Territorialidade e construçom nacional na Galiza. Umha clarificaçom necessária

Comité Central de Primeira Linha (MLN). Janeiro de 2000

A esquerda independentista tem denunciado historicamente a grave situaçom que para o povo galego implica a dependência de Espanha, que o condena a umha assimilaçom progressiva e acelerada e nega os seus direitos nacionais, além de passar por cima dos interesses das suas classes mais desfavorecidas.

Nessa linha, será bom caminharmos no actual processo de unidade de acçom com passo firme sobre uns pressupostos teóricos claros no que toca aos fundamentos da proposta de construçom nacional que umha esquerda independentista já reorganizada deverá socializar nos próximos anos.

Umha proposta clara, perceptível e assumível por sectores cada vez maiores do nosso povo, um povo objectivamente interessado em romper as amarras da dependência com Espanha e desligar do "capitalismo real" para fazer o seu contributo na construçom de um novo sistema mundial baseado na liberdade e a justiça social: o socialismo.

Umha proposta baseada portanto em dous pontos igualmente importantes e dialecticamente interdependentes:

O espaço territorial e social de referência para a construçom da naçom galega. A nossa concepçom do nacionalismo nom é a da naçom eterna, essencialista, que nos vem dada para além da vontade. Nom é a da naçom baseada no clima, na pré-história ou na espiritualidade. A nossa aposta é a da naçom que construi o povo, através da clara vontade da maioria representada polas classes populares, sabendo que dessa forma caminha na direcçom do progresso para o conjunto da humanidade.

O modelo social nom pode ser outro que o que supere o injusto, destrutor e uniformizador capitalismo mundial. A abafante hegemonia capitalista tem demonstrado a sua incapacidade para o progresso do conjunto da humanidade, condenando a sua grande maioria à mais miserável existência. Além do mais, a própria existência do Planeta como até agora o conhecemos é posta em questom pola continuidade do modo de produçom capitalista. O socialismo é mais do que nunca umha necessidade para os povos do mundo. Umha necessidade para a Galiza.

O do modelo social é um debate em que se acha imersa umha esquerda mundial em crise desde a queda do socialismo "realmente existente", e no qual o nosso partido aposta pola recuperaçom da prática e a teoria marxista-leninista, "como método científico de análise e interpretaçom da realidade, o nosso guia de acçom constantemente enriquecido e renovado para abordarmos com sucesso as contínuas mudanças, novos fenómenos, processos, situaçons, dum mundo em constante mutaçom" , ante a histórica deturpaçom efectivada polos regimes burocráticos em que degenerárom os ensaios socialistas.

Tam importante como avançarmos nesse debate no seio das forças revolucionárias, é para nós como força independentista avançar no madurecimento de um discurso coerente com a condiçom nacional galega que proclamamos.

O nacionalismo galego, como o conjunto dos movimentos análogos noutros países minorizados, botou mao historicamente, na criaçom do seu discurso, nom só de argumentos objectivos e materiais, ou da vontade de ser de umha colectividade agredida por um poder estrangeiro. Ao lado dessas razons, conviveu um claro componente de carácter idealista, "espiritual" e até "mítico" na definiçom da naçom. Tudo serviu ao intuito de reivindicar a nossa condiçom de povo diferenciado, desde a raça até o "espírito", passando pola origem celta ou a volta aos tempos de esplendor em que o Reino da Galiza fora um autêntico império na península, através de umha refortalecedora "volta à uniom com Portugal". Este tipo de discurso, recorrente e presente em diversos autores do nacionalismo histórico galego, viu-se arroupado pola ideologia iberista que imbuiu a maioria dos nacionalismos da península desde fins do século XIX. A sua manifestaçom, contudo, concorre contraditoriamente com a afirmaçom da condiçom nacional da Galiza e, aliás, com a maioritária posiçom nom independentista do nacionalismo galego histórico.

O discurso nacionalista partiu da evidência de que Portugal nom pode ser para a Galiza umha naçom mais. Evidência que nós ratificamos na actualidade, mas nom por motivaçons de espiritualidade, saudade ou consanguineidade. Senom na perspectiva de reorbitarmos a nossa naçom para o espaço ibero-ocidental, indispensável de umha óptica soberanista que restaure as relaçons entre povos geográfica, lingüística, cultural, e sócio-economicamente afins, e com vista a tornar viável e rendível a independência que defendemos.

A Hispania, que abrangeu em etapas históricas anteriores um espaço peninsular constituído por diversas culturas, deixou há muito tempo de referir essa unidade plural para representar um projecto imperialista negador de aquelas mesmas culturas históricas e da sua realidade actual. Daí que ninguém reclame hoje aquela velha semántica e @s independentistas reconheçamos na Espanha o que realmente significa na actualidade.
Do modo semelhante, sabemos hoje que a Gallaecia incluiu noutros tempos territórios bem distantes da Galiza actual, além de um espaço ainda actualmente comum com o nosso país do ponto de vista geográfico, antropológico ou lingüístico, como é o norte de Portugal. Mas ninguém reclama hoje a integridade de aquela Gallaecia histórica como espaço político da Galiza actual, porque a naçom é um produto histórico e, no caso galego-português, deu lugar à incorporaçom da Gallaecia bracarense a um outro projecto de construçom nacional hoje consumado, o da naçom portuguesa. Um norte português, por certo, que previamente se tinha "independizado" (nos termos em que este conceito pode ser aplicado no século XII) da Galiza.

É clara, portanto, a necessidade de actualizarmos o velho discurso iberista do nacionalismo histórico, propondo, com os mais lúcidos autores formados no nacionalismo popular das últimas décadas, um projecto de soberania para a Galiza actual, nom para a velha Suévia, nem sequer para a Galiza do século XII. Considerando os argumentos citados, e definindo portanto o espaço da Galiza actual -incluídas as comarcas do leste nom reconhecidas polo poder espanhol- como território em que aspiramos a construir a nossa naçom. Eis o objectivo, claro, perceptível e assumível polo nosso povo, se os sectores que apostamos por essa via tivermos a capacidade e a habilidade suficientes para socializá-la num futuro que nom pode esperar indefinidamente, dada a regressom da identidade galega que pom em perigo a continuidade da própria formaçom social galega num futuro nom muito afastado.

Será no horizonte estratégico da independência conquistada que o nosso povo aposte por umha reestruturaçom justa e equilibrada das diversas naçons peninsulares, condenadas a entender-se e relacionar-se de maneira estreita. Nesse contexto, o relacionamento galego-português será sem dúvida privilegiado, pois som o galego e o português povos que guardam importantes afinidades, a começar pola identidade lingüística. No caminho de tal horizonte, deveremos fazer o possível por favorecer desde já umha estreita relaçom com a naçom portuguesa. Se agirmos com inteligência, poderemos ganhá-la como aliada potencial no enfraquecimento do poder espanhol e no conseguinte fortalecimento das posiçons independentistas galegas. A sua mesma existência supom umha inestimável ajuda na restauraçom de instituiçons nacionais historicamente deturpadas pola imposiçom do modelo espanhol, como poda ser umha organizaçom territorial acorde com a entidade tradicional das freguesias, ou a recuperaçom do galego como parte do ámbito lingüístico a que pertence. Ao mesmo tempo, deveremos apostar por umha aliança estratégica com os movimentos de libertaçom nacional e social dos outros povos submetidos polo Estado espanhol, interessados como nós na derrota do projecto imperialista que representa.

Na actualidade, o nacionalismo político configura-se na nossa terra num sector maioritário que nom acredita com todas as conseqüências nas possibilidades da Galiza, e por isso nom é independentista; por outra parte, a falta de umha proposta global, acabada e madura do independentismo, impede-lhe socializar um projecto que o converta numha alternativa real ao nacionalismo autonomista. É importante apostarmos com claridade por Galiza como naçom, defendendo a sua viabilidade sem necessidade de recorrermos à protecçom do Estado espanhol, e sem necessidade também de fugir para um discurso que nos apresente como nacionalistas portugueses; e nom por medo à impopularidade de tal discurso, senom porque realmente nom nos identificamos com semelhante etiqueta. O contrário é fazer o jogo aos sectores do oficialismo reaccionário que encontram na ambigüidade o argumento "fácil" para desacreditar o independentismo, afirmando por exemplo que a defesa da unidade lingüística equivale à defesa de umha suposta "reunificaçom" com Portugal.

Ao mesmo tempo, a clarificaçom independentista neste tema servirá para que aqueles que realmente defendem a incorporaçom a Portugal como alternativa ao independentismo galego apresentem publicamente e de maneira diferenciada a sua legítima, mas diferente, proposta territorial e nacional.


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