O
nosso socialismo
Justo de la Cueva (artigo publicado no número 16 de Abrente. Abril de 2000)
Este artigo expom
muito resumidamente alguns dos temas chave da longa exposiçom (56 páginas)
de igual título que, por convite de uns queridos companheiros, os camaradas
de Primeira Linha (MLN), expugem nas IV JORNADAS INDEPENDENTISTAS GALEGAS
Comunismo ou Caos. Julgo útil para os leitores aclarar quem e de que
posiçons é que se construírom aquela comunicaçom
e este artigo. Aclaraçom que também fijo parte da comunicaçom.
Desde o 30 de
Novembro de 1997, um grupo de comunistas bascos mantemos na Internet umha
página cujo título é Comunismo ou caos: o capitalismo
mata. Essa página é umha Secçom do sítio web em
inglês, espanhol, euskara, catalám e também em galego-português
cujo nome é BASQUE RED NET/RED VASCA ROJA/EUSKAL SARE GORRIA/XARXA
BASCA ROJA/REDE BASCA VERMELHA http://www.basque-red.net
REDE que se autodefine dizendo que "A REDE BASCA VERMELHA integra pessoas
que som comunistas bascas independentistas, feministas e ecologistas radicais,
interessadas na informaçom e a comunicaçom. A maioria som bascas
de nascimento, mas também as há bascas por adscriçom
ou por solidariedade internacionalista".
Os comunistas
bascos independentistas de hoje nom esquivamos admitir que para muita gente,
centos e centos ou quiçá milhares de milhons de seres humanos,
o sucesso da propaganda capitalista na exploraçom do fenómeno
da queda e implosom da URSS e dos Estados do Leste europeu os convenceu de
que, se umha vez houvo um esplendor da alternativa comunista, já passou.
Mas é
também desta postura que os comunistas bascos independentistas de hoje
nom hesitamos em afirmar que o esplendor da alternativa comunista é
HOJE. Por umha dupla razom, objectiva e subjectiva.
A objectiva baseia-se
em que hoje sabemos que Marx tinha razom. Hoje sabemos que os dados precisamente
elaborados polos órgaos ao serviço do Capital (FMI, Banco Mundial,
ONU e as suas Agências e outros muitos que fariam aquí interminável
a sua lista) demonstram que funcionou "a lei geral, absoluta, da acumulaçom
capitalista" que Marx formulou no Livro Primeiro d'O Capital.
A lei que:
"produz
umha acumulaçom de miséria, proporcionada à acumulaçom
do capital. A acumulaçom de riqueza num pólo é ao próprio
tempo, pois, acumulaçom de miséria, tormentos de trabalho, escravatura,
ignoráncia, embrutecimento e degradaçom moral no pólo
oposto" (1)
De forma que
hoje é um facto a depauperaçom absoluta do proletariado que
essa lei formulada por Marx enunciava. O Modo de Produçom Capitalista
é umha fábrica contínua de miséria. Os dados dos
expertos capitalistas som precisamente os que evidenciam o fracasso mundial
do capitalismo como sistema de satisfazer nem sequer as mínimas necessidades
da gente. À vez que a contínua acumulaçom de cada vez
mais riquezas em cada vez menos maos.
Som igualmente
os órgaos estatísticos ao serviço do capitalismo que
acumulárom os dados necessários para construir três curvas
de longa duraçom da economia-mundo capitalista: a desruralizaçom
do mundo, a destruiçom ecológica do mundo e a democratizaçom
do mundo. E para evidenciar que essas três curvas chegárom a
um ponto em que ameaçam a acumulaçom incessante de capital,
e, com isto, à mesmíssima razom de ser do capitalismo histórico.
Ameaçam a sua existência ao destruírem o seu ADN, o seu
núcleo genético-estrutural. Por isso é que já
há vários anos que Immanuel Wallerstein e os seus colaboradores
nos advertírom que findou o ciclo histórico do Modo de Produçom
Capitalista. De que o capitalismo histórico, a civilizaçom capitalista,
terá concluído no prazo de 25/50 anos e o seu sistema histórico
particular já nom existirá e terá sido substituído
por algumha destas três fórmulas sociais
1) Umha espécie
de "fascismo democrático" com duas castas (a de acima com
20% da populaçom mundial)
2) Umha espécie
de neofeudalismo também com brutais desigualdades
3) A boa: umha
ordem mundial socialista mais radicalmente generalizada, muito descentralizada
e altamente igualitária.
Os comunistas
bascos tememos que é impossível que NOM SE PROCUZA ESSA MUDANÇA
DO CAPITALISMO HISTÓRICO PARA OUTRO SISTEMA EM VINTE E CINCO OU CINQÜENTA
ANOS. E isso porque o capitalismo pode ter destruído o planeta ANTES
de eles transcorrerem. Ou, que para a Humanidade seria o mesmo, tê-lo
feito inabitável para o género humano.
Esses som os
factos (que nom opinions) que demonstram objectivamente que o esplendor da
alternativa comunista é HOJE. Porque som factos que demonstram que
o dilema é hoje comunismo ou caos.
A outra razom,
a subjectiva, vem medida também por factos. Os factos que evidenciam
a crescente emerência actual de sujeitos colectivos revolucionários
com sucesso em multitude de países. Os milhons de camponeses do MST
brasileiro e os guerrilheiros colombianos som dous exemplos claros na Latioamérica.
Mas também há exemplos de umha nova vaga de luitas de classes
nos mesmíssimos países do Centro capitalista.
Dentro dessas
razons subjectivas existentes para afirmar que o esplendor do comunismo é
HOJE também nom hesitamos ao afirmarmos, com a humildade que consiste
em dizer a verdade, que cumpre contar com a força e a tenacidade com
que o Povo Trabalhador Basco peleja pola sua independência e polo socialismo.
O socialismo entendido, com certeza, apenas como a fase consciente e transitória
que prepara o desenvolvimento do comunismo.
Eis, por isso,
umha mao-cheia de princípios teórico-estratégicos que
tentamos popularizar e inserir nas dinámicas politicas concretas do
processo político basco e que julgamos podem ser também últeis
aos nossos camaradas de outros povos:
1) O nosso socialismo,
antes de mais, hé de quebrar com a dominaçom patriarcal, com
o império do macho, do marido e do monarca. Esta ruptura, que deve
prolongar-se e aprofundar-se durante várias geraçons, é
umha prioridade estratégica, de longo alcance, tam importante como
o controlo operário, a superaçom processual da propriedade privada
burguesa, a socializaçom das forças produtivas, a nacionalizaçom
e controlo popular da banca e os resortes financeiros, a destruiçom
do exército burguês e a criaçom de um sistema de defesa
baseado no povo em armas, voluntário e integrador de todos os métodos
de resistência...
O nosso socialismo
há de se basear na construçom consciente de umha outra forma
de espécie humana, de um outro corpo, de umha outra sensibilidade,
amor e prazer. Nom deve ser apenas um socialismo que luite contra a exploraçom
assalariada, mas também que defenda um outro conceito de trabalho e,
portanto, de relacionamentos humanos, de afectividades e interioridades. Um
socialismo que mantenha a visom do trabaho como algo forçoso, duro,
alienante e nom enriquecedor seria um socialismo incapaz de contruir dimensons
omnilaterais e policromas de criatividade humana. E por isso a superaçom
do patriarcalismo torna imprecindível.
2) O nosso socialismo
também nom pode ficar cingido ao poder de umha burocracia parasitária,
encistada e protegida em e polos aparelhos de Estado, partido único,
sindicato obrigatório, associaçons forçosas de vizinhos,
juventude e mulheres, entidades controladoras de artistas, cientistas e desportistas,
imprensa submissa e monocor. De umha burocracia que, acoiraçada atrás
desses poderes injustos, dite e ordene todos os aspectos da vida, colectiva
e individual. Do mesmo modo que reivindicamos umha nova vivencialidade psicofísica,
intersexual e superadora dos roles e géneros, também, à
força por quanto vam unidos, reivindicamos formas assembleares, conselhistas,
horizontalistas de intervençom popular e operária.
O modelo de partido
único é daninho. Nengumha sociedade pode pretender abrir-se
a umha explosom de criatividade, que é umha das características
do socialismo, se estiver espartilhada polas estreitas mentes dos burocratas
balorentos. Nengum processo emancipador, que por força há de
defrontar toda série de boicotes, cercos, sabotages e agressons que
nom tenhem por que ser pública e imediatamente militares e guerreiras,
senom que podem principiar sendo económicas, políticas, culturais,
sanitárias e alimantares e tecnológicas, pode resistir longo
tempo se nom estiver dirigido conscientemente polo povo. Este ponto é
tam básico como o anterior, porque atinge algo que se esquece quase
sempre quando se fala de socialismo: muito mais importante do que a estrutura
política, sendo esta muito, som a vontade, a consciência, a decisom,
o chamado factor subjectivo das massas que se dirigem a si próprias
porque dentro delas estám as estruturas auto-organizadas.
3) Nom menos
importante no nosso socialimo há de ser a generalizaçom de umha
forma qualitativamente superior de relacionamento com a Natureza, com o ecossistema
e hábitat nosso e mundial. O desenvolvismo capitalista, o consumismo
cego e irracional e a destruiçom de energias e matérias finitas
e irrecuperáveis, som hipotecas, cadeias que nos atarám mais
cedo do que tarde a novas formas de exploraçom e por ende suprimirám
a nossa independência nacional. A ecologia nom é umha moda, é
umha exigência ético-política. Nom é um truque
capitalista para vender mais poluindo no Terceiro Mundo ou regions longínquas,
é umha sábia poupança de bens cada vez mais escassos
e quebrantados. A ecologia nom é um somnífero para yuppies atormentados
pola sua má consciência, mas umha prática colectiva de
reunificaçom da espécie humana com a natureza.
Mas a generalizaçom
social de modos de vida, de poupança e reciclage, de consumo racional
e integrado, de despoluiçom e de projectos a médio e longo prazo,
semelhante tarefa essencial a nosso socialismo, nom pode existir se nom existir
um debate colectivo sobre o critério de necessidade, de qualidade de
vida, de senso da existência, de interiorizaçom das conseqüências
acumulativas e sinérgicas num futuro dos nossos mais nímios
e em aparência superficiais vícios consumistas. Isso todo remete-nos
umha outra vez para os dous pontos precedentes. E é que o socialismo
é a consciência levada à acçom, ou nom é
nada, excepto dogmas e palavras ocas.
4) Por último,
o nosso socialismo nom pode dar-se dentro dos estreitos e castradores tópicos
eurocêntricos. Ou somos internacionalistas à vez que independentistas,
ou nada. Assi de simples. Nom existe qualquer hipótese de criarmos
umha ilha de justiça e igualdade no meio de um oceano de opressom e
injustiça. Duraríamos muito pouco se nom estivéssemos
dentro de um processo mais generalizado de emancipaçom. Mas isso exige-nos
ultrapassar os nossos racismos eurocêntricos, as nossas xenofobias ocidentalistas.
Temos de aprender de outros povos e civilizaçons, de culturas mais
"pobres" -em quê?- e com outros códigos e parámetros.
Também havemos de aprender a relacionar-nos com as classes oprimidas
dentro da mesma Europa, com essas massas cada vez mais empobrecidas e maltratadas.
Em resumo, trata-se de percebermos que o nosso socialismo nom pode repetir
o erro estratégico do chamado "socialismo num só país",
o que nos leva a desenvolver estratégias e tácticas de desligaçom
paulatina, processual mas corajosa dos centros imperialistas. É possível
e é necessário.
O internacionalismo
nom é apenas umha manobra de sobrevivência e um recurso egoísta
de pedir ajuda. É antes de mais umha nova conceiçom da unicidade
do mundo, da pertença de todos os povos à mesma espécie
humana, da existência de umha mesma problemática e de um mesmo
inimigo. É portanto umha conceiçom nova, filosófica e
histórica, humanista e ético-moral. Conceiçom essencialmente
unida à ecologista porquanto ambas partem dos mesmos problemas, olhados
de umha outra perspectiva e campo de acçom, para coincidirem nos mesmos
resultados práticos. Conceiçom essencialmente democrática
porquanto se opom e luita contra todo poder, esteja onde estiver e se difarce
da cultura que for. Por último, dado que reformula de umha outra visom
a cissom da espécie em si e consigo mesma, advogando por umha radical
unicidade, por isso mesmo é incompatível de facto com o patriarcalismo.
Nom deveria surpreender
a ninguém a clara interligaçom teórica e prática
dos quatro pontos descritos. Nom podia ser de outro jeito. O socialimo é
umha totalidade multicolor que ascende polo arco-íris da consciência
emancipada. As suas tonalidades e matizes som infinitos, a sua beleza é
única. (2)
É assi
como os comunistas bascos estamos pensando o socialismo que temos que construir.
O socialismo que seja, repito, a fase consciente e transitória que
prepara o desenvolvimento do comunismo.
Porque os factos nos demonstram que o comunismo é já a única alternativa -o único caminho, a única via, a única saída- que cabe para ultrapassarmos a miserável situaçom do planeta. Comunismo ou caos.
Justo de la Cueva é Sociólogo e militante de Herri Batasuna.
(1) Karl Marx: Das Kapital/ Kritik der politischen ökonomie. Buch I.1867.
Cito da página 805 da ediçom em castelhano El Capital. Crítica
de la economía política. Libro Primero. Volumen 3, Siglo XXI
de España Editores S.A., Madrid, 1980 (2ª da Espanha).
(2) A descriçom
dos princípios teórico-estratégicos sobre o socialismo
que os comunistas bascos propugnamos reproduz quase que textualmente parte
de um trabalho de Iñaki Gil de San Vicente intitulado Independencia
y socialismo, publicado na web da REDE BASCA VERMELHA http://www.basque-red.net/cas/revol/socialis/texto2.htm
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