Quem fai o jogo, afinal, do Partido Popular?

Maurício Castro

13 de Março de 2004

É sabido que som os momentos de crise que permitem ver com maior clareza as posiçons e funçons de cada agente político no grande cenário das luitas sociais. Face ao habitual teatro de máscaras que define os papéis dos partidos, instituiçons e meios de comunicaçom no dia a dia das aprazíveis democracias ocidentais que habitamos, a súbita ocorrência de um facto social extraordinário como o do passado dia 11 de Março em Madrid fai cair as máscaras e situa cada qual no lugar que verdadeiramente ocupa.

No caso do terrível ataque bombista indiscriminado contra populaçom civil na capital espanhola, o que ficou dramaticamente em evidência foi a inexistência de umha oposiçom política digna de tal nome no conjunto do Estado. Quando a campanha eleitoral estava para concluir, com a "normalidade democrática" esperada, o ataque múltiplo de Madrid mostrou-nos, além da barbárie em que o Planeta está embarcado graças à hegemonia mundial do capitalismo de face imperialista, um Partido Popular mais fortalecido do que nunca graças à inestimável colaboraçom do resto de actores da farsa democrática espanhola.

O conjunto de partidos políticos "responsáveis" integrados no dito "sistema democrático", bem como a prática totalidade de meios de comunicaçom dessa "Espanha plural" em que estamos inseridos, seguírom de lés a lés as palavras de ordem do PP. Quanto à autoria da acçom, todos participárom do linchamento do independentismo basco, confiantes em poderem já acabar de vez com o único sector que no conjunto do Estado consegue fazer frente a sério à reacçom espanholista liderada polo PP. Desde o Lehendakari basco Ibarretxe ao líder da chamada Izquierda Unida, passando no nosso país pola força hegemónica do que ainda se fai chamar "nacionalismo galego", todos repetírom irreflexivamente o discurso mentiroso do Governo espanhol, encenando o melhor encerramento de campanha que a direita espanhola podia sonhar ante a jornada eleitoral de amanhá.

No decurso de umha aguda crise como a provocada pola carnificina do 11-M, ficou esbatida qualquer miragem de pluralismo, oposiçom e outros jogos de aparência que configuram a democracia formal espanhola em que vivemos. Todos aderírom ao mesmo discurso, e todos se manifestárom juntos nas ruas: os alegados anti-guerra, com os genocidas; as "esquerdas", com e a extrema direita que di ser o "centro"; os "nacionalismos" periféricos, com o espanholismo mais intransigente; numha convocatória arranjada, é claro, sob os parámetros impostos por quem realmente ordena e manda, com a defesa da antidemocrática Constituiçom espanhola como centro do discurso "antiterrorista" e a bandeira de Espanha como símbolo do objectivo final dos organizadores das marchas. O PP conseguiu encenar o seu sonho de "unidade da naçom", da "naçom forte" que Aznar, e também Zapatero, repetem nos seus rançosos e chauvinistas discursos.

Mais umha vez, demonstrou-se existir só umha oposiçom política de esquerdas e soberanista de certa solidez ante o actual estado de cousas: a independentista no País Basco. Só a esquerda abertzale mantivo desde o primeiro momento um discurso diferente, por acaso o único que afinal tinha algumha fiabilidade frente às mentiras e manipulaçons do conjunto de partidos, instituiçons e meios de comunicaçom do Estado.

Também na Galiza se cumpriu a tese que encabeça este artigo: Quintana, com Fraga e Tourinho, todos sob a mesma legenda constitucionalista e espanhola servindo à mesma campanha de intoxicaçom. Só a minoritária esquerda independentista denunciou abertamente a intoxicaçom informativa e interpretou, desde a noite do próprio dia 11, a situaçom criada nos seus justos termos, os de umha resposta armada árabe à agressom imperialista em que o Partido Popular embarcou o Estado espanhol. Por mais que alguns quigerem acreditá-lo, as vidas humanas de inocentes espanhóis nom tenhem afinal mais valor do que as dos milhares de inocentes assassinados no Afeganistám, na Chechénia, no Iraque,...

Agitando o "boneco diabólico" do separatismo basco, o PP conseguiu desviar a atençom da sua responsabilidade no acontecido, graças à colaboraçom disso que erradamente chamam "oposiçom", e graças à sempre fiel maquinaria mediática, que está nas mesmas maos dos agentes económicos que sustentam o próprio Partido Popular e a sua estratégia belicista.

Podemos condenar a violência, manifestar-nos juntos governantes e governados, reclamar leis mais duras, mais polícia e mais medidas de excepçom contra a verdadeira oposiçom política. É a fórmula aplicada por George W. Bush e a sua Administraçom nos EUA a partir do 11-S e polo PP desde o seu acesso ao poder no Estado espanhol, sem grande sucesso em nengum dos dous casos, como estamos a comprovar.

Venhem-nos agora à cabeça as contínuas acusaçons que do ámbito do nacionalismo galego institucionalizado costumam dirigir-se contra o independentismo, por nom se pôr ao seu serviço e assim supostamente "fazer o jogo" do PP. Neste momento de crise, estamos a comprovar quem é que fai o jogo ao PP: quem se manifesta com ele e segue as suas directrizes propagandísticas, lavando-lhe a cara em lugar de denunciar as autênticas responsabilidades que correspondem à direita espanhola no acontecido no dia 11 de Março na capital espanhola.

Assim, qualquer pode já perceber por que é que levamos vários anos caminhando a marchas forçadas em direcçom à fascistizaçom social e sofrendo um retrocesso galopante nos direitos sociais e laborais, ao tempo que naçons sem Estado como a Galiza nom conseguem avançar significativamente a autoafirmaçom frente ao assimilacionismo hispano que todo o invade. A direita mais reaccionária governa-nos e nom existe oposiçom. Por enquanto, só nos deixam a opçom eleitoral da abstençom consciente e activa.

 

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