Revoluçom

Michael Löwy (artigo publicado no nº 15 de Abrente, Janeiro de 2000)

A continuaçom reproduzimos para @s leitores/as do Abrente a colaboraçom enviada por Michael Löwy desde Paris, embora o artigo seja inédito também foi publicado no jornal Rouge. Agradecemos ao professor Domingos Antom Garcia a traduçom do texto originalmente escrito em francês.

Para os astrónomos, desde 1727, a "revoluçom" ‚ a rotaçom dum corpo arredor do seu eixo. Do ponto de vista socialista, revoluçom significa muito exactamente o contrário: interromper o curso monótono desta pseudo-civilizaçom capitalista ocidental à volta dela mesma, quebrar este eixo dumha vez por todas e criar a possibilidade de outro movimento, dum movimento mais livre e mais harmónico, dumha civilizaçom comunista/libertária de atracçom apaixonada (Fourier), dumha realizaçom efectiva da promessa utópica que encerram as palavras Democracia e Igualdade.

A ideia marxista da Revoluçom caracteriza-se acima de tudo pola sua natureza radicalmente democrática e anti-autoritária. Ao passo que os socialistas utópicos e os primeiros comunistas (discípulos de Babeuf) se reclamam do materialismo -os homes som produto das circunstáncias- carregam sobre um despota esclarecido ou umha minoria revolucionária o mudar das circunstáncias e o libertar o povo do obscurantismo, Marx situa-se noutro terreno filosófico e político. Através da sua ruptura coas premissas do materialismo mecánico -nas Teses sobre Feuerbach de 1845- formula o germe dumha nova filosofia e, ao mesmo tempo, os fundamentos metodológicos de face a umha nova teoria da Revoluçom.

Rejeitando à vez o velho materialismo mecánico -mudar as circunstáncias para libertar o ser humano- e o idealismo neo-hegeliano -libertar a consciência humana para mudar a sociedade- Marx cortou, coa sua filosofia da praxe, o nó górdio ideológico da época, proclamando -terceira Tese sobre Feuerbach- que na praxe revolucionária coincidem a mudança das circunstáncias e a transformaçom da consciência dos seres humanos. Daí deriva, com rigor e coerência lógica, a sua nova conceiçom da Revoluçom apresentada pola primeira vez n’A Ideologia Alemá: nom é mais que pola sua própria experiência, no curso da sua própria praxe revolucionária, que as massas exploradas e oprimidas podem quebrar à vez as "circunstáncias" sociais que as encadeiam -o Capital, o Estado- e a sua consciência mitificada anterior. Noutros termos: nom há outra forma de emancipaçom autêntica que a auto-emancipaçom. Como escreverá mais tarde Marx no Manifesto inaugural da 1ª Internacional (1864): "A emancipaçom dos trabalhadores será obra dos trabalhadores mesmos".

No quadro desta visom da revoluçom -que se refere, bem entendido, nom apenas à "toma do poder", quanto a todo um período histórico de transformaçom social ininterrompida, nom há lugar para qualquer "déspota esclarecido", individual ou colectivo, algum Salvador Supremo, algum César ou Tribuno libertador. Os antecedentes do culto do Chefe -Estaline, Mao, Kim-Il-Sung e doutra maneira Ceaucescu- é preciso procurá-los mais bem na história das religions, ou nos costumes do despotismo oriental -bizantino ou asiático- do que no pensamento do autor do Manifesto Comunista.

No andamento do século XX, logo do grande momento insurreicional de 1917-1923, a ideia marxiana de revoluçom auto-emancipatória foi reempraçada, na ideologia da esquerda realmente existente, por umha sorte de automatismo do "progresso", compartilhado polo estalinismo e pola socialdemocracia: o Socialismo era inevitável, era o comboio da história, bastava com navegar no sentido da corrente. A sua vitória estava assegurada: segundo uns pola produtividade crescente das fábricas soviéticas e segundo os outros pola acumulaçom das reformas sociais (na Europa ocidental).

Hoje, depois do desmoronamento do estalinismo e o abandono, pola socialdemocracia, de toda vocaçom de transformar a sociedade, o contexto variou: segundo o consenso dominante, o "progresso" nom pode realizar-se de nom ser no horizonte inalterável da orde burguesa. Nestas condiçons, a ideia da Revoluçom é ainda actual?. Nom se trata dumha peça de museu , ou dumha ilusom por nós "tam amada" (título dum célebre livro por uns ex-sessentaoitistas morigerados)?.

Explica-se-nos que o capitalismo (liberal, democrático, moderno, etc) é o fim da história, a etapa última da humanidade, a estaçom "terminus" em que tudo o mundo deve apear-se do comboio. E se o comboio continua de facto a rodar, direitinho ao abismo, à catástrofe, à ruptura do equilíbrio ecológico e à extinçom da vida do planeta?. Walter Benjamin escrevia em 1940 que a Revoluçom é o gesto salvador da humanidade puxando dos freios de urgência num comboio, a civilizaçom capitalista, que roda face à destruiçom.

Explica-se-nos também que nom há alternativa ao capitalismo, que toda procura de outra via conduz ao totalitarismo ou é umha ilusom, umha utopia, um sonho romántico, um anacronismo desusado. É mester pois renunciar a toda esperança de mudança? Lembre-se o célebre slogan da senhora Thatcher: "There is no alternative". É também, com pouca diferença, o argumento socialdemocrata actual. O reformismo mudou profundamente de natureza no curso dos últimos decénios: na sua forma socialdemocrata clássica tentava suprimir o capitalismo por umha sucesom de reformas decretadas polo Parlamento. Hoje, co social-liberalismo, que encontra na "Terceira Via" do senhor Blair e no "Novo Centro" do senhor Schröder a forma mais cínica (mas as diferenças cos outros partidos som mais semánticas do que substanciais) nom se trata dumha via reformista face o Socialismo, senom dumha "humanizaçom" do capitalismo, da introduçom dum suplemento de alma "social" num sistema capitalista -o termo foi substituído polo eufemismo "economia de mercado"- eterno por decreto.

A aspiraçom revolucionária nom é um sonho: apoia-se nas contradiçons do sistema, nos conflitos de classe e numha análise lúcida da realidade, que nos amostra que a "prosperidade" prometida polo sistema capitalista mundial é por força o privilégio dumha elite decrescente. Os países do Sul jamais poderám "alcançar" o Norte capitalista avançado, à vez porque o sistema imperialista imposto desde há um século nom permite a entrada doutras naçons (o Japom, em finais do século XIX, foi a última em unir-se ao bloco dos chamados “países ricos"), e porque a generalizaçom do mundo da produçom e consumo de Ocidente ‚ impossível por razons ecológicas evidentes. Por outra via, nos mesmos países do Norte o número de excluídos (pobres, desempregados, precários, imigrados) nom cessa de crescer, ao passo que os economistas explicam que o pleno emprego nunca chegará.

Nom cabe ser demasiado optimista: o partido revolucionário, o combate por umha nova sociedade, por umha cultura da solidariedade, da fraternidade, da esperança em contra da cultura capitalista do egoísmo individualista e da morte, enfronta-se a obstáculos consideráveis dos que nom é mais pequeno a decepçom causada polo fracasso dos pretendidos socialismos reais. Enquanto isso, acontecimentos como o levantamento zapatista de 1994, o grande movimento social de 1995 em França, a mobilizaçom internacional contra a OMC em Seattle revelam a existência dumha aspiraçom a umha mudança de paradigma. Embora esta mudança, e o cumprimento dos ideais libertários, igualitários e democráticos comuns ao Socialismo, ao movimento de emancipaçom das mulheres e à ecologia social, nom poderám realizar-se sem atacar as raízes da desorde estabelecida: a lei do benefício, a exploraçom capitalista, o imperialismo, o poder de classe do grande capital. Quer dizer, sem umha Revoluçom.

A revoluçom social, escrevia Marx no 18 Brumário, nom tira a sua poesia do passado senom do porvir. Tinha e nom tinha razom. Nom a tinha na medida em que a memória de Paris 1871, Petrogrado 1917, Budapeste e Munique 1919, Barcelona 1936, Havana 1959, Manágua 1979, Chiapas 1994 resta indispensável. Tinha-a, pois as revoluçons do século XXI serám novas e admiravelmente imprevisíveis.


Michael Löwy é doutor en Ciências Sociais pola Universidade da Sorbona e director de investigaçom no CRNS de Paris.

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