Padrom lingüístico e (des)normalizaçom
Maurício Castro (artigo publicado no número 14 de Abrente, em Outubro de 1999)
Nas últimas semanas, veu à tona da actualidade informativa a velha polémica sobre a orientaçom cultural da Galiza, manifestada em forma de discussom ortográfica. Notáveis escritores e escritoras, filólogos e até todo um presidente do Conselho da Cultura conseguem actualizar um debate que o poder espanhol na Galiza e as suas comparsas autóctones nom dam enterrado. Um debate, insistimos nisto, que situado nos seus justos termos, leva à discussom sobre qual deve ser o espaço vital em que o projecto nacional galego se desenvolva: o que o encerra nas fronteiras administrativas da pele de touro como diversidade a promocionar, ou o que, desde a soberania, a situe em pé de igualdade ante as culturas que no mundo se exprimem em galego, enriquecendo-as e enriquecendo-se numha nova relaçom que já quereriam para si outros povos minorizados no seu caminho de recuperaçom.
Tal é a trascendência desta disjuntiva, cuja persistência no tempo indica com clareza duas cousas importantes: primeiro, que a dissidência reintegracionista nom é causa da penúria vital da cultura e língua galegas, desde que o oficialismo conseguiu impingir nas últimas décadas a sua política excluente e sectária sem que isso implicasse avanços na normalizaçom lingüística e cultural do país. Mais bem, a questom normativa é conseqüência do próprio conflito lingüístico-cultural, a sua manifestaçom mais gráfica, polo que se evidencia falaz a famosa distinçom entre normalizaçom e normativizaçom. Segundo, e conseqüência do anterior, que a discussom nom é secundária, gratuíta, ou fruto da teima de um grupo obsessionado com o extermínio dos eñes. Polo contrário é um tema central cuja nom resoluçom indica a persistência do confronto entre duas possibilidades de futuro para a Galiza: a sua progressiva assimilaçom, pola via da hibridaçom, ao projecto nacional espanhol; e a construçom de um projecto nacional próprio, enraizado na nossa identidade histórica e projectado na progressiva e plena restauraçom dos nossos sinais de identidade, entre os que a língua ocupa lugar de destaque.
Cumpre lembrarmos que nestes anos de imposiçom do modelo lingüístico-cultural isolacionista, os dados objectivos falam de grave deterioraçom do corpo social galegófono. Nom afirmamos que com a assunçom do reintegracionismo a normalizaçom vaia seguir-se de maneira automática. Apenas verificamos que a proposta de um modelo lingüístico e cultural a partir do espanhol nom serviu para favorecer a implantaçom do galego nem a identificaçom geral do nosso povo com o mesmo. Ao contrário, cada vez o corpo social galego se instala mais na espanholidade.
O isolacionismo lingüístico e cultural constitui a roupagem ideológica e científica da via ensaiada polo poder espanhol nas últimas décadas para liquidar desde dentro o espaço simbólico galego. E o conflito normativo manifestou a resistência de sectores da nossa sociedade à assimilaçom face aos que sucumbírom ante as quotas de poder e autoridade cedidos polo nascente autonomismo político-administrativo. Umha resistência progressivamente enfraquecida ante a agressividade sofrida, que no entanto se instalou em sectores da base social nacionalista mais nova, socializando-se em diversos sectores.
Agora que a intelectualidade volta a discutir a questom, nós insistimos na necessidade de tornar o reintegracionismo em ferramenta normalizadora de primeira ordem, polo que tem de recuperaçom da memória e identidade históricas; mas também de reforço para um projecto de soberania cultural que traça umha clara divisória com o hegemonista projecto cultural espanhol, abrindo-nos todo um novo campo de relacionamento cultural alternativo e motivador no longo caminho que nos resta percorrer na construçom nacional.
Contudo, nom devemos cair nessa lógica mecanicista que faga do reintegracionismo umha nova anestesia para a autêntica consciência lingüística. A recuperaçom do galego por parte do povo galego ou a sua definitiva marginalizaçom dependerá de que a sociedade galega, através primeiro dos seus sectores mais conscientes, assuma o protagonismo no processo normalizador, pondo os meios para umha planificaçom em todos os planos; ou que continuem a desperdiçar-se as forças entre os que se entregárom ao serviço da política lingüística oficial letal para o galego, os que desde o possibilismo de mínimos confiam a normalizaçom em exclusiva à chegada de um governo nacionalista à Junta, e os que desde um voluntarismo desnorteado vem com impotência como a nossa identidade nos escapa entre os dedos.
Mais do que nunca, a normalizaçom está nas nossas maos, na capacidade que tivermos de desenvolver inciativas motivadoras e aglutinantes... E de fazer frente às agressons do projecto espanhol na sua estratégia de instalar-se de vez na nossa terra.
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