PO nº 88 Jan-Fev 2003

Marx e as mulheres

 Ana Barradas

 Só muito lentamente e defrontando forte oposiçom a causa da emancipaçom da mulher tem sido aceite na teoria e na prática dos partidos marxistas. Ainda há um longo caminho a percorrer.

Nos seus estudos sobre Marx (Promethean vision on Man/Woman relationships, 1984), Raya Dunayevskaya* defende que os escritos do ilustre filósofo nunca tivérom por único objecto os homens. Isso demonstra-o, por exemplo, o capítulo sob o título “A jornada de trabalho” em O Capital, que descreve a exploraçom brutal das mulheres e crianças no trabalho capitalista. Marx acreditava que, noutras circunstáncias históricas, o trabalho cooperativo de homens e mulheres pode criar novas condiçons económicas que promovam o desenvolvimento humano, aperfeiçoando as relaçons entre os sexos e elevando a forma assumida pola família. Isto indica que ele acreditava firmemente que a relaçom Homem/Mulher é a relaçom humana fundamental cujo desenvolvimento é imperativo para o progresso da espécie humana.

Aliás afirma expressamente isso mesmo, nos seus “Manuscritos”, de 1844: “Nas relaçons com a mulher... exprime-se a infinita degradaçom em que o homem existe para si próprio... A relaçom imediata, natural e necessária do ser humano com o ser humano é também a relaçom do homem com a mulher... Assim, nesta relaçom revela-se sensorialmente, reduzido a um facto observável, até que ponto a natureza humana se tornou natureza para o homem e a natureza se tornou natureza humana para ele. A partir desta relaçom pode-se avaliar todo o nível de desenvolvimento do homem. Decorre do carácter desta relaçom o ponto a que o homem se tornou, e se compreendeu a si próprio, como o ser de umha espécie, um ser humano. A relaçom do homem com a mulher é a relaçom mais natural de um ser humano com outro ser humano. Indica, portanto, até que ponto o comportamento natural do homem se tornou humano, e até que ponto a sua essência humana se tornou umha essência natural para ele, até que ponto a natureza humana se tornou natureza para ele.”

Dunayevskaya prossegue a sua demonstraçom sobre o grande significado que para Marx tinha a questom feminina, através de exemplos práticos: quando em 1853-54 se deu umha greve na cidade inglesa de Preston, com a participaçom de 15 000 trabalhadores que protestavam contra as condiçons de trabalho, Marx descreveu, no New York Tribune, pormenorizadamente e em particular, a exploraçom das mulheres. E quando lady Bulwer-Lytton, mulher de um político conservador que em 1858 tentou contestar publicamente as ideias do marido, foi dada como louca e internada num asilo polo marido e o filho, Marx defendeu-a e apoiou-a, denunciando veementemente os jornais dominantes polo seu chauvinismo. Na altura em que participou activamente na Primeira Internacional, Marx propujo ao Conselho Geral que o Congresso procedesse a umha discussom prática sobre a forma como poderia servir de centro de acçom para os operários, “homens e mulheres”. Também elogiou os progressos da “American Labor Union” polo tratamento igualitário que dava às trabalhadoras, bem como a eleiçom pola Primeira Internacional de umha mulher (Harriet Law) para o seu Conselho Geral. Além disso, foi por recomendaçom sua que Elizabeth Dmitrieva se deslocou a Paris, onde esta participou activamente na Comuna, tornando-se umha das animadoras da Uniom das Mulheres pola Defesa de Paris e Cuidados aos Feridos, a secçom feminina da Primeira Internacional.

Aqui impom-se um comentário: Dunayevskaya que nos desculpe, mas todo isto, sem dúvida meritório em si mesmo, é contodo esperável de qualquer pessoa progressista daquela época. Por aqui nom se prova que Marx tivesse umha perspectiva antipatriarcal absolutamente acabada e consciente. Polo contrário, como marxistas, hoje devemos concluir que o antipatriarcalismo de Marx era ainda limitado.

E nom se pode dizer que nom houvesse elementos naquela época que permitissem umha concepçom mais arrojada. Bastarám alguns dados para se concluir que sim (ver caixa). Marx, atento como sempre estivo aos sinais de mudança, nom podia deixar de estar informado e ao corrente de todo este vibrante movimento pola emancipaçom feminina. Dado o seu total silêncio sobre este tema, é legítimo concluir que, apesar da sua visom avançada, nom se apercebia da virulência do regime patriarcal, da dimensom da luita que as mulheres começavam a travar polos direitos e do papel essencial que lhes cabe para amadurecer as condiçons para a revoluçom socialista.

 

NOVA VISOM SOBRE AS MULHERES

 

Ainda segundo Dunayevskaya, as ideias de Marx sobre as relaçons homem/mulher terám evoluído, embora sempre com a mesma base, como se pode ver na sua última obra, The Ethnological Notebooks, escrita nos anos 1880. Há muito quem considere que essa última década da sua vida terá sido a da sua morte intelectual, na medida em que abandonou a tarefa de completar O Capital para se dedicar à investigaçom antropológica. No entanto, Dunayevskaya afirma que Marx estava longe da decrepitude: esses últimos anos terám completado “quarenta anos do seu pensamento sobre o desenvolvimento humano e as suas luitas pola liberdade”.

A novidade neste período final de Marx, segundo ela, foi ter-se interessado pola diversidade das formas como homens e mulheres tinham moldado a sua história nas sociedades pré-capitalistas, a pluridimensionalidade do desenvolvimento humano à escala global. Ao estudar o assunto, Marx, surpreendido, reconheceu características positivas nessas experiências: o papel importante e a grande liberdade das mulheres iroquesas antes da destruiçom das sociedades nativas americanas, as comunas agrícolas primitivas e a resistência à conquista capitalista afiguraram-se-lhes como precursoras da “revoluçom humana” que preconizava contra o capitalismo.

Terá-se registado um salto qualitativo no seu pensamento: concluiu que a “civilizaçom” e o imperialismo tinham tido o efeito de privar definitivamente as mulheres da sua liberdade e tomou consciência do papel crítico das mulheres nas revoluçons. Os conceitos filosóficos dos Manuscritos de 1844 terám sido completados pola noçom de que, como o colonialismo capitalista assumira formas tam profundas, seria necessário proceder de forma igualmente profunda ao seu desenraizamento. Nom bastaria repor a igualdade entre os sexos do início do comunismo primitivo, abria-se a possibilidade de novas relaçons humanas, que surgiriam de um novo tipo de revoluçom, umha “revoluçom permanente”, um movimento de “transformaçom absoluta”. O papel das mulheres na sociedade capitalista, na revoluçom e no progresso da essência humana adquiriu para Marx umha nova dimensom, demonstrativa da maturidade das suas ideias.

Polo facto de Marx ter “encomendado” a escrita de A origem da família, da propriedade e do Estado (1884) a Engels, parte-se do princípio de que ambos viam o assunto da mesma maneira. Mas há diferenças importantes: Engels pensava que as mulheres se libertariam pola dissoluçom da propriedade privada e do sistema de classes, atribuindo todos os males de que padece a condiçom feminina à sociedade capitalista. Mas a posiçom de Marx era mais complexa: o elemento da opressom em geral, e das mulheres em particular, surgiu dentro do próprio comunismo primitivo e nom estivo apenas relacionado com umha mudança do matriarcado, quando começam a dominar a propriedade privada e do sistema de classes. Para Marx, foi sempre decisivo o “ambiente histórico”, e nom as características de determinada sociedade. Assim, a evoluçom da natureza humana através da história, o surgimento de um novo “ambiente histórico”, levará à aboliçom da sociedade de classes e ao desenvolvimento total da essência humana.

 

AS FEMINISTAS MARXISTAS TÊM RAZOM

 

As feministas marxistas som umha corrente que se reivindica do marxismo mas nom aceita a posiçom maioritária, eivada de machismo encapotado, prevalecente nos partidos comunistas. Ao mesmo tempo, opom-se às mil e umha correntes do feminismo maioritário, muitas delas fortemente antimarxistas, e criticam os compromissos que têm vindo a assumir com o reformismo burguês, embora reconheçam que por vezes defendem questons válidas, que permitem algumha unidade de base. Acusam Marx de ter sido indiferente às necessidades das mulheres e à emancipaçom feminina e identificam taxativamente as suas ideias sobre o assunto com as de Engels.

Nom é bem assim, mas a verdade é que Marx nunca escreveu nengum texto sistematizando as suas opinions sobre o tema da emancipaçom feminina. Por isso Raya Dunayevskaya tivo de procurar indícios reveladores na sua obra e nos seus actos. Além disso, depois da morte de Marx, assistimos à reproduçom espontánea do patriarcalismo também no campo marxista. A tradiçom marxista subseqüente praticamente abandonou a reflexom e a pesquisa em volta desses temas, até o surgimento dessas correntes de feministas marxistas acima referidas, a partir dos anos 1960.

Vejamos portanto quais as insuficiências que se podem, com justiça, apontar ao seu pensamento de Marx sobre a condiçom feminina:

– Refere-se à natureza essencialmente humana da relaçom entre homens e mulheres, mas nom às suas diferenças e o modo de alienaçom específico da mulher, decorrente da sua sexualidade (a reproduçom da espécie, que tende a confinar a mulher à casa, o controlo da natalidade, o aborto, etc.), que hoje sabemos serem decisivas para explicar e compreender a desigualdade (as tarefas da reproduçom e da reconstituiçom da força de trabalho, a violência conjugal, o modelo de família, o divórcio, etc., isto é, os reflexos na vida das mulheres do regime de patriarcado em geral).

– Marx compreende a diferença da exploraçom capitalista que se exerce sobre as mulheres, mas apenas as vê como trabalhadoras ou produtoras. Ficam de fora todas as interacçons entre sexos que se desenvolvem fora do processo do trabalho, em especial a alienaçom sexual e a subordinaçom através da sexualidade.

– A dominaçom do género masculino sobre o feminismo nom é apontada como um impedimento à emancipaçom da espécie, que se processaria polo simples desenvolvimento histórico de umha fase da sociedade para a seguinte. Para Marx, a relaçom entre os sexos é em si factor de evoluçom social e portanto está relacionado e acompanha o processo da evoluçom social. Sabemos que nom é assim, porque as experiências de sociedades mais avançadas revelárom que a desigualdade permanece, mesmo quando aperfeiçoadas as bases materiais. Há umha resistência específica à mudança nestas manifestaçons atávicas das relaçons humanas, muito anterior ao relacionamento moderno entre os sexos, que tem permanecido ao longo da história. A revoluçom soviética esboçou, nos seus primeiros anos, passos inovadores quanto à condiçom da mulher, que dérom um poderoso impulso ao movimento feminista no mundo capitalista, mas todo voltou para trás porque a sociedade russa nom tivo condiçons para passar ao socialismo e porque a própria revoluçom se fijo com as mulheres num papel de servas dos homens. Surgiu assim o patriarcalismo “socialista” de Estaline, caricatura que os comunistas rejeitam. Ele ressurgirá sempre, sob as mais diversas formas, enquanto os comunistas nom lhe derem luita.

 

A resistência patriarcal obstinada nas fileiras dos teóricos marxistas, dos partidos comunistas e dos seus quadros dirigentes, que continuamente “reconhecem” a importáncia da emancipaçom da mulher e continuamente lhe levantam obstáculos, indica-nos que o marxismo precisa de abordar com muito mais rigor e intransigência esta questom. Ninguém se convença que pode haver umha revoluçom socialista vitoriosa em qualquer parte do mundo se for feita por homens e com as mulheres reduzidas à posiçom de espectadoras ou, quando muito, de colaboradoras subalternas. A revoluçom do proletariado feita por metade do proletariado é umha ideia aberrante nascida na cabeça de machistas tam empedernidos que até se tomam por “evoluídos”.

 

 

(caixa)

 

Os primeiros jornais feministas surgem na Inglaterra e na França nos começos do século xix. Elizabeth Sharples edita o seu próprio periódico Isis. As francesas lançam La femme libre, La Femme Nouvelle e La Tribune des femmes. Depois do envolvimento activo de várias mulheres nas revoluçons de 1848 e na agitaçom nacionalista dos anos 60, os governos francês, prussiano e austríaco proibiram a participaçom de todas elas em qualquer actividade política. Em 1840, os abolicionistas que em Londres organizaram a Convençom Mundial Contra a Escravatura rejeitam a participaçom das delegadas americanas, que no seu país muito se haviam destacado nesta área. Lucretia Mott e Elizabeth Cady Stanton, apesar de muito famosas na época, viram-se obrigadas a assistir aos trabalhos da conferência escondidas atrás de umha cortina, facto este muito comentado nos jornais. Flora Tristan (1803-1844), que em 1837 apresentou umha petiçom à Cámara de Deputados para o restabelecimento do divórcio em França, afirmava – antes de A Origem da Família de Engels e Marx – que as mulheres som “o proletariado do proletariado”, visto que “o homem mais oprimido pode oprimir um ser humano, a sua mulher”; a partir dessa ideia, estabeleceu nos seus escritos um elo directo entre os interesses da causa das mulheres e a da classe operária, ambas exploradas e oprimidas, fazendo umha intensa campanha de propaganda em prol da necessidade de articular a luita pola emancipaçom comum. Em 1849, a alemá Luise Dittmar fundou a revista feminista Reforma Social. Pola mesma altura, as francesas Eugénie Niboyet, Désirée Véret Gay e Jeanne Deroin criaram o influente jornal La Voix des Femmes, que levou John Stuart Mill a insistir com a futura esposa, Harriet Taylor, para que terminasse o seu ensaio sobre feminismo, mais tarde publicado sob o título "Libertaçom das Mulheres” na Westminster Review. Em 1880 forma-se em França a Sociedade dos Amigos do Divórcio, que interessava sobretodo às mulheres. Tinham alastrado também para os Estados Unidos da América, rapidamente e com grande ímpeto, as campanhas polos direitos à igualdade. Depressa se formou no novo país um movimento muito combativo de mulheres que, tendo começado por luitar contra a escravatura e pola abstinência e a proibiçom do consumo de álcool em público, logo se dérom conta de que a causa pola sua própria emancipaçom era mais premente que todas as outras. Em termos mais pessoais, sabe-se, por exemplo, que a família Marx se relacionou intimamente com a feminista Olive Schreiner, visita freqüente da sua casa.

Prosseguiam entretanto os contactos internacionais entre as feministas, que se escreviam e visitavam, dando-se a conhecer as respectivas proclamaçons e convençons e apoiando e divulgando as luitas umhas das outras. Assim se foi formado o movimento feminista internacional do século xix, que nom só tivo um papel ideológico decisivo como foi muito útil na medida ao proporcionou solidariedade e enquadramento às perseguidas ou obrigadas a exilar-se na seqüência da derrota das revoluçons de 1848 e da Comuna de Paris em 1871.

De 1875 a 1914, editárom-se cerca de cem publicaçons militantes em França, com destaque para Les Droits des Femmes de Léon Richer e Maria Deraismes ou La Fronde de Marguerite Durand, considerado um dos melhores periódicos franceses da época. Hubertine Auclert (1848-1914) fundou em Paris, em 1881, o jornal La Citoyenne, que nesse mesmo ano organizou na praça da Bastilha umha manifestaçom pola igualdade política e civil das mulheres. Foi também fundadora de Le Droit des Femmes, primeiro grupo sufragista, que em 1883 passa a chamar-se Le Suffrage des Femmes. Em 1885 apresentou-se às eleiçons legislativas, fazendo propaganda por umha remuneraçom às maes polos "serviços indispensáveis prestados ao Estado". E podíamos prosseguir com muitos outros exemplos.



* Raya Dunayevskaya (1910-1987) nasceu na Ucránia e imigrou com os pais para Chicago em 1920 para fugir à fame; aos 14 anos foi expulsa do Partido Comunista americano por trotskismo.

É autora da primeira traduçom para inglês dos Manuscritos Económicos e Filosóficos de Marx. Nos anos 30, durante algum tempo foi secretária de Trotsky; mas acabou por se opor à posiçom deste sobre o “estatismo”. Também entrou em polémica com os “marxistas humanistas” (Fromm, Marcuse, Lukacs) por se opor ao estalinismo. Além disso, traduziu as Notas Filosóficas de Lenine, que a guiaram em todas as posturas políticas ao longo da vida. No entanto, nos últimos anos de vida passou a criticar Lenine por causa da sua teoria do Partido.

Escreveu inúmeros artigos, livros e outros documentos, assumidos como base teórica polos actuais marxistas humanistas. Na Internet pode-se encontrar um extenso Raya Dunayevskaya Archive, além de muitas outras referências.

 


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