha prova a favor
das capacidades da "democracia" (¿) para o horrible, relevando
o nazismo desta honra que ele tinha adquirido em episódios como o bombardeamento
de Gernika. (Com certeza, durante toda a Segunda Grande Guerral, as democracias
e os fascismos partilhárom essa duvidosa honra de bombardear populaçons
civis).
O crime como procedimento político generalizado na História é evidente ao longo de todos os tempos. Por isso, deve semelhar-nos ridículo que, na hora de dizer hoje "nom" a um ataque mortal do Imperio Norte-americano e os seus aliados contra o Iraque, se acuda à biografia política do Sadam Hussein para interpor tal biografia contra o pensamento de quem dizemos esse "nom". Na realidade, o calcanhar de ferro pesa sobre nós todos, que advertimos que o objectivo do Bush -simbolizemos a agressom nesse nome- nom é expulsar do seu poder o Sadam Hussein (o que, de resto, é um asunto do povo iraquiano e corresponde à sua soberania), mas esmagar um povo alegre e anelante de vida, como se fosse umha barata, e tomar posse sujamente -com sangue e com merda- do seu petróleo.
E o que fazermos
nós -os escritores e os artistas- ante semelhante situaçom?
Mais umha vez, coloca-se o tema da nossa própria responsabilidade perante
factos de tal magnitude. Nos últimos dias temos ouvido alçar-se
vozes afoutas de actores e outra gente do cinema num clamor contra a guerra.
Eu próprio tenho proposto que nos vestíbulos dos teatros se
ponha folhas de assinaturas com um texto que poderia parecer-se ao que agora
copio a seguir e como final deste artigo:
"Na actual conjuntura do mundo, o povo do Iraque acha-se gravemente ameaçado,
por razons de carácter económico-imperialista, de que estoure
sobre as suas cabeças umha guerra imisericorde que provocaria millares
de vítimas civis. Quem assinamos este escrito manifestamos a nossa
grande inquietaçom, até as fronteiras da angústia, perante
tam criminosa ameaça. É por tal que unimos as onzas maos e as
alçamos com os seguintes berros urgentes: Alto à guerra! Pola
paz mundial! Polo cessamento imediato do embargo ao povo iraquiano!".
Já há muitos signos de que a gente do teatro está a incorporar-se
a esta batalha contra o crime.