O VERDADEIRO AMOR DE WALT DISNEY. Marlene Wurfel
Publicado no número 18 de Abrente

A ver, quê grau de passividade, submissom e insipidez é que deveriam atingir as raparigas de hoje? Se seguirmos as indicaçons de Disney, o seu estado ideal seria o comatoso, preferivelmente desafiando as leis da descomposiçom num ataúde de cristal em algures, ou catalépticas, com cabelos dourados perfeitamente enfeitados, sobre um cabeçal encantado num reino encantado.

O tipo de fórmula que Disney oferece sobre o que significa ser nova e mulher é incrivelmente misógino. A mensage está meridianamente clara: boa+linda+passiva+virginal+comatosa+branca e/ou abnegada+doente = um belo príncipe. Para sermos justos, Disney si oferece umha alternativa. Se insistires em ser mulher, também podes ser activa, agressiva, egoísta, ladina, independente, horrivelmente feia, amargada e destrutiva. Se escolheres este carreiro, podes levar sombra de olhos cor de púrpura e mantons pretos, mas ninguém te amará, e com razom. Serás má.

As comerciais históricas de Disney tenhem umha agenda muito clara. Disney doutrina as jovens mentes num modo compatível coas normas e valores dominantes dumha sociedade capitalista e patriarcal. Isto serve aos próprios interesses de Disney porque, com certeza, o objectivo final é o dinheiro. Disney serve aos que tenhem dinheiro. O mercado das "meninhas" é de facto o mercado dos pais das meninhas, polo que os filmes estám cortados polo padrom das preferências sexuais e valores conservadores da classe dominante estado-unidense. Disney nom se preocupa polos interesses das meninhas. As meninhas convertem-se em consumidoras passivas e encantadas dum pesadelo capitalista e patriarcal porque está adereçado com sapatilhas de cristal e castelos cintilantes. Esses som os prémios materiais que adoçam o mau trago.

Disney fai algumhas tentativas para disimular a porcaria moral que serve nas suas bandejas douradas. Disney imbui nos seus filmes a ideia de que as estórias estám a ser governadas por leis naturais, e cria a perversa impressom de que os contos som intemporais.

Os contos de Disney ocorrem "umha vez num reino longínquo". Formulam-se a partir do suposto de que nom é Disney quem conta as estórias; que Disney simplesmente está a voltar a contar umha encantadora estória que foi querida e apreciada durante séculos, e que é intemporal porque fala de verdades universais e portanto tem interesse universal. É um suposto falso e vomitivo.

As estórias que conta Disney nom som estórias antigas e anónimas que exprimam verdades universais; ao contrário, som o produto dumha agenda política contemporánea específica: as projecçons actuais dos valores e normas defendidos por Walt Disney. Em "Contos de fadas e a arte da subversom: o género clássico para crianças e o processo de civilizaçom", Jack Zipes, um estudioso muito notável dos contos de fadas, destrui por completo o mito da atemporalidade das versons de Disney das estórias que conhecemos. Zipes mostra-nos umha história muito atractiva do género dos contos de fadas, redimindo-os.

Na realidade, os contos de fadas venhem dumha longa e venerável tradiçom oral. Na Europa, e no mundo todo, as mulheres estivérom contando mitos, tecendo contos e enfiando estórias. Estas expressons remontam às moradas pré-capitalistas de artesaos e camponeses, onde as crianças ouviam os contos de boca de suas maes, avós e bisavós. Durante séculos, os contos fôrom umha apreciada tradiçom oral e matriarcal.

O conto de fadas pujo-se por escrito pola primeira vez na Europa para que umha classe mais sábia e mais educada pudesse manejar melhor a vasta tradiçom oral da burguesia. Os contos discutiam-se entre aristocratas, que podiam separar melhor o grao da palha; sendo o grao as normas e valores dumha elite "civilizada" e a palha qualquer sugestom de rebeliom de classes, funçons corporais ou iniciativa feminina. Os contos fôrom inseridos num discurso aristocrático de valores, costumes e maneiras para servirem melhor na formaçom das crianças quanto a comportamentos civilizados.
Nessa encruzilhada, no século XVII, julgava-se que o objectivo dos contos era doutrinar as crianças com sistemas de crenças culturalmente específicos, e nom simplesmente entretê-los. De algum jeito, figemo-nos insensíveis a essa ideia, e adoptamos a crença de que os contos som "encantadores", "entretidos" e que de facto nom deveriam ser estudados ou criticados num contexto sócio-político a risco de perderem a "magia" dessas estórias. Nom obstante, desde que se pugérom no papel, soubo-se que os contos tenhem conseqüências poderosas sobre as mentes jovens. Som ferramentas para ensinar às crianças as conseqüências de acçons concretas. Os contos de fadas perpetuam os roles sexuais e premiam certo tipo de condutas enquanto punem outras.

Charles Perrault, em finais do século XVII, foi um dos primeiros autores em escrever contos de fadas em França. A ele é que devemos "Chapeuzinho vermelho". Merece a nossa especial condena polo seu maravilhosamente criativo novo final. Na versom tradicional, a meninha urde um inteligente plano para fugir do lobo. Na versom de Perrault, acrescenta-se a generosa intervençom dum lenhador heróico para salvar a miúda da sua própria estupidez. De forma brutal, umha antiga estória sobre umha meninha lesta tornou numha liçom sobre a vulnerabilidade, estupidez e desamparo femininos. Também podemos agradecer a Perrault ter principiado a transformar a Gata Borralheira dumha personagem activa, rebelde e autónoma, na imbecil passiva e delambida que hoje conhecemos.

Perrault precedeu os irmaos Grimm, que criárom os seus contos na Alemanha do século XIX. Os Grimm lançárom-se a esterilizar e expurgar os contos orais europeus e alemáns para que fossem adequados ao consumo das crianças burguesas. Os irmaos Grimm transformárom conscientemente contos de entretenimento em contos educativos. Tinham umha agenda consciente para perpetuarem umhas normas e sistemas de valores aristocráticos. Eis exactamente a razom pola qual uns contos que nunca fôrom contados por, para ou sobre a elite cultural chegárom a estar pragados de castelos, reis, coroas douradas, danças de salom, cortesaos e dóceis princesas a esperarem, montadas num corcel branco, que as salve um príncipe. Toda essa montage aristocrática foi imposta ao conto de fadas, e nom é em absoluto intrínseca ao género.

Mesmo dado o processo de selecçom e "patriarcalizaçom" do conto de fadas através da história, é um erro assumir que Disney somente podia escolher entre os restos dumha tradiçom folclórica já pervertida. De facto, inclusive os contos de Grimm contenhem ideias que Disney acharia "radicalmente feministas" e "socialistas" de mais. "A Gata Borralheira" de Grimm, sendo dócil e espartilhada, ainda semelharia animosa se comparada co tratamento comatoso que dá Walt Disney às belezas higienizadas. Os contos de fadas europeus passárom por umha purga vitoriana. Apesar disso, Walt Disney chega ao extremo. O tratamento de Disney é mais beatom, misógino, esterilizado, em definitivo, mais "vitoriano" do que as versons vitorianas.

Existem alternativas subversivas aos contos dominantes. Tenhem-se escrito e continuam a escrever-se. Existem nas bibliotecas históricas de Oscar Wilde, de Angela Carter, e muitas outras alternativas a Disney, históricas e contemporáneas. Infelizmente, pouca gente as conhece.

Umha história antiga e feminina foi tam existosamente transformada polo marketing de massas de Disney, que os contos de Disney som os únicos que conhecemos. Umha outra falácia que perpetua Disney é que os seus contos revelam umha lei natural e inevitável. Disney mantém um sistema de prémios e castigos baseado numha hierarquia divina, um sistema que nom pode ser mudado. Claro que a Branca de Neve é premiada: ela é a boa. Claro que a sua maligna madrasta é punida: ela é a má. Disney nom se preocupa com disfarçar esses prémios como "espirituais"; som sempre prémios monetários, prémios de poder e de fama. Sabemos que a Gata Borralheira ultrapassará a sua pobreza e escravatura, nom porque seja trabalhadora e umha revolucionária fervente, mas porque é tam bonita, tam modesta, sofre tam caladamente e aliás tem os pés pequenos. Por certo, a estória original da "Gata Borralheira" está documentada pola primeira vez na China contra o ano 200 D. C. Um nobre chinês descobriu a sapatilha perdida dumha camponesa e soubo que estava destinada a casar com um nobre devido ao pequenos que eram os seus pés.

Disney fai um uso intensivo da estória de passar da pobreza à riqueza. Realmente, é umha estória inspiradora, que trai muitas esperanças às vidas miseráveis de quem se achar atrapado ou atrapada num sistema classista de desigualdades.

Hans Cristian Andersen foi um ávido perpetuador desse tipo de estórias. Nas deliciosas estórias do Andersen como "A Sereiozinha" ou "O patinho feio", podemos entrever que uns poucos escolhidos nascêrom para se fazerem co poder. Através dumha cuidadosa abnegaçom (a sereiozinha muda a sua voz por um par de pernas), a repulsom para todo o que for vulgar, e o direito divino ao privilégio, os escolhidos elevam-se entre as massas.

A Twentieth Century Fox tentou rivalizar com Disney coa sua produçom de "Anastásia". No entanto, polo que sei, a estória segue com exactitude a fórmula do Aladim ou da Sereiozinha de Disney. Como se nos mostra em Anastásia, algumhas pessoas som boas e nobres de forma inata como resultado de serem de boa família e dumha orde natural biológica absolutista. As circunstáncias podem ser-lhes negativas a esses poucos escolhidos num momento determinado: a pobre princesa Anastásia converteu-se em orfa durante a revoluçom russa, caracterizada por bolcheviques dançarins gordinhos e de encarnadas bochechas. Apesar desta molesta revoluçom, que roubou à Anastásia a sua nobreza, ela inevitavelmente volta a ressurgir para tomar o seu lugar entre a elite dominante. Do mesmo jeito que qualquer princesa se sentirá incómoda com umha ervilha abaixo de cem colchons, ou que o Aladim será reconhecido pola montanha parlante como um "diamante em bruto", os escolhidos sempre se elevam para tomarem o seu merecido lugar entre os privilegiados. Muito obrigad@s, Disney, por devolver-nos à preponderáncia do determinismo racial e a eugenésia do século XIX, ideias que poderiam ser consideradas obsoletas e perigosas se nom fossem tam encantadoramente processadas nas vossas lampejantes fitas de celulóide.

No "Rei Leom", Disney apropria-se e fala em nome do "reino" animal africano. Os animais do filme estám tristes, porque acham que um líder, escolhido por Deus, lhes é absolutamente necessário para o seu bem-estar. Devem convencer o Rei Leom para que aceite o seu destino como fascista benévolo ou se estenderá o caos, com monstros selvages que traem a anarquia, etc. E tod@s sabemos que as hienas nom podem mandar. Som feias de mais e umha espécie moralmente depravada. Nom, tem de ser um leom, tem de ser um leom masculino e tem de ser o Simba: o Rei Leom.

Igual que as hierarquias som parte da orde natural das cousas, também os roles sexuais estám determinados "naturalmente". Pocahontas, como tantas das heroínas do Disney, é umha filha da natureza. Os páxaros, os mapaches, os cervos e outros animais selvages procuram a sua companhia.

Em "Branca de Neve" e "A Gata Borralheira", os animais, que estám sempre perfeitamente em harmonia coa orde natural das cousas, som capazes de notar a bondade inata da heroína. Eis umha prova que podemos usar para perceber que a heroína passiva, linda, submissa e modesta está estritamente de acordo coa lei natural. Os paxarinhos dim-no-lo, e eles deveriam sabê-lo.

Tem-se acussado Disney de racista polo simples e óbvio facto de que o branco sempre representa a bondade e o preto a maldade. Assi que Disney está a mover-se para umha image mais inclusiva racialmente, nom seja que perdam dinheiro dos que nom querem ser considerados racistas. Disney trai-nos a Princesa Jasmina, que é infeliz no seu papel de aristocrata arábiga. Disfarça-se de pessoa do povo para caminhar entre elas. Mas, é claro, sendo incompetente, enreda em problemas e é resgatada polo Aladim, que tem mais mundo. O seu invariável ascenso ao poder (é umha escolhida, nom é?) restaura-a felizmente no mundo dos privilegiados, porque ela também é umha escolhida: a mula do Aladim gosta dela, é muito linda e demasiado delicada e inepta para sobreviver, a nom ser que seja elevada por cima das vulgares massas.

Em "Pocahontas", Disney reconstrui docemente esta damisela obsequiosa numha das mais perversas distorsons imagináveis da história colonial norte-americana. Pocahontas conduz a sua piroga por entre as águas rápidas e subtis do "pragmatismo". Sendo o pragmatismo, com certeza, a abnegaçom da sua gente (a Primeira Naçom) e a sua voluntária integraçom aos colonos europeu. Fai-no polo amor dum corpulento británico chamado John. No fim da fita, a vida da Pocahontas está em perigo. Está gravemente doente, e tanto os colonos como a gente da sua tribo compreende que a única medicina suficientemente poderosa para salvá-la é a medicina europeia. Assi, para prevenir a sua inoportuna morte entre os índios americanos, medicamente incompetentes, parte numha veloz nau através do Atlántico em direcçom à sua salvaçom.

A mensage de Disney sobre a harmonia interracial é clara. Nom importa de que cor for a tua pele. Nom há fugida. O que importa é que sejas linda, boa, submissa, abnegada, materialista e que aceites as regras do jogo. Se fores dumha raça diferente à branca, podes ou bem ser umha princesa no "teu próprio país" ou podes conformar-te. Podes fazer qualquer das duas cousas, à vez que festejas cantando a tua deferência para a orde natural das cousas. A condescendência alcoviteira de Disney à "diversidade" racial é particularmente sinistra. Nom porque Disney nom inclua todas as raças, nom porque a Branca de Neve seja, ó, tam branca, senom porque a fórmula de Disney opera sobre a base da deferência a umha lei natural superior.

Jak Zipes frisa que "o mesmo feito de que os nazis reconhecessem a necessidade de criar umha política relativa aos contos tradicionais demonstrava a consciência geral sobre o seu impacto cultural, quer em crianças, quer em pessoas adultas". Si, o Terceiro Reich tentou apresentar os contos de fadas de Grimm como umha tradiçom ária pura, umha arma ideológica que servia de hostil reprovaçom aos contos modernos e socialistas que criavam escritores subversivos no seu tempo. Apropriárom-se desses contos e reinterpretárom-nos para provarem e ilustrarem os seus ideais racistas. Os arquétipos como o príncipe valente, a mae sacrificada e passiva, a virge submissa e o rei poderoso, eram perfeitos para ilustrarem as componentes dumha família ária (Zipes). Eis como um nazi, G. Grenz, interpretava "A Gata Borralheira": "a natureza nom se deixa enganar nem despistar. Oferece-se à pessoa pura e devota... junta os espécimes recomendáveis de cada espécie... e o príncipe acha a namorada genuína e merecedora porque o seu instinto natural o guia, porque a voz do seu sangue lhe di que ela é a boa".
Tem-se dito às vezes que os contos de fadas apresentam "estruturas familiares nom-tradicionais". Certo, em cada conto, um dos pais está sempre morto, ausente, encantado ou substituído por umha madrasta maligna ou qualquer cousa polo estilo. As famílias dos protagonistas sempre estám fracturadas. Por quê? Para podermos seguir a heroína na procura por reencontrá-la, porque umha família nuclear como Deus manda é o objectivo concreto mais importante. O príncipe valente deve resgatar a submissa heroína para os escolhidos poderem casar e viverem felizmente para todo o sempre, no castelo mágico encantado, é claro.

Num mundo fantástico de castelos, fadas, sonhos húmidos de necrofilia e bruxas que nom som queimadas em absoluto, senom que se autodestruem espontaneamente em deferência às leis naturais, quase que todo é possível. Chaleiras cantantes, ratos a coserem, alcatifas voadoras, quase que todo é possível, mas nunca se passa nada que esteja fora dos limites da ideologia classista, racista e sexista. Mas som apenas cousas de crianças, nom é? Nom fai dano nengum a ninguém, nom é? "Algum dia o meu príncipe virá correndo", canta entusiasmada a Branca de Neve. Mas, preocupa-se com que ela se corra? Nom, mas este duplo senso nom o percebem as crianças, va que nom?

Marlene Wurfel é umha militante feminista norte-americana. O artigo que reproduzimos apareceu sob o título "Walt Disney's true love" na revista estado-unidense Znet em Junho de 1999.

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