Análise dos resultados das eleiçons na Sérvia

Reproduzimos o artigo de opiniom que nos foi remetido por Carlos Taibo, colaborador habitual do nosso vozeiro Abrente e especialista em Ciência Política. Taibo analisa nesta ocasiom os resultados das recentes eleiçons decorridas na Sérvia.

Desaforos sérvios

Carlos Taibo

Dezembro de 2003

Os factos som muito teimosos: enganárom-se claramente quem em inícios de Outono do ano 2000 concluírom que os problemas da Sérvia esvaíam ao amparo da quebra do jogo de poder encabeçado por Slobodan Milosevic. Os resultados das eleiçons legislativas recém decorridas vinhérom demonstrar, ao menos, que nom é tal a percepçom que acarinha a maioria da populaçom local.

O primeiro que essa consulta eleitoral pom revela é o reclamo que, a olhos de parte da cidadania, corresponde a um discurso que, agressivo e vitimista, se mostra pouco proclive a aceitar responsabilidades próprias na desintegraçom violenta da Jugoslávia e assume de bom grado a conveniência de mater à risca -antes em virtude da gabarolice do que da ameaça verosímil- vizinhança e potências foráneas. Significativo ao respeito é, de resto, que sejam muitos os sérvios que, após identificarem no ex-presidente Milosevic um dirigente corrupto e imoral, se mostram renuentes a lhe atribuir qualquer papel em sucessivos crimes de guerra, nom mprecisamente menores, na Croácia, na Bósnia ou na Kosova. Como significativo semelha que o Partido Radical de Seselj -umha força de corte parafascista que tem experimentado, dim, umha lavagem de imagem que bebe, se calhar, na ausência de guerras que livrar- tenha crescido eleitoralmente enquanto mirrava o apoio popular às listas do Partido Socialista que liderava o próprio Milosevic. E é que o ruir das redes clientelares em que este se apoiou no decénio de 1990 é o único sucesso palpável, ao cabo de três anos de mau governo, da oposiçom de outrora.

O assentamento, e no seu caso o crescimento, das forças que nos ocupam algo deve, de certeza, ao caminho seguido polos factos da Haia. A presença de Milosevic -e também a do líder radical, Seselj, cujo espectáculo circense ainda nom começou- no banco dos acusados tem fortalecido a percepçom de que o tribunal penal para a antiga Jugoslávia estava a julgar, nom pessoas concretas, e sim a Sérvia toda. Embora semelhante leitura seja, é claro, discutível, haverá que convir que a conduta dos juízes, controvertida, tem vindo como anel ao dedo das soflamas vitimistas de que antes falávamos. Baste agora lembrarmos que o antano presidente croata, Tudjman, nunca tomou assento perante um tribunal que lamentavelmente recusou abrir qualquer inquérito no que di respeito aos bombardeamentos realizados pola NATO em 1999 na Sérvia e Montenegro.

Um outro dado difícil de contornar é o que se refere ao ostentoso fracasso de quem em 2000 configurárom a oposiçom a Milosevic e desde essa altura tenhem exercido, do jeito que o figérom, o poder. Vários tenhem sido os traços da conduta de um grupo humano que recebeu, à sua maneira, umha pancada nas legislativas recém decorridas. Se o primeiro o achega a dramática divisom interna -certificada pola fraticida confrontaçom entre Kostunica e o assassinado Djindjic-, o segundo tem chegado da mao de umha corrupçom omnipresente que se soma ao vigor indisputado de um capitalismo de perfis maifosos cujos alicerces tenhem permanecido intactos desde a era de Milosevic. O resultado de tal acumulaçom de desaforos nom é outro que o barulhento descrédito de políticas neoliberais que, aqui como em tantos outros cenários, se tenhem saldado com um inquietante engorde das bolsas de pobreza.

As eleiçons ilustram, contodo, mais um facto que convém nom deixarmos de parte: há que recear das análises aferradas a umha distorsionada descriçom do panorama político sérvio que entende que neste a variável principal é configurada polo confronto entre colaboradores da ordem derrocada em 2000 e detractores da mesma. A sossobra que impregna a vida política e económica do país é tal que as categorias correspondentes servem hoje de bem pouco. E isso é assim tanto por nom faltarem -cabe intuirmos- personagens e forças propícias a cruzarem a imaginária fronteira que divide uns e outros -eis os casos do inefável Draskovic e, por que nom, do ex-presidente federal Kostunica-, como por muitas das etiquetas empregues -como a que inopinadamente qualifica de "europeísta" a dirigência da Sérvia nos últimos anos- edulcoram visivelmente a realidade. Seja como for, semelha razoável concluirmos que quem a contragosto concordárom três anos atrás para se desfazerem de Milosevic tenhem demostrado com suficiente clareza que nom som capazes de deixar o caminho livre, juntos, a um projecto de futuro.

Acrescentemos, ainda, que em todo este desastre nom falta a responsabilidade foránea. Com a UE convertida num improvisado, mesquinho e mais bem patético apaga-fogos, as ajudas prometidas em Outubro de 2000 tenhem-se perdido noutros cenários; assim o testemunham, sem ir mais longe, os muitos prédios que, após os bombardeamentos verificados pola NATO em 1999, nom tenhem sido reconstruídos na Sérvia. Entretanto, tenhem-se feito valer, em acréscimo, pressons estúpidas como as exercidas polos nossos governantes para evitarem que Montenegro se convertesse num Estado independente. Nas traseiras, enfim, esses mesmos governantes semelham orgulhosamente decididos a se desentenderem da extrema ruindade das opçons políticas que, com o seu concurso ou por omissom de comportamentos, se oferecem aos sérvios nestas horas. Ao compasso de todo o anterior, os Balcáns ocidentais tenhem perdido injustificadamente presença a olhos de umha opiniom pública, a nossa, demasiado a mercê, afinal, de caprichos e modas.

Nom vai ser fácil que as próximas semanas nos tragam da Sérvia notícias favoráveis. O pronóstico mais comum sugere que a classe política local, imersa em difíceis negociaçons de que só podem derivar-se surpresas desagradáveis, se apronta a prolongar a situaçom de interinidade em que se malvive desde há tempo atrás. E ao sérvio comum nom lhe restam já muitos consolos. Um deles é, certamente, a prosaica lembrança de que é difícil que com os parafascistas de Seselj no governo as potências foráneas reduzam a sua raquítica ajuda a um país esquecido.

 

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