Revoluçom e contra-revoluçom

Ademar Bogo, militante do MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra) brasileiro, do Sector de Formaçom. A presente comunicaçom foi apresentada no Encontro Internacional "Civilizaçom ou Barbárie", Serpa, Setembro de 2004. Tirado do web de Resistir.info

Há quem queira dividir o mundo entre "bons" e "maus", mas nom é correcto fazer isto Podemos sim, entender e dividir o mundo de outras maneiras; entre pobres e ricos; entre os que comem e os que nom comem; entre revolucionários e contra-revolucionários etc.

Somos por natureza nómades e migrantes, porque estamos sempre em busca de soluçons. Acontece que, na actualidade, o capitalismo já nom apresenta soluçons e por isso os povos migram sem destino.

Temos um poeta brasileiro, João Cabral de Melo Neto, que há cinqüenta anos atrás já previa poeticamente a barbárie. A regiom em que ele viveu é o Nordeste do país onde temos dez milhons de camponeses pobres; e por ser umha regiom seca, ele dixo-nos que ali a vida e também a morte som severas ou "Severina". Elas existem, e desenvolvem-se dentro dos seres humanos, e por isso as pessoas costumeiramente som batizadas com este nome: Severino ou Severina.

Nessa mesma regiom, chegamos a ter umha populaçom em que a média de altura chegou a ser 1,57m (um metro e cinqüenta e sete centímetros) e por isso as pessoas som conhecidas pola denominaçom sociológica de "Gabirús". Destes locais, fugindo da seca as pessoas vam deixando para trás o destino feito com todos os tipos de carências e por isso migram em busca de melhores dias, mas estes, nom estám em lugar nengum. Por isso, bem descreveu o poeta, "somos todos Severinos", no seu poema Morte e Vida Severina. E dixo assim:

"O meu nome é Severino
Não tive outro de Pia
Como há tantos Severinos
Que é santo de romaria
Deram então de me chamar
Severino de Maria.
Como há muitos Severinos
Com mães chamadas marias
Fiquei sendo o da Maria
Do finado Zacarias.
Mas isto ainda diz pouco
Há muitos na freguesia
Por causa de um coronel
Que se chamou Zacarias
E que foi o mais antigo
Senhor destas sesmarias.
Como então dizer quem fala
Ora a vossas senhorias?
Vejamos: É o Severino
Da Maria do Zacarias
Lá da Serra da Costela
Limite da Paraíba.
Mas isto ainda diz pouco
Se ao menos mais cinco havia
Com nome de Severino
Com mães chamadas marias
Mulheres de outros tantos
Já finados zacarias
Vivendo na mesma serra
Magra e ossuda em que eu vivia.

Somos todos severinos
Iguais em tudo na vida
Na mesma cabeça grande
Que a custa é que se equilibra
No mesmo ventre crescido
Sobre as mesmas pernas finas
E iguais também porque o sangue
Que usamos tem pouca tinta.

E se somos severinos
Iguais em tudo e na vida
Morremos de morte igual
Mesma morte severina
Que é a morte de que se morre
De velhice antes dos trinta
De emboscada antes dos vinte
De fome um pouco por dia.
De fraqueza e de doença
É que a morte severina
Ataca em qualquer idade
E até gente não nascida.

Somos todos severinos
Iguais em tudo e na sina
Há de abrandar estas pedras
Suando-se muito em cima
Há de tentar despertar
Terra sempre mais extinta
E há de tentar arrancar
Algum roçado das cinzas.
Mas para que nos conheçam
Melhor essas senhorias
E melhor possam saber
A história de nossa vida:
Somos todos severinos
Que pelo planeta emigra".

O nosso tema hoje, dentro desta ampla discussom sobre "Civilizaçom ou Barbárie" é Revoluçom e Contra-revoluçom, juntamente com a ALCA, a Via Institucional na Luita Polo Poder e a Actualidade do Marxismo.

Podemos iniciar dizendo que, se entendemos a revoluçom como um processo longo, sem tempo e lugar para chegar, concluiremos que estamos a caminho e todas as iniciativas e esforços som úteis dentro deste tempo indefinido. Se entendemos que a revoluçom pode ser um processo longo, mas que há um momento em que as forças revolucionárias necessitam definir com quem fica o poder, entom estamos em desvantagem em relaçom a contra-revoluçom.

A nossa intençom aqui é falar de cousas muito práticas que estám ligadas às circunstáncias históricas e a própria trajectória que a revoluçom e a contra-revoluçom tivérom na América Latina.

Quando iniciamos o nosso Movimento, tínhamos no Brasil umha ditadura militar, e portanto, um general na presidência da República. Completamos 20 anos e temos hoje um operário governando o País. Embora o operário fosse, na época, perseguido polo general polas suas ideias e práticas revolucionárias, ao chegar ao governo nom fijo avançar a revoluçom, pois se propujo a dar continuidade ao modelo económico estabelecido pola ordem política, económica e militar das potências capitalistas mundiais.

Mas isto nom ocorreu apenas no Brasil! Quando iniciamos o nosso Movimento em 1984, vivíamos o auge do triunfo da revoluçom nicaraguana. As luitas guerrilheiras da Guatemala, Peru, Colômbia e principalmente, o processo revolucionário de El Salvador, dizia-nos que a revoluçom estava batendo à nossa porta e que a conquista do poder e a construçom do socialismo era umha questom de tempo apenas. As condiçons estavam dadas.

A ideologia e a filosofia marxista faziam parte desta cultura de luitas e nom se encerravam actos e encontros sem antes gritarmos com o punho esquerdo levantado: Viva a revoluçom e o socialismo!

Presenciamos um processo de desconstruçom combinado. Tivemos no Brasil em 1989 umha derrota eleitoral ao mesmo tempo em que na Alemanha se derrubava o muro que separava o socialismo do capitalismo. Logo em seguida ruiu o bloco socialista do Leste Europeu e junto começou a desmoronar na consciência de intelectuais e lideres políticos o património do conhecimento marxista, colocando-se sobre ele o que se está chamando de "pensamento Pós-modermo", que nom explica nada, ao contrário, confunde e desqualifica o mundo das ideias e das práticas.

Desta forma percebemos que a contra-revoluçom avançou e se desenvolveu por dous caminhos: Liberalismo e reformismo.

Primeiro - O liberalismo ou neo-liberalismo, tornou-se o referencial das forças de direita; estas rearticulárom o modelo, recolocárom as suas forças e atacárom com meios mais suaves do que a violência física praticadas polas ditaduras em quase todos os nossos países latino-americanos.

Primeiramente fôrom vítimas do modelo as categorias operárias e dos serviços públicos. Os meios usados, eficientemente, fôrom as privatizaçons e o emprego de tecnologias avançadas. Ao mesmo tempo em que rebaixavam os salários desempregavam em massas os operários das fábricas.

A classe operária foi diminuída no seu tamanho. O capital externo apropriou-se do património público nacional e os governos colocárom-se a serviço do império tornando os Estados mais violentos e menos prestativos.

Esta articulaçom entre: empresas, capital financeiro, Estados nacionais e o império, figérom este trabalho de aniquilamento das forças revolucionárias e agora, após terem feito este desmonte estrutural da economia nacional urbana, voltam-se para a agricultura e para os locais que concentram matérias-primas fundamentais para umha nova impulsom do capitalismo, como é o caso das florestas, dos minérios, da água doce e das sementes.

Neste sentido é que o modelo se torna imperial do tipo exploraçom neo-colonial, onde os países, além de serem saqueados de suas riquezas, som desautorizados de sua soberania e anexados ao poder central do império de um único país.

De que maneira isto se concretiza?

Através polo menos de três aspectos:

a) Económico - voltamos ao patamar de colónia. O meio de acumulaçom é o saque e a apropriaçom indevida das riquezas naturais, com o uso da violência física e moral. Os indígenas agora somos todos a grande maioria dos 800 milhons de seres humanos que vivemos nesta Área de Livre Comércio formada por 34 países.

b) Político, jurídico e militar- As decisons, políticas as condenaçons e os ataques militares virám de fora das colónias. O império tem a sua casa protegida, por isso ataca os bárbaros e nom civilizados fora do seu território.

c) Cultural - O império necessita destruir os valores e hábitos culturais para erradicar as resistências e controlar as desobediências. As diferenças incomodam demais e o ciúme "civilizatório" nom permite que as cousas mais belas e interessantes nom estejam sob o seu poder. Por isso, nom tendo capacidade de absorvê-las e utilizá-las, as destrói como o meninho rico que rasga a bola do menino pobre feita de meia, porque nom sabe jogar de pés descalços.

Segundo - O reformismo e o oportunismo tornárom-se prática das forças de esquerda. Estas, no momento em que deveriam organizar e precipitar a revoluçom, entrárom em descompasso com o tempo diminuindo o potencial organizativo, rebaixando o nível ideológico, descaracterizando a própria identidade e destruindo a auto-estima militante.

Neste sentido é que podemos perceber polo menos três grandes limitaçons que levárom a colaborar com a contra-revoluçom.

1º- O CUIDADO DA REVOLUÇOM

As forças contra-revolucionárias cuidam da contra-revoluçom, mas as forças "revolucionárias" descuidárom-se desta tarefa e passárom a cuidar de alternativas que interceptárom o caminho da revoluçom.

Se aos movimentos sociais e aos sindicatos cabia cuidar da luita por conquistas imediatas, aos partidos políticos cabia a responsabilidade da formulaçom estratégica que indicasse o caminho para a tomada do poder. Como isto nom ocorreu, e os partidos na sua totalidade (ao se dedicarem aos processos eleitorais), retrocedêrom à natureza ao nível dos movimentos de massas, tornado-se em vários casos em partidos cartoriais, de massas para uso eleitoral apenas.

2º- A RELAÇOM ENTRE A LUITA ECONÓMICA E A LUITA POLÍTICA

Na medida em que o modelo económico do império foi ganhando qualidade, as luitas corporativas fôrom perdendo a importáncia no sentido em que as suas tácticas nom atacavam o inimigo principal. Neste sentido, a falta de visom estratégica das forças políticas levárom também ao esgotamento das luitas económicas. Justamente no momento em que as luitas necessitavam atingir patamares nacionais e internacionais, os movimentos sociais e os sindicatos entrárom em descenso.

Na ausência de mobilizaçons somadas à falta de perspectivas políticas, a contra revoluçom imprimiu-nos duas derrotas fenomenais: a cooptaçom das forças de esquerda e a colocaçom dessas forças a seu serviço.

O processo eleitoral a nível continental, induziu as forças revolucionárias a desmobilizarem as suas tácticas e adoptarem as tácticas da contra-revoluçom para disputarem um lugar no parlamento, "doce lar da burguesia". Quando mais precisávamos de comandantes, os nossos líderes partidários transformárom-se em candidatos. Necessitamos de comandantes para conduzir a revoluçom e nom de presidentes.

Mas a contra-revoluçom foi além do desmonte político ideológico das forças de esquerda, elevou-nas ao nível de governo e colocou-nas a seu serviço na implementaçom das reformas, o elo que faltava para fechar o círculo do modelo neoliberal. Porque estas, por tratarem da negaçom dos direitos adquiridos, somente com a conivência das organizaçons dos trabalhadores, lideradas por líderes populares seria possível. E as forças da social-democracia e de esquerda conseguírom realizar esta façanha nom só nas Américas mas também noutros continentes do mundo.

Neste sentido é que intelectuais e lideres populares (como é o nosso caso), começamos a acordar e a nos dar conta de que, entre luitas sociais, sindicais e disputas parlamentares nom há diferença, estám todas no mesmo patamar. Ou seja, enquanto as luitas sociais e sindicais nos levam até as conquistas económicas, as disputas parlamentares levam-nos até as reformas. Estas últimas satisfam sempre mais à direita quanto menor for a pressom popular, mas, jamais por si só levarám a classe trabalhadora ao poder.

3º- O DILEMA ENTRE A ESPONTANEIDADE E A CONSCIÊNCIA

A espontaneidade é característica constitutiva dos movimentos sociais e da luita sindical. É onde se exercita a prática da formaçom da consciência. Ocorre que, há momentos em que a espontaneidade ganha formas de insurreiçom e entom é o momento propício que as forças revolucionárias tenhem para tomar o poder.

Vivemos muito nitidamente esta situaçom recentemente no Equador e na Argentina, mas por falta de organizaçom partidária e falta de preparaçom política das massas, o esforço foi desperdiçado.

Casos semelhantes som os da Venezuela e do Brasil. Na Venezuela nom se pode atribuir o mérito do processo revolucionário lá desencadeado às disputas eleitorais, isto porque, vários anos antes de Chaves candidatar-se a presidente da república, houvo umha tentativa de tomada do poder através de um levante militar. As massas nom estavam preparadas para a insurreiçom. Reconhecendo a impossibilidade de tomar o poder, Chaves e o seu grupo depugérom as armas e preparárom-se para um momento seguinte. Neste caso a disputa eleitoral serviu de meio para convocar as massas a reiniciarem a revoluçom.

No Brasil, a eleiçom de Lula serviu para canalizar o descontentamento das massas contra o modelo e com isso comparecemos às urnas e elegemos o Presidente com 65% dos votos. A sua popularidade e aceitaçom logo após a posse, chegárom ao patamar dos 80%. Mas o descontentamento nom tinha características insurrecionais, nem o governo tentou despertá-la e, por nom haver contestaçom da contra-revoluçom aos métodos utilizados para governar, nem pressom popular, o modelo derrotado nas urnas ressurgiu no programa de governo com maior vigor. As massas vivem um período de "anestesia crítica", ou seja, sabem que ganhárom as eleiçons, mas nom porque nom estám tendo melhorias, e as elites sabem que nom perdêrom e porque estám ganhando. O presidente tem o coraçom voltado para as massas que o elegêrom, mas a cabeça voltada para a ordem capitalista. Nom há portanto revoluçom sem comando e ideias revolucionárias.

Estamos vivendo em alguns lugares, a mesma situaçom vivida na Alemanha em 1918, onde as massas levárom a revoluçom até as portas do poder, mas os partidos negárom-se a concluí-la.

Os recuos e deformaçons que impedem a revoluçom de avançar podemos constatar da seguinte forma:
- A utopia socialista foi substituída pola topia parlamentar.

- A elaboraçom teórica marxista cedeu lugar ao pensamento pós-moderno seguindo a influência pensamento único.

- As luitas de massas deixárom de ser prioridade e a atracçom passou ser a disputa eleitoral

- O militante político foi substituído polo cabo eleitoral conquistador de votos e nom construtor de consciências.

- A aliança das forças políticas e sociais de carácter classista se conformou na composiçom de forças de interesses capitalistas e oportunistas.

- Os princípios filosóficos e revolucionários, da direcçom coletiva, disciplina consciente, vinculaçom com as massas, trabalho de base etc. fôrom renegados.

- As luitas e enfrentamentos entre as classes fôrom substituídas por entendimentos, cámaras sectoriais e composiçom de conselhos articulados polo governo.

- O quadro político transformou-se no de administrador público que entende de contas e contençom de gastos mas nada de revoluçom.
De modo que, estas duas vias da contra revoluçom produzírom as circunstáncias históricas de desencanto que estamos vivendo em muitos lugares no mundo.

Mas nom cabe aos revolucionários a acomodaçom. As dificuldades fôrom feitas para serem ultrapassadas. Por isso precisamos dedicar muito mais esforço para enfrentar a contra revoluçom e devemos começar pola recolocaçom da utopia socialista. O horizonte é o socialismo o meio para chegar até lá é a revoluçom.

A partir disso, precisamos articular as ideias em torno de um projecto político que faga frente ao imperialismo em todos os seus aspectos. Este projecto deve orientar as luitas de massas, formar a consciência de classes, multiplicar quadros e elevar o grau de solidariedade entre os povos e explorados do mundo.

Por fim, devemos elevar o nível das disputas e articular as nossas forças a nível internacional. Até entom o imperialismo tem sido internacional, mas nom cabe a ele este direito. A solidariedade e a ética revolucionária terám que vencê-lo.

Esta articulaçom dos povos explorados elevará a nossa consciência e a nossa capacidade de luitar contra a barbárie e colocará-nos no caminho da transformaçom total e completa do capitalismo.

Para isto precisamos abandonar o objectivo de sermos apenas de "esquerda", precisamos elevar-nos ao grau de revolucionários.

 

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