ESPLENDOR, CRISE E RECONSTRUÇOM DA ALTERNATIVA COMUNISTA
3. A crise da alternativa comunista. O fracasso de quatro "socialismos"
Longe da minha intençom
esquivar a mais incómoda das questons incluídas polos organizadores
das IV JORNADAS INDEPENDENTISTAS GALEGAS Comunismo ou Caos no título
do tema que me propugérom: a da crise da alternativa comunista.
Crise pluriforme porque nom se limita à queda e implosom da URSS e
dos Estados do Leste. Utilizarei para tratá-la a transcriçom
de parte dum texto de 1995 do meu companheiro da REDE BASCA VERMELHA Iñaki
Gil de San Vicente que já citei antes: Fracassou o socialismo? Umha
pergunta a partir de e para Euskal Herria (veja-se na web da REDE BASCA VERMELHA
in
http://www.basque-redd.net/cas/revol/socialis/texto1.htm)
"3.1 Quê socialismo
fracassou?
A forma mesma de formular a pergunta
indica que acho que algum socialismo fracassou. É certo que umha forma
material, histórica, de algo que se denomina socialismo fracassou.
Direi mais: fracassárom quatro formas de socialismo. Já sei
que semelhante tese pode fazer rir e ser contestada com umha crítica
barata, a de estar a "espantar-se o morto do enforcado". Dito de
outra forma: quantos mais socialismos tiverem fracassado, menos responsabilidade
havemos de ter na derrota do nosso. Deitamos a agulha do socialismo no palheiro
das derrotas, e pronto.
Pois nom. Trata-se mesmo de todo o contrário. Trata-se de compreendermos
a evoluçom real dumha luita histórica mantida com altos e baixos,
mas sem interrupçons a escala mundial durante os últimos 150
anos. Umha perspectiva assi, marxista, ensina-nos que efectivamente fracassárom
quatro socialismos: um, o socialismo utópico que fijo crak em 1871;
dous, o socialismo da II Internacional ou social-democracia, que afundiu em
1914; três, o socialismo eurocomunista que estalou em meados dos anos
oitenta; e quatro, o socialismo estalinista ou soviético, que está
a morrer nestes momentos.
Poderíamos dizer que estes
socialismos som ramos que nascem dum tronco e secam enquanto o tronco continua,
enfraquecido mas continua. Esta metáfora tem os seus incovenientes
mas permite-nos fazer umha ideia aproximada do longo, tenso e intenso processo
histórico que remonta para as primeiras utopias, formulaçons
reformistas e revolucionárias, componentes e conteúdos comunalistas
e/ou comunistas dentro das religions monoteístas, etc. O tronco esgalhou
muitas vezes, ramos inteiros caírom no chao derrubados polos furacáns
contrarrevolucionários, mas o tronco tem-se recuperado umha e outra
vez, respondendo sempre às exigências do momento.
Cada crise tem suposto, de princípio,
umha amarga e intragável situaçom de derrota, desconcerto e
desilusom em muitos sectores mas, logo a seguir, produziu-se umha recuperaçom
da prática e da teoria sobre melhores bases, aprendendo dos erros passados
e conhecendo melhor o presente. Até agora, sempre aconteceu assi. Por
quê tem que continuar a acontecer assi agora? Nom chegamos ao final
da história, como a burguesia di? Quer dizer, nom fomos derrotados
de vez? Mais adiante responderemos a estas perguntas. Agora, interessa-nos
continuar co tema que tratamos.
Antes de passarmos à análise
das causas da morte do socialismo estalinista, temos que dizer umha cousa:
aos quatro socialismos uniu-nos muito mais do que os separou. Uniu-nos ao
tronco o facto de no seu nascimento se proclamarem socialistas e mesmo enfrentarem
com maior ou menor decisom o capitalismo e, para o fazerem, terem de dispor
dumha teoria comum que embora tivesse componentes marxistas na sua formulaçom
abstracta e oficial, co tempo ficou acantoada e negada pola prática
reformista.
Afastou-nos o facto de cada um
dos socialismo criticar duramente o anterior já afundido no carreiro
reformista, enquanto este colaborava conscientemente coa burguesia para combatê-lo
até a morte coa escusa do seu "ultraesquerdismo" e radicalidade.
Há que dizer que cada ramo do tronco tivo de crescer a luitar co velho
ramo já apodrecido, perdendo forças e enfraquecendo extremamente.
Isso tivo, logicamente, efeitos práticos de longo alcance que se plasmárom
em disparidades teóricas externas e superficiais que ocultavam as similitudes
essenciais de fundo a que nos temos referido.
Há três razons para
explicar as dificuldades com que deparárom, o que os une e o que os
afasta:
A) Porque toda prática e
teoria socialista deve ir sempre contracorrente, cos problemas que isso acarreta
e mais nos momentos de mudanças importantes dentro do sistema social.
B) Porque em contra do que se pensa,
a teoria marxista foi umha grande desconhecida para quase todos eles, a excepçom
parcelar do eurocomunismo.
C) Porque todos eles gerárom
determinadas burocracias e castas elitistas internas dominantes interessadas
objectiva e materialmente em pactuarem cos seus inimigos de classe.
Sempre em cada um desses socialismos
houvo correntes esquerdistas, radicais e revolucionárias que luitárom
para ultrapassar os entraves burocráticos e as práticas reformistas.
Elas mantivérom vivo e presente o legado e a memória histórica,
fôrom as que actualizárom e recuperárom a razom teórica
e as garantírom o relevo revolucionário nas geraçons
militantes posteriores.
Nom podemos analisar agora as causas
dos fracassos do socialismo utópico, da social-democracia e do eurocomunismo,
mas veremos como ao estudar a morte do socialismo estalinista, e nomeadamente
nas páginas seguintes, descobrimos determinadas constantes que variando
na forma mantenhem no conteúdo os mesmos problemas nom resolvidos e
erros reiterados. É assi porque o socialismo estalinista nom rompeu
o cordom umbilical que o atava à social-democracia e ao socialismo
utópico em questons centrais em que si rompera talhante e contundentemente
o marxismo desde 1843.
Mas, o quê é o socialismo
estalinista? É o socialismo que se elaborou teoricamente na URSS a
partir de finais dos anos vinte deste século. Podemos rastejar facilmente
o seu processo de formaçom teórica: a partir de 1927, ilegalizada
já toda a oposiçom política, construi-se umha legitimaçom
do poder absoluto da burocracia dominante: teorizam-se as teses da "burguesia
progressista", supremazia da indústria pesada, "socializaçom"
forçada do campo, etc.
Para começos dos anos trinta,
existe já a trilogia do "Estado socialista", do "socialismo
num só país" e da "ciência marxista-leninista";
em 1934, Estaline expom numha conversa com um jornalista norte-americano a
ideia central da colaboraçom internacional coa burguesia; em 1936,
afirma-se oficialmetne que a URSS concluiu já a fase de construçom
do socialismo; em 1937, liquida-se toda oposiçom, torturando e fusilando
a velha direcçom bolchevique que dirigiu a Revoluçom de Outubro;
em 1938, escreve-se o famoso "Manual de história do PCUS".
Esta construçom teórica
respondia a umha prévia evoluçom e prática que no seu
germe vinha dantes da evoluçom e que cresceu posteriormente apesar
das tentativas de muit@s revolucionári@s de várias correntes
por freá-la e derrotá-la. Podemos resumir as forças sociais
e factores históricos que impulsionárom esse processo da seguinte
forma:
1) O fraco desenvolvimento sócio-económico,
cultural, teórico e político do império russo e a reduzida
classe operária no seu interior.
2) Os terríveis custos da
Primeira Guerra Mundial e da invasom burguesa internacional com doze exércitos
de outros tantos Estados em ajuda da contrarrevoluçom interna.
3) Os custos menos aparentes de
partida, mas demolidores a meio prazo do cerco e boicote económico
internacional.
4) A burocratizaçom bolchevique
simultánea à morte dos seus melhores quadros na guerra e à
entrada de muitos "militantes" oportunistas e cultos, e de outros
muito pouco ou nada formados -a metade do PCUS era analfabeta a começos
dos anos vinte- que jamais militárom na clandestinidade.
5) A criaçom dumha casta
dominante simbiotizada co aparelho burocrático formada por antigos
burgueses, nobres, intelectuais, técnicos, etc., que penetram nos aparelhos
fundamentais e apoiam fanaticamente a fracçom estalinista no PCUS.
6) A repressom paralela de toda
iniciativa social, operária, popular, sindical e dos soviets, artística,
cultural, ecologista, sexual, feminista, etc.
7) O renascimento do nacionalismo
gram-russo.
Por conseqüência de todo isso é que se criou um "socialismo"
muito preciso nas suas componentes teóricas, políticas, etc.,
que podemos resumir nos seguintes pontos:
a) negaçom total da prática
histórica anterior como campo de conhecimento científico-crítico
e a sua reduçom a simples baú de receitas dogmáticas
inquestionáveis.
b) mitificaçom e sobrevalorizaçom
das forças produtivas no seu senso mais industrialista e de produçom
pesada, desprezando toda dialéctica coa natureza e acreditando contra
toda a lógica no mecanismo da histórica abstracta, coincidindo
essencialmente coa social-democracia nesta questom.
c) mitificaçom do Estado
como instrumento omnipotente e omnisciente, retomando do socialismo utópico
e da social-democracia essa mitificaçom, coa obrigada minusvalorizaçom
das massas e do seu papel conscientemente director.
d) dogma da possibilidade de construçom
do "socialismo num só país", contravindo e negando
teórica e praticamente toda a trajectória socialista anterior
e nomeadamente a marxista, com conseqüências globais desastrosas.
e) aceitaçom da teoria antimarxista
de que o dinheiro, a mercadoria e a lei do valor som válidos e necessários
no socialismo, multiplicando assi as causas objectivas da alienaçom,
divisom do trabalho intelectual e manual, divisom da cidade e do campo e,
o que é fundamental, sentando as bases objectivas e subjectivas para
a restauraçom brutal do capitalismo.
f) recomposiçom e recuperaçom
do patriarcado, sexismo, machismo e misoginia adaptado às novas condiçons
sociais.
g) formaçom dumha casta
burocrática que nom chegou a se constituir em classe social porque
para isso era obrigada a suprimir totalmente e de forma irreversível
as conquistas qualitativas da revoluçom.
A excepçom de Cuba polas
suas especiais e únicas condiçons nacionais e históricas,
a totalidade de restantes processos revolucionários que optárom
polo modelo "soviético" -de soviético na verdade nada,
pois os soviets fôrom disolvidos polo estalinismo- copiárom cada
umha e todas dessas características. Cuba também copiou bastante
dela, mas está a demonstrar grande capacidade de autocrítica
e democratizaçom verdadeiramente socialista.
Em resumo, fracassou umha estratégia
precisa de transiçom para o socialismo e para o comunismo que principiou
em 1917 mas que para 1920 mostrava já sérias fraquezas e inquietantes
perigos de degeneraçom, como o próprio Lenine advertira ao definir
ele pessoalmente a começos de 1921 a URSS como "Estado operário
burocraticamente degenerado".
Fracassou essa verdadeira degeneraçom do socialismo que cresceu sobre vários milhons de revolucionários assassinados pola burocracia do PCUS como o reconheceu o próprio Kruschov.
3.2.-
O quê fijo fracassar esse socialismo?
As razons do fracasso do socialismo
estalinista nascem em parte da semelhante confluência e dos limites
objectivos das suas características internas, embora nom sejam as únicas
razons. Cumpre considerar também as sucessivas estratégias e
tácticas imperialistas para derrotar os processos revolucionários
mundiais, isolar, enfraquecer e derrotar a URSS, a funçom impressionante
da social-democracia, etc. A burocracia do Kremlin foi responsável
por muitas vitórias capitalistas em Estados estratégicos para
o imperialismo, reforçando dessarte umha espiral destrutora que ainda
nom findou."
Interrompo cá a transcriçom
da exposiçom de Iñaki Gil de San Vicente sobre as causas do
fracasso do socialismo estalinista para inserir um contributo meu parcelarmente
publicado em 1994, que desenvolve e detalha a frase de Iñaki que no
parágrafo anterior di: "Cumpre considerar também as sucessivas
estratégias e tácticas imperialistas para derrotar os processos
revolucionários mundiais, isolar, enfraquecer e derrotar a URSS"
Este meu contributo di o que se
segue:
A) Por fim, 74 anos depois e na
terceira tentativa, os Estados capitalistas vencêrom o Estado surgido
da Revoluçom russa de Outubro de 1917
Vaiamos por partes. É um
facto muito evidente que a URSS foi vencida polos Estados Unidos na chamada
guerra fria. É um facto tam evidente porque foi muito visto por muitos.
O afundimento da Uniom de Repúblicas Socialistas Soviéticas,
que a levou ao seu desaparecimento como entidade estatal do palco internacional
e no seu próprio território e à desmembraçom do
mesmo entre mais dumha dúzia de novos Estados independentes, foi simbolicamente
presenciado em directo por televisom por centos e centos de milhons de pessoas.
E isso tanto ao começo desse
afundimento, quando em 9 de Novembro de 1989 caiu o Muro de Berlim, como no
final desse afundimento, quando na noite de Natal de 1991 foi arriada no Kremlin
de Moscovo a bandeira vermelha coa fouce e o martelo.
Esse afundimento e desaparecimento da URSS foi acompanhado, precedido e seguido
polo desaparecimento do Pacto de Varsóvia e pola espectacular conversom
para o capitalismo dos países antes chamados comunistas que eram assinantes
desse Pacto. E que agora se esforçam por obedecerem aplicadamente as
ordes e as instruçons dessas ferramentas internacionais básicas
do sistema capitalista que se chamam Banco Mundial, Fundo Monetário
Internacional e OTAN. Para que essa obediência os ajude a conseguirem
a sua benevolência como requisito para que os ajudem técnica
e financeiramente a se converterem no que agora ansiam ser:
Estados capitalistas de pró.
Isso todo é certo. Mais
do que certo, é evidente. Mas isso todo significa que os Estados capitalistas
conseguírom por fim, após várias tentativas realizadas
ao longo de setenta e quatro anos, vencer militarmente o Estado surgido da
Revoluçom Russa de Outubro de 1917.
Aginha que foi implantado, em 1918
e durante os anos seguintes, o Estado soviético tivo que sofrer o ataque
e a invasom militar dos Estados capitalistas que pretendêrom esmagar
a Revoluçom Russa pola força. O Estado capitalista alemám
voltou a atacar inclusive após o armistício assinado em Brest-Litovsk
e havia tropas francesas hostis aos bolcheviques no Mar Negro e na Crimeia.
Em 5 de Abril de 1918, tropas japonesas desembarcárom em Vladivostock,
chegando rapidamente tam dentro de Sibéria como até o lago Baikal
e demorariam mais de quatro anos em reembarcarem. Em finais de Junho de 1918,
produziu-se o primeiro desembarco inglês em Murmansk. A primeiros de
Agosto houvo um desembarco anglo-francès em Arkángel e, durante
esse mês, desembarcárom dous regimentos norte-americanos. Na
segunda metade de 1918 a soma de 400.000 soldados estrangeiros perfeitamente
armados e treinados cos 700.000 soldados das tropas regulares sob mando dos
generais czaristas, permitiu à contrarrevoluçom controlar as
três quartas partes do território. Em 1919, havia dezasseis países
capitalistas a ajudarem os russos czaristas e fazendo ao Estado soviético
a guerra (com tropas próprias, com ajuda em dinheiro e em material,
com bloqueio completo do comércio, com ruptura de relaçons diplomáticas,
etc.), faltando apenas o requisito formal da oficial declaraçom de
guerra.
No entanto, essa formidável
coligaçom pudo ser vencida graças ao heroísmo das massas
russas que, entre outros recursos, tivérom a sorte histórica
de contarem aliás coa enérgica e clarividente direcçom
de Lenine. E co génio político-militar de Trotski, que foi quem
-nomeado Comisário da Guerra e Presidente do supremo conselho de Guerra
em meados de Março de 1918- criou, organizou e dirigiu o Exército
Vermelho. Esse Exército Vermelho, criado desde quase o nada, enquadrava
três milhons de combatentes a fins de 1919 e cinco milhons e meio no
outono de 1920. Nessas somas figuravam umha politicamente valiosíssima
componente: um quarto de milhom de combatentes revolucionários internacionalistas
(alemáns, húngaros, polacos, checos, eslovacos, sérvios,
búlgaros, romenos, chineses, coreanos e representantes de outros povos).
Esse Exército Vermelho atingiu a vitória sobre todos os seus
inimigos. O Estado soviético nascido da Revoluçom Russa consolidou-se.
Mercê da luita abnegada e heróica, cheia de valor e de sacrifício,
com que as massas de operários e camponeses russos conseguírom
a primeira grande vitória socialista sobre o furacám de fogo,
aceiro e vileza que os Estados capitalistas espoletárom contra elas
na sua tentativa de reinstaurarem a feroz exploraçom, a selvage crueldade
e a corrupta administraçom do regime czarista.
Menos de vinte anos depois dessa
vitória, a URSS tivo de fazer frente a outra feroz investida capitalista.
Umha investida que ao princípio dos anos trinta foi prevista e anunciada,
cada um por seu lado, polos dous líderes (Estaline e Trotski) que na
altura se disputavam a direcçom do movimento comunista mundial. A máquina
de propaganda interior da URSS utilizou largamente nos anos quarenta, para
reforçar o prestígio de Estaline, a recordaçom do acerto
dumhas palavras suas que já foram marcadas a lume na mente dos cidadaos
soviéticos durante os anos trinta por essa máquina propagandística.
Umhas palavras pronunciadas para justificar os tremendos sacrifícios
exigidos pola industrializaçom da URSS que, incrivelmente, ia levantar
um poderio industrial que no final dessa década começava a alcançar
o da Alemanha. Num discurso de Fevereiro de 1931 (quando já estava
a usar todos os meios -entre eles os terroríficos- para acelerar a
industrializaçom), Estaline explicou que: "Marchávamos
50 ou 100 anos por trás dos países mais avançados. Em
dez anos temos de ganhar esse terreno. Ou o fazemos, ou nos esmagam".
Precisando ainda mais o pronóstico,
ao indicar especificamente qual havia de ser o Estado capitalista que faria
de ponta de lança para essa tentativa de esmagar a URSS, Trotski publicou
em Abril de 1932 um artigo intitulado A vitória de Hitler significaria
a guerra contra a URSS.
E em 22 de Junho de 1941 a URSS
foi atacada e invadida polo exército capitalista mais forte do mundo
nesse momento: o exército dumha Alemanha que pretendia tomar posse
de todo o continente europeu e converter a Europa Oriental mais a URSS na
"Índia do Reich", a Índia do Império Alemám
dos mil anos. (Em Setembro de 1941, Hitler explicou no seu quartel geral que:
"o que para a Inglaterra foi a Índia, será para nós
o espaço do Leste"). A Alemanha nazi pretendia assi ganhar pola
força, mediante a conquista e a subseguinte exploraçom do Leste,
a sua concorrência cos Estados Unidos para substituir Inglaterra no
papel de potência hegemónica na economia-mundo capitalista.
B) Foi a URSS quem derrotou a Alemanha
nazi vencendo-a à custa de vinte milhons de mortos e dumha terrível
destruiçom. Foi USA quem se lucrou dessa vitória conseguindo
a hegemonia
O exército da Alemanha nazi,
que arrasara e vencera os exércitos francês e inglês conquistando
França em 40 dias de ofensiva, que vencera e conquistara a Polónia
em menos de 30 dias, a Dinamarca numhas horas, a Holanda e a Bélgica
nuns dias e a Noruega numhas poucas semanas, lançou a cachom cinco
milhons e meio de soldados e umha ingente massa de material bélico
sobre a URSS. Até meados de 1944, 95% da capacidade bélica alemá
estivo a pôr-se em jogo na frente oriental.
E lá perdeu a II Guerra Mundial. Essa frente decissiva para a sorte
da guerra, a soviética-alemá, custou ao exército nazi
74% de todas as suas baixas. Lá fôrom postas fora de combate,
derrotadas ou feitas prisioneiras seiscentas e sete divisons alemás.
Três vezes e meia mais do que nas três frentes italiana, norte-americana,
norte-africana e europeia ocidental juntas. Nessa frente oriental, os nazis
perdêrom até 75% dos seus tanques e canhons de assalto disponíveis
(48 mil unidades), mais de 75% dos seus avions de combate (77 mil) e 74% da
sua artilharia (167 mil peças). E foi o Exército Vermelho quem
tomou Berlim, a capital do III Reich. E soldados soviéticos quem colocárom
a bandeira vermelha da fouce e o martelo no cimo da Chancelaria de Hitler
e do Reichstag.
A URSS pagou um terrível
preço por essa vitória: vinte milhons de mortos, soma de quase
catorze milhons de soldados e mais de seis milhons de civis (dous de cada
cinco mortos na II Guerra Mundial fôrom soviéticos). Ao acabar
a guerra havia, nos grupos de idade maiores de dezoito anos, apenas 31 milhons
de homes frente a 52 milhons de mulheres. E a URSS sofrera tremendas destruiçons
(30% do património nacional). Que, por exemplo, deixárom 25
milhons de pessoas sem lar ao acabar a guerra. A agressom nazi custou à
URSS a metade da sua potência económica. Especialmente graves
fôrom a destruiçom da vital indústria pesada da bacia
do Donets, em que, aliás, se produzira a inundaçom total das
minas de carvom e a devastaçom das zonas agrícolas da Ucránia
e a Bielorrussia. Estes factos som de relevo capital para calibrarmos a relaçom
de forças entre a URSS e os Estados Unidos ao acabar a II Guerra Mundial.
Porque, além de ter mantido intacto o seu território, os Estados
Unidos tomárom posse (cos seus aliados ingleses e franceses) de toda
a potência industrial alemá dos sectores do oeste. O qual supujo
perto das duas terceiras partes da indústria alemá que, apesar
de todos os bombardeios, só sofrera umha destruiçom de 25%.
O preço pago pola URSS,
repito, foi terrível. Mas a vitória soviética salvou
a Europa da loucura criminosa e do terror fascista e supujo o segundo grande
fracasso capitalista no empenhamento de esmagar a Revoluçom Russa.
Nesse mesmo momento, a barbárie
capitalista, agora na sua versom norte-americana, estava já a planificar
um novo ataque ao Estado surgido da Revoluçom Russa de Outubro de 1917.
Esse ataque, essa "cruzada anticomunista" que passará à
História co nome de guerra fria, é o que conseguiu a derrota
e o desaparecimento da URSS.
C) U.S.A. venceu a URSS do "socialismo
real" gastando dinheiro que enriquecia as multinacionais do complexo
militar-industrial.
Essa cruzada abandeirada polos
ianques nom ia fazer-se, ao menos num primeiro momento, em forma de guerra
aberta e declarada à URSS. Em primeiro lugar, porque os ianques sabiam
que nom havia perigo de ataque iminente soviético. E em segundo lugar
porque, apesar da prática invulnerabilidade que se mantinha para o
território norte-americano dada a sua esmagadora superioridade naval
e a superioridade tecnológica do seu armamento (incluído o monopólio
atómico), ainda se estendia entom até a Alemanha e a Áustria
o poderoso Exército Vermelho que vencera a formidável máquina
de guerra nazi e nom era questom de buscar-lhe as cóxegas sem necessidade.
Mas quando em 29 de Agosto de 1949
a URSS detonou a sua primeira bomba atómica na Ásia Central,
rompendo o monopólio nuclear ianque, os Estados Unidos topárom
bruscamente o facto de que o risco do ataque soviético que estiveram
exagerando e falsificando tinha já um suporte tecnológico temível.
Reforçárom o seu rearmamento, reforçárom a sua
"cruzada" ideológica. E fôrom reparando em que a terceira
tentativa capitalista de esmagar a Revoluçom Russa nom poderia ser
umha guerra como a das duas tentativas anteriores. Nom poderia ser umha "guerra
quente". Teria de ser a guerra fria.
Essa guerra fria foi-no apenas
porquanto nom houvo choques directos, declarados e públicos entre norte-americanos
e soviéticos. Mas derramou-se muito sangue quente em choques secretos
e em dúzias de cenários do planeta em que uns e outros ou os
seus aliados se enfrentárom com forças concretas que representavam
ou eram aliadas do outro bando. Recorda a Grécia, a China, a Coreia,
o Vietname, o Congo, Angola, a Etiópia,etc, etc. Será útil
termos em conta ao respeito, quando se ouve os propagandistas da OTAN presumirem
de que a sua existência evitou os desastres dumha guerra à Europa,
que é certo que nom houvo querra total na Europa, mas que após
1945 morrêrom em combate sete milhons e douscentos mil soldados, e entre
vinte e cinco e trinta e três milhons de civis envolvidos nos mesmos.
Mas o que realmente importa é perceber que os Estados Unidos formulárom
essa guerra como umha duríssima corrida de armamentos em que o dinheiro
a gastar era a arma decissiva. E a que finalmente lhes deu a vitória
à vez que facilitou o fantástico enriquecimento das empresas
capitalistas que conseguírom os abundantes contratos do Pentágono
para fabricar esse armamento. Contratos conseguidos por essas empresas mercê
das suas relaçons cos militares ianques de alta gradaçom, muitos
dos quais se convertem, ao se reformarem, em altos cargos das mesmas empresas
às quais encomendárom esses contrátos. Que eles se encarregam
de renovar coa facilidade que para isso supom o facto de os militares que
os substituírom no Pentágono serem normalmente antigos subordinados
seus a quem ajudárom a subirem nas suas trajectórias profissionais.
Os Estados Unidos jogárom
a vaza da sua superioridade económica numha insensata corrida de armamentos.
Quanto dinheiro gastárom nela? Desde 1949 a 1989, o orçamento
total das forças armadas norte-americanas gastado polo Pentágono
somou a absurda quantidade de oito milhons e trescentos mil milhons de dólares
(8.3000.000 $). Para fazermos umha ideia do que significa essa quantidade,
que está medida em dólares de 1982, cumpre calibrarmos que é
claramente superior ao valor da totalidade das plantas e dos equipamentos
da indústria civil e da infraestrutura dos Estados Unidos que em 1982
somava sete bilions e trescentos mil milhons de dólares. O qual significa
que o Governo norte-americano fijo um terrível e insensato esbanjamento
de recursos e de energia em fabricar armas. Quer dizer, dedicou a fabricar
produtos que som inúteis para a vida, que somente servem para destruir
outros ao gastá-las ou a destruir-se a si próprias, mais capital
do que teria necessitado para substituir (ou dobrar) a imensa maior parte
da maquinaria e das estruturas do seu país.
Vejamos um outro elemento de comparaçom
do fantástico esbanjamento ianque nessa corrida de armamentos: em todos
os anos transcorridos desde 1951 a 1990, o orçamento do Departamento
de Defesa dos Estados Unidos ultrapassou os benefícios netos combinados
de todas as empresas norte-americanas. E o processo de geraçom, execuçom
e controlo dessa despesa militar levou a umha situaçom em que o Departamento
de Defesa dos Estados Unidos controla a maior parte do capital gerado no país,
as mais de 30.000 empresas contratistas do Pentágono e umhas 100.000
empresas subcontratadas que também trabalham para ele. Que igualmente
controla o maior número de pessoas dedicadas ao que se chama I+D (investigaçom+desenvolvimento),
e o maior número de engenheiros e de trabalhadores do sector produtivo.
À vista do qual, nom parece exagerado que um professor da Universidade
de Columbia tenha definido os Estados Unidos de hoje como um regime de capitalismo
militar de Estado.
O que agora é importante
tirar em limpo de isto todo é o enorme esforço e a enorme carga
que para a URSS tivo que supor o gasto necessário para manter o passo
nessa corrida de armamentos, levando em conta que a economia global norte-americana
era várias vezes maior do que a soviética. Polo que um gasto
igual ou semelhante ao que faziam os ianques supunha umha percentage muito
maior da sua produçom nacional para os soviéticos. E, portanto,
um sacrifício muito maior. Recorde-se o conhecido dilema: canhons ou
manteiga. Os recursos dum país som os que som. Quanto maior parte deles
forem dedicados a frabricar canhons, menos restam para frabricar manteiga.
E onde se di manteiga, quer-se dizer todo o tipo de bens e serviços
para atender as necessidades da populaçom (alimentos, vivendas, escolas,
automóveis, electrodomésticos, brinquedos, etc.).
À custa desses sacrifícios
é que a URSS conseguiu manter o passo na corrida, evitando dessarte
o perigo de que os Estados Unidos pudesse impunemente destrui-la pola força.
O génio russo conseguiu inclusivamente sucessos espectaculares nessa
concorrência. Em Agosto de 1957, realizou com sucesso as provas do primeiro
míssil balístico intercontinental, rubricadas co lançamento
do primeiro satélite artificial da Terra em Outubro do mesmo ano e
realizando em 2 de Janeiro de 1959 o primeiro voo interplanetário ao
lançar um foguete para a Lua. Resultou assi evidente que os Estados
Unidos perderam a invulnerabilidade geográfica que durante a II Guerra
Mundial mantivera o seu território a salvo das destruiçons da
guerra, forjando assi a sua hegemonia económica da postguerra.
Esses êxitos alarmárom
e assustárom notavelmente os norte-americanos. E os Estados Unidos
empenhárom a sua gigantesca capacidade industrial e económica
em redobrar os seus esforços para a corrida de armamentos criando um
sem-fim de armas estratégicas: mísseis balísticos intercontinentais
protegidos em depósitos subterráneos disseminados, submarinos
atómicos porta-foguetes com cargas nucleares e bombardeiros pesados
de longo alcance. A URSS tivo de fazer de novo outro gigantesco esforço
(novamente mais pesado para ela que o mesmo para os ianques) até conseguir
nos anos setenta umha paridade estratégica, um empate na capacidade
-e inevitabilidade- de destruiçom mútua.
Na década de 80, nas duas
presidências Reagan, os Estados Unidos forçárom de novo
o ritmo. Esbanjárom nesses oito anos dous bilions e cem mil milhons
de dólares no seu renovado zelo militar que agora incluía a
ameaça da "guerra das galáxias". Tal motivou que a
URSS gastasse ainda mais (dous bilions e trescentos mil milhons de dólares)
nessa corrida. Foi de mais. Acabou de quebrar o espinhaço da economia
soviética, já enfraquecida polo excessivo esforço dos
trinta anos anteriores. Gorbachov rendeu-se e tratou de se converter no amigo
e aliado esmoleiro dos vencedores Estados Unidos; prévia conversom
da URSS ao capitalismo.
Essa é umha leitura necessária
da URSS. Finalmente -depois de mais de setenta anos- e no terceiro grande
defrontamento, os Estados capitalistas do planeta esmagárom o Estado
surgido da Revoluçom Russa. Durante esses mais de setenta anos, os
Estados capitalistas fôrom capazes de alargar o seu poder aumentando
a miséria e a pobreza em todo o planeta mediante umha sobreexploraçom
cada vez maior. Esse aumento do número e a miséria dos pobres
no planeta tem feito mais ricos e poderosos os Estados capitalistas centrais.
E por isto os Estados capitalistas tenhem demonstrado serem mais fortes do
que os Estados que tentavam ser o que diziam, que tentavam ser socialistas
na Europa oriental. Enfim, o socialismo nom tivo o poder nem o acerto suficientes
como para se consolidar na Europa. Tal nom quer dizer nem demonstra que o
capitalismo seja melhor do que o socialismo.
Fornecidos assi os dados e os feitos que explicam os factores exógenos
do afundimento da URSS, retomo a transcriçom da resposta de Iñaki
Gil de San Vicente à pergunta, O QUÊ É QUÊ FIJO
FRACASSAR ESSE SOCIALISMO?
Di o Iñaki:
"O que si temos que aclarar
é que já desde os primeiros dias da revoluçom se dérom
dentro dos bolcheviques e em geral, em todas as correntes socialistas e revolucionárias,
vitais discussons teóricas sobre cinco problemas práticos de
importáncia estratégica nom apenas para a URSS, mas práticamente
para todos os processos revolucionários havidos desde 1848. Fôrom
estas:
1ª o debate sobre as formas
e conteúdos sócio-económicos da transiçom para
o socialismo; o sentido da planificaçom económica; a funçom
do dinheiro e a questom dos preços; a lenta extinçom da produçom
de mercadorias; a intervençom e o controlo operário na planificaçom
sócio-económica; a questom agrária, etc.
2ª o debate sobre a democracia
operária e a ditadura do proletariado como antagónicos à
ditadura da burguesia e à democracia capitalista; a funçom do
Estado como instrumento em processo de eliminaçom; as relaçons
do Estado cos sindicatos e soviets, e cos próprios partidos revolucionários,
etc.
3ª o debate sobre a questom
nacional e o direito à independência dos povos; o centralismo,
federalismo ou confederalismo da democracia obreira e as suas relaçons
económicas; o problema das línguas e o desenvolvimento das culturas,
etc.
4ª o debate sobre o internacionalismo
socialista como antagónico à internacionalizaçom do capital;
a viabilidade do "socialismo num só país"; as relaçons
entre organizaçons revolucionárias estatais e/ou nacionais,
etc.
5ª o debate sobre a própria
"sociedade socialista" como qualitativamente superior à capitalista;
o problema da alienaçom; o problema da opressom da mulher e do patriarcado;
a funçom da religiom e da ciência, do ateísmo; a funçom
da ética e da moral, etc.
Nom podemos estender-nos aqui co
problema das reivindicaçons ecologistas e ambientalistas, que também
se dérom na URSS, e noutros lugares ainda que com grande debilidade.
Na URSS discutiu-se largamente
sobre todo isto até que se impujo umha terrível censura que
mesmo proibiu textos de Marx e nom publicou manuscritos fundamentais da sua
época mais frutífera, a sua idade madura, que agora estám
cobertos de pó nas caves do fechado e suprimido Instituto Marx-Engels
de Moscovo. Lenine também foi censurado à vez que tergiversado.
Para quê continuar?
Cada um desses problemas reais,
e todos juntos à vez, acelerárom as sucessivas crises do socialismo
estalinista de modo que, periodicamente, se ensaiavam reformas e intentos
de reformas. Nom faremos repasso exaustivo de tais, mais si examinamos as
suas características e constantes comuns. Som três:
I) virem impostas de acima, da
burocracia, como conseqüência dos protestos e/ou do malestar popular.
II) nom contarem em absoluto co
povo senom mais bem pretender mantê-lo contente mas em silêncio
e na passividade.
III) serem derrotadas e vencidas
polos sectores mais duros, oficialistas e dogmáticos, excepto no caso
da perestroika.
No decurso desta experiência,
sempre tenhem pugnado duas correntes do PCUS: umha, que pretendia acercar-se
à chamada "economia socialista de mercado", isto é;
compaginar capitalismo e "socialismo", e outra que pretendia manter
os fundamentos dogmáticos do "socialismo" elaborado nos momentos
do esplendor estalinista.
Precisamente, umha das diferenças
de Cuba neste senso radica em que está sabendo superar por enquanto
-até quando?, essas características mediante a mobilizaçom
das massas e a abertura do partido.
Como conseqüência de
todo o acima exposto, na URSS e na imensa maioria de "Estados socialistas"
para finais dos anos setenta a situaçom era já alarmante nos
seguintes dez pontos centrais:
1) obsolescência industrial
em infraestruturas, o seu rendimento, optimizaçom de recursos, racionalizaçom
e produçom rendível.
2) atraso tecno-científico
crescente quanto ao imperialismo que para começos da década
de oitenta era aproximadamente dumha vintena de anos, embora nom em tecnologia
militar, astronomia e ciência pura.
3) caos e desorde total nas infinitas
contabilidades, na planificaçom dos pedimentos de matérias e
insumos, custos e preços resultantes, unido ao gigantismo burocrático,
ao carácter encontrado das suas disputas e diferenças internas
e o aumento da corrupçom.
4) militarizaçom massiva
da economia e supeditaçom a esta da produçom de bens de consumo
básicos, cos efeitos de desequilíbrio estrutural crescente que
tal implica.
5) endividamento crescente co imperialismo
mediante empréstimos do FMI, BM e banca capitalista privada, à
vez que aprofundamento da sima por baixo do rublo hipervalorizado.
6) crise ecológica arrepiante
de efeitos cumulativos.
7) retrocesso alarmante nas condiçons
de vida e trabalho das massas, aumento do desemprego encoberto, retrocesso
objectivo em saúde e educaçom.
8) deslegitimaçom profunda
do socialismo na sua totalidade e fortalecimento de todas os vícios
e defeitos inseparáveis do dinheiro quanto amo absoluto.
9) fraqueza estrutural insustentável
frente ao imperialismo alentado e decidido a todo, que endurece a sua ofensiva
a começos de oitenta.
10) fortalecimiento das aspiraçons
e tendências pró-capitalistas da classe burocrática dominante.
Nestas condiçons estruturais,
de fundo e de forma, o socialismo estalinista é incapaz no decurso
da década de oitenta de dar umha resposta ao capitalismo. É
mais, mesmo um capitalismo castigado por umha severa crise de vaga funda,
que justo consegue umha intensa mas transitória recuperaçom
parcial de poucos anos, pode desafiar e humilhar reiteradamente todo o bloco
socialista, China incluída.
A inícios de noventa, consuma-se
o desastre e o PCUS é ilegalizado polos seus próprios máximos
dirigentes no verao de 1991, algo mais de seis anos depois do início
da perestroika. Antes da queda do PCUS, fôrom caindo um após
outro todos os "Estados socialistas" europeus, e encontram-se em
grave situaçom os restantes. Nom analisamos aqui o acontecido na China
e Cuba, que mereceriam umha análise muito mais pormenorizada.
Sem o PCUS e a dogmática
"marxista-leninista", a burocracia pode já liquidar sem compaixom
os restos históricos qualitativos da Revoluçom de Outubro: a
supressom da propriedade privada dos meios de produçom. Agora, na Federaçom
Russa, na Confederaçom de Estados Independentes e em quase todos os
ex-"Estados socialistas", a excepçom de Cuba, o Vietname
e mais algum, está-se produzindo a reinstauraçom feroz e traumática
do direito dumha minoria ao controlo, posse e propriedade privada dos meios
de produçom.
Essa minoria nom é outra
que a classe burocrática formada na URSS desde finais dos anos vinte,
na Europa do Leste desde 1947 polo geral, na China desde meados dos anos cinqüenta
e com maior intensidade desde meados de setenta, etc. Essa casta via minguar
as suas receitas e esperava -espera- recuperá-las e aumentá-las
expropriando os meios de produçom, privatizando-os, expulsando trabalhadores
e vendendo-se ao capital estrangeiro.
Dito de modo muito resumido: fracassou
porque a casta burocrática quer converter-se na classe burguesa."
Até aqui a explicaçom
que o Iñaki Gil de San Vicente fai do fracasso do socialismo estalinista.
Ora bem, o título desta exposiçom inclui o tema da reconstruçom
da alternativa comunista. Para isso é preciso perguntarmo-nos se junto
do fracasso dos quatro socialismos de que temos falado (o socialismo utópico,
o socialismo da II Internacional ou social-democracia, o socialismo eurocomunista
e o socialismo estalinista ou soviético) tem fracassado aliás
o marxismo.
A dedicaçom que temos feito
em boa parte desta exposiçom em demonstrar que Marx tinha razom é
umha pista clara de @s companheir@s da REDE BASCA VERMELHA nom pensarmos em
absoluto que o marxismo tenha fracassado. Aliás, é de importáncia
fulcral para a reconstruçom da alternativa comunista, acrescentamos
(e explicamos) que o marxismo nom fracassou nem sequer tem podido fracassar.
Nom pudo fazê-lo porque o marxismo originário ainda nom terminou
de ser conhecido na sua totalidade material e teórica. Como pode fracassar
umha cousa que ainda nom tem acabado de ser editada, conhecida, estudada,
criticada e aplicada?.
Transcrevo, para expor este ponto, umha parte da primeira redacçom (datada a 20 de Setembro de 96) dum texto do Iñaki Gil de San Vicente que está quase pronto para publicar na web da REDE BASCA VERMELHA.
4. O marxismo nom fracassou nem tivo o ensejo de fazê-lo porque ainda nom acabou de ser conhecido na sua totalidade material e teórica
"Antes de falarmos em "fracasso do marxismo" há que
precisar de que marxismo é que estamos a falar. Temos duas formas de
solucionar essa questom: umha, a do saber estabelecido, consistente em pegar
nos textos dos autores em questom, talvez com umha ligeira contextualizaçom,
inseri-los no seu tempo e espaço de modo superficial, e depois fazer
umha leitura formalista, linear, literal deles. Umha sua característica
é comparar excertos de textos, frases soltas incluso à marge
das distáncias temporais que separam as diversas publicaçons
procurando contradiçons entre eles. Umha outra é ler esses textos
desde o presente, fazendo antes umha breve referência do tempo e um
enquadramento do autor, para salvar a image do crítico, mais procurando
antes que mais demonstrar que o autor criticado se equivocou ou está
definitivamente superado. Este método é muito comum e tem-se
empregado com muita freqüência contra o marxismo, melhor dito,
contra as obras de Marx e Engels.
Umha outra forma é considerar
os autores analisados como sujeitos imersos na sua época, receptores
de seus logros e deficiências e capazes de fornecer ideias importantes
para o presente. Este método exige dumha cuidadosa inserçom
histórica das obras desses autores, de suas diversas finalidades e
objectivos, das inovaçons que suponhem no que di respeito às
anteriores e da coerência que mantenhem quanto à continuidade
ou estrutura de pensamento desses autores, se tal tiverem. Partindo daí,
pode-se descobrir essa estrutura ou esse método, esse sistema e ajuizá-lo.
Nom estamos perante umha tonta
discussom. Refere um tema chave: a capacidade do pensamento dominante para
tergiversar os autores que nom dim o que o poder quer ouvir. Recordemos, por
exemplo, o caso de Freud e as mil e umha armadilhas do academicismo oficial
para manipular a sua obra, sobretodo a sua primeira e fundamental parte. Recordemos
também a rapidez com que o pensamento burguês desnaturalizou
a obra de Darwin e, a partir daí, construiu essa aberraçom racista
chamada "darwinismo social". Tais exemplos indicam a capacidade
da mentira, falsificaçom e ocultamento do saber academicista. E isso
que Darwin e Freud davam possibilidades suficientes para serem manipulados.
Decenas de autores revolucionários ou simplesmente críticos
e incómodos nem sequer tivérom a "sorte" de serem
manipulados, simplesmente fôrom marginalizados e desconhecidos. Muito
poucos, contadíssimos, lográrom quebrar as censuras burguesas
e quase sempre graças aos denodados esforços de editoras progressistas.
De facto, foi isso que aconteceu a Marx e Engels durante toda a sua vida. Ambos os dous amigos, e nas páginas que abaixo seguem nom vamos fazer distinçons de autoria entre as suas obras -pois as mais delas fôrom escritas em íntima colaboraçom, fôrom uns perfeitos desconhecidos para o academicismo burguês até o final da I Guerra Mundial. Até entom os debates sobre as suas ideias eram exclusivamente internos do movimento revolucionário sobretodo até 1900.
Unicamente três pensadores burgueses de envergadura para a data dedicárom-se após 1900 ao estudo e crítica do marxismo: Masaryk, Böhm-Bawerk e Croce.
Somente, aquando da expansom pola
Europa das vagas revolucionárias de 1917-23, a grande crise sócio-económica
de 1929 e a crise sócio-política dos anos 30, assi como as luitas
anti-imperialistas crescentes por todo o planeta, só entom, a burguesia
mostra a sério a sua preocupaçom por desacreditar teoricamente
o marxismo. Nom é mister dizermos que os conhecimentos sobre Marx e
Engels de dous autores decisivos para o pensamento burguês "democrático"
como Weber e Keynes, eram escandalosamente pobres e deficitários e,
sem embargo, os superficiais parágrafos de ambos autores sobre o marxismo
fôrom e som considerados como o mais elevado do descrédito definitivo
do marxismo.
Porém, tam grande ignoráncia
segue na actualidade por umha simples razom: nom existem as Obras Completas
de Marx e Engels. Ainda há um grande volume de manuscritos sem publicar
e muito menos polir, sobretodo rascunhos da mao de Marx. Começárom-se
a publicar com algumha sistematicidade as suas obras só nos anos 20.
O filósofo húngaro Lukacs dixo, numha conversa co filósofo
alemám Abendroth, que o director do Instituto Marx-Engels de Moscovo
-Riazanov, encarregado polo PCUS de compilar todas as obras de ambos os dous
amigos, lhe tinha confessado no final da década de trinta que os rascunhos
manuscritos d'O Capital permitiam umha ediçom de dez "grossos
volumes"; até agora apenas se conhecem quatro. As Obras Completas
em alemám, editadas por Riazanov, fôrom suspensas sem razom algumha
em 1935, quando só se tinham publicado doze volumes dos quarenta previstos.
Pola sua conta, Riazanov publicou mais alguns, mas em russo. Em princípios
de 70 previa-se a publicaçom de cem volumes entre a URSS e a RDA, mas
apenas aparecêrom uns quantos.
O quê pensaríamos
nós se nos dixessem que ainda estám sem publicar muitíssimos
textos de Darwin, Freud, Einstein, Heisemberg, Weber, Keynes, Descartes, Copérnico,
Galileu, Bacon, Hegel, Kant, Newton, Hobbes, Rousseau, Locke, Hume, Maquiavel
... ? No entanto, cá isto é apenas umha parte do problema. Restam,
entre outras, duas importantes: os textos que se publicárom em vida
de ambos revolucionários fôrom muito poucos, impedindo assi umha
última revisom definitiva, antes de se levarem ao prelo os restantes,
que som maioria, segundo o verdadeiro pensamento e desejo dos autores. Aliás,
essa limitaçom fijo com que a procura se suprisse com versons de terceiros
autores e textos doutras correntes próximas, e que, acima de todo,
motivou que os debates fundamentais sobre as questons que digladiavam antagonicamente
o marxismo originário co pensamento burguês, fossem livradas
com umha muito pobre base teórica originária de Marx e Engels.
É mister repararmos nestes assuntos devido à sua inegável
importáncia.
Do mais importante das obras escritas
antes da revoluçom de 1848, só O Manifesto Comunista foi re-editado
antes da morte de Marx. As restantes: A Sagrada Família, A Ideologia
Alemá, Miséria da Filosofia, A Situaçom da Classe Operária
na Inglaterra, etc. ficárom sem se re-editar em vida de Marx e a sua
difusom foi extremamente reduzida nos anos decisivos dos debates estratégicos,
como comprovaremos. Alguns textos posteriores fôrom publicados em tirages
muito pequenas até passado 1850, como A Luita de Classes em França,
O 18 Brumário que foi re-editado em 1869, A Guerra dos camponeses na
Alemanha e também Revoluçom e Contrarrevoluçom na Alemanha.
Depois, as obras publicadas seguem sendo poucas e de tirages muito reduzidas
como Contribuiçom à Crítica da Economia Política
em 1859, que nom foi re-editada, O Capital Vol. I em 1867, alguns escritos
muito curtos e Anti-Dühring em 1878.
Deste modo, quando se estava a
produzir o nascimento e posterior ascenso impressionante dos partidos social-democratas,
os textos marxistas disponíveis eram contados: O Manifiesto, O Capital
no seu Vol. I e A Luita de Classes em França, fundamentalmente. A reduçom
a generalidades e simplismos que negavam a rica e complexa diversidade das
ideias marxistas originárias era tam grave nesses anos -e tam imparável,
que o mesmo Marx dixo aflito e zangado que ele "nom era marxista".
Entre a morte de Marx em 1883 e a de Engels em 1895, este fijo um esforço
desesperado em dous sentidos: luitar contra a degeneraçom mecanicista
e economicista que se ia impondo nos partidos social-democratas sob o impacto
da ideologia burguesa -o positivismo cientifista, e re-editar as obras de
Marx. No final da sua vida, Engels lograra re-editar ou publicar por vez primeira
dez títulos escritos por ambos amigos, dum total verdadeiramente impressionante.
Deixando de parte o debate sobre o engelsismo e as possíveis intoxicaçons
introduzidas por ele ao limpar e ordenar os montes de manuscritos -quase ilegíveis,
muito complexos e dumha dificuldade teórica que só ele podia
compreender e digerir, o certo é que em fins do século XIX o
marxismo estava em clara minoria frente à força dumha ideologia
social-democrata, "marxista", em aparência, mas profundamente
burguesa na sua ideologia substantiva, como se demonstraria catorze anos depois,
em Agosto de 1914.
Um exemplo das fortes pressons que limitavam a publicaçom das obras
marxistas é a sorte que padeceu umha das suas melhores obras de análise
histórica concreta, A diplomacia Secreta, de tanta ou mais qualidade
do que O 18 de Brumário, e outras; a Diplomacia... , que analisava
muito documentadamente a longa história russa, foi escrita em 1857
e publicada em 1899, mas fôrom censurados vários parágrafos
do V capítulo. A censora foi sua filha Eleanor. A obra nom foi publicada
nunca na URSS e a sua publicaçom na íntegra produziu-se em 1954
em francês, em 68 em inglês, em 78 em italiano e em 79 em castelhano,
sempre por grupos minoritários e co silencioso rechaço do "marxismo"
oficial.
A social-democracia, sobretodo a alemá, era umha máquina burocrática incontrolável para os muito contados leitores, profundos e sistemáticos, das poucas obras marxistas publicadas. Por exemplo, já em 1891, ainda vivo Engels, Kautsky, falando com Victor Adler dos debates sobre o programa de Erfurt, referia-se a eles mesmos como o "grupo marxista" dentro do partido. O próprio Kautsky, redactor oficial do "Programa", tivo de fazer grandes concessons à linha lasalleana maioritaria no partido. Os leitores da revista teórica Neue Zeit eram apenas 3.000 a começos do século XX e co espectacular crescimento do partido, em 1905, em 400.000 filiados só 6.000 eram assinantes à Neue Zeit. Mas a situaçom era ainda pior, porque Neue Zeit e as editoras do partido publicavam fundamentalmente textos de divulgadores que, se bem tinham a qualidade de Kautsky, Bebels e outros, nom possuiam as capacidades criativas de Marx e Engels. Por exemplo, em 1905 a tirage média de cada ediçom do Manifesto nom atingia 3.000 exemplares enquanto o livro de Kautsky,
A Revoluçom Social tivo
28.500 em 1903-05. Por seu turno, o livro de Bebel Christenthum und Sozialismus
tivo umha tirage total de 57.000 exemplares entre 1898-1903, e o Programa
de Erfurt tivo umha distribuiçom de 120.000 exemplares.
Ainda assi, essas grandes tirages nom podiam ocultar um facto certo constatado
numha sondage interna realizada na social-democracia alemá em 1905:
os mais dos livros requisitados para empréstimo nas bibliotecas do
partido nom eram lidos polos seus subscritores. O mesmo aconteceu numha sondage
na fortaleza do socialismo italiano, Milano: de 264.000 libros requisitados
em 1910 nas bibliotecas socialistas, distribuídos em 44% entre obreiros
e 32% entre estudantes, nom existia livro nengum de Marx e Engels. Todos os
partidos obreiros tinham divulgadores mais ou menos fiéis e voluntariosos
dos clássicos marxistas: Guesde e Lafargue no Estado francês,
Gorter na Holanda, Plejanov na Rússia, Pablo Iglesias no Estado espanhol,
Labriola na Itália, Debs e De León nos EEUU. Mas será
Kautsky, que dominava sobre todos eles, quem co seu manual A Doutrina Económica
de Carlos Marx, editado com vários milhares de exemplares, forme muito
poucos centenares de militantes, bastantes dos quais pertenceriam à
esquerda marxista a partir de 1914. Essa desproporçom entre tirage
e leitura, confirmada na mínima assistência às aulas de
formaçom teórica que organizava Neue Zeit, quando a filiaçom
do partido chegava ao milhom de membros e o periódico atingira 10.000
assinantes, quer dizer, um raquítico 1%, era só umha expressom
dum gravíssimo problema: o reformismo e o burocratismo da social-democracia.
A social-democracia alemá era o guieiro de todo o movimento operário. Porém, já em 1890 era um partido muito distanciado do real quotidiano do movimento obreiro alemám. Em 1890, de 35 parlamentares só quatro eram trabalhadores directos, dous eram reformados, um mestre alfaiate, um outro empregado do partido e os vinte e sete restantes eram da pequena e mediana burguesia. A força da ala direita do partido era suficiente como para que nos debates parlamentares de 1891 o social-democrata Grillenberger pudesse ter afirmado que o seu nome se tinha vinculado às ideias de Marx. Já em 1892, durante o Congresso de Berlim, propujo-se controlar os salários dos empregados do partido, mas a proposta nom calhou. Em 1897, no Congresso de Stuttgart, o domínio dessa casta burocrática era tam forte, que Liebknecht, irónico, fijo um comentário em que exprimia o seu desejo dumha nova vaga de repressom anti-socialista, para que deste modo os burocratas abandonassem o partido e os revolucionários pudessem levantar a cabeça. Porém, no período 1900-14, o número de burocratas triplicou quanto ao de militantes de base.
Em 1911, no Congresso de Jena,
apenas 10% dos delegados eram trabalhadores em activo e os mais burocratas.
Apesar do esforço em espalhar
as obras marxistas por parte de Neue Zeit e os alcunhados depreciativamente
como "teóricos", a dinámica real do partido ia em
direcçom contrária. Até se consentiu o luxo de ocultar,
censurar e tergiversar o chamado "testamento de Engels", interpretando-o
em sentido reformista, pacifista, evolucionista e gradualista. Realmente,
a social-democracia como organizaçom estava desde havia bastante tempo
defrontada na teoria e na prática co marxismo. O que se passava era
que, por diversas circunstáncias, à maioria reformista nom lhe
interessava romper pública e abertamente co pequeno "grupo marxista".
Aquando Bernstein ataca directamente Marx, recebe um sábio conselho
dum obscuro mas poderoso burocrata: "essas cousas fam-se, mas nom se
dim".
No decurso destes anos, toma corpo
umha teoria social-democrata, burguesa, antagónica co marxismo em três
questons decisivas: a teoria do valor-trabalho; a filosofía dialéctica
e a funçom do Estado e da violência revolucionária. Mais
grave ainda foi que os herdeiros intelectuais de Engels e Marx, Kautsky em
primeiro lugar, fôrom incapazes de romper coa ideologia evolucionista
e positivista dominante, de jeito que as suas críticas ao triplo ataque
burguês eram, por um lado, defensivas, por outro, superficiais porque
nom podiam chegar ao fundo do tema em questom pola similitude ideológica
subterránea e, por último, inservíveis na prática
polo domínio da burocracia no andamento do partido e porque esse "grupo
de teóricos" carecia de independência organizativa para
forçar amplos debates.
Portanto, nom é de estranhar
a demolidora surpresa que tivérom a imensa maioria de revolucionários
quando em Agosto de 1914 deparárom co facto consumado da "traiçom"
de práticamente todos os partidos socialistas e social-democratas,
que dérom o seu apoio incondicional às suas respectivas burguesias
na guerra interimperialista de 1914-18. Lenine, por exemplo, sofreu tal impacto
político-emocional, que demorou alguns dias em se recuperar. Lenine,
como o resto, formou-se na escola de Kautsky, e perante a forte sacudidela
desta debacle, compreendeu que muito pouco da sua formaçom servia para
algo. É certo que na passada revoluçom de 1905 surgira umha
corrente esquerdista, em que junto de Rosa Luxemburg, Trotsky e poucos mais,
faziam um prometedor colectivo de inegável valor, mais ninguém
deles safou da crise, o que indica a sua dependência coa social-democracia
como mito referencial. A guerra de 1914-18 nom fijo mais do que piorar as
condiçons de publicaçom e estudo profundo dos clássicos
marxistas.
A vitória bolchevique de
1917 abriu de par a porta ao conhecimento do marxismo, e ao seu aprofundamento.
Mas foi durante poucos anos e numhas condiçons precárias pola
extrema dureza da contrarrevoluçom czarista, que contou co apoio de
doze exércitos capitalistas estrangeiros, e aliás, coas angustiantes
limitaçons económicas imperantes. Ainda assi, o pior imimigo
do marxismo surgiu da própria burocracia estalinista. Em 1917-23, o
clima social de debate teórico foi impressionante na URSS e nas organizaçons
revolucionárias doutros países. Nom houvo nengum problema estrutural
do capitalismo que nom fosse objecto de profundas discussons e de críticas
investigaçons. Porém, desde 1924 começa a impor-se um
crescente controlo global que em 1927 acabou em proibiçom global. Assi
cometêrom-se grandes asneiras, como proibir o excelente livro de J.
Reed Dez dias que abalárom o mundo, prologado e fervorosamente aconselhado
polo mesmo Lenine. No início da década de 30, numha crescente
repressom, desaparecem de tendas e bibliotecas as obras de Trotsky, Rosa Luxemburg,
Korch, Lukács, Pannekoek, Gorter e muitos mais, sem referir outras
correntes revolucionárias como anarquistas, social-revolucionários,
etc. A meados desta década tinham desaparecido as obras de Bujarin,
Zinoviev, Kamenev, Preobrajenski... O chamado Testamento de Lenine, em que
pedia a destituiçom de Estaline do cargo de Secretário Geral,
foi silenciado durante décadas.
Riazanov, amigo pessoal de Lenine, profundo conhecedor dos clássicos,
e encarregado pola recuperaçom e integral publicaçom destes
graças aos seus vastíssimos conhecimentos teóricos, foi
destituido, torturado e encarcerado pola burocracia estalinista acusado de
contrarrevolucionário e agente do nazi-fascismo durante as grandes
purgas desencadeadas a partir de 1937, em que faleceu quase a totalidade da
velha guarda bolchevique que tinha feito a revoluçom. Apenas dous pudérom
morrer na cama, Lenine em 1924, pois afastado havia um ano da política
pola sua delicada saúde, e Estaline, único sobrevivente aos
começos de 40. Cabe recordar que em 1935 se paralisara a publicaçom
das Obras Completas e que Riazanov continou pola sua conta em russo, mais
a sua detençom frustrou de raíz o processo.
Daquela atingia o clímax
o debate sobre as obras juvenis de Marx, em que atacava com implacável
dureza qualquer prática burocrática e todo Estado en si mesmo
polo que esta prática supunha e significava. Também resultava
muito incómoda para a burocracia a crítica marxista do expansionismo
internacional czarista, política que o estalinismo começou a
imitar em finais de 20 aquando da depuraçom da III Internacional e
o pacto coas burguesias europeias. Estes textos fôrom sistematicamente
ocultados nas sucessivas ediçons. Até numha data tam serôdia
como fins de 1960, as ediçons da RDA , as melhores em qualidade, excluíam-nas
do catálogo de Obras Completas e editavam-nas em pequeno número
em textos à parte, perdidos nas páginas doutras ediçons
que se acumulavam nas estantes. O Testamento de Lenine só se conheceu,
e limitadamente, depois do XX Congresso do PCUS, quando Kruschov reconhece
os "crimes do estalinismo" e o "culto à personalidade",
em fins de 50.
Esta restriçom de publicaçons
marxistas na URSS coincidia ademais coa destruiçom dos partidos que
tinham algo a ver coa publicaçom de textos marxistas, especialmente
aquelas organizaçons esquerdistas cindidas da social-democracia alemá
e austríaca, a maos do nazismo em 1933-35. Nom podemos minusvalorizar
este demolidor golpe, porque várias decenas de estudiosos e sobretodo
de velhos militantes que conheceram pessoalmente Engels e Marx -e que guardavam
íntima correspondência com eles, ou textos desconhecidos, fôrom
detidos e exterminados, ou tivérom que mergulhar na clandestinidade
para emergir durante 1945-47, pois a partir de 1948, coa guerra fria e o anti-comunismo,
volta a fechar-se a porta da investigaçom e difusom teórica.
Entretanto, na URSS o marxismo
era substituído por umha mescla de escolasticismo e hagiografia dos
textos de Estaline, com umhas pitadas ou doses de marxismo originário
fornecido por textos de grande valor como os Grundrisse, Dialéctica
da Natureza e mais algum. Em 1938 publicou-se o oficial e original História
do PC(b) da URSS, atribuído a Estaline e que aparece na ediçom
oficial de 1947 das suas Obras Completas no volume XIV. Este texto foi logo
convertido na bíblia estalinista, apesar das suas malfeitas mentiras
e das ausências de factos e personages determinantes para compreender
a verdadeira história, embora nom podamos estender-nos aqui na sua
crítica. Já daquela, a "doutrina oficial" fora expurgada
de qualquer texto clássico marxista que contradixesse ou questionasse
debilmente a teoria oficial do "socialismo num só país",
do "Estado socialista", do determinismo económico como motor
da história, da reduçom da dialéctica a umha simples
receita formal e castrada da sua essência crítica, revolucionária
e processual, etc.
Parte deste texto tivo efeitos
perversos de longa duraçom: as páginas dedicadas ao materialismo
histórico e ao materialismo dialéctico. Este breve capítulo
foi logo transformado em opúsculo de formaçom "teórica
marxista" obrigatória para e em todos os partidos da III Internacional.
Simultaneamente à apariçom da História... começárom
a proliferar os compêndios num volume de vários escritos sobre
o mesmo tema de Marx, Engels e Lenine: sobre o campesinato, a questom nacional,
o internacionalismo, os sindicatos, a cultura, etc. Este método tinha
umha virtude e dous defeitos: a primeira, que punha a pública disposiçom
diversas opinions sobre o mesmo tema, e os dous defeitos; um, que os textos
estavam descontextualizados e desligados do presente, e um outro, que eram
as necessidades tácticas e os dirigentes quem decidiam o que se publicava
e o que nom. Generalizou-se deste modo um método de análise
muito diferente do que tinham aplicado Marx e mais Engels, que era o da totalidade
e a sistematicidade, o da historicidade e demarcaçom concreta, o das
interrelaçons entre os problemas e o das contradiçons internas
das cousas, o da crítica rigorosa e o da liberdade de debate e discussom...
método que depois analisaremos.
A publicaçom da Dialéctica
da Natureza em 1925 e dos Grundrisse em 1939-41, que eram os manuscritos preparatórios
d'O Capital e doutras investigaçons, pudérom ter servido para
reorientar a situaçom , mas nom tal. O impacto da Dialéctica...
foi imensa entre os científicos soviéticos, e embora o avanço
da ciência logo superasse os exemplos de Engels da década de
1870, como reconhecia Riazanov, a sua filosofia de fundo está sendo
confirmada pola nova gnoseologia científica. Mas afora dos centros
científicos, o seu impacto foi nulo, muito isolados da sociedade, já
que para fins da década de 1920 a crítica e a criatividade teórica,
elementos centrais da dialéctica, eram um perigo para a burocracia.
Surgiu assi umha contradiçom que aumentaria cos anos: a surpreendente
capacidade soviética na chamada "ciência pura" e o
seu pobre desenvolvimento tecno-produtivo e cultural. Contradiçom que
nom podemos expor agora, mais que foi umha das causas determinantes do seu
paulatino esgotamento a começos de 1970.
O aparecimento dos Grundrisse foi
um êxito efémero, pois a II Guerra Mundial destruiu toda a ediçom
salvo dous volumes que fôrom parar aos EEUU, e que servírom para
umha re-ediçom de qualidade, pois a ediçom de 1953 feita na
RDA, tinha muitas deficiências e foi muito curta. Os Grundisse começárom
a conhecer-se com algo de rigor na década de 60, mas foi em 68 quando
Rosdolsky publicou em alemám o seu belo e imprescindível Génese
e Estrutura d'O Capital de Marx (Estudo sobre os Grundrisse), após
vinte anos de estudo dum dos dous volumes salvos do desastre, encontrado numha
biblioteca neoiorquina em 1948. A importáncia dos Grundrisse radica
em que sua leitura, por um lado, poupa um grande esforço indirecto
na compreensom do método dialéctico de Marx, e por outro, pois
fornece como todos os seus manuscritos, epistolário e estudos de história
concreta, umha impressionante e rica canteira de ideias vitais em muitos aspectos.
Lenine, após ler Hegel com
apaixonante sistematicidade, dixo com muita razom que para compreender O Capital
cumpria conhecer à perfeiçom a Lógica de Hegel e que,
portanto, muito poucos compreendêrom O Capital. Cos Grundrisse o leitor
pode poupar esse duro, mais gratificante esforço, de aceder a um dos
livros cimeiros do saber humano como é a Lógica, ademais de
conhecer em detalhe a fascinante máquina mental de Marx.
Desde 1945, mas sobretodo desde
1948, a guerra fria e as novas purgas desatadas por Estaline -que nom pudo
concluir, presumívelmente, por ser envenenado polos seus mais próximos
colaboradores que com razom temiam pola sua vida-, endurecêron o dogma.
A partir deste facto, e até fins de 60, a maior parte da "teoria
marxista" era feita na URSS. Exceptuando pequenos grupos trotskistas
espalhados por meio mundo, e ainda com menor presença, grupos luxemburguistas
e conselhistas confinados na semi-clandestinidade na Alemanha Ocidental e
centros universitários de países norte-europeus, o cordom umbilical
que alimentou decisivos processos revolucionários como o chinês,
o vietnamita, o cubano, o argelino, etc., foi estalinista.
Por exemplo, o PCCH e o próprio Mao formárom-se teoricamente
graças a três textos já citados: O Manifesto Comunista
que tivo umha ediçom em chinês e três em japonês,
o livro de Kautsky A Doutrina Económica de Carlos Marx e o da História...
Naturalmente, como se aprecia com total nitidez na sua obra Quatro Teses Filosóficas,
Mao estudara a a filosofia dialéctica chinesa que, sem embargo, tinha
menor talha intelectual e crítica do que a dialéctica hegeliana.
Por seu turno, Ho Chi Min e @s comunistas vietnamitas formárom-se tanto
nas academias soviéticas como nas teses estalinistas do muito estalinizado
PCF. Para acabar, Castro conhecerá o marxismo com certa demora, quando
apreende a sua versom soviética, porém, nom acontece assi co
Che, com umha ampla formaçom, e nom precisamente estalinista.
Todos estes processos revolucionários,
e a mesma dinámica europeia apreendêrom dos célebres "Manuais"
da Academia das Ciências da URSS, e das Ediçons Progresso. Mas
também os PC's da III Internacional publicárom os seus manuais,
tendo especial protagonismo -negativo, o célebre do francês Politzer,
fusilado polos nazis, Principíos Elementares e Princípios Fundamentais
da Filosofia, de reiteradas ediçons desde 1949. Este livro, juntamente
com outros, reduziam a dialéctica e o marxismo originário a
um simples sistema formal, compatível coa obediência cega, totalmente
anti-dialéctica, exigida polo estalinismo. Manuais como o de Politzer
fôrom fulcrais para justificar aos novos militantes estalinistas as
"razons teóricas" da brusca virage para a direita de todos
os PC's oficiais depois da IIª Guerra Mundial, assi como o seu palavrório
revolucionário mas nula prática e colaboraçom de classe
na posterior guerra fria. Também servírom para a sistemática
denigraçom e desprestígio das cada vez mais numerosas organizaçons
revolucionárias nom-estalinistas que, aos poucos, começavam
a romper o sistema de verdade dominante. Outros dirigentes daninhos nesta
época fôrom Togliatti, Dolores Ibarruri, Santiago Carrillo, Garaudy,
etc.
Nom se pode esquecer a patética
vida de Lukács, um pensador que foi revolucionário de novo,
autor de imorredoiros textos consagrados como História e Consciência
de Classe e outros, mas depois de "auto-criticar-se" sob pressons
estalinistas, ficar em simples escritor de obras comuns como O Assalto à
Razom e mais algo de valor embora abstractos como a sua monumental Estética.
Entretanto, Gramsci era tergiversado polo PCI e, aos poucos, devagarinho,
o esforço de pequenos grupos e editoriais logravam publicar textos
inéditos de Marx e Engels, ou re-editar outros que estavam esgotados.
Nessas condiçons nom surpreende, logo, que um falangueiro, de muita
pibela, mas de nula capacidade teórica como Sartre -um mito artificial
criado polo ferido orgulho francês, escrevesse o insofrível Crítica
da Razom Dialéctica, e também que, ao pouco tempo começassem
a proliferar os textos sobre a complementariedade entre cristianismo e marxismo
à sombra do Compromisso Histórico do PCI e do seu filho, o eurocomunismo.
A dogmática estalinista nom tinha muita qualidade para se opor ao impossível
absoluto de se declarar à vez marxista e religiosa. Naquela altura
atingia o cimo o debate entre o PCUS e o PCCH, com muito fume mas pouco lume
teórico, por virem ambos do mesmo progenitor. Na verdade, todo isto
ocultava umha descomposiçom interna irrefreável, como temos
indicado noutros textos.
A putrefacçom teórica
do estalinismo tardio era manifesta aos meados e fins de 60, e nesse momento
é quando surge, como canto de cisne ferido, a moda Althusser. Sacristán,
com razom, definiu o althusserismo como inflada vacuidade, ao compará-lo
coa impressionante obra de Zeleny A Estrutura Lógica d'O Capital de
Marx, publicada em checo em 1962, em alemám em 1968 e em castelhano
em 1974. O althusserismo, que é mais do que o estruturalismo, coa sua
pretensom de cientificidade, de nom-subjectividade, de superaçom "definitiva"
do "pecado de hegelianismo" de Marx, e de estrita separaçom
cirúrgica entre o "Marx maduro" e o "Marx jovem",
provocou umha suicida e injustificada euforia no reformismo teórico
europeu, limiar do seu afundimento definitivo. Para nom estender-nos, recordemos
o impacto que tivo o famoso texto de Harnecker Os Conceitos Elementares do
Materialismo Histórico. O althusserismo, grilo de pinóquio maoísta
do eurocomunismo, foi destroçado facilmente nom só polos trotskystas,
mas também por outros marxistas nom dogmáticos, dialécticos,
que se tinham formado nesse conglomerado alternativo ao estalinismo que Andersson
definiu como "marxismo ocidental".
Para fins de 70 era imparável
a recuperaçom do marxismo originário e o seu crescente prestígio
nos ramos de mais novidade do pensamento crítico. Nom temos que referir
Samim Amin, Wallerstein e outros tantos. Até mesmo nom-marxistas confessos
como Braudel, achegou-se a Marx ao tempo que rejeitava explícito o
estruturalismo, evoluçom muito limpa entre a sua primeira grande obra
O Mediterráneo e o Mundo Mediterránico na Época de Filipe
II publicada em 1949, e a sua segunda grande obra editada em 1979 Civilizaçom
Material, Economia e Capitalismo. No entanto, este aumento nom podia deter
o esboroamento do estalinismo serôdio, incapaz de explicar o quê
se passava no "socialismo realmente existente".
Aliás, na década
de 80 fôrom editados alguns textos económicos de Marx, em 1983,
e em 1988 publicárom-se na extinta RDA os Manuscritos de 1863-65 de
Marx, imprescindíveis para perceber os seus penúltimos avanços
teóricos, que alicerçárom a base para a decisiva e nunca
bem compreendida Carta a Vera Zasulich de 1881, que pertence ao desconhecido
"Marx tardio". Um desconhecido que presumivelmente assi ficará,
pois como se comenta, os vários pacotes de folhas manuscritas guardadas
em Berlin, Leipzig e Moscovo podem ser vendidas ao melhor coleccionista burguês
internacional após o desaparecimento do "socialismo realmente
existente".
Resumindo, o marxismo originário ainda segue sem ser conhecido na sua
totalidade material e teórica. Como pode fracassar umha cousa que ainda
nom terminou de ser editada, conhecida, estudada, criticada e aplicada?"
Até aqui o texto do Iñaki. É claro que a sua pergunta final nos conduz para a última parte desta exposiçom, que trata da reconstruçom da alternativa comunista. Porque é evidente que tal reconstruçom já está iniciada, deve aperfeiçoar-se e completar-se realizando, entre outros assuntos, um esforço muito sério e deliberado por editar, conhecer, estudar, criticar e aplicar o marxismo originário. E com maior razom, como temos referido aqui, pois o distanciamiento, o desconhecimento ou o enfrentamento co marxismo originário foi umha das causas determinantes do fracasso daqueles quatro socialismos que assinalamos.
5. A RECONSTRUÇOM DA ALTERNATIVA COMUNISTA E A ACTUAL VAGA DE LUITAS