Eleiçons em Portugal. Nova gerência, mesmo rumo

Francisco Martins
Derrota da direita,
vitória da esquerda, anunciam os cabeçalhos da imprensa. De
facto, nom há qualquer dúvida quanto à humilhante derrota
dos partidos de direita, reduzidos a 36% dos votos, face aos 60% reunidos
em conjunto polo PS, pola primeira vez com maioria absoluta, e os partidos
à sua esquerda. Mas quanto a umha vitória da esquerda, vamos
mais devagar...
A "estrondosa
vitória socialista" de 20 de Fevereiro resultou em grande medida
do alarme do eleitorado do centro e mesmo de umha parte do eleitorado de direita
face à desastrosa exibiçom dos demagogos Santana-Portas-Bagão,
cuja incompetência e amadorismo estavam inclusive a causar desagrado
nos meios da banca e do alto negócio. (Mesmo assim, apesar da premência
de expulsar Santana do poder, a abstençom rondou os 35%, o que fala
eloqüentemente sobre o descrédito das instituiçons). Umha
massa de uns 600.000 eleitores que há três anos tinham votado
no PSD e no CDS ou se tinham abstido decidírom desta vez optar polo
PS, agora "renovado e credível", depois de ter recomposto
a sua direcçom com o tecnocrático Sócrates à cabeça.
Perguntárom
alguns, com razom, se a decisom de o presidente Sampaio convocar eleiçons
em Dezembro e nom em Junho, quando o poderia ter feito, poupando seis meses
de degradaçom da situaçom económica e política,
nom foi condicionada pola espera de que o PS "arrumasse a casa"
e se apresentasse com umha nova direcçom que desse garantias de "seriedade"
aos meios de negócios.
O sobressalto
de 20 de Fevereiro indica pois umha rotaçom antecipada das equipas
governantes, nom umha viragem política. Nem outra cousa seria de esperar
quando se constata o fraquíssimo papel exercido pola acçom popular
na crise final do governo Santana.
Nom se deve pois
esperar nada de bom desta "onda rosa". O país atravessa umha
crise económica profunda, que nom tem a ver só com a estagnaçom
da economia europeia mas também com o processo neoliberal e o esvaziamento
dos sectores produtivos programado por Bruxelas. O novo governo "socialista"
vai ter que gerir com a política do sorriso os cortes no nível
de vida, as privatizaçons, o desmantelamento dos serviços sociais,
os benefícios fiscais ao capital. Todo leva a prever que nom vacilará
no cumprimento dessa missom, temperando-a com algumhas pequenas medidas "populares"
sem grandes custos, como o aumento das pensons mais baixas.
Mas houvo também,
embora parcial, umha deslocaçom à esquerda nestas eleiçons.
Umha parte do eleitorado que votava PS decidiu agora reforçar as representaçons
da CDU e do BE - no todo, uns 150.000 votantes, o que granjeou para as duas
formaçons 14% dos votantes. Se a subida do BE, embora tendo surpreendido
pola amplitude, já era esperada, dada a simpatia ganha polas suas intervençons
e propostas no parlamento, a da CDU foi umha surpresa, visto que desde há
20 anos vinha perdendo votantes. Aqui, a substituiçom do amorfo Carvalhas
polo afirmativo Jerónimo de Sousa terá atraído alguns
sectores populares que já descriam da continuidade do PCP.
O problema com
estas duas forças é porém de há muito conhecido:
contentam-se em desempenhar o papel de ala esquerda do parlamento, e para
o desempenhar a contento, desistem de umha política de subversom do
sistema pola luita de massas. Desdobram-se em propostas de leis, que todos
sabem inócuas se nom forem exigidas nas ruas, ao mesmo tempo que, para
nom romper as pontes com o sistema, assumem umha posiçom ambígua
ou moderada em todas as questons centrais da actualidade - luita por contratos
colectivos, contra o desemprego e o desmantelamento dos serviços sociais,
contra os superlucros e a corrupçom do capital, contra a UE e a NATO,
apoio à luita dos povos do Iraque e da Palestina..
Com todo isto, estas eleiçons criam sem dúvida umha oportunidade nova à esquerda extra-parlamentar: conseguir que o movimento de massas retome confiança e assedie o governo Sócrates, exigindo sem demora o cumprimento das promessas feitas, e nessas acçons, elevar o espírito de luita e a consciência do proletariado.
Março de
2005
:: Artigo anterior sobre o mesmo tema
- Eleiçons em Portugal: 20 de Fevereiro, nova gerência. Francisco Martins (+...)
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