Bolívia:
prepara-se a terceira insurreiçom

26 de Janeiro
de 2004
Depois da queda
do governo de Gonzalo Sánchez de Lozada em Outubro passado, provocada
polo massivo levantamento popular, a maior parte das organizaçons de
base deu um prazo ao novo executivo, que acedeu ao poder afirmando estar à
margem dos poderes oligárquicos tradicionais do país. Agora,
as organizaçons de trabalhadores e trabalhadoras, nomeadamente a Central
Obreira Boliviana (COB), afirmou que o prazo está concluindo, ante
a anunciada aplicaçom de fortes medidas económicas antipopulares
e o rechaço por parte do governo de Carlos Mesa às demandas
operárias e populares.
Assim, depois
do primeiro alçamento popular de Fevereiro passado, que se saldou com
33 mortes e 200 pessoas feridas pola repressom governamental, e o segundo
levantamento de Outubro, com mais de 70 pessoas mortas e 500 feridas e a queda
do governo, todo indica que se prepara a terceira insurreiçom popular
boliviana.
O Governo neoliberal
de Carlos Mesa pretende aprovar novas cargas tributárias contra as
massas assalariadas, eliminar o subsídio ao gás liquado doméstico
que abastece os lares mais pobres e elevar o preço dos carburantes.
O ministro do Desenvolvimento Económico, Xavier Nogales, confirmou
que as medidas económicas previstas para fim deste mês custarám
ao povo boliviano "sangue, suor e lágrimas".
Ante este anúncio
oficial, o principal sindicato do país convocou os trabalhadores para
se organizarem e evitarem a aplicaçom dessas medidas, paralisando o
aparelho produtivo com greves, bloqueios e outras medidas. A dirigência
revolucionária do sindicato boliviano afirmou com clareza que "a
oligarquia deve cair para que o povo tome o poder".
O líder
sindical Jaime Solares declarou que "a teoria da revoluçom porá-se
em prática com o caminho à insurreiçom" [...] "A
revoluçom deve ser encarada com unidade e a partir das bases",
"com o apoio camponês, que permita tomar as rédeas do Estado
ao povo".
O líder
nacionalista indígena e camponês Felipe Quispe, conhecido como
o "Mallku" anunciou que o sindicato camponês que lidera, a
Confederaçom de Camponeses, procurará a unidade de acçom
com a COB e com o Movimento Sem Terra boliviano, na ocupaçom
de terras e propriedades rurais de membros e familiares do anterior governo.
Quispe denunciou o incumprimento das promessas por parte do presidente Mesa,
com o qual a trégua de 90 dias outorgada polo movimento operário
e camponês está a chegar ao fim. "Mesa só escuita
a Embaixada dos EUA e as transnacionais", declarou o líder indígena.
Também
outros organismos do poder popular estám a afirmar a necessidade de
umha terceira rebeliom contra o neoliberalismo, que abra caminho a umha Assembleia
Constituinte Popular e Revolucionária.
Em vinte dias,
os sectores que já impulsionárom as revoltas anteriores podem
iniciar umha nova fase no enfrentamento com a oligarquia. Unicamente um sector
da esquerda, a agrupada no Movimento ao Socialismo (MAS) e liderado
por Evo Morales, é contra a convocatória de umha nova greve,
indo a reboque dos acontecimentos como já acontecera na segunda revolta
popular, no mês de Outubro. Lembremos que na altura Evo Morales, líder
da oposiçom parlamentar, passou boa parte da crise a viajar polo estrangeiro,
qualificando a luita popular de "precipitada" e "prematura".
Diversos sectores
do movimento revolucionário boliviano acusam o MAS de evitar um compromisso
sério com a causa popular, limitando o seu trabalho político
ao parlamento burguês e, paradoxalmente, figurando como artífice
da insurreiçom a nível internacional.
A central sindical
maioritária, a COB, confirma que a luita continua e se o Governo nom
aceitar 75% das exigências populares, incluída a reinstauraçom
da efémera Assembleia Popular que a princípios dos anos 70 agrupou
trabalhadores/as, camponeses/as, organizaçons revolucionárias
e classes médias empobrecidas, à frente do país, a insurreiçom
chegará.
Entre as exigências
das organizaçons populares está a renacionalizaçom do
gás e do petróleo, o aumento dos salários da classe trabalhadora
e a suspensom das medidas neoliberais anunciadas. Ao mesmo tempo, devem ser
reduzidos drasticamente os ordenados dos membros do Parlamento burguês,
que neste mesmo mês aumentárom as suas ajudas de custo em mil
dólares, no meio da pobreza generalizada da populaçom boliviana.
Frente à
tabela de reivindicaçons e acçons anunciadas polas forças
populares, o deputado Evo Morales e a sua força política fraquejam
mais umha vez, defendendo o Parlamento e acusando de "golpistas e sediciosos"
os dirigentes da COB. Na sua opiniom, o sindicato maioritário "nom
está a aceitar a democracia" (sic) e "está a procurar
um golpe de Estado, umha ditadura". O MAS rejeita nesta altura a convocatória
de greve geral que pretende a maior parte do movimento operário e camponês,
oferecendo em troca a via eleitoral que leve o seu partido ao governo de maneira
ordenada, nas próximas eleiçons.
Felipe Quispe
criticou abertamente a posiçom de Morales e o MAS, afirmando que "Evo
Morales fai parte do governo e portanto nom deseja sair do mesmo. É
por isso que está a questionar os dirigentes sindicais".
Por seu turno,
o líder da COB, Jaime Solares, fijo um chamado a Morales para "reflectir.
Ele tem mudado muito desde que está no Parlamento". Solares negou
que as eleiçons municipais do próximo fim de ano e as presidenciais
de 2007 sejam a saída para mudar radicalmente o destino da Bolívia
e da classe trabalhadora, ao contrário do que afirma o MAS.
Todo indica que
o MAS tem tomado rumo à estratégia exclusivamente eleitoral
para chegar à presidência, subordinando a sua acçom política
a esse objectivo e pretendendo submeter os movimentos populares à sua
estratégia eleitoralista.
A ameaça
das organizaçons populares contra o Parlamento burguês tem agudizado
as contradiçons, unindo a totalidade de partidos nele representados
na sua defesa, incluído o MAS de Evo Morales.
Haverá que fazer seguimento da actualidade boliviana, que continua a abrir expectativas para umha saída revolucionária frente ao poder burguês e transnacional, atendendo igualmente ao papel de forças que levárom os votos com um programa revolucionário e agora parecem conformar-se com a via das reformas sem tocar a estrutura de poder e o modelo capitalista na Bolívia.