LULA E A ILUSOM DA MUDANÇA. Miguel Urbano Rodrigues
5 de Setembro de 2002
Antes de ir até
à Índia, o Brasil aparecia-me como o país do mundo mais
difícil de compreender.
Vivim 17 anos naquela
terra, sinto-me em casa cada vez que volto. A intimidade com o cenário
físico e humano nom derrubou, entretanto, a grande barreira. O mistério
brasileiro permanece para mim intacto. Identifico-me com o povo, amo-o, quase
pressinto nele os contornos de umha humanidade re-humanizada. Navego com familiaridade
entre os factos e a gente. Mas tenho enorme dificuldade em entender o rumo
que a historia ali segue. O Brasil derrota o esforço para ser compreendido
através da razom.
Se a historia se cumprisse
com um mínimo de lógica, o Brasil seria neste inicio do século
XXI nom somente um país desenvolvido como o padrom de umha sociedade
de abundáncia e de convívio harmonioso entre comunidades de
culturas e origens raciais diferentes.
O austríaco Stefan
Zweig, ao descobri-lo nas vésperas da II Guerra Mundial, vislumbrou
nele "O País do Futuro". A profecia nom se concretizou. O
sentido do movimento da história inverteu-se. O Brasil, em circunstáncias
conhecidas, começou a caminhar para trás. E a involuçom
prossegue.
Um sociólogo sueco que passou por Sam Paulo há duas semanas sintetizou num breve comentário o seu espanto: "Assistim a um debate na televisom, lim os jornais, visitei a Universidade, falei com muita gente. Sentim-me espectador de umha comédia aparente que oculta o desenrolar de umha tragédia".
A grande contradiçom
É minha convicçom
de que nom existe na América outro povo que tenha com o cubano afinidades
tam profundas como o brasileiro. A história e o idioma distanciou-nos.
Um fosso separa-os hoje no tocante à educaçom e à saúde
e aos sistemas político-institucionais. À desigualdade social
do Brasil -quase um recorde mundial- contrapom-se um regime que se propom
reduzi-la ao mínimo. Mas o abismo entre os Estados e as estruturas
sócio-económicas nom impede umha estranha aproximaçom
das idiossincrasias e dos povos. As raízes euro-africanas de ambos
estám na origem de mundividências, atitudes e formas de comportamento
cultural que, pola convergência, impressionam.
Pode-se objectar que enquanto
a violência, a droga e a marginalidade infantil marcam dramaticamente
o quotidiano das megalópolis brasileiras, Havana é a capital
mais segura da América, umha cidade que tem o culto da criança,
na qual os drogados constituem umha raridade trazida polo turismo.
A contradiçom nom
elimina o parentesco cultural. Empurra para umha pergunta: como explicar os
processos que levárom no Brasil a rupturas do tecido social muito profundas,
mas insuficientes para contaminar a esmagadora maioria do povo? Este gerou
os anticorpos que lhe permitírom preservar a sua especificidade cultural.
Sobreviveu à dupla
ameaça vinda de minorias formadas nos dous extremos da sociedade: umha
burguesia que renunciou ao desenvolvimento autónomo, transformando-se
em instrumento e apêndice do sistema de poder imperial; e umha camada
lumpen, em acelerado crescimento, resultante do funcionamento da própria
engrenagem da exploraçom, ou seja umha massa de dezenas de milhons
de párias, fonte da violência endémica, do crime organizado,
das redes de droga, da prostituiçom, da lama social cujos fios aparecem
entrançados com o poder.
O povo brasileiro, ou para ser mais preciso, a esmagadora maioria dos brasileiros permaneceu fiel às raízes. Governado como se fosse um protectorado, oprimido polos de cima, agredido pola invasom dos valores culturais assimilados polos sectores sociais mais contaminados pola máquina trituradora da globalizaçom neoliberal, e simultaneamente vítima da violência, da insegurança e da pressom desagregadora da massa de párias e das mafias do crime que brotam dos subterráneos da sociedade capitalista - o brasileiro que eu aprendim a respeitar e amar, o "homem cordial" definido polo historiador Sérgio Buarque de Holanda, esse resistiu. pola sobrevivência pagou um preço colossal.
Lula
A campanha eleitoral polariza
nestes dias a atençom de dezenas de milhons de brasileiros e é
acompanhada com interesse absorvente em todo o Continente Americano.
Nunca sentim atracçom
polos exercícios de futurologia política. Nom fago previsons
sobre o adversário de Lula na segunda volta; nem sobre o provável
desfecho, quer a luita pola presidência seja travada contra José
Serra ou contra Ciro Gomes.
Se fosse brasileiro votaria
por Lula. Mas somente pola ausência de umha alternativa. A sua candidatura
suscitou inicialmente grandes esperanças em amplos sectores da esquerda
brasileira. Emergiu como o candidato natural das forças progressistas
para as desiludir progressivamente.
Lula, nesta sua quarta tentativa de chegar ao Palácio do Planalto,
tem mais probabilidades de atingir o objectivo do que nas anteriores. Paradoxalmente,
nom é por mérito próprio que isso acontece, mas polo
total descrédito do sistema, pola aspiraçom de mudanças
profundas que se enraizou nas grandes maiorias. A convicçom de que
nunca como agora as condiçons para se tornar Presidente foram tam favoráveis
contribuiu -outro paradoxo- para que Lula, empenhado em obter o apoio de umha
ampla faixa da pequena e da media burguesia, esvaziasse o discurso de muito
do que lhe conferia significado e inspirava confiança aos trabalhadores.
De longe, tenho acompanhado
a sua campanha. Desaprovo-a mais polas posiçons assumidas do que polas
omissons. Nom seria razoável esperar dele um discurso como o dos dirigentes
do PC do B -o seu mais firme e leal aliado na eleiçom- cauteloso, mas
reflectindo a imagem de um partido revolucionário. Mas Lula foi tam
longe nas concessons que perdeu a confiança e o respeito de muitos
brasileiros que desejavam vê-lo assumir umha postura muito diferente.
Admito que o erro na opçom estratégica cabe no fundamental à
direcçom do PT.
A perseguiçom ao
voto, quando se torna obsessiva, implica a perda da lucidez. A conquista da
Presidência proporciona num país como o Brasil a obtençom
das insígnias do poder. Mas o Poder real, qualquer que seja o eleito,
nom mudará de maos. A engrenagem que o controla, externa e interna,
modelou o quadro institucional de forma a impedir a mudança do sistema.
Numha democracia representativa
latino-americana de estrutura presidencial nom é indiferente que o
presidente seja um procônsul de Washington ou um político patriota
e progressista. Mas é umha ingenuidade crer que instituiçons
ideadas e impostas pola burguesia podam servir para transformaçons
profundas do sistema incompatíveis com a lógica do seu funcionamento.
A ideia de que as concessons
de campanha proporcionam os votos que podem levar à vitoria e som irrelevantes
porque, conquistado o Poder, umha guinada no leme marcaria, entom, o rumo
progressista do governo de Lula assenta numa análise ingénua
e falsa da realidade, para nom dizer oportunista.
Nom foi por acaso que
a embaixadora dos Estados Unidos em Brasília manifestou publicamente
o seu apreço por Lula e que Fernando Henrique ensaiou umha aproximaçom,
deixando transparecer o seu eventual apoio ao candidato do PT, na hipótese
de Serra nom ser o seu adversário na segunda volta. É transparente
que ambos deixárom de identificar em Lula umha ameaça ao sistema.
Porquê essa súbita benevolência?
A aceitaçom de
Lula resultaria da conclusom a que chegárom de que seria um presidente
assimilável, ou, para ser mais preciso, um presidente que se conformaria
com as regras básicas da dominaçom imperial.
Tal conclusom é
prematura. A natureza de classe de um governo nom depende exclusivamente do
seu chefe, nem do projecto do seu partido. No caso do Brasil pesariam muito
o envolvimento internacional num contexto da crise global latino-americana,
condicionamentos por ora imprevisíveis e o comportamento das forças
sociais que apoiariam o governo e das que a ele se oporiam. Nom duvido da
integridade pessoal de Lula nem da sua convicçom de que "depois"
poderia mudar de estilo e de linguagem, deslocando-se para a esquerda.
Mas as suas boas intençons
contam menos do que as cedências feitas ao longo da campanha. O tacticismo,
como dizia Lenine, é umha forma de oportunismo político. Lula
-cito apenas alguns exemplos chocantes- nunca deveria ter afirmado que, se
presidente, nom tolerará ocupaçons, tal como nom deveria ter-se
comprometido a respeitar os acordos com o FMI assinados pola actual administraçom.
Para tranquilizar a direita e o imperialismo distanciou-se do MST, talvez
hoje o movimento mais importante da esquerda latino-americana e, o que é
ainda mais grave, escancarou a porta à capitulaçom perante os
mecanismos da dominaçom estrangeira que, ele sabe, som responsáveis
polo ciclo dramático da dependência económica e política
e impedem o desenvolvimento autónomo do país.
A escolha para seu vice-presidente
de um grande empresário mineiro ligado ao Partido Liberal controlado
pola mafiosa Igreja Universal do Reino de Deus, foi outra decisom eleiçoeira
que lhe prejudicou a imagem, tal como o acordo com o ex-presidente Sarney.
É significativo
que o Conselho Nacional dos Bispos do Brasil tenha sentido a necessidade de
lhe dirigir duas criticas polo oportunismo das posiçons assumidas.
Nom estamos perante atitudes isoladas. Em Novembro, em Havana, durante a Conferência Anti-Alca, tivem a oportunidade de escuitar um discurso de Lula que, polo seu pessimismo difuso, transmitia umha mensagem desmobilizadora num momento em que o combate ao projecto de colonizaçom continental dos EUA é na América Latina, como totalidade, umha frente de luita prioritária.
Posteriormente, o PT decidiu nom participar no plebiscito sobre a integraçom do Brasil na Alca. Lula permaneceu mudo ante esse gesto capitulador. Aliás, Lula nunca se opujo frontalmente ao projecto recolonizador e defendeu publicamente que, com algumhas mudanças cosméticas, "outra ALCA é possível"...
Nom ao fatalismo
O Brasil é, potencialmente,
um dos países mais ricos do mundo. Com excepçom da Rússia,
talvez nom exista outro que o iguale em recursos naturais. Dispom de um sector
avançado que o coloca logo após os países industrializados
do G-7.
Os mecanismos da dependência,
entretanto, empurram-no para trás. Nas últimas décadas
acumulou fracassos.
O balanço dos dous
mandatos de Fernando Henrique é esclarecedor daquilo que nom se deve
fazer.
FHC foi na juventude um dos mais brilhantes e talentosos sociólogos
da América Latina. Na Universidade de Som Paulo, quando o conhecim,
chamavam-lhe "O Príncipe". Dizia-se entom marxista. Foi expulso
da universidade e no exílio escreveu com o chileno Enzo Faletto um
livro importante -a Teoria da Dependência- em que desmontava os mecanismos
da dominaçom imperialista.
Mais tarde renegou essa
obra e na Presidência, após a sua conversom ao neoliberalismo,
comportou-se como aliado preferencial do sistema de poder dos EUA.
Lula nom desconhece o
funcionamento da engrenagem de dominaçom. Denunciou-no desde a juventude,
como líder sindical. Sabe que o povo brasileiro (como quase todos na
América Latina) trabalha para pagar um endividamento que nom pára
de crescer. O diabolismo do sistema tem regras rígidas. A falsa ajuda,
vinda sob a forma de empréstimos, créditos, investimentos que
geram royalties escorchantes, etc, suga os excedentes, condiciona as opçons
estratégicas, fai do país umha colónia de novo tipo.
Lula combateu sempre com
firmeza esses mecanismos e as políticas desenvolvidas para os impor.
Agora, na sua quarta
tentativa de conquista da Presidência, tornou-se personagem de umha
estratégia que, ao torná-lo cúmplice do sistema, se choca
frontalmente com as aspiraçons do seu povo.
A capitulaçom verifica-se
num momento de crise global da civilizaçom, quando o sistema de poder
imperial dos EUA desenvolve um projecto de ditadura militar planetária
de contornos fascistizantes.
A direcçom do PT
e o seu candidato estám demonstrando incapacidade de entender as liçons
da história. A tragédia chilena e o inquietante bloqueio do
projecto bolivariano de Hugo Chavez iluminam com nitidez umha realidade. A
chamada via pacífica para umha transformaçom da sociedade capitalista
que a humanize nom é viável na América Latina no actual
contexto histórico. O poder da burguesia, inseparável do poder
transnacional a que está submetida, nom pode ser destruído no
quadro institucional por ela criado para lhe servir os objectivos de classe
e os interesses do sistema de poder imperial.
É indispensável
utilizar os mecanismos da falsa democracia representativa para combater por
todos os meios a engrenagem de dominaçom política e económica
que exclui a participaçom do povo, ou seja do sujeito da historia.
Mas sem ilusons, sem confundir as insígnias do poder com o poder real.
O PT e Lula demonstram com a sua campanha, semeada de concessons oportunistas,
nom ter assimilado essa evidencia.
O despertar pode demorar
um pouco se Lula chegar à Presidência. Mas será, em qualquer
hipótese, doloroso.
O lema do Fórum
Social Mundial - "Um outro mundo é possível" - responde
à esperança da humanidade. A engrenagem da globalizaçom
neoliberal e o sistema de poder imperial que a impom nom vam perpetuar-se.
Som vulneráveis e, pola sua própria irracionalidade, contenhem
as sementes da sua própria destruiçom.
Combatê-los frontalmente é umha exigência da história. Luitar contra eles optando polo caminho das concessons, do oportunismo, é um erro gravíssimo.
Miguel
Urbano Rodrigues é jornalista e
militante comunista português residente na América Latina