QUADRO EXPLICATIVO DAS DUAS TEORIAS ANTAGÓNICAS  SOBRE  O CONTEXTO MUNDIAL. A BURGUESA  NEOCLÁSSICA, MARGINALISTA E NEOLIBERAL E A MARXISTA (III)

Iñaki Gil de San Vicente

QUINTA PARTE: um resumo da social-democracia, o estalinismo e eurocomunismo (ver quadro)

Concluimos aqui a exposiçom da única corrente antagónica e irreconciliável com a ideologia económica burguesa. A linha ascendente que percorre todo o extremo esquerdo do quadro representa essa corrente oposta em todo. A diferença é tam insalvável que qualquer tentativa de síntese realizado, e veremos os mais importantes, tivo que renegar de aspectos decisivos do MARXISMO aceitando componentes da economia política burguesa. O primeiro esforço sério de inicial síntese foi a TEORIA SOCIAL-DEMOCRATA, que no entanto degenerou muito cedo num abandono prático dos conteúdos revolucionários iniciais e numha defesa a todo o transe do capitalismo mediante reformas controladas e integradas –funcionais– na acumulaçom de capital. Depois figérom-se outras tentativas que na sua derivaçom mais direitista concluem se nom na GLOBALIZAÇOM POSITIVA, sim na GLOBALIZAÇOM CONTROLADA. Resumamos este processo:

(8) TEORIA SOCIAL-DEMOCRATA (ver quadro):  magnificou-se em excesso a influência do MARXISMO na social-democracia no último terço do século XIX. Na prática foi muito menor, e na teoria foi só apreciável numha cada vez menor minoria. Polo contrário, desde que Lassalle (1825-1864) defendeu a teoria do "Estado livre do povo" como garante dos direitos das massas, e protector seu mediante a aliança com umha burguesia interessada em evitar os conflitos que surgiriam da "lei de bronze do salário", desde entom dominou o reformismo na social-democracia em vida de Marx e Engels apesar dos seus titánicos esforços em contra. Logo, Bernstein (1850-1932) reforçou e adaptou esse reformismo com a sua aceitaçom explícita de conteúdos marginalistas aceitados de Walras e Böhm-Bawerk, sobretodo  a sua crítica da lei do valor-trabalho, e de outros conteúdos filosóficos directamente antimarxistas como o kantismo em filosofia e o pacifismo em política, nos quais nom podemos estender-nos agora. Que se tratava de algo mais que umha simples influência ideológica comprova-se polo fracasso do grandioso esforço de Rosa Luxembourg na defesa criativa do MARXISMO dentro da social-democracia.

Na atmosfera reformista cada vez mais espessa, as teses de Hilferding (1877-1941) acerca da primacia da esfera da circulaçom sobre a esfera  da produçom de valor, umha das teses burguesas, fôrom preparando o terreno para nom encontrarem resistência as suas teses posteriores sobre o "capitalismo organizado", ao ter sido exterminada a corrente luxemburguista e spartakista desde 1918, e ao crescer o furibundo anticomunismo do partido social-democrata. Sustinha que o "socialismo" podia aproveitar a "nova" natureza organizada do capitalismo para dirigir pacificamente a sua transformaçom acelerando a desapariçom do desemprego estrutural, aumentando os salários, acabando com as contradiçons do sistema, etc.

Há que dizer que esta corrente vinha de longe e que nom era apenas património da social-democracia alemá, pois estava activa antes do reformismo fabiano británico, embora tivesse em Beatrice (1858-1943) e Sidney (1859-1947) Webb umha das melhores parelhas defensoras do gradualismo parlamentar e de umha transformaçom do capitalismo desde dentro, inclusive mediante o jogo em Bolsa dos "trabalhadores accionistas". Recordemos que os Webb aconselhavam na imprensa fabiana os movimientos de compra-venda das acçons que tinham muitos operários sindicados. Também lembremos que Beatrice Webb qualificava a  estratégia marxista dos conselhos operários de começos da década de 1921 nas greves británicas como "perniciosa doutrina".

Na realidade, como veremos com o KEYNESIANISMO, esta ideologia de planificaçom intervencionista na economia mediante o Estado regulador estava em pleno debate porque os logros da URSS, a intervençom estatal do fascismo e as promessas do nazismo, a pressom da crise e a política de Rooswelt nos EUA, punham-na na ordem do dia. Porém, a social-democracia nom defendia em modo algum as teses marxistas. Nom podemos cair agora em divagaçons de história ficçom sobre quê tivesse ocorrido a escala europeia e mundial se a social-democracia nom tivesse intervido sangrentamente em defesa do capitalismo no crucial período de 1918-23, do mesmo jeito que a sua opçom geral pró-imperialista em 1914, ou o seu comportamento de 1929-1933 na Alemanha. Talvez, agora a história da teoria da economia política fosse muito diferente. Mas estas hipóteses, por outra parte muito excitantes, obrigam-nos a levar em conta o sucedido na URSS antes de seguirmos analisando a deriva face o KEYNESIANISMO.

(9) TEORIA ESTALINISTA (ver quadro): para começos da década de 1931, a imensa maioria dos militantes do PCUS desconheciam praticamente todo dos diferentes contributos de Rosa Luxembourg, Trotsky e Bukharine para a TEORIA DO IMPERIALISMO. Mais ainda, para entom Lenine era idolatrado como múmia e desconhecido como revolucionário, e a teoria do "socialismo num só país" era doutrina oficial apesar de negar  todo o MARXISMO anterior. Em 1927, o PCUS sancionara a versom estalinista da Crise Geral do Capitalismo, que tergiversava a utilizaçom dessa expressom por Marx no posfácio à segunda ediçom de O Capital de 1873, e que nom tinha nada a ver com a visom dialéctica dada por Lenine em várias ocasions. Em 1931, Estaline assegurou que em pouco tempo a URSS ultrapassaria economicamente o capitalismo mais desenvolvido. Deste jeito, para essa década decisiva, a URSS dispunha já de umha concepçom global do capitalismo e do socialismo segundo a qual o capitalismo, quebrado internamente pola sua Crise Geral, iria recuando frente ao ascenso imparável do socialismo soviético. Em 1943, propujo-se na imprensa oficial a tese de que a lei do valor-trabalho era compatível com o socialismo, e em 1952 Estaline assumiu-na publicamente. Com isto, terminava por romper o último, se algum restava, fio que ligava o MARXISMO com a TEORIA ESTALINISTA.

Segundo esta teoria, o mundo estava dividido em dous blocos socioeconómicos que concorriam por superar-se um o outro. Enquanto até 1924 a Internacional Comunista admitia que tanto a URSS quanto o resto de povos oprimidos e classes trabalhadoras viviam mal num único sistema capitalista mundialmente dominante, esta teoria abandona esse princípio estratégico decisivo, e cria a ficçom de dous blocos opostos, rompendo a unicidade do mercado mundial capitalista, unicidade que era umha das pedras basais desde o Manifiesto Comunista de 1848. As conseqüências que se despreendem dessa negaçom directa do método marxista som totais e já fôrom denunciadas dentro mesmo do PCUS desde a metade da década de 1921, quando ainda nom estava realizada de todo. Agora nom nos estendemos ao respeito porque o veredicto histórico é definitivo.

Porém, no que toca à evoluçom da economia política marxista, há que dizer que destruiu de raiz todo o seu potencial científico-crítico, quer dizer, dialéctico. Por umha parte, dentro da URSS impujo-se um dogmatismo desolador e mecanicista, e fora da URSS muitos economistas que seguiam as suas pautas teóricas, entrárom numha confusom total a respeito de aspectos elementares. Basta comparar, por exemplo, a superficialidade dum Sweezy (1910-¿?), teórico da esquerda oficial norte-americana e "enriquecedor" de Marx mediante Marshall e Keynes, com um Mattick (1904-1981) e/ou um Mandel (1923-1995). De outra parte, ao ser "científicamente correcto" defender que o socialismo é factível  num só país, e que, como se oficializou desde Kruschev, isso é possível mediante a "concorrência pacífica" com o capitalismo, entom, os mais PCs nom russos podiam perfeitamente tentar os seus respectivos avanços ao socialismo. Chegamos assim aos limiares do eurocomunismo. Vemos, pois, que a TEORIA ESTALINISTA nom guardava já nengumha relaçom com o MARXISMO.

(9-1) EUROCOMUNISMOS (ver quadro): falamos de eurocomunismos, em plural, para expressar mais directamente a dispersom prática que sofreu o estalinismo na sua corrente exterior mais forte. Houvo outras correntes, além da chinesa, como fôrom os múltiplos marxismos-leninismos que florescêrom a finais da década de 1961, à volta do Maio'68, e quase imediatamente entrárom  numha rápida desapariçom até ficarem reduzidos aos colectivos actuais. A diversidade dos eurocomunismos nom anula a sua identidade de fundo, consistente em vender e supeditar o movimiento operário dos seus países às burguesias dominantes. Em cada Estado, figérom-no dumha forma particular, mas sempre de maneira mais adequada e efectiva para o capitalismo concreto existente nessa formaçom social. A justificaçom teórica, se se puder definir assim, de tal comportamento provém de várias correntes anteriores, sobretodo da TEORIA ESTALINISTA, mas também dumha subterránea ligaçom nunca superada com o eleitoralismo e parlamentarismo social-democrata, de jeito que a concepçom de fundo nom superava um gradualismo economicista segundo o qual o movimento operário ascenderia paulatinamente conquistando cada vez mais espaços de poder.

No plano socioeconómico, esta concepçom era avalizada por textos traduzidos directamente de editoriais do PCUS, copiando sem nengum cuidado de adaptaçom os dogmas entom vigentes  na URSS. Mas também por muito poucos textos redigidos polos PC’s do país como o famoso  Tratado Marxista de Economia Política do PC francês, de 1971, e que serviu como Bíblia para legitimar o comportamento deste partido na decisiva década de 1971-80. Depois, em 1977, este texto foi traduzido ao castelhano cumprindo o mesmo papel no Estado espanhol. Num e outro estados, a teoria oficial servia, além de para legitimar o colaboracionismo de classes, também para legitimar a sua "unidade nacional" estatal, quer dizer, para suster o modelo estatal de acumulaçom capitalista baseado na exploraçom interna de naçons por esses estados. O "socialismo" defendido por esses tratados e manuais é o "socialismo" da naçom opressora. No caso de Euskal Herria, isso é inegável.

 

SEXTA PARTE: um resumo do keynesianismo (ver quadro)

Porém, os efeitos do estalinismo no tema que tratamos, a evoluçom das diversas correntes político-económicas, fôrom maiores que a desertizaçom teórica interna que sofreu o PCUS e toda a sua corrente. Directa e indirectamente segundo os casos, o estalinismo ajudou a legitimar a alternativa social-democrata da burguesia europeia, e, à vez, o prestígio das políticas de intervencionismo keynesiano que, na realidade, fôrom unidas à imposiçom de novas disciplinas de exploraçom laboral representadas polo taylor-fordismo. Antes de passar às teorias que actualmente tentam exprimir a situaçom capitalista mundial sem cair nos tópicos da globalizaçom mas também sem atingir o conteúdo revolucionário do método marxista, há que deter-se na linha que surge da social-democracia e que ascende e vai derivando face a direita. A razom é dupla pois esta linha ramifica-se em várias interpretaçons que tentam, por um lado, evitar a tosca e grosseira apologia da barbárie capitalista que fai a GLOBALIZAÇOM POSITIVA, e por outro, apresentar umha alternativa "progressista" de GLOBALIZAÇOM CONTROLADA, quer dizer e como veremos, de manobrar sempre institucionalmente para fazer que os aspectos "positivos" da globalizaçom se imponham sobre os "negativos", portanto, cavalgar o tigre.

(10) KEYNESIANISMO DURO (ver quadro): a necessidade dumha reforma interna do capitalismo era crescente na Gram Bretanha conforme se constatava a sua decadência imperial ao longo da década de 1921. Antes da Grande Crise de 1929, Keynes (1883-1946) já discutira com amigos seus do Partido Liberal como deveria ser essa reforma, mas ele mesmo nom perfilara ainda plenamente a sua teoria. Inclusive quando se temperou bastante a crise em 1933, continuava sem concretizá-la definitivamente. Na realidade, nom se pode separar a culminaçom do keynesianismo em 1936 do influxo de quatro processos prévios: um, as reflexons colectivas de liberais e laboristas británicos com quem se relacionava Keynes; dous, as experiências práticas e teóricas sobre o intervencionismo estatal que se realizavam em praticamente todos os capitalismos concretos para sair da crise e na URSS; três, a sua própria experiência como proprietário dumha empresa de seguros, o seu enriquecimento com a especulaçom da bolsa e o comércio de arte, a sua longa experiência política em defesa do império británico, etc. ; e, quatro, a influência exterior dos contributos de Kalecki, um economista polaco estudioso de Marx e, por isto, muito mais capaz que Keynes –que desprezava o MARXISMO– para adaptar à reforma do capitalismo determinados componentes marxistas, previamente "desinfectados".

Assim e todo, fijo falta a II Guerra Mundial para que o keynesianismo fosse aceitado polas burguesias. Recordemos, por sermos breves, que a URSS saiu vitoriosa e imensamente prestigiada polo seu decisivo contributo, mais importante do que o dos EUA; que o movimento operário e popular, e as organizaçons de esquerda, lideraram a resistência anti-nazi enquanto as burguesias colaboravam activa ou passivamente, e que no Terceiro Mundo ascendiam as luitas de libertaçom nacional. Neste novo contexto, agravado polos riscos dumha crise económica, as burguesias compreendêrom que os velhos dogmas neoclássicos e marginalistas nom serviam em absoluto. Keynes tivo que superar as suas iniciais dependências com o marginalismo brando e com Marshall ao ir dando-se conta do seu fracasso.

Visto o anterior, que desmitifica bastante o artificialmente inchado mito Keynes, entendem-se perfeitamente as razons sócio-históricas do capitalismo imperialista para aplicar o KEYNESIANISMO DURO caracterizado por, primeiro, intervir estatalmente com apoios directos em ajuda das grandes empresas; segundo, militarizar a economia, apoiar ao I+D, multiplicar o gasto público em infraestruturas económicas que acelerem a acumulaçom de capital e logo, em gastos sociais; terceiro, aumentar os impostos para encher as arcas estatais; quarto, controlar os salários directos, lograr a colaboraçom sindical mediante concessons nos salários indirectos e frear a luita de classes e um aumento das reivindicaçons; quinto, assumir um aumento da inflaçom controlada e intervir na política monetária; sexto, potenciar primeiro e sobretodo o consumo da burguesia e, logo, o das classes populares, e sétimo, aperfeiçoar o poder de manipulaçom psicológica de massas do Estado burguês para tentar controlar as crises de superproduçom, achacadas a factores psicológicos dos consumidores e nom às contradiçons objectivas do capitalismo.

Estas medidas fôrom efectivas, mas nom pola sua suposta valia intrínseca, senom polo contexto mundial do capitalismo e em especial o do centro. A reconstruçom dos destroços tremendos da guerra na Europa exigiu, além da supeditaçom aos EUA e à sua "ajuda, dum sobreesforço das classes trabalhadoras inicialmente fortes e conscientizadas mas logo despolitizadas e desmobilizadas pola esquerda reformista e o estalinismo. À vez, a destruiçom massiva, dumha magnitude que se esquece e que nom podemos pormenorizar, criou enormes mercados de reconstruçom que exigírom o alargamento do sector primário, ou da produçom de bens de produçom  —decisivo no capitalismo— e posteriormente do sector secundário, ou de produçom de bens de consumo. À vez, o capital financeiro e o sector serviços tivérom que responder às necessidades criadas. Pola sua vez, os EUA dispugérom de grandes vantagens sobre o resto do planeta pola sua posiçom hegemónica dentro do sistema capitalista.

No entanto, é muito significativo que o país berço do KEYNESIANISMO, Gram Bretanha, nom pudesse manter a sua anterior hegemonia imperialista e decaísse imparavelmente. A razom há que procurá-la, em primeiro lugar, em que a teoria de Keynes está circunscrita ao quadro estatal, em que nom tem nengumha visom mundial da economia excepto a que deriva à força da posiçom internacional da Gram Bretanha, que já nom era, na prática, a potência dominante. O KEYNESIANISMO pensa a economia desde e para os ámbitos estatais e só secundariamente para os extraestatais, e isto devido a posiçom que ocupa na hierarquia imperialista o Estado de turno e polas relaçons entre a economia e a guerra, quer dizer, polo complexo industrial-militar. Semelhante fraqueza estrutural exprime a segunda razom a umha escala mais ampla, e é que quando o capitalismo como economia-mundo entra em crise entre 1969-1973, o KEYNESIANISMO nom pode deter a catástrofe apesar de todos os esforços por aplicá-lo mais intensamente durante os anos posteriores pois, além de paradigma constrangido ao limite do Estado burguês, também se acrescenta umha segunda e decisiva fraqueza, qual é a sua incapacidade para integrar por longo tempo o movimiento operário.

O seu paradigma estatalista, quer dizer, a sua incompreensom do capitalismo enquanto totalidade mundial, e o seu desprezo da lei do valor-trabalho, quer dizer, a sua negativa a resolver o problema último da mais-valia e da exploraçom, incapacitavam o KEYNESIANISMO para contrarrestar a queda tendencial da taxa média de benefício. Segundo o MARXISMO, conforme a crise adquere conteúdos graves o seu desenvolvimento vai-se fusionando com o da luita de classes, e essa mesma luita transforma-se na síntese das contradiçons objectivas e subjectivas do capitalismo. À vez, dita imbricaçom mútua e interrelaçom  acrescenta-se conforme aumenta a mundializaçom capitalista e conforme cada Estado vai perdendo poder de influência e vai endurecendo a sua política interna e externa para recuperá-lo.  Nessa espiral a luita de classes fusiona os seus conteúdos sócio-políticos com os seus conteúdos sócio-económicos. O KEYNESIANISMO, como paradigma que sofre as duas limitaçons estruturais, vai ficando ineluctavelmente superado. As burguesias som plenamente conscientes disto e, se podem, quer dizer, se a luita de classes interna e o contexto externo lho permitem, fai umha mudança mais ou menos brusca impondo medidas neoliberais ou deve limitar-se, durante um tempo, a aplicar KEYNESIANISMOS BRANDOS:

(10-1) KEYNESIANISMOS BRANDOS (ver quadro): ou neoliberalismos brandos, porque na realidade fôrom  um conjunto de misturas impostas em cada Estado segundo a relaçom de poder existente em cada um deles. Nom chegárom à ferocidade do ataque neoliberal estrito aplicado nos EUA e na Gram Bretanha, mas sim se acercárom bastante em três objectivos básicos: um, debilitar política e economicamente à classe trabalhadora para poder aplicar logo piores medidas neoliberais; dous, transferir à burguesia enormes massas de capital imobilizados por estarem dentro de serviços públicos e sociais, em fundos de pensons, etc., e três, adaptar o Estado à crescente competitividade mundial. Que as burguesias eram conscientes da crise keynesiana  comprova-se na especial insistência que figérom em esmagar o Trabalho mediante a descentralizaçom dos convénios colectivos, a precarizaçom e flexibilizaçom, etc., e em alargar a supeditaçom do Estado ao Capital mediante as privatizaçons, a reduçom de gastos sociais, etc.

Mas também fôrom conscientes da crise os próprios defensores à morte de Keynes, que numha data tam significativa como 1977 –crises agudas em Itália, Portugal, Estado espanhol, etc., debilidade do imperialismo, prestígio crescente da tese de von Hayek, ascenso do conservadorismo e do republicanismo, intervençom da Trilateral, etc.– fundárom o Journal of Post Keynesian Economics para reorganizar aos post-keynesianos frente ao ascenso neoliberal. Recordemos como em 1980 estes celebrariam a sua reuniom internacional em Stanford, como temos visto antes. A reacçom post-keynesiana foi umha espécie de "autocrítica" no sentido de reconhecer, primeiro, que a economia tem um essencial conteúdo de realidade e de materialidade, nom podendo ser reduzida a simples fórmulas matemáticas; segundo, que por isto mesmo tem riscos, inseguranças e incertezas na sua evoluçom em vez de ser umha espécie de mecanismo regulado com bastante exactidom e, terceiro, que por isto mesmo se devem ter em conta também os factores macroeconómicos, os colectivos e de massas, e nom só os microeconómicos, os individuais e, ao sumo, de grupos específicos. No entanto estes esforços nom detivérom a crise do KEYNESIANISMO.

(10-2) TERCEIRA VIA (ver quadro):  a finais da década de 1991, os efeitos devastadores da ofensiva do Capital contra o Trabalho, do neoliberalismo, lográrom aumentar os ganhos da burguesia e adaptar os seus Estados às novas necessidades, mas nom conseguírom vencer definitivamente a classe trabalhadora. Nom podemos analisar agora porquê e como desde meados dessa década se assistia a umha activaçom da luita de classes. Em 1998, treze dos quinze governos europeus estavam em maos de partidos social-democratas ou sob umha aliança de estes com partidos liberais e de centro. Os democratas governavam nos EUA. Mas nom se detivo a deriva dos KEYNESIANISMOS BRANDOS face a direita, face confundir-se praticamente com o neoliberalismo por duas razons: umha, porque as classes obreiras nom estavam destroçadas como sujeitos colectivos capazes de resistir e, dous, porque tampouco o capitalismo mundial entrava numha senda de expansom senom ao contrário, cada vez crescia em menos áreas do planeta e estagnava e aguçava-se  a sua crise em cada vez mais grandes zonas mundiais.

Nestas condiçons aparece a TERCEIRA VIA como novo giro da social-democracia face o neoliberalismo. Os debates internos na social-democracia entre os mais direitistas e os menos,  e nos restos do estalinismo, estám sendo realmente pobres e nom merecem a pena nem sequer sintetizá-los assim. Nestes casos sempre é bom aplicar um dos princípios do método dialéctico marxista consistente em ler a burguesia, em estudar o que diz e fai o Capital: em 23 de Março de 2001, o diário inglês The Guardian dava a notícia de que a CEOE sob um Governo laborista na Gram Bretanha existia a regulaçom laboral mais laxa de todas, os impostos mais baixos para as grandes corporaçons e os mais baixos custos de emprego, inclusive mais baixos do que nos EUA. A TERCEIRA VIA nom é senom a maneira de como umha parte considerável da social-democracia cumpre a funçom de atacar com dureza extrema as classes trabalhadoras para facilitar o benefício capitalista. Os efeitos do ataque sobre a moral de luita tanto da TERCEIRA VIA como do resto da social-democracia e do laborismo na Europa fôrom tam devastadores que já perdêrom oito dos treze governos na Europa, e nos EUA chegárom ao poder os republicanos. Umha conseqüência directa desta recuperaçom do neoliberalismo e do marginalismo histórico no tema que nos concerne, é o endurecimento das políticas imperialistas em todos os sentidos.

(10-3) GLOBALIZAÇOM CONTROLADA (ver quadro): segundo esta teoria, a globalizaçom tem aspectos "negativos" mas também "positivos", e o objectivo das "forças democráticas" é o de desenvolver os segundos e combater os primeiros. Esta teoria  tem muitas formas secundárias de apresentar-se, tantas como correntes reformistas que  existem e existírom ao longo da linha que nos conduz até a ECONOMIA BURGUESA CLÁSSICA. Desde logo som muito mais que as da GLOBALIZAÇOM POSITIVA, que simplesmente expressa a nu a obsessom capitalista por aumentar o seu benefício. Agora bem, em síntese, o básico da GLOBALIZAÇOM CONTROLADA  radica no seu desejo por controlar a globalizaçom, por evitar que os aspectos "negativos" se desenvolvam mais e/ou se imponham sobre os "positivos".

Os aspectos "negativos" som a exploraçom, a fame, a doença, a ignoráncia, as crises de todo o tipo incluída a ecológica, o racismo, o monopólio tecnológico e um longo etc. que dependem de quem elaborar a listagem. Os aspectos "positivos" som todos os relacionados com as possibilidades implícitas num desenvolvimento "democrático" das "novas tecnologias", dos "mass media em tempo real", dos "avanços médicos", da "economia do conhecimento", de aumento do "voluntariado social" e das ONG’s., da "tomada de consciência mundial" da espécie humana, etc. Vemos que existe um contraste absoluto entre o concreto que sempre resulta a fame e os aspectos "negativos" e o abstracto que resultam todos os aspectos "positivos". O pior é que nom há forma de resolver este problema porque, à força, todo o "positivo" tem que ser abstracto numha concepçom baseada na ECONOMIA POLÍTICA BURGUESA.

As vantagens relativas e muito reduzidas na prática, mas sempre algo mais positivas para as massas oprimidas do planeta polos seus  limitados logros reformistas em comparaçom à brutalidade neoliberal, que oferece a GLOBALIZAÇOM CONTROLADA sobre a POSITIVA venhem do maior desenvolvimento teórico e do maior potencial analítico desta economia política sobre a ECONOMIA VULGAR e sobre o MARGINALISMO DURO e BRANDO. Ao fim e ao cabo, sempre se pode elaborar umha espécie de "teoria suave" e nom radical sobre a exploraçom baseada nas ambigüidades e limitaçons de David Ricardo, por exemplo. "Teoria suave" que será sempre menos má do que a ferocidade implacável de Malthus e de Jevons, e inclusive também do que a de Marshall. No entanto, a teoria da GLOBALIZAÇOM CONTROLADA é desde o MARXISMO tam contraditória e impossível como as pretensons de acabar com o empobrecimento mediante a caridade; ou as dos diversos socialismos cristaos do século XIX por "cristianizar" o capitalismo; ou as das associaçons de começos do século XX de "humanizar" o imperialismo com os fundos obtidos com leilons; ou a da pretensom da Sociedade de Naçons de entre-guerras de impedir umha nova guerra mundial. 

 

SÉTIMA PARTE: um resumo de um bloco de críticas progressistas (ver quadro)

Terminamos com a outra tendência burguesa,  neste caso direitista se por extrema direita nua e crua definimos a linha que ascende do MERCANTILISMO à GLOBALIZAÇOM POSITIVA. Esta segunda linha evolutiva serve muito bem os interesses imperialistas porque oculta a lógica objectiva da exploraçom com a palavrada reformista, e até pode permitir-se passar da palavra a alguns factos reformistas mediante políticas interclassistas que avancem em algumhas melhoras sociais, sempre dentro do sistema capitalista. Mas a incapacidade última desta linha fijo com que à sua esquerda, e aproximadamente no centro do quadro acima apresentado, tenham surgido outras teorias alternativas mais críticas e mais aptas para exprimir a evoluçom real do capitalismo mundial. Todavia, como veremos, essas teorias nom atingem a majestosa coerência teórico-política do MARXISMO, embora sim lhe contribuírom alguns critérios válidos que devem ser integrados no seu método materialista histórico e dialéctico.

As origens destas teorias  remetem-nos para a mistura parcial com outras teorias nom marxistas e inclusive antimarxistas, e também tendêrom a apresentar-se na maioria dos casos com umha aura de neta superioridade teórico-académica a respeito do MARXISMO, embora na realidade se tratasse da versom primeiro edulcorada e a seguir tergiversada que dele impujo o estalinismo. Gerou-se assim, ou por melhor dizer, voltou  a imperar um clima universitário e intelectual de desprezo que já existira antes, quando o elitista e rico aristocrata austríaco Böhm-Bawerk ou depois, quando Keynes, sofisticado e culto especulador em Bolsa e conselheiro do príncipe da Casa Real da sua Engraçada Majestade Británica, defendiam desde diferentes ópticas a superioridade da ideologia burguesa. Em contra do que se fijo acreditar intencionadamente, o MARXISMO estivo muito desprestigiado e até perseguido directa ou indirectamente na posguerra, e polo geral os textos que contavam com o apoio dos relativamente fortes PC’s estalinistas tinham mais facilidades para sair ao mercado. Estes e outros factores exprimem a apariçom de voluntariosos grupos de intelectuais de esquerda que, por razons diversas, nom quigérom ou nom pudérom aprofundar  no MARXISMO senom em interpretaçons, edulcoraçons ou tergiversaçons  alheias, tentando melhorá-las ou enriquecê-las.

(11) TEORIAS ESTRUTURAL, RADICAL, DA REGULAÇOM E DO SISTEMA-MUNDO (ver quadro): tenhem em comum que nom duvidam em reconhecer o uso que fam de Marx, embora também tenham em comum que afirmam "melhorar" Marx com contributos de outros autores e correntes. Em síntese, as quatro se caracterizam por nom verem no MARXISMO um método específico póprio e qualitativamente diferenciado dos dous grandes ramos que aqui estamos a analisar. Como dixemos na apresentaçom, na história das políticas económicas e das suas correspondentes ligaçons internas com a história mundial sucede o mesmo que com a história das ciências sociais, em que se preza nitidamente que o grosso, a maioria, das versons académicas, oficiais a institucionais nom querem ou nom podem reconhecer que o MARXISMO é um caso único no catalogável nem sequer como "ciência social" no sentido que por tal se tem desde Comte até agora. Bastam os exemplos de como fôrom empregados os sociólogos burgueses Durkeim e Weber para "enriquecer", "melhorar", "alargar" e "actualizar"  Marx , sempre em benefício da burguesia, para verificarmos as limitaçons desses esforços. Com as teorias económicas sucede outro tanto, segundo os seus graus de oposiçom ao capitalismo.

Desde esta precauçom prévia, podemos compreender melhor os reais contributos destas quatro teorias. A primeira delas, a ESTRUTURAL, surge do esforço de adaptar um conceito básico em Marx e que foi umha achega dos fisiocratas e de Quesnay, o de estrutura, ao capitalismo contemporáneo mas acrescentando os contributos de outras correntes, desde as econometrias até o sociologismo francês. Esta teoria caracteriza-se, além de por um eclecticismo preocupante, também por inchar o balom do estruturalismo de modo que, segundo ela, pode ser-se estruturalista sem ser-se marxista mas, ao ser-se marxista, é-se estruturalista. Desaparece assim a especificidade do MARXISMO que é reduzido, como nas versons oficiais da sociologia a umha corrente sociológica mais, com "os seus acertos e os seus erros". O mesmo há que dizer das vulgatas oficiais sobre filosofia, economia, antropologia, etc. Portanto, nom fai falta ser marxista para fazer umha crítica ESTRUTURAL do capitalismo.

A teoria RADICAL, pola sua parte, é algo mais "radical" e valha a tautologia, já que assume mais activamente as suas ligaçons com Marx embora também se reclame devedora de Polanyi (1886-1964), de um Keynes lido desde a esquerda, de Sraffa (1898-1983) e de outros. Esta teoria surge precisamente em 1968, ao calor das críticas esquerdistas à social-democracia e ao estalinismo, críticas inseparáveis do ascenso da fase de luitas de classes que entom se vivia. Numha primera fase, até finais da década de 1971-80, as suas críticas ao capitalismo  baseiam-se na existência da exploraçom, aceitando a existência de colectivos explorados, o papel do Estado burguês, das ideologias sociais, etc., mas, no entanto, nom aceitam a teoria marxista do valor-trabalho, polo que todo o seu radicalismo carecia dumha base sólida. Com efeito e por isso mesmo, numha segunda fase, a partir de começos da década de 1981-90, coincidindo com o declínio da luita operária e o ascenso do neoliberalismo mais duro, nomeadamente nos EUA, donde som a maioria dos membros desta corrente, começam a aceitar a teoria de que dentro do capitalismo se podem realizar mudanças importantes. Convém lembrarmos que, em 1993, o democrata Clinton chega à Casa Branca ajudado em grande medida pola reacçom popular contra o reaganismo, reacçom que se verá defraudada no seu segundo mandato quando as "reformas" desde dentro do capitalismo aguçam a exploraçom, a pobreza e as diferenças sociais nos EUA. O fracasso desta corrente e de todas as que defendem o mesmo, vemo-lo ao estudar a evoluçom da desigualdade social e da apropriaçom privada do grosso do excedente por umha minoria nos EUA entre 1983-1998: 1% mais rico obtivo os 53%, os 19% seguintes obtivérom os 39% e a enorme massa dos 80% –o que em térmos marxista se define como povo trabalhador– só obtivo os 9% restantes. 

A teoria da REGULAÇOM sustém que o capitalismo evolua mediante umha sucessom de mudanças nas formas de regulaçom da economia. Esta corrente surge a meados da década de 1981-90, quando é patente já a crise pré-agónica da URSS mas também a dificuldade do capitalismo mundial para abrir outra onda longa expansiva. Por isso afirmam que o "marxismo" está fossilizado e que o capitalismo numha nova crise de regulaçom. Segundo esta corrente, desde finais do século XIX até 1929-31, ou até 1933, regia um modo de regulaçom competitivo, sem quase intervençom estatal pública e com umhas disciplinas laborais cada vez mais superadas polas resistências operárias. Desde essas datas, vai-se impondo outro modo de regulaçom no que o Estado intervém massivamente, as disciplinas laborais  aperfeiçoam-se mediante o fordismo e o taylorismo, e a concorrência livre anterior deixa passagem à concorrência entre monopólios. É a longa fase da regulaçom taylor-fosdista e keynesiana. Desde a crise de 1968-1973 em adiante, introduz-se a flexibilizaçom toyotista, limita-se a acçom estatal, expande-se a financeirizaçom, etc.; quer dizer, estamos entrando em outro modo de REGULAÇOM. No entanto, esta tese embora reconhece a incidência da luita de classes, quase nom valoriza a realidade objectiva das crises económicas enquanto tais, nom domina a essência do MARXISMO ao aceitar teses neoclássicas, nom domina o materialismo histórico ao recorrer muito a Braudel (1902-) e desde a segunda metade da década de 1981-90 integra a teoria RADICAL ianque como umha das escolas que formam a teoria da REGULAÇOM.

A teoria do SISTEMA-MUNDO surgiu dumha derivaçom do INTERCÁMBIO DESIGUAL mais outras derivaçons provenientes de diversos "marxismos", da teoria histórica da Escola dos Annales e de Braudel, mais um forte peso de Weber. Esta teoria sustém que o capitalismo é um SISTEMA-MUNDO devido ao crescimento absorvente do capital que vam estruturando o mundo em centros, semiperiferias, periferias e umha areia mundial. O mercado sempre expansivo vai impondo as relaçons de dependência e absorçom ao longo de sucessivas fases ou etapas que marcam o crescimento do SISTEMA-MUNDO. Na actualidade vivemos, segundo isto, num momento muito importante de mudança com várias alternativas que nom podemos expor aqui. No entanto, a nosso entender esta teoria tem um forte determinismo economicista e mecanicista centrado  na sobrevalorizaçom do mercado e na subvalorizaçom da esfera produtiva. Isto é devido a que nom usa o conceito central de modo de produçom capitalista senom o de mercado capitalista, e inclusive o anterior, o de economia de mercado. Todo isto conflui numha muito fraca presença ou inclusive numha ausência de referências fortes à luita de classes e à teoria do valor-trabalho, e numha presença de concepçons weberianas e dumha história cíclica e mercantil típica dos Annales. Deste modo, o que podia ser umha teoria muito produtiva na crítica radical do capitalismo e na potenciaçom de práticas revolucionárias dotadas dumha perspectiva histórica solidamente assentada, fica devaluado num interessante progressismo intelectual.

(1)  UMHA OUTRA GLOBALIZAÇOM (ver quadro): estas quatro teorias, situadas no que poderia ser umha espécie de esquerda mista, situada entre o centro e a extrema esquerda marxista, estám na ampla corrente que de um modo ou outro defende o que aqui se define como UMHA OUTRA GLOBALIZAÇOM. De facto, esta é a palabra de ordem –"por umha outra globalizaçom"– de muitas das mobilizaçons internacionais contra a globalizaçom actual, por exemplo a de Sevilha de finais de junho de 2002. Umha outra globalizaçom quer dizer, se nom nos enganamos, que  é possível desenvolver outro modelo de relacionamentos mundiais. Até aí nom há problema algum porque nos movemos no vácuo do abstracto. Os problemas começam quando há que fazer cousas concretas que preencham esse vazio.

Nom há possibilidade algumha de desenvolver UMHA OUTRA GLOBALIZAÇOM do mesmo modo que nom houvo possibilidade de desenvolver um outro imperialismo, senom só a de destruir o concreto imperialismo em zonas concretas mediante heróicas revoluçons e guerras de libertaçom nacional. Inclusive as conquistas sociais atingidas por ásperas luitas reivindicativas, som sempre conquistas transitórias e inseguras, submetidas a umha vigiláncia atenta e ameaçante por parte do Capital, disposto a fazê-las recuar até exterminá-las, como o demonstra a história recente. Isto é devido, em resumidas contas, à ditadura cega da lei do valor-trabalho que força à burguesia mundial a impor as mais atrozes exploraçons à humanidade trabalhadora.

Nom há possibilidade algumha de desenvolvimento de UMHA OUTRA GLOBALIZAÇOM porque as classes dominantes do centro imperialista reservárom para si o monopólio das forças produtivas, em primeiro lugar. Por muito que os povos e as classes oprimidas reivindiquem umha outra forma de relaçons, enquanto as forças produtivas sejam propriedade privada de umha muito reduzida elite humana, que nom chega a 1% da populaçom, e que com o apoio dum bloco social interessado em manter esse sistema, nom chega a 10% da populaçom mundial, enquanto continuar este monopólio, é impossível ultrapassar a globalizaçom porque ela mesma é além de efeito desse monopólio privado das forças produtivas, também umha imposiçom sua para avançar na concentraçom e centralizaçom do capital.

Aliás, em segundo lugar,  a propriedade privada das forças produtivas implica a propriedade privada das tecnologias e o espólio correspondente e necessário da força de trabalho qualificada dos povos oprimidos e empobrecidos polas grandes corporaçons e polos Estados imperialistas. O poder tecnocientífico converteu-se, é um componente fundamental do capital constante e, mais ainda, do das grandes corporaçons industrial-militares. O centro imperialista, hierarquizado em três imperialismos, nom pode permitir jamais que este decisivo instrumento se democratize, se generalize e caia em poder das massas oprimidas. E nom pode haver nengumha experiência de emancipaçom que nom desenvolva por seu turno um modelo qualitativamente superior de praxe científico-crítica e de tecnologias libertadoras.  Nengumha OUTRA GLOBALIZAÇOM pode assentar sequer num curto lapso de tempo se carecer de independência tecnológica e científica suficientes.

Por se fosse pouco, em terceiro lugar, UMHA OUTRA GLOBALIZAÇOM é igualmente impossível dentro do sistema financeiro actual, que é ele mesmo umha das causas directas do surgimento da globalizaçom financeira actual. A financeirizaçom corresponde, em sentido geral, à lógica interna do capitalismo para conter a tendência à baixa da taxa média de benefício e, em sentido particular e contemporáneo, à deliberada política dos EUA desde meados da década de 1981-90 para, além de outras medidas, recuperar a relativamente enfraquecida hegemonia mundial do imperialismo ianque. O capital financeiro actual, absolutamente monopolizado polos três grandes Estados-berço do dinheiro em todas as suas formas, nom está disposto a permitir políticas financeiras opostas dentro do seu poder mundial.

Por outra parte, em quarto lugar, nem a propriedade privada das forças produtivas, nem o controlo absoluto da tecnociência, nem o monopólio financeiro mundial durariam muito tempo sem o controlo monopolístico polo centro imperialista, polos EUA em primeiro lugar, da Natureza e dos seus recursos cada vez mais enfraquecidos e finitos. Se o controlo das matérias primas e energias estratégicas foi umha constante obsessom no capitalismo e nas economias dinheirárias anteriores, desde o último terço do século XX, tal obsessom converteu-se numha necessidade imperiosa de subsistência dum modo de produçom incompatível com a Natureza. É ridículo pensar que UMHA OUTRA GLOBALIZAÇOM pode sustentar-se durante um tempo sem suprimir radicalmente a propriedade privada capitalista da Natureza. E levemos em conta que a espécie humana é ela mesma espécie natural, espécie animal, parte interna da Natureza. Por isso, nesta questom, o imperialismo nem quer nem pode deixar que a Natureza escape do seu poder, porque entom escapa-lhe a força de trabalho humana e portanto escapa-lhe o benefício.

Mas, em quinto lugar, para luitar contra estas contradiçons estruturais, o centro imperialista dispom da capacidade de manipulaçom alienadora das suas indústrias político-mediáticas, –"imprensa"–.  Um exemplo esmagador do poder do que falamos –"mass media"–, temo-lo em que muito freqüentemente som essas indústrias as que produzem a alienaçom massiva, as que com os seus  trabalhadores assalariados intelectuais lançam campanhas apologéticas do capitalismo e da GLOBALIZAÇOM POSITIVA. Nom o fam só por agradar ao poder político, que também, senom à vez para atingir benefícios próprios, já que a indústria político-mediática produz mercadorias alienadoras que necessitam dum mercado mundial cousificado e alienado para vender os seus produtos. A sua fame junta-se à vontade de comer, e ambas à obsessom do máximo lucro. Aliás, o capital financeiro está-se introduzindo cada vez mais nessas indústrias, e os seus benefícios dependem cada vez mais de inovaçons tecnológicas aceleradas. Por sua vez, os imperialismos precisam da cobertura das indústrias para justificarem as suas atrocidades, ocultá-las ou negá-las, e também, cada vez mais, para retransmiti-las em directo, em tempo real. É iluso acreditar que UMHA OUTRA GLOBALIZAÇOM é possível respeitando esta produçom generalizada de mentiras e falsidades.

Por se, em sexto lugar, estas medidas de controlo e chantagem falharem, forem desbordadas e superadas pola humanidade trabalhadora, polos povos oprimidos, o capitalismo reserva-se o monopólio esmagador das sofisticadas e massivas armas de destruiçom e morte. Armas que nom som só os artefactos típicos embora sejam de alta tecnologia, senom também o uso bélico das reservas alimentícias, da sanidade burguesa mundial, das ajudas para paliar catástrofes socionaturais, etc. A fame é a doença fôrom instrumentos bélicos de muitos impérios pré-capitalistas, e com este modo de produçom, que industrializou a agricultura e a saúde, e que criou empresas privadas que comerciam com as pragas e as devastaçons, esse emprego criminal chegou a níveis insuspeitáveis e inacreditáveis há um tempo. Qualquer OUTRA GLOBALIZAÇOM que despreze a autodefesa popular, que nom queira reconquistar a terra própria, que continue a depender da "ajuda humanitária", etc., é em si mesma suicida e irresponsável. Mas o problema é mais grave, já que estas questons básicas e todas as anteriores batem frontalmente com o reformismo esquerdoso de quem falam de UMHA OUTRA GLOBALIZAÇOM.

Por último, em sétimo lugar, umha das vazas mais reaccionárias e retrógradas que poda ter o capitalismo é, além das ditaduras sociopolíticas, também a ditadura de género, o endurecimento da exploraçom das mulheres em todo o planeta. Padecemos umha ofensiva global –nunca melhor dito– do sistema patriarco-burguês com as mulheres de todo o planeta. Sob mil escusas sociobiológicas, sócio-económicas, culturais e religiosas, o poder patriarcal está reforçando as suas alianças vitais com diversos poderes para descarregar sobre as mulheres, e a través de elas sobre as pessoas maiores e a infáncia, tanto os custos da crise como as medidas para tentar paliá-la. A mulher é a mais maltratada pola globalizaçom realmente existente. É reaccionária qualquer OUTRA GLOBALIZAÇOM que nom combata radicalmente o patriarcado em todas as suas manifestaçons concretas e diferentes, mas isto é propor umha questom que só é tratada com a boca fechada.

Em resumo, e para acabar, estes sete instrumentos de opressom que monopoliza o centro imperialista, e que os aplica também contra as naçons e classes que oprime dentro do seu epicentro, embora com outras modalidades secundárias, anulam toda factibilidade à teoria da OUTRA GLOBALIZAÇOM. E anulam-na, sobretodo, porque elas som a base comum sobre a que se desenvolve a escala mundial a lei do valor-trabalho. Actualmente, no capitalismo que hoje padecemos, e além da exploraçom do Trabalho no centro imperialista, estes sete  recursos som os definidores internos da operatividade da lei do valor-trabalho. Toda minguar ou todo enfraquecimento de um deles supom um correspondente e obrigado enfraquecimento na obtençom de benefício capitalista, umha falha e quebra na dinámica de exploraçom mundializada do Trabalho polo Capital, umha peia ao desenvolvimento criminal da lei do valor-trabalho. As teorias político-económicas burguesas e reformistas nom podem dizer nada sério nem sólido ao respeito, e o marxismo sim diz cómo há que destruir o sistema capitalista de produçom.

EUSKAL HERRIA, 25/VI/2002

 

Voltar à página de Documentaçom

Voltar à página principal