Um olhar independentista e reintegracionista à realidade actual da Comunidade Lingüística Galega

9 de Novembro de 2003

Maurício Castro

A publicaçom dos resultados do Recenseamento de Populaçom e Habitaçom correspondentes a 2001 por parte do Instituto Galego de Estatística (IGE) voltou a acender os alarmes nos ámbitos mais preocupados polo futuro do galego. Também de ámbitos quotidianamente implicados no lingüicídio que padece a Galiza fôrom largados hipócritas soluços polos cada vez mais inocultáveis problemas para a viabilidade da comunidade lingüística galega. É o caso, por exemplo, do jornal La Voz de Galicia, principal meio impresso quanto a difusom, quer nas bancas, quer na Internet, e como tal sempre comprometido na exclusom do galego para além das ínfimas quotas que lhe permitem tirar rendimento económico a conta dos batoteiros subsídios oferecidos pola Junta da Galiza.

O caso desse jornal é significativo porque nos últimos anos tem publicado periodicamente, em lugar de destaque, dados parciais, quando nom directamente manipulados, que ajudárom a manter a falsa consciência social de que o galego estava melhor do que nunca, que a nossa situaçom era privilegiada se comparada com a basca ou catalá, ou até que devíamos evitar "excessos" e "politizaçons" para respeitar o lugar que na sua opiniom corresponderia ao espanhol entre nós.

Mas nom só os meios de comunicaçom e a própria Administraçom autonómica tenhem trabalhado nas últimas décadas por adormecer as consciências a partir de dados como o suposto carácter maioritário do conhecimento e uso do galego. Também no ámbito do que, para entendermo-nos, podemos chamar "nacionalismo social galego", tem prevalecido um perigoso discurso que baseava a sua defesa do idioma, de umha parte, no critério quantitativo ("somos mais"), e de outra no que poderíamos chamar "sublimaçom" da acçom institucional no quadro autonómico como santo remédio futuro para os males da nossa comunidade lingüística. Ao mesmo tempo, durante anos, esse nacionalismo social acreditou que, umha vez que o galego tinha sobrevivido durante séculos em situaçom institucionalmente marginal com umha significativa vitalidade e homogeneidade demográfica, essa situaçom poderia ser indefinidamente estável, à espera de que o nacionalismo atingisse o poder autonómico.

Ao quadro anterior, e explicado por ele, haverá que acrescentar o consubstancial desleixo relativamente a qualquer tendência regeneracionista de um corpus lingüístico, o galego, em processo de hibridaçom cada vez mais visível. Defender -na prática, nom no plano meramente ideal ou académico- a unidade lingüística galego-portuguesa como necessidade e parte intrínseca do processo normalizador, era riscado de desvio culturalista que dividia as forças. A assunçom do galego desnaturalizado, espanholizado, era que aglutinaria as vontades para um processo em que o importante era a "normalizaçom", nom a "normativizaçom".

Só muito recentemente é que começárom a enxergar-se, por parte dos sectores complacentemente instalados no nacional-populismo, as críticas tendências que fam da galega umha comunidade lingüística em avançado processo de descomposiçom. Especialmente traumático resultou a alguns a imprecisa declaraçom de "língua em perigo de extinçom" formulada pola UNESCO. Imprecisa, porque nom é a língua que está em perigo, mas a comunidade lingüística galega como tal. O nosso idioma, polo contrário, está em expansom no mundo, o que certamente serve de pouco consolo para aqueles e aquelas que sonhamos com umha Galiza normalizada e construída como naçom livre. Mais umha vez, o nosso nacionalismo institucional esperou a que chegasse de fora o sinal de alarme para adequar o seu discurso a umha realidade bem diferente à que, há trinta ou quarenta anos, determinou o seu diagnóstico e as suas receitas para umha comunidade lingüística doente como a galega.

Foi de ámbitos minoritários como os representados polo independentismo e o reintegracionismo que se avançárom, nos últimos anos, incompreendidos chamados de atençom para umha situaçom que se via vir há já bem tempo, só com observar objectivamente as tendências sócio-económicas, demográficas e as mudanças no tradicional modo de ocupaçom do território por parte do povo galego.

Com efeito, três som os factores que intervenhem em qualquer processo de substituiçom lingüística, segundo temos já indicado em trabalhos anteriores: as mudanças no sistema económico, o número absoluto de falantes e a urbanizaçom. Assim, no caso galego, enquanto o sistema económico atrasado mantivo o país na ruralidade associada à economia agrária de subsistência, o número absoluto de falantes deu ao nosso idioma continuidade no tempo. Umha continuidade que semelhava inabalável, idealistamente consubstancial ao "carácter" do nosso milenário povo. O galego era língua maioritária e minorizada; o espanhol minoritária e maiorizada. Quer dizer, o galego tinha mais falantes e menos prestígio; o espanhol menos falantes, todo o prestígio e as funçons chave para a sua expansom futura na nossa sociedade. Seria assim sempre? Houvo quem julgasse que sim...

Mas as transformaçons sócio-económicas em curso sobretudo a partir da segunda metade do século XX acelerárom a liquidaçom do quadro tradicional de colingüismo desequilibrado. O galego começou a perder falantes ao ritmo que o país perdia populaçom rural e as cidades se povoavam. Se a primeira geraçom que chegava à cidade mantinha o galego respondendo ao tipo sociolingüístico monolíngüe natural ou entom ao semibilíngüe primário em galego, a segunda e posteriores desertavam em massa de um idioma associado ao atraso, a um mundo em extinçom, e escolarizavam-se em espanhol para constituir-se primeiro no grupo sociolingüístico bilíngüe diglóssico ou substitutivo e finalmente no que hoje constitui, segundo os dados achegados polo IGE, os 12,86% de galegos e galegas que afirmam nom falar nunca a língua própria do país, o que duplica a percentagem desse grupo dez anos atrás (6,13% em 1991). Quer dizer, se em 1991 eram 162.000 as pessoas residentes em cidades galegas que se reconheciam monolíngües em espanhol, em 2001 som já 332.000. Resta saber quantas som hoje, mas semelha evidente que o número terá crescido nos últimos dous anos. De qualquer maneira, em cidades como Ferrol, Corunha e Vigo é já umha evidência o carácter maioritário da populaçom espanholfalante, e a tendência é para todas as cidades e a maior parte das vilas virem a somar-se à lista de "territórios ocupados" polo espanhol como língua maioritária. Eis o negro panorama que enfrentamos, com o galego convertido, daqui a pouco, em língua minoritária e minorizada, no limiar da sua extinçom na terra em que nasceu.

Ninguém devia assombrar-se pola contundência dos dados que mostra o recenseamento de 2001, porque já desde os anos 70 se avançavam tendências e dados significativos neste sentido. Demoramos foi muito a reparar na que nos vinha em cima.

Quanto aos dados relativos ao conhecimento, que afirmam que a prática totalidade do nosso povo percebe e a grande maioria é capaz de falar a língua do país, só desde a ingenuidade mais pueril ou da malícia mais perversa pode afirmar-se ser esse um dado "esperançador". Tememos que La Voz de Galicia o afirma com perversom, e nom com ingenuidade, na sua análise dos dados publicados polo IGE, como quando chega a dizer que o galego ocupa por isso "a melhor posiçom das línguas co-oficiais". Para já, o grau de espanholizaçom formal do idioma é progressivo e alarmante, favorecido pola proximidade genética entre espanhol e galego. Som esses dous factos (a proximidade e a assimilaçom formal com o espanhol) que explicam o alto grau de compreensom e conhecimento, e nom os esforços institucionais por alfabetizar os galegos e galegas na sua língua. Daqui a pouco, o galego pode muito bem vir a reduzir-se a umha série de traços que desviam o espanhol falado na Galiza do padrom académico, desaparecendo de vez traços definitórios a nível fonético, sintáctico, fraseológico, etc. A perda da autenticidade da língua pode evidenciar-se já na actualidade só com fazermos com que um cidadao ou cidadá português escuite umha pessoa galegofalante da geraçom dos nossos avós e, a seguir, umha dessas crianças urbanas que teoricamente "dominam" o nosso idioma graças ao seu estudo como matéria de ensino. Na pessoa de mais idade, se calhar analfabeta ou semi-analfabeta, a subsistência de traços lingüísticos estruturais, a sua gramática e fonética implícita, fará com que qualquer português identifique nela ainda a sua identidade lingüística, enquanto na mais nova interpretará estar ante um espanhol a falar um português muito precário...

O povo galego está portanto a viver um processo substitutivo "de manual". E enquanto o poder político espanhol que nos malgoverna nega a evidência, o "nacionalismo social" semelha acordar do seu sono, reconhecendo a crítica situaçom que vivemos. Já nom recorre ao tópico pseudo-democrático de sermos maioria de galegofalantes, talvez intuindo que estamos a ponto de deixar de sê-lo e isso nom nos restará umha pisca de legitimidade na luita polos nossos direitos lingüísticos. Porém, evita tirar as conclusons que se seguem da consciência do desastre. Nom só nom corrige a sua sublimaçom da acçom institucional, como a afiança com umha proposiçom de Lei de Normalizaçom Língüística, a recentemente apresentada polo BNG no Parlamento autonómico, tam possibilista e respeitosa com a legalidade espanhola que a torna inservível para cobrir as necessidades actuais do nosso povo em matéria lingüística. Nom só continua a desprezar o valor da unidade lingüística galego-portuguesa, como se compromete num pretenso "ponto final" ao conflito normativo pola via da renúncia à única saída de futuro para a nossa comunidade lingüística: a reintegracionista. E, entretanto, a capacidade de mobilizaçom do corpo social pró-galego é provavelmente a mais baixa das últimas décadas, graças entre outras cousas ao sectarismo partidista que guia a principal entidade normalizadora.

Por outra parte, os sectores mais conscientes da comunidade lingüística galega, aqueles em que recai hoje a responsabilidade pola activaçom de um verdadeiro processo de regeneraçom da mesma, temos já provas da insuficiência da via puramente institucional na experiência de governos municipais nacionalistas na maioria das principais cidades do país. Temos também duas décadas de experiência das limitaçons da via isolacionista e a desmotivaçom que tem incutido no nosso povo o hibridismo galego-espanhol. Nengum reformista canto de sereia deve entom fazer-nos capitular do nosso irrenunciável compromisso com o idioma e o país.

Frente à antidemocrática imposiçom lingüística por parte do poder espanhol que hoje ordena e manda na Galiza, mas também frente às miragens reformistas do nacionalismo galego que renunciou ao seu património de luita em troca de um impossível reconhecimento espanhol, a alternativa continua a ser a mesma. Só a articulaçom unitária dos sectores mais avançados da comunidade lingüística galega poderá vir a criar algumha expectativa ilusionante no seio do povo galego para, a partir daí, invertermos umhas tendências que hoje nos condenam à desapariçom na calmaria do "democrático" e efectivo etnocídio que Espanha continua a aplicar-nos.
Longe de qualquer desánimo ou catastrofismo, os novos dados publicados polo IGE, ao confirmarem as nossas teses, só nos obrigam a manter o nosso compromisso, a banir qualquer sectarismo e a trabalhar socialmente pola compactaçom e autodefesa da comunidade lingüística galega.


 

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