Ilitch 99

Georges Labica (artigo publicado no nº 14 de Abrente, Outubro de 1999)

Com relaçom a Marx, cuja morte foi consagrada depois dum século por enésima vez, certos dos seus adversários, os mais decididos, concordam em que jogou um grande papel e deixou umha obra, qualificada de "filosófica", dum verdadeiro interesse. Mesmo se chega a admitir, sob títulos jornalísticos tam provocadores como "o regresso de Marx", que o autor de O Capital nom teria mais do que umha fraca responsabilidade polos regimes que se reclamárom nele e que "o socialismo realmente existente" nom lhe seria atribuível. Mas Lenine? Recolheria de preferência todo o opróbio de que se dispensou o seu mestre. Corresponderia-lhe o rol de assassino e, em tanto que inspirador directo de Staline, de verdadeiro culpável. A procuradora Louise Harbour e o seu famoso Tribunal Internacional inculpariam-no com certeza de crime em contra da humanidade.

Em primeiro lugar, é digno de atençom: o horrível pavor que apanhárom os burgueses em Outubro de 17 e inspirou todos os seus maus umores -político, económico, militar e ideológico-, mudou-se em vingança de duas formas. A primeira, de carácter intelectual, que consiste, mercê dos bons ofícios de alguns doutos historiadores a soldo, em disfarçar a revoluçom de simples golpe de Estado, provocado por um bando de fanáticos com Ilitch à cabeça. Para dar mais da medida, completa-se a demonstraçom estendendo-se à Revoluçom Francesa, que cumpre desacreditar igualmente na sua funçom de "modelo" da de Outubro: Robespierre torna-se Staline e o Terror reproduz-se no goulag. O assunto fica claro desde essa altura. A segunda é de orde criminal. Debaixo do cajato de pastor, doravante incontestado pois nom tem competidor nengum, dos Estados Unidos, a destruiçom da Rússia após o rebentamento da URSS vê-se sistematicamente programada, como acaba de salientar Alexandre Zinoviez, por mais que se interdite, coa agressom da OTAN contra a Jugoslávia, toda tentativa de autodesenvolvimento, que tente desviar-se do ditado do liberalismo.

É um truísmo, de nengumha maneira um argumento, invocar a diferença de épocas. O tempo de Lenine nom é o nosso. É bem sabido. Nom seria questom pois de reproduzir as disposiçons que presidírom a constituiçom do Partido Social-Democrata da Rússia no começo do século e da sua fracçom bolchevique pouco depois. O elitismo revolucionário de Quê fazer?, entre outros, está sem dúvida caduco, ao menos para os países ocidentais, como o está a situaçom da Rússia de entom. Nom há espaço para deter-se em tais evidências. Polo contrário, o modo de andar de Lenine, em muitos aspectos, é mercedor de permanecer como exemplo. A prática política, de que elabora a teoria, e que, nom o esqueçamos, lhe permite realizar a primeira revoluçom proletária, situando-o dessarte, como dizia Luckács, "à altura de Marx", produz conceitos tais como alianças de classes -operários e camponeses, simbolizada pola fouce e o martelo-, relaçons de forças, controlo do económico polo político, e principalmente conjuntura, que se desenvolverá em "análise concreta dumha situaçom concreta". O fio condutor desta prática nom é outro que o ponto de vista de classe -da classe operária, que levara Marx, na sua própria expressom, a escrever O Capital-, que se transformava no princípio de leitura ou a lei de decifraçom, em primeiro lugar das situaçons políticas e sociais, para poder determinar, co máximo de precisom, as normas de acçom susceptíveis de mudá-las, adoptando tal táctica ou tal estratégia. Porém, esta atitude nom conjecturava, ao contrário do que julgárom os diversos dogmatismos burocráticos, a "aplicaçom" do marxismo, como se este último nom fosse outra cousa que um fornecedor de receitas universalmente válidas, senom mais bem pedir emprestado "à teoria de Marx os métodos sem os que é impossível compreender as relaçons sociais: por conseqüência, acrescentava Lenine, a sua apreciaçom destas relaçons nom tem por critério esquemas abstractos e outros despropósitos, mas a sua estrita conformidade coa realidade".

Ao Lenine que se viu no transe de infringir este princípio, afirmando, por exemplo, que o marxismo estava "fundido num só bloco de bronze", oporá-se o que, coa NEP, nom tem medo de tornar a pôr em questom os conceitos melhor estabelecidos, de cara a salvar a revoluçom.

Significa isso que, para pensar o nosso tempo -o da mundializaçom liberal-, do pensamento único e do recuo dos movimentos emancipatórios-, somente subsistiria o "método" de Ilitch? Seria fazer muito pouco caso dalgumhas grandes teses, cuja actualidade pode ser verificada cada dia e a oportunidade comprovada de modo militante. Do ponto de vista da análise do que Lenine denominava "o estádio supremo do capitalismo", basta lembrar a sua definiçom de imperialismo: extensom planetária, dominaçom do capital financeiro sobre o produtivo, e mesmo possibilidade dum "ultra-imperialismo", a propósito do que empreendia umha polémica com Kautski. Inferia-se a necessidade dum novo internacionalismo, que asseguraria a mais estreita solidariedade de combate entre os "proletários de todos os países", segundo o santo e senha do Manifesto, e "os povos e naçons oprimidos". Portanto, teriam de alargar-se igualmente as noçons de classes, ou de alianças, ao tempo que a de "classe operária" viria a recobrir o conjunto dos dominados. O direito das naçons e dos povos a disporem de si próprios é tamém concomitante. Quem ousaria hoje em dia negar que um tal direito é deliberadamente violado, e da forma mais brutal, em Granada, Panamá, Nicarágua ou Jugoslávia, precisamente polo imperialismo mais poderoso? Como nom qualificar de bárbaros os bloqueios impostos com tanta arbitrariedade aos povos de Cuba, Iraque ou Líbia, sem falarmos do apoio concedido a todo isto que o mundo conta entre as forças reaccionárias e os regimes racistas da Indonésia a Israel ou a Afeganistám? Fagamos mençom dum último traço, embora haja outros, a famosa questom do poder. Nom é indispensável lembrarmos aos seus depreciadores de todas a obediências que a conquista do poder continua a ser a finalidade de todo o movimento revolucionário e que debe exprimir-se e exercer-se, em caso de necessidade, de modo coercitivo, pola maioria, quer dizer, nom tendo medo nem das palavras nem dos consensos comprazentes, polo que Lenine, depois de Marx, qualificava de ditadura do proletariado. E que nom é outra cousa que a forma superior da democracia.

Desta presença (vigência) de Ilitch, pode proporcionar-se facilmente umha prova polo absurdo. Suponha-se que se deixa de lado a lamentável situaçom em que se acham os cidadaos dos antigos países socialistas, como conseqüência do "triunfo" da democracia de mercado, bastará com evocar a sorte dos partidos comunistas que, sob o pretexto de postas ao dia, renunciárom progressivamente ao poder dos trabalhadores, ao internacionalismo proletário e ao mesmo marxismo. Abandonam os explorados à sua desuniom e à submissom à ideologia dominante, mostram-se incapazes de proporem a menor alternativa ao liberalismo e nom servem mais do que para subempresteiros às socialdemocracias no poder. O reformismo, é outra liçom de Lenine, continua a ser o leito da burguesia.

A tentaçom desde logo é forte, em réplica às demissons è às covardias, e a despeito das mutaçons históricas, de dizer de novo, co grande revolucionário americano, C. L. R. James: "As usual, our only model is Lenin".

Georges Labica, filósofo, professor emérito da Universidade de Paris X-Nanterre, Director Honorário do Centro de Filosofia Política, Económica e Social do CNRS/Universidade de Paris X-Nanterrre. Autor de incontáveis trabalhos arredor do marximo. Mençom especial merece a coordenaçom, em colaboraçom com Gérard Bensussan, do presitgioso Dictionnaire critique du marxisme (1985, 2ª ed.). A ponto de sair da imprensa um livro, em colaboraçom sobre a guerra dos Balcáns. Aliás, está a trabalhar na criaçom dum Comité Internacional Anti-imperialista, que se dará a conhecer nos próximos meses.

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