A ver, quê grau
de passividade, submissom e insipidez é que deveriam atingir as raparigas
de hoje? Se seguirmos as indicaçons de Disney, o seu estado ideal seria
o comatoso, preferivelmente desafiando as leis da descomposiçom num
ataúde de cristal em algures, ou catalépticas, com cabelos dourados
perfeitamente enfeitados, sobre um cabeçal encantado num reino encantado.
O tipo de fórmula
que Disney oferece sobre o que significa ser nova e mulher é incrivelmente
misógino. A mensage está meridianamente clara: boa+linda+passiva+virginal+comatosa+branca
e/ou abnegada+doente = um belo príncipe. Para sermos justos, Disney
si oferece umha alternativa. Se insistires em ser mulher, também podes
ser activa, agressiva, egoísta, ladina, independente, horrivelmente
feia, amargada e destrutiva. Se escolheres este carreiro, podes levar sombra
de olhos cor de púrpura e mantons pretos, mas ninguém te amará,
e com razom. Serás má.
As comerciais históricas
de Disney tenhem umha agenda muito clara. Disney doutrina as jovens mentes
num modo compatível coas normas e valores dominantes dumha sociedade
capitalista e patriarcal. Isto serve aos próprios interesses de Disney
porque, com certeza, o objectivo final é o dinheiro. Disney serve aos
que tenhem dinheiro. O mercado das "meninhas" é de facto
o mercado dos pais das meninhas, polo que os filmes estám cortados
polo padrom das preferências sexuais e valores conservadores da classe
dominante estado-unidense. Disney nom se preocupa polos interesses das meninhas.
As meninhas convertem-se em consumidoras passivas e encantadas dum pesadelo
capitalista e patriarcal porque está adereçado com sapatilhas
de cristal e castelos cintilantes. Esses som os prémios materiais que
adoçam o mau trago.
Disney fai algumhas tentativas
para disimular a porcaria moral que serve nas suas bandejas douradas. Disney
imbui nos seus filmes a ideia de que as estórias estám a ser
governadas por leis naturais, e cria a perversa impressom de que os contos
som intemporais.
Os contos de Disney ocorrem
"umha vez num reino longínquo". Formulam-se a partir do suposto
de que nom é Disney quem conta as estórias; que Disney simplesmente
está a voltar a contar umha encantadora estória que foi querida
e apreciada durante séculos, e que é intemporal porque fala
de verdades universais e portanto tem interesse universal. É um suposto
falso e vomitivo.
As estórias que
conta Disney nom som estórias antigas e anónimas que exprimam
verdades universais; ao contrário, som o produto dumha agenda política
contemporánea específica: as projecçons actuais dos valores
e normas defendidos por Walt Disney. Em "Contos de fadas e a arte da
subversom: o género clássico para crianças e o processo
de civilizaçom", Jack Zipes, um estudioso muito notável
dos contos de fadas, destrui por completo o mito da atemporalidade das versons
de Disney das estórias que conhecemos. Zipes mostra-nos umha história
muito atractiva do género dos contos de fadas, redimindo-os.
Na realidade, os contos
de fadas venhem dumha longa e venerável tradiçom oral. Na Europa,
e no mundo todo, as mulheres estivérom contando mitos, tecendo contos
e enfiando estórias. Estas expressons remontam às moradas pré-capitalistas
de artesaos e camponeses, onde as crianças ouviam os contos de boca
de suas maes, avós e bisavós. Durante séculos, os contos
fôrom umha apreciada tradiçom oral e matriarcal.
O conto de fadas pujo-se
por escrito pola primeira vez na Europa para que umha classe mais sábia
e mais educada pudesse manejar melhor a vasta tradiçom oral da burguesia.
Os contos discutiam-se entre aristocratas, que podiam separar melhor o grao
da palha; sendo o grao as normas e valores dumha elite "civilizada"
e a palha qualquer sugestom de rebeliom de classes, funçons corporais
ou iniciativa feminina. Os contos fôrom inseridos num discurso aristocrático
de valores, costumes e maneiras para servirem melhor na formaçom das
crianças quanto a comportamentos civilizados.
Nessa encruzilhada, no século XVII, julgava-se que o objectivo dos
contos era doutrinar as crianças com sistemas de crenças culturalmente
específicos, e nom simplesmente entretê-los. De algum jeito,
figemo-nos insensíveis a essa ideia, e adoptamos a crença de
que os contos som "encantadores", "entretidos" e que de
facto nom deveriam ser estudados ou criticados num contexto sócio-político
a risco de perderem a "magia" dessas estórias. Nom obstante,
desde que se pugérom no papel, soubo-se que os contos tenhem conseqüências
poderosas sobre as mentes jovens. Som ferramentas para ensinar às crianças
as conseqüências de acçons concretas. Os contos de fadas
perpetuam os roles sexuais e premiam certo tipo de condutas enquanto punem
outras.
Charles Perrault, em finais
do século XVII, foi um dos primeiros autores em escrever contos de
fadas em França. A ele é que devemos "Chapeuzinho vermelho".
Merece a nossa especial condena polo seu maravilhosamente criativo novo final.
Na versom tradicional, a meninha urde um inteligente plano para fugir do lobo.
Na versom de Perrault, acrescenta-se a generosa intervençom dum lenhador
heróico para salvar a miúda da sua própria estupidez.
De forma brutal, umha antiga estória sobre umha meninha lesta tornou
numha liçom sobre a vulnerabilidade, estupidez e desamparo femininos.
Também podemos agradecer a Perrault ter principiado a transformar a
Gata Borralheira dumha personagem activa, rebelde e autónoma, na imbecil
passiva e delambida que hoje conhecemos.
Perrault precedeu os irmaos
Grimm, que criárom os seus contos na Alemanha do século XIX.
Os Grimm lançárom-se a esterilizar e expurgar os contos orais
europeus e alemáns para que fossem adequados ao consumo das crianças
burguesas. Os irmaos Grimm transformárom conscientemente contos de
entretenimento em contos educativos. Tinham umha agenda consciente para perpetuarem
umhas normas e sistemas de valores aristocráticos. Eis exactamente
a razom pola qual uns contos que nunca fôrom contados por, para ou sobre
a elite cultural chegárom a estar pragados de castelos, reis, coroas
douradas, danças de salom, cortesaos e dóceis princesas a esperarem,
montadas num corcel branco, que as salve um príncipe. Toda essa montage
aristocrática foi imposta ao conto de fadas, e nom é em absoluto
intrínseca ao género.
Mesmo dado o processo
de selecçom e "patriarcalizaçom" do conto de fadas
através da história, é um erro assumir que Disney somente
podia escolher entre os restos dumha tradiçom folclórica já
pervertida. De facto, inclusive os contos de Grimm contenhem ideias que Disney
acharia "radicalmente feministas" e "socialistas" de mais.
"A Gata Borralheira" de Grimm, sendo dócil e espartilhada,
ainda semelharia animosa se comparada co tratamento comatoso que dá
Walt Disney às belezas higienizadas. Os contos de fadas europeus passárom
por umha purga vitoriana. Apesar disso, Walt Disney chega ao extremo. O tratamento
de Disney é mais beatom, misógino, esterilizado, em definitivo,
mais "vitoriano" do que as versons vitorianas.
Existem alternativas subversivas
aos contos dominantes. Tenhem-se escrito e continuam a escrever-se. Existem
nas bibliotecas históricas de Oscar Wilde, de Angela Carter, e muitas
outras alternativas a Disney, históricas e contemporáneas. Infelizmente,
pouca gente as conhece.
Umha história antiga
e feminina foi tam existosamente transformada polo marketing de massas de
Disney, que os contos de Disney som os únicos que conhecemos. Umha
outra falácia que perpetua Disney é que os seus contos revelam
umha lei natural e inevitável. Disney mantém um sistema de prémios
e castigos baseado numha hierarquia divina, um sistema que nom pode ser mudado.
Claro que a Branca de Neve é premiada: ela é a boa. Claro que
a sua maligna madrasta é punida: ela é a má. Disney nom
se preocupa com disfarçar esses prémios como "espirituais";
som sempre prémios monetários, prémios de poder e de
fama. Sabemos que a Gata Borralheira ultrapassará a sua pobreza e escravatura,
nom porque seja trabalhadora e umha revolucionária fervente, mas porque
é tam bonita, tam modesta, sofre tam caladamente e aliás tem
os pés pequenos. Por certo, a estória original da "Gata
Borralheira" está documentada pola primeira vez na China contra
o ano 200 D. C. Um nobre chinês descobriu a sapatilha perdida dumha
camponesa e soubo que estava destinada a casar com um nobre devido ao pequenos
que eram os seus pés.
Disney fai um uso intensivo
da estória de passar da pobreza à riqueza. Realmente, é
umha estória inspiradora, que trai muitas esperanças às
vidas miseráveis de quem se achar atrapado ou atrapada num sistema
classista de desigualdades.
Hans Cristian Andersen
foi um ávido perpetuador desse tipo de estórias. Nas deliciosas
estórias do Andersen como "A Sereiozinha" ou "O patinho
feio", podemos entrever que uns poucos escolhidos nascêrom para
se fazerem co poder. Através dumha cuidadosa abnegaçom (a sereiozinha
muda a sua voz por um par de pernas), a repulsom para todo o que for vulgar,
e o direito divino ao privilégio, os escolhidos elevam-se entre as
massas.
A Twentieth Century Fox
tentou rivalizar com Disney coa sua produçom de "Anastásia".
No entanto, polo que sei, a estória segue com exactitude a fórmula
do Aladim ou da Sereiozinha de Disney. Como se nos mostra em Anastásia,
algumhas pessoas som boas e nobres de forma inata como resultado de serem
de boa família e dumha orde natural biológica absolutista. As
circunstáncias podem ser-lhes negativas a esses poucos escolhidos num
momento determinado: a pobre princesa Anastásia converteu-se em orfa
durante a revoluçom russa, caracterizada por bolcheviques dançarins
gordinhos e de encarnadas bochechas. Apesar desta molesta revoluçom,
que roubou à Anastásia a sua nobreza, ela inevitavelmente volta
a ressurgir para tomar o seu lugar entre a elite dominante. Do mesmo jeito
que qualquer princesa se sentirá incómoda com umha ervilha abaixo
de cem colchons, ou que o Aladim será reconhecido pola montanha parlante
como um "diamante em bruto", os escolhidos sempre se elevam para
tomarem o seu merecido lugar entre os privilegiados. Muito obrigad@s, Disney,
por devolver-nos à preponderáncia do determinismo racial e a
eugenésia do século XIX, ideias que poderiam ser consideradas
obsoletas e perigosas se nom fossem tam encantadoramente processadas nas vossas
lampejantes fitas de celulóide.
No "Rei Leom",
Disney apropria-se e fala em nome do "reino" animal africano. Os
animais do filme estám tristes, porque acham que um líder, escolhido
por Deus, lhes é absolutamente necessário para o seu bem-estar.
Devem convencer o Rei Leom para que aceite o seu destino como fascista benévolo
ou se estenderá o caos, com monstros selvages que traem a anarquia,
etc. E tod@s sabemos que as hienas nom podem mandar. Som feias de mais e umha
espécie moralmente depravada. Nom, tem de ser um leom, tem de ser um
leom masculino e tem de ser o Simba: o Rei Leom.
Igual que as hierarquias som parte da orde natural das cousas, também os roles sexuais estám determinados "naturalmente". Pocahontas, como tantas das heroínas do Disney, é umha filha da natureza. Os páxaros, os mapaches, os cervos e outros animais selvages procuram a sua companhia.
Em "Branca de Neve"
e "A Gata Borralheira", os animais, que estám sempre perfeitamente
em harmonia coa orde natural das cousas, som capazes de notar a bondade inata
da heroína. Eis umha prova que podemos usar para perceber que a heroína
passiva, linda, submissa e modesta está estritamente de acordo coa
lei natural. Os paxarinhos dim-no-lo, e eles deveriam sabê-lo.
Tem-se acussado Disney
de racista polo simples e óbvio facto de que o branco sempre representa
a bondade e o preto a maldade. Assi que Disney está a mover-se para
umha image mais inclusiva racialmente, nom seja que perdam dinheiro dos que
nom querem ser considerados racistas. Disney trai-nos a Princesa Jasmina,
que é infeliz no seu papel de aristocrata arábiga. Disfarça-se
de pessoa do povo para caminhar entre elas. Mas, é claro, sendo incompetente,
enreda em problemas e é resgatada polo Aladim, que tem mais mundo.
O seu invariável ascenso ao poder (é umha escolhida, nom é?)
restaura-a felizmente no mundo dos privilegiados, porque ela também
é umha escolhida: a mula do Aladim gosta dela, é muito linda
e demasiado delicada e inepta para sobreviver, a nom ser que seja elevada
por cima das vulgares massas.
Em "Pocahontas",
Disney reconstrui docemente esta damisela obsequiosa numha das mais perversas
distorsons imagináveis da história colonial norte-americana.
Pocahontas conduz a sua piroga por entre as águas rápidas e
subtis do "pragmatismo". Sendo o pragmatismo, com certeza, a abnegaçom
da sua gente (a Primeira Naçom) e a sua voluntária integraçom
aos colonos europeu. Fai-no polo amor dum corpulento británico chamado
John. No fim da fita, a vida da Pocahontas está em perigo. Está
gravemente doente, e tanto os colonos como a gente da sua tribo compreende
que a única medicina suficientemente poderosa para salvá-la
é a medicina europeia. Assi, para prevenir a sua inoportuna morte entre
os índios americanos, medicamente incompetentes, parte numha veloz
nau através do Atlántico em direcçom à sua salvaçom.
A mensage de Disney sobre
a harmonia interracial é clara. Nom importa de que cor for a tua pele.
Nom há fugida. O que importa é que sejas linda, boa, submissa,
abnegada, materialista e que aceites as regras do jogo. Se fores dumha raça
diferente à branca, podes ou bem ser umha princesa no "teu próprio
país" ou podes conformar-te. Podes fazer qualquer das duas cousas,
à vez que festejas cantando a tua deferência para a orde natural
das cousas. A condescendência alcoviteira de Disney à "diversidade"
racial é particularmente sinistra. Nom porque Disney nom inclua todas
as raças, nom porque a Branca de Neve seja, ó, tam branca, senom
porque a fórmula de Disney opera sobre a base da deferência a
umha lei natural superior.
Jak Zipes frisa que "o
mesmo feito de que os nazis reconhecessem a necessidade de criar umha política
relativa aos contos tradicionais demonstrava a consciência geral sobre
o seu impacto cultural, quer em crianças, quer em pessoas adultas".
Si, o Terceiro Reich tentou apresentar os contos de fadas de Grimm como umha
tradiçom ária pura, umha arma ideológica que servia de
hostil reprovaçom aos contos modernos e socialistas que criavam escritores
subversivos no seu tempo. Apropriárom-se desses contos e reinterpretárom-nos
para provarem e ilustrarem os seus ideais racistas. Os arquétipos como
o príncipe valente, a mae sacrificada e passiva, a virge submissa e
o rei poderoso, eram perfeitos para ilustrarem as componentes dumha família
ária (Zipes). Eis como um nazi, G. Grenz, interpretava "A Gata
Borralheira": "a natureza nom se deixa enganar nem despistar. Oferece-se
à pessoa pura e devota... junta os espécimes recomendáveis
de cada espécie... e o príncipe acha a namorada genuína
e merecedora porque o seu instinto natural o guia, porque a voz do seu sangue
lhe di que ela é a boa".
Tem-se dito às vezes que os contos de fadas apresentam "estruturas
familiares nom-tradicionais". Certo, em cada conto, um dos pais está
sempre morto, ausente, encantado ou substituído por umha madrasta maligna
ou qualquer cousa polo estilo. As famílias dos protagonistas sempre
estám fracturadas. Por quê? Para podermos seguir a heroína
na procura por reencontrá-la, porque umha família nuclear como
Deus manda é o objectivo concreto mais importante. O príncipe
valente deve resgatar a submissa heroína para os escolhidos poderem
casar e viverem felizmente para todo o sempre, no castelo mágico encantado,
é claro.
Num mundo fantástico de castelos, fadas, sonhos húmidos de necrofilia e bruxas que nom som queimadas em absoluto, senom que se autodestruem espontaneamente em deferência às leis naturais, quase que todo é possível. Chaleiras cantantes, ratos a coserem, alcatifas voadoras, quase que todo é possível, mas nunca se passa nada que esteja fora dos limites da ideologia classista, racista e sexista. Mas som apenas cousas de crianças, nom é? Nom fai dano nengum a ninguém, nom é? "Algum dia o meu príncipe virá correndo", canta entusiasmada a Branca de Neve. Mas, preocupa-se com que ela se corra? Nom, mas este duplo senso nom o percebem as crianças, va que nom?
Marlene Wurfel é umha militante feminista norte-americana. O artigo que reproduzimos apareceu sob o título "Walt Disney's true love" na revista estado-unidense Znet em Junho de 1999.
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