Contra o neofascismo

Iñaki Gil de San Vicente

DIALÉCTICA DO VELHO E DO NOVO

1. A luita de classes entre o Trabalho e o Capital move-se sempre dentro da dialéctica entre, por um lado, a continuidade e permanência do essencial, e, por outro lado, a apariçom do novo e a desapariçom do velho. Esta dialéctica exige compreender a existência dumhas determinadas contradiçons essenciais, genético-estruturais, do modo de produçom capitalista, que o diferenciam qualitativamente de outros modos anteriores, das suas classes sociais e das luitas entre elas.

2. Dita dialéctica, por outra parte, permite explicar a permanência de determinadas características que som constantes ao capitalismo apesar das suas mudanças de forma e fenomenologia exteriores, histórico-genéticas, de modo que utilizando o método marxista podemos encontrar entre a maranha de sucessos aparentemente desligados entre si, caóticos, determinadas regularidades profundas e relativamente estáveis mas invisíveis à primeira vista.

3. Ora bem, como dialéctica de contradiçons em luita, ela mesma exige que sempre se estude a realidade móvel para descobrir o novo, o que aparece, e o velho, o que desaparece. O novo está já em germe nas contradiçons existentes, e o velho já está acelerando a sua desintegraçom sob o empurrar dessas contradiçons. Esta afirmaçom abstracta baseia-se na síntese concreta das experiências práticas tanto na sociedade como na natureza orgánica e inorgánica. Sem entrarmos agora em diferenças lógicas e inevitáveis entre as formas do movimento dialéctico nestes três níveis, e centrando-nos apenas no social, o novo e o velho sempre nos remetem para a permanente que, por sua vez, apenas se compreende na sua evoluçom se levarmos em conta as suas partes velhas e novas.

4. Muitos dos erros políticos das esquerdas tenhem a ver de algum modo com o desprezo a esta inescusável regra metodológica. As esquerdas tendem a acreditar que todo permanece igual e inalterável, que as grandes comoçons sociais som simples repetiçons de velhas luitas, que nom se tenhem desenvolvido ainda novidades significativas que obriguem a umha mudança profundo na linha mantida até o momento. E sucede a derrota. Mas noutros casos, acredita o inverso, que todo tem mudado tam qualitativa, súbita e intensamente que já nom serve nada do passado e há que elaborar umha outra linha radicalmente oposta.

5. Com o fascismo aconteceu algo parecido e também acontece o mesmo com o neofascismo. Nas condiçons da década de 20 do século passado, as contradiçons sociais, classistas e nacionais estavam chegando ao máximo do antagonismo irreconciliável permitido e potenciado polo alto grau de agudizaçom das contradiçons dentro do capitalismo, e entre o capitalismo e a URSS. Encrespariam-se mais ainda como efeito da terrível crise de 1929-33, que se prolongou de facto até 1945. Na verdade, a causa radica no imperialismo e os seus devastadores efeitos sobre as condiçons de vida e trabalho das massas trabalhadoras.

6. Mas o decisivo fôrom o endurecimento das luitas revolucionárias e contrarrevolucionárias e o nascimento da URSS. Nestas condiçons, o grosso das burguesias optárom por soluçons autoritárias, termidorianas e até militaristas e bonapartistas. Até aquí, até esta fase do movimento da luita de classes, o marxismo entom vigorante podia explicar o que estava acontecendo e porqué. Os textos marxistas clássicos explicavam perfeitamente o processo sociopolítico consistente em que umha fracçom da burguesia dirigira face ao autoritarismo ao bloco de classes dominante. Porém, sob a teoria marxista entom válida, sucediam-se mudanças que davam força a práticas novas ante as que esta teoria sociopolítica avelhentava.

7. As profundas transformaçons sociais forçadas polo imperialismo terminárom por se exprimirem nas reacçons das classes sociais, sobretodo das fracçons mais afectadas, impotentes, desbordadas e superadas por estas mudanças. Há que levar em conta que nom existe umha automática e imediata relaçom causa-efeito entre as mudanças socioeconómicas -neste caso o tránsito capitalista do colonialismo comercial ao imperialismo industrial- e os sociopolíticos. Sempre deve existir um período de perplexidade, adaptaçom e resposta por muitas fracçons das classes a estas mudanças, tempo de resposta que depende do desenvolvimento anterior de organizaçons políticas e sindicais, culturais, etc., capazes de racionalizar teoricamente o novo, explicá-lo e, sobretodo, elaborar alternativas novas.

8. Esta espécie de regra histórica é especialmente válida para o movimento obreiro, parte consciente das classes trabalhadoras, que deve compensar com outros recursos organizativos e intelectuais a esmagadora superioridade de meios da burguesia. Sobretodo é válida para o marxismo, que deve estar informado dos mais recentes acontecimentos práticos e teóricos. Nom obstante, com e frente ao fascismo, a referida exigência metodológica cumpriu-se muito minoritariamente. A maior parte do movimento operário e do marxismo fôrom surpreendidos polo nascimento e rápido auge do nazi-fascismo.

CARACTERÍSTICAS DO FASCISMO

9. Cingindo-nos exclusivamente ao fascismo menos conhecido e sem nos estendermos ao italiano e alemám, na Finlándia desenvolveu-se o Movimento Lappo, na Romênia a Guarda de Ferro, a Heimwehre na Áustria, na Gram Bretanha o BUF, no Estado francês o PPF, na Bélgica o Rexismo, no Estado espanhol a Falange, na Hungria os Cruzes e Flechas, na Estónia os Combatentes da Liberdade, nos Países Baixos o NSB, e outros grupos menores noutros muitos países, nomeadamente Portugal, Polónia e Suíça. Mas, além disso, outro componente da ideologia nazi-fascista como o racismo, alastrou amplamente e reforçou-se onde já era forte, como nos EUA.

10. Todos estes grupos tinham entre si diversas características comuns essenciais, e outras diferentes mas secundárias. As primeiras som as que permitem identificá-los como movimentos fascistas, pertencentes a umha corrente política nova na história do capitalismo. As segundas som as impostas polas circunstáncias específicas de cada país e Estado, segundo a sua própria história de luita de classes, da evoluçom das contradiçons internas, do seu lugar na hierarquia internacional capitalista e de divisom do trabalho, etc.

11. Umha primeira característica destes grupos fôrom as suas relaçons de subterránea dependência económica das organizaçons privadas burguesas e até, em bastantes casos, das contributos estatais. Além dos fundos adquiridos por eles mesmos, a maioria das suas despesas eram financiadas por “ajudas” burguesas. Junto com isto, também tinham fortes laços com os aparelhos repressivos, com o exército e a polícia. Ambos apoios permitiam-lhes dispor de meios de imprensa superiores à sua inicial força de massas, assim como um tratamento benévolo quando nom apologético da maior parte da imprensa. E em mui poucos casos tivérom problemas com as igrejas cristás, mas polo contrário, as igrejas fôrom aliadas passivas ou activas. Como síntese de todo o anterior, a maioria deles dispugérom dum novo e fundamental instrumento de doutrinamento e mobilizaçom social vedado às esquerdas, como foi a rádio.

12. Umha segunda característica, decisiva e definitória, foi o seu apoio incondicional ao capitalismo. Fôrom, além do Estado e os seus instrumentos repressivos, o outro braço armado com apoio de massas contra o movimento revolucionário e contra o reformismo. E o seu apoio ao capitalismo plasmava-se em apoio à fracçom mais poderosa, a industrial e financeira, a militarista, a mais necessitada do recurso à guerra imperialista para sair da crise. Ainda que segundo os países, contavam com o apoio da burguesias latifundiária, comercial, etc., o objectivo essencial do fascismo foi apoiar o militarismo da burguesia industrial e financeira, sobretodo o extermínio do movimento revolucionário e da URSS.

13. Umha terceira característica foi, como dixemos, o apoio de massas obtido dependendo de cada país. Massas procendentes da pequena burguesia arruinada, do desemprego estrutural e do precariado, de sectores camponeses, de faixas obreiras anteriormente socialistas e até comunistas, bem como sectores da mediana e grande burguesia. Estas massas eram atraídas ao fascismo por umha mescla de subideologias tomadas de outras ideologias mas misturadas de tal jeito que formavam algo específico, diferente, sempre em estreita ligaçom com a interpretaçom reaccionária, machista e imperialista das tradiçons e identidades nacionais, polo geral interpretadas a partir da visom pequeno burguesa da sociedade num capitalismo que nom tinha desenvolvido a plena assalarizaçom social nem conhecia a batoteira segurança existencial que prometem as cadeias de ouro dos créditos fáceis, do dinheiro de plástico, da financeirizaçom, etc.

14. Umha quarta característica é precisamente esta, a dialéctica entre o comum ao fascismo em geral e as diferenças de cada um deles, o que se vê claramente no diferente peso das versons reaccionárias da história nacional correspondente, da sua memória militar, da sua cultura popular, etc. Enquanto as esquerdas revolucionárias abandonavam ou menosprezavam o profundo poço inconsciente do identitário, dos referentes nacionais, os fascismos figérom nom apenas o contrário, tergiversando também as identidades, sobrevalorizandom os seus conteúdos reaccionários e varrendo e ocultando os progressistas, e sobre tais bases construírom artificiosas mitologias nacionalistas, imperialistas e contrarrevolucionárias.

15. Umha quinta característica é que essa manipulaçom dos referentes colectivos estava reforçada na maioria dos casos com a manipulaçom dum sentimento anticapitalista difuso e impreciso, mescla do medo e dos ciúmes da pequena burguesia e dos camponeses face à alta burguesia urbana e rural, assim como umha crítica ao comunismo e aos sindicatos. Tal mistura explica que existissem correntes de “esquerda” em bastantes fascismos, mantendo assim a ancoragem ideológica em sectores confusos das classes trabalhadoras. Mas esse “esquerdismo” foi depurado sem piedade quando assim o ordenou a burguesia.

16. Umha sexta característica é que semelhante ideologia estava internamente reforçada polo impulso de todos os componentes sadomasoquistas e neuróticos da estrutura psíquica de massas do capitalismo; polo mito do líder, caudilho, duce ou führer que assume o papel de autoridade sádica que delega parte do seu poder nos seus submissos e incondicionais seguidores, que obedecem com doses de masoquismo que por sua vez descarregam os seus desejos frustrados e os seus ódios sobre os inferiores, estabelecendo-se umha cadeia de transferência de repressons sublimizadas e de mando de acima para abaixo na que o irracionalismo e os fantasmas do inconsciente tinham a mesma força ou mais que a consciência. A família patriarcal, o machismo mais sexista e misógino, a manipulaçom sistemática do falocentrismo agressivo sobretodo em espectáculos e mobilizaçons de massas, etc., estes e outros componentes -incluídos os do ópio religioso em bastantes casos- reforçavam o arrepiante irracionalismo de fundo da prática fascista.

17. Apesar de que bastantes destas características já surgiram no passado, só com o fascismo adquirírom o conteúdo de unidade sistemática nova, de tal jeito que desbordou a maioria dos marxistas, ridicularizando alguns deles, precisamente os mais encimados no poder oficial. Muito poucos repararam nom só na gravidade do novo movimento contrarrevolucionário mas do seu conteúdo e características fundamentais. Pior ainda, nos decisivos momentos iniciais, quando o monstro era pequeno e fraco, fôrom ainda menos quem elaborárom umha estratégia de combate de massas. Mas o mais trágico para a sorte da humanidade é que essas minorias premonitórias fôrom denunciadas, vexadas e perseguidas pola burocracia estalinista.

18. Devemos lembrar estas liçons amargas e tristes do passado para nom repetir agora aqueles erros desastrosos, quando em condiçons diferentes na forma e em nalguns conteúdos novos, a burguesia imperialista recorre a um neofascismo que nom rompeu o cordom umbilical com o fascismo, mas que é umha adaptaçom do velho às novas necessidades repressivas. E como adaptaçom, nalguns lugares o neofascismo terá -tem- características superficiais e secundárias diferentes ao neofascismo de outros lugares, sendo cá mais repressor e criminal do que lá, etc., mas sendo neofascismo essencial em todos eles, buscando o mesmo objectivo essencial em toda a parte: deter a actual vaga de luitas e derrotá-las.

O NOVO NO CAPITALISMO

19. Em algo mais de meio século o capitalismo passou a outra fase na sua evoluçom histórica, sendo o mesmo modo de produçom. Sem mais análise ao respeito, também evolucionárom os sistemas repressivos, os Estados, etc., mantendo apesar de todo a sua identidade genético-estrutural. É neste senso que devemos compreender que o velho fascismo se mantém latente no novo neofascismo, à espera de desenvolver o seu terrível poder destrutivo quando lho ordenar a burguesia, poder que se manifestará com formas externas novas mas defendendo o mesmo amo de classe. Que se chegue a umha situaçom assim depende, em primeiro lugar, da evoluçom mundial da luita de classes e dos processos de libertaçom nacional; em segundo da sua evoluçom nos seus países e estados concretos, e, em terceiro lugar, da capacidade dos marxistas para elaborar eficaces estratégias massivas contra o neofascismo.

20. Umha mudança significativa no capitalismo mundial com repercussons para o tema que tratamos consiste em que o capitalismo logrou acabar após várias décadas de guerras e ditaduras com o imediato perigo revolucionário no seu próprio centro nevrálgico, no coraçom da velha Europa, e com as duras luitas classistas da década de 30 nos EEUU. Como veremos, logrou-no deslocando ao resto do mundo as contradiçons e endurecendo ao máximo as exploraçons, mas também desenvolvendo novos sistemas de controlo, vigiláncia e repressom, assim como de integraçom, compra e suborno, sobre a base dum aumento espectacular da produtividade do trabalho, dos sobreganhos imperialistas e do colaboracionismo reformista e da URSS desde finais da década de 20 até a sua implosom.

21. Deste jeito, o capitalismo central superou durante um tempo a necessidade de recorrer mais umha vez ao fascismo. Mas, desde finais da década de 60 e começos da de 70, a volta à crise estrutural foi minando lentamente a estabilidade lograda e pesar dos esforços do neoliberalismo, do reaganismo e do tatcherismo, as tensons sociais forom em aumento. Em síntese, esta é a razom última pola que com certa rapidez as burguesias pugérom em marcha o neofascismo adaptado às condiçons do centro capitalista.

22. Como dixemos, um dos recursos para a derrota do movimento revolucionário e integraçom da classe operária fôrom os sobrelucros obtidos polo imperialismo, mas à custa de levar ao planeta inteiro os terríveis efeitos destrutores deste modo de produçom, multiplicando-os exponencialmente. Umha inavaliável lista de repressons, sistemas autoritários, militaristas e fascistas, com crimes sem fim, marcam a história mundial na segunda metade do século XX. Porém, também aqui as transformaçons capitalistas forçárom o recurso por parte de muitas burguesias a um neofascismo adaptado às condiçons do capitalismo semiperiférico e periférico.

23. Nom é este lugar para nos estendermos numha comparaçom detalhada das diferenças secundárias entre estes neofascismos, como também nom o figemos anteriormente com as dos fascismos. Simplesmente queremos dizer que as distáncias mundiais nom som um problema na hora de os neofascismos se relacionarem entre si directamente ou via os serviços estatais e/ou das organizaçons burguesas que actuam por debaixo do neofascismo, porque as modernas tecnologias da comunicaçom permitem-no e, sobretodo, porque as burguesias aperfeiçoárom as suas relaçons na ajuda mútua da repressom e manutençom do sistema.

24. Levando em conta o dito até aqui, antes de passarmos a propor umha linha de intervençom contra o neofascismo na sua identidade genético-estrutural há que definir brevememente as suas características comuns e a melhor forma de fazê-lo é compararmos as suas inovaçons a respeito do fascismo, seu pai.

CARACTERÍSTICAS DO NEOFASCISMO

25. À diferença do fascismo inicial, em primeiro lugar, o neofascismo actual está mais controlado polos aparelhos do Estado e polas organizaçons da burguesia. É verdade que existem grupos fascistas nus e crus, tam fanáticos como os seus antecessores, mas estám mais controlados polos serviços secretos do que antes. A razom radica em que a burguesia compreendeu que o fascismo aplicado no interior do seu Estado é um instrumento repressivo com muitos efeitos colaterais nom desejados, quer dizer, que a sua brutalidade sanguinária desatada pode terminar fomentando processos revolucionários. Por esta razom e enquanto nom necessitar chegar a estes extremos, a burguesia controla de dentro e telecomanda o neofascismo permitindo-lhe ascender ou obrigando-o a descer segundo as necessidades do sistema. Mas no exterior, aplica-o sem reparo nem contemplaçom. Além disso, agora os fundamentais instrumentos da manipulaçom de massas, a TV designadamente, estám mais controlados polos Estados e as burguesias, e até em casos extremos como o do neofascista Berlusconi na Itália, som consideráveis as resistências de outras fracçons burguesas, aparelhos do Estado e do reformismo.

26. À diferença do fascismo, em segundo lugar, que surgiu em muitos países como o único recurso para salvar o capitalismo, na actualidade o neofascismo opera com ajuda de outros recursos de ordem, repressom e alienaçom que antes nom existiam. Sem o perigo iminente dumha revoluçom, com mais de meio século de experiência e com outras formas de alienaçom -por exemplo, o consumismo compulsivo, etc.- o capitalismo actual reserva o neofascismo para legitimar novas leis repressivas “democráticas”, recortar direitos sociais com o apoio ou a passividade do reformismo, endurecer e fortalecer o Estado, criminalizar sectores crescentes, etc., mas mantendo a ficçom democrática no interior dos Estados. Porém, no exterior, frente e contra outros povos, o neofascismo aparece tal e como é, como perfeito filho de seu pai, o fascismo. Assim se explicam as desumanas agressons ianques a todo povo digno e resistente, como Cuba.

27. À diferença do relativo apoio de massas que obtivo o fascismo, em terceiro lugar, agora existem organizaçons interclassistas que preenchem esse espaço. O capitalismo actual mercantilizou o voto muito mais que daquela, e busca com precisom os grupos de votantes, prometendo diferentes cousas a cada um deles. Isto fai com que o fascismo tenha que recorrer ao racismo no centro capitalista -Estado francês, Áustria, etc.- enquanto noutros sítios tem que ocultar o seu fascismo substantivo sob um envólucro “democrático”, como na Venezuela contra Chávez, os vermes de Miami contra Cuba, etc.

O exemplo mais claro som os EUA, onde o neofascismo da Casa Branca se protege abaixo dumha demagogia dos “direitos humanos” enquanto protege o fascismo da burguesia ianque. Sobretodo, a maior assalarizaçom social hoje existente limita a base histórica do fascismo como a pequena burguesia tradicional e obriga-o a levar em conta o aumento da populaçom que vive dum salário assim como a nova pequena burguesia, e a essas faixas objectivamente assalariadas que nom obstante acham subjectivamente ser as “novas classes médias” porque vivem com cartons de crédito asseguradas polos seus altos salários e a financeirizaçom. Ora bem, o neofascismo sabe que tem um campo de crescimento em parte destes sectores quando volve a crise e a incerteza e insegurança.

28. À diferença dos respectivos nacionalismos reaccionários construidos polos fascismos, em quarto lugar, agora tende-se a criar grandes ideologias regionais -UE, área asiática e área ianque- que absorvem mais ou menos os nacionalismos oficiais pré-existentes, à vez que na Europa e EUA se potencia o ocidentalismo reaccionário e racista -guerras de “intervençom humanitária”, de “defesa dos direitos humanos”, etc.- para justificar o espólio dos povos “atrasados”. Esta tendência nom anula os nacionalismos reaccionários existentes, mas adapta-os e integra-os para umha melhor exploraçom imperialista. O neofascismo assumiu felizmente esta inovaçom porque lhe permite ocultar o seu racismo e nacionalismo de fundo, que nom duvida em levar à tona quando é necessário para manter e aumentar a taxa de benefício.

29. A diferença do ambíguo e difuso populismo anticapitalista da primeira época fascista, em quinto lugar, agora o neofascismo é abertamente capitalista como foi o fascismo na sua época, mas com alguns ciúmes contra a alta burguesia em defesa das velhas burguesias, como as pejas de Le Pen, e outros fascistas e neofascistas à UE, etc., ou os movimentos ianques contra o excessivo centralismo federal. Som posturas defensivas de fracçons de classe que já sabem que nom recuperarám o seu poder anterior e apenas querem nom perder mais.

30. A diferença do descarado componente sadomasoquista e neurótico do fascismo, em sexto lugar, agora o neofascismo tem que se adaptar ao avanço da mercantilizaçom da existência, das indústrias burguesas do lazer e a gratificaçom sexual das massas, do consumismo compulsivo de massas, etc. Mas nada disto anula o conteúdo sadomasoquista inerente, mas adapta-o às mudanças no sistema patriarco-burguês, à presença massiva do falocentrismo no marketing que todo inunda, etc., de jeito que o neofascismo tem que melhorar a iconografia dos seus líderes levando em conta estas mudanças. Porém, ainda que a adoraçom fálica ao uniforme militar se tivo que mitigar, nom por isto desapareceu de todo, reaparecendo quando é necessário como, por exemplo, nos actos do presidente norte-americano fardado de campanha e rodeado de soldados.

31. Ainda que muitas diferenças sejam formais, outras reflectem as mudanças novidosas acontecidas no capitalismo, referidas umhas à esfera da produçom e da estrutura classista, como a assalarizaçom social, por exemplo; outras à esfera da circulaçom e realizaçom do benefício, como o consumismo, e outras como a financeirizaçom, que impacta tanto sobre a produçom como sobre o consumo. Mas a mudança fundamental que se produziu é que actualmente existe umha espécie de divisom do trabalho repressivo das burguesias e os seus Estados: o neofascismo aplica-se no interior, e no exterior aplica-se o pior fascismo de sempre. Naturalmente, existem interferências e identidades, campos e momentos em que ambos som o mesmo e outros en que nom, etc.

O que nos interessa dizer é que as burguesias querem manter umha certa imagem de “democracia”, que no interior dos seus Estados controlam o neofascismo segundo os momentos e necessidades -por exemplo, a manipulaçom neofascista descarada das informaçons entre 11 e 13 de Março no Estado espanhol por parte do PP-, e no exterior aplicam o fascismo sem qualquer disfarce.

CONTRA O NEOFASCISMO

32. Temos que partir destas consideraçons para elaborar uns mínimos de intervençom contra o neofascismo no interior dos Estados burgueses e contra o seu fascismo exterior. Antes de continuar, é conveniente insistirmos nesta dialéctica do interno e externo porque o capitalismo sempre foi um, sempre foi mundial. Mais ainda, esta dialéctica está mais vigente que nunca porque a mundializaçom da Lei do valor-trabalho fai com que qualquer derrota ou contratempo do capitalismo numha área repercuta imediatamente, em tempo real, no resto do Planeta, fomentando as resistências e as luitas. O fascismo tinha mais tempo de iniciativa e adaptaçom porque o tempo político era mais lento, mas agora, com umha mundializaçom capitalista em tempo real, essa vantagem desapareceu. As burguesias som conscientes disto e por isso controlam mais de perto os seus respectivos neofascismos, sabedoras de que um aventureirismo qualquer repercute no momento nas finanças mundiais, nos preços energéticos, no comércio e na indústria. As críticas que sofrem Bush e Berlusconi por sectores burgueses som um exemplo.

33. Umha forma de luita é, portanto, a da potencilizaçom da solidariedade internacionalista contra a política fascista exterior das burguesias, lá onde se produzir. Esta já foi umha liçom de há setenta anos, quando as esquerdas europeias quase nom se mobilizaram contra o triunfo do fascismo italiano a começos da década de 20, como também nom se mobilizaram contra os grupos contrarrevolucionários alemáns e de outros países a finais da guerra de 1914-18. O fascismo europeu tivo as maos livres para as suas atrocidades, excepto polo curto período em que a URSS permitiu a solidariedade das Brigadas Internacionais contra o fascismo espanhol, desmanchando-as depois, em plena guerra. Nom podemos permitir que o imperialismo continue impune lá onde quiger. As esquerdas europeias, por exemplo, estivérom passivas quando a “guerra humanitária” na ex-Jugoslávia; e o reformismo europeu apoiou-na, e também apoiou as invasons do Iraque e Afeganistám, ainda que as mudanças sociais posteriores obrigassemm a ser menos colaboracionistas com os EUA.

34. Outra forma de luita deriva desta, já que a oposiçom às agressons no exterior devem tornar-se em luitas contra o neofascismo interior. Nengumha guerra de agressom deixa de repercutir no interior. Quando as equerdas nom se oponhem à guerra, é a classe dominante que leva a melhor, se nom se produzir umha derrota esmagadora ou os custos do esforço bélico nom danarem muito a situaçom das massas trabalhadoras. Se as esquerdas se opugerem à guerra, devem desenvolver umha argumentaçom que em pouco tempo as enfrenta radicalmente com a burguesia porque esta se lançou à guerra com a escusa da “grandeza nacional”, criticando o derrotismo e antipatriotismo das esquerdas.

Se a esquerda insistir em acabar a guerra imperialista e injusta mais cedo do que tarde, baterám dous conceitos opostos de naçom, e se insiste em aumentar a luita contra a sua burguesia, seguindo as teses de Lenine em 1914, entom achega-se a guerra civil.

35. O choque de dous conceitos opostos de naçom nom surge do nada, tendo as suas raízes na história, porque em todo Estado capitalista coexistem duas naçons enfrentadas, a da burguesia exploradora e a da classe trabalhadora explorada. Este clássico axioma marxista foi negado polo reformismo e por boa parte das esquerdas, sobretodo se pertencerem a um Estado que oprime nacionalmente outros povos. Vimos que umha característica do neofascismo é adaptar o nacionalismo fascista. Nos Estados que nom oprimem naçons, o neofascismo defende o nacionalismo reaccionário mas sem maior insistência, excepto se a esquerda apresentar um modelo nacional próprio diferente do da classe dominante. Desde estes momentos, o neofascismo mostra o seu fanatismo nacionalista reaccionário atacando as esquerdas. Portanto, corrigindo os erros do passado, as esquerdas dos Estados que nom oprimem outras naçons devem desenvolver um modelo de naçom democrática e socialista para se adiantarem à manipulaçom irracional do nacionalismo reaccionário que fai sempre o neofascismo, mas que incrementa quando se agudiza a luita de classes.

36. Esta liçom histórica confirmada desde há muito tempo, é ainda mais actual para a esquerda dum Estado que oprime nacionalmente outros povos. Nestes Estados, o neofascismo assume ferventemente a extensom do nacionalismo opressor dentro das naçons oprimidas, mas também dentro das classes trabalhadoras da opressora. Os marxistas deveríamos saber isto de cor, mas nom é assim por razons que nom podemos expor agora. Nom obstante, o neofascismo tivo freqüentemente um aliado nas esquerdas estatales que defendem o essencial do nacionalismo da sua burguesia, quando muito chegam a propor falsas soluçons descentralizadoras e autonomistas. Um exemplo patético é o das esquerdas espanholas e francesas frente às naçons oprimidas polos seus Estados.

37. Ora bem, ainda que o anterior é mui importante e decisivo em determinados contextos, também é verdade que o neofascismo tem características essenciais que trascendem as fronteiras e que referem à sua capacidade de manipular a estrutura psíquica de massas ainda nom existindo problemática nacional, ou apresentando-se esta sob a sua forma abrandada de racismo. No capitalismo actual, os limites que separam a direita reaccionária do neofascismo som mui maleáveis numha e outra decisom, o que se comprova vendo os solavancos eleitorais entre estes blocos, e outro tanto entre os ex-comunistas e os neofascistas, mas por razons opostas. Umha razom que explica este fenómeno é, além das anteriores, a existência de umha personalidade insegura e com fortes componentes de obediência a um líder, algo essencial ao fascismo, mas que agora se apresenta com formas novas. Outra é a existência dumha personalidade autoritária que no capitalismo actual tem formas diferentes do autoritarismo de começos do século XX, sendo idêntico no fundo.

38. No capitalismo actual, a necessidade dum líder cresce tanto pola incerteza vital inerente ao capitalismo como, sobretodo, polos efeitos da financeirizaçom da economia, com as inseguranças que isso impom, e com os ataques aos direitos sociais e laborais. Outro factor é a frustraçom diária entre o quero e o nom podo, quer dizer, querer consumir todo o que se vê na TV e ser como a imagem imposta polo marketing arrasador -o terrorismo simbólico do culto ao corpo, à riqueza, ao triunfar na vida, etc.-, querer ser assim e nom poder sê-lo nunca, ainda à custa de aumentar as horas de trabalho assalariado. Esta frustraçom diária reforça a insegurança pessoal que introduz a educaçom burguesa desde a infáncia, e é reforçada pola extremada especializaçom tecnológica que castra a gente e impede o seu desenvolvimento pluridimensional e polivalente. E a insegurança tendem tarde ou cedo face à procura dum líder.

39. No capitalismo actual, o autoritarismo pessoal surge da extrema aspereza do competitivismo burguês necessário para ultrapassar o aumento de dificuldades para triunfar na vida. A financeirizaçom multiplica estas dificuldades e acrescenta umha dose letal de incerteza. E como estas novidades impregnárom a totalidade social, ninguém foge delas. Isto explica que, por um lado, aumentem as tensons e violências quotidianas em todo o capitalismo, designadamente o terrorismo machista contra as mulheres e o terrorismo racista, respostas violentas de pessoas autoritárias incapazes de tolerar as liberdades de outras pessoas; e, por outra parte, este mesmo aumento reforça a sensaçom de que só vencem os fortes e superiores num mundo de selvagens, tópicos reaccionários inscritos na ideologia contrarrevolucionária, fascista e neofascista. Reforça-se assim umha continuidade entre estas ideologias que permite que sectores submissos e inseguros, necessitados de um líder, busquem nos sectores autoritários a direcçom e a segurança que necessitam inconscientemente. Desta maneira, recompom-se no capitalismo actual a cadeia sadomasoquista de mando e obediência típica do fascismo, como vimos, mas adequada às necessidades burguesas de hoje.

40. As esquerdas devem luitar contra as novas formas da estrutura psíquica de massas alienadas reactivando os clássicos métodos da cultura criativa, crítica e desmistificadora já praticados por esquerdas revolucionárias em fases anteriores do capitalismo. Nada disto se consegue sem ajudar à fortaleza dos movimentos populares e sociais, dos sindicatos sociopolíticos, dos colectivos de emancipaçom vital revolucionária, etc. Quer dizer, a esquerda enfrenta o dilema de potencializar a cultura revolucionária e o prazer da subversom, que giram à volta do valor de uso, em lugar de seguir sendo peons passivos da culturinha alienadora criada pola indústria político-mediática burguesa ou polos intelectuais reformistas, que giram sempre arredor do valor de troca. Sem esta recuperaçom militante do valor de uso como critério regulador da praxe revolucionária quotidiana, sem ela, o neofascismo continuará a encontrar um caldo de cultura na estrutura psíquica alienada das massas sob o capitalismo, e continuará a apoiar a ferocidade fascista exterior dos seus estados. Mas, para concluir, o valor de uso sempre nos remete para o problema decisivo do poder revolucionário.

IÑAKI GIL DE SAN VICENTE
EUSKAL HERRIA (4/IV/04)

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