A GALIZA ENTENDIDA COMO SÍNTESE DO RURAL E O URBANO: APONTAMENTOS PARA UM DEBATE NECESSÁRIO


César Portela, arquitecto e Daniel Pino, sociólogo

 

Por acaso em nengum outro país como na Galiza, tenha sido tam harmónica a relaçom entre o feito rural e o feito urbano. O desenvolvimento histórico da imensa maioria das cidades e grandes vilas galegas foi devedor dumha muito estreita dependência a respeito dum território com um hábitat disperso, mas hierarquicamente organizado, construindo-se entom em referentes dum território racionalmente ordenado e, polo mesmo, capaz de suster economicamente umha populaçom ao longo do tempo, senom também de gerar umha Cultura (com maiúscula e sem adjectivos). Este fenómeno, julgamos, nom se deve reduzir ao momento de surgirem as cidades e vilas. Logo de trespassados os lindeiros medievais, as urbes galegas (que na jeira barroca acadaram o seu esplendor), expansionam polo território seguindo pautas que, em boa medida, respondem a parámetros dumha cultura igualmente bebedora em manadeiros do rural e nas fontes urbanas. Isto é assim, mesmo, até a nossa jeira. Velaí as razons de que nom se tenha produzido na Galiza umha radical oposiçom entre o fenómeno rural e urbano. A nosso juízo, e entre outros muitos factores, isso deve-se a que o próprio poder económico, até há cem ou cento e cinqüenta anos, estava no meio rural, como estava a maioria da populaçom.
Nom é pois de estranhar que o campo, entre nós, e até há bem pouco tempo, sempre se tivesse concebido como parte activa do território antropiçado e nom como singelo resíduo negativo do desenvolvimento metropolitano, como aconteceu bem cedo noutros países, mesmo na Espanha ou em Portugal.

Nos últimos vinte, trinta anos, chega também ao nosso país, e se desenvolve com extrema rapidez, um fenómeno de dimensons planetárias: a generalizaçom dos processos de urbanizaçom, próprios das sociedades urbanas industriais. Porém, a diferença doutros lugares, no processo de urbanizaçom do território da Galiza, nem tam sequer nas urbes mais povoadas, dá-se um divórcio completo entre campo e cidade. Isso é tanto assim que ainda nas grandes áreas urbanas, como a de Vigo, o tránsito rural/urbano jamais surge nítido. Pola contra, anda a choutos entre um e outro sem soluçom de continuidade.

Portanto, falar em oposiçom radical entre o fenómeno rural e o fenómeno urbano semelha umha falácia, que seguramente provoca o feito de que numha sociedade cada vez mais globalizada o ser humano acaba por perder as raiganhas, estranha-se do seu meio e de si próprio e perde adoito a sua identidade, convertendo-se no estrangeiro de que nos fala Camus.

Na Galiza houvo umha cultura sem adjectivos de localizaçom funcional, por mais que esse modo de ser e de existir tam peculiar figesse crer que a cultura galega respondia a patrons exclusivamente rurais. E isto nom é certo. Nom é nem na literatura, nem na arquitectura, nem nas artes em geral. Na Galiza houvo umha cultura devedora das condiçons em que foi possivel o surgimento e desenvolvimento da nossa sociedade. Para nós, umha característica funda, muito funda, dessa cultura, depositada em cada indivíduo até há bem pouco tempo, foi o domínio da escala, das proporçons, que supom também dispor da capacidade de tratar de jeito igualitário o que deve ser igual e de jeito distinto o que deve ser diferente. Neste senso, evidentemente, umha cousa era o rural (as aldeias, os lugares, os casais...) e outra o mundo mais urbano (as vilas, as cidades...).

Galiza é um país habitado por umha comunidade historicamente diferenciada por razons de toda a ordem: geográficas, históricas e, desde logo, culturais, no senso mais amplo do conceito. No que agora nos pode interessar mais, a complexa e dispersa estrutura do assentamento da populaçom há que acrescentar a que devém do regime de propriedade, do relevo topográfico, das condiçons climáticas, dos modos de produçom e as relaçons económicas; todos eles, elementos genuínos que adquirem umha dimensom especial ao coexistirem actualmente dous tipos de organizaçom social: a tradicional, baseada em grande medida na velha estrutura rural e agrícola, e a moderna, constituída basicamente por um nítido desenvolvimento urbano e industrial. Ambas as duas tenhem pontos de coincidência e sobreponhem-se, dando lugar a umha terceira situaçom: a rururbana, mistura das anteriores, mas que adquire entidade própria e um forte peso específico, até o ponto de ser avondo representativa e emblemática da Galiza actual.

A questom no momento presente -quando todo semelha que a extensom do fenómeno urbano e rururbano se generaliza- é como alcançar a modernidade sem perder a identidade. Para recuperar a "imago mundi" é preciso reconquistar o espaço ou reinventá-lo com umha dimensom humana adaptada tanto à natureza como ao devir histórico; isto é, tam enraizada no passado como projectada no futuro.
Umha das maiores aspiraçons do género humano a finais do século XX é a de restabelecer o contacto com a natureza que, por regra geral, vem sendo negado polas formas de urbanizaçom próprias da cidade oitocentista que pervivêrom e dominárom ao longo do século que agora conclui.

Os seres humanos nascemos num lugar e num tempo. Apreendemos a perceber, sentir e interpretar o mundo através da paisagem por que nos movemos, rodeados de elementos naturais e de objectos artificiais que geramos ao longo do tempo. Existe umha relaçom muito estreita entre o Meio Físico e o Meio Social, entre a Natureza e a Sociedade, a Terra e o Hábitat, entre a Pessoa e a Paisagem, entre Paisagem e Cultura.

@s galeg@s, pouco importa que fossem dumha aldeia como dumha vila ou dumha cidade, éramos (e nalgumha medida ainda o somos) complex@s, irónic@s, imaginativ@s e muito melancólic@s; vivíamos em permanente comunidade com a Terra, mais perto dela que de outr@s galeg@s, mais vencelhados à Natureza que à Sociedade, até o ponto de formar parte indispensável daquela. Numha natureza humanizada pola presença do ser humano, esgrévia e amável a um tempo, dum ceu povoado por nuvens das mais variadas formas; o ceu e a terra misturam as suas perspectivas e oferendam umha flora farturenta; e o mar e a terra apertam-se amorosamente em milheiros e milheiros de recunchos e de fartura. Neste país onde sempre há flores e o verde dos campos é mais brilhante em inverno que em primavera, a pessoa sente-se irmanada a todas as cousas existentes, tal que formando parte dum todo harmonioso, amoroso e doce, que vai desde ele mesmo às plantas e desde o cham ao ceu.

As tradicionais relaçons d@s galeg@s coa sua terra adquirem assim um carácter muito intenso, íntimo e subjectivo, mais intuitivo do que reflexivo, mais próprio do campo da criaçom poética do que da lógica. @s gale@s expressamo-nos ao longo de séculos fazendo cantar as pedras ao tempo que construíamos o nosso território, convertendo qualquer construçom, mesmo as mais utilitárias e insignificantes, num auténtico exercício artístico.

A falta de dependência do imediato e da máxima dependência do longe (os recursos e mesmo as ideias) que hoje caracteriza as sociedades desenvolvidas a respeito dos recursos, veu dar culmem a um desleigamento progressivo da nossa sociedade e essa parte até há pouco quase sagra que era a Terra. A traduçom, no que fai ao espaço onde progressivamente mais se vive, a cidade, é que esta se modela, dimensiona, redimensiona, se construi (ou destrui) dando as costas aos mais elementares princípios dumha cultura que se perdeu. E remedam-se modelos alheios, ou simplesmente se deixa via livre à falta de planificaçom.
Nós cuidamos que ainda pode ser possível compatibilizar o crescimento da cidade com um desenvolvimento sócio-económico harmónico, equilibrado e auto-sustentado. Nom é tam difícil. Avonda com dar pulo às potencialidades de todo o tipo que a cidade e o seu hinterland oferendam de antano, e acrescentar novos valores, novas potencialidades, compatíveis coas existentes e coa qualidade de vida inicialmente atingida.

O meio em que as sociedades desenvolvem a sua vida é produto da história do ser humano, polo menos, numha proporçom semelhante ao do seu desenvolvimento puramente fisico. Portanto, no seu debalar, o meio converte-se em fiel testemunha de questons básicas para as sociedades que ocupam. O território é, desde logo, umha realidade fisica e, em tanto que tal, devedor de tectónicas, de relevos, da composiçom do solo, do clima ou da vegetaçom. Mas também o condicionam as infraestruturas produtivas e de comunicaçom, a edificaçom, mesmo o próprio jeito de assentar, de povoar (Viver é, sobretodo, habitar, sublinhava Heidegger); os artifícios de todo o tipo inçados ao longo da história da presença humana ali.

Mas há mais, o território, cuidamos nós, também é a fusom de todo isso nas nossa mentes, provocando sentimentos de autoreconhecimento e de estima, de refugalho ou de indiferença.

Porque o território é paisagem, e já dizia R. O. Pedraio que nom há mais paisagem que a paisagem histórica. As paisagens som distintas porque há terras de condiçons fisicas avondo diferentes. Mas também o som porque o ser humano, com seu olhar intencionado, sente, cheira essas terras de modo diferente. Condiçom indispensável para poder continuar coa modificaçom initerrupta desse território desde os alvores dos tempos. Este labor de construçom permanente do território, alguns vimo-lo chamando Arquitectura do Território. O resultado desse lavor é o que melhor caracteriza os povos. É nessa estratigrafia dos artifícios plasmados polo ser humano ao longo dos séculos num território dado, onde mais doado resulta topar o respeitivo ADN.

A Arquitectura do Território acolhe por um igual os três labores básicos -ordens, caberia dizer- de toda intervençom no meio fisico por parte das colectividades: a orden da Agricultura, a orden da Engenharia e a orden da Arquitectura.

Essa divisom, porém, formula-se aqui somente com fins puramente metodológicos. Ao longo da história, nom adoita produzir-se tam nitidamente. Ainda agora, qualquer corte que figermos no território, apesar os desastres dos últimos anos, mostrará a interpenetraçom das três ordens. Até há bem pouco (seis, sete lustros, como muito) @s galeg@s, polo comum, tinham umha consciência global do seu território, consciência que era possível porque dominavam a escala das múltiples intervençons sobre ele. Polo mesmo, qualquer novo artifício requeria ter em conta a complexa cadeia de interdependências que a sua implantaçom ia produzir de certo. Nesse imenso período que medeia entre a saída das covas e o assentamento definitivo da sociedade urbano-industrial nom era concebível um saber netamente sectorializado. O que hoje chamamos impactos de todo o tipo -amiúde sócio-económicos, e mesmo também os ambientais- soiam levar-se em conta. De nom ser assim, a resolvida oposiçom d@s atingid@s faria naufragar ou como mínimo escorar perigosamente o melhor projecto.

Nas cidades e vilas da Galiza, a passo de tartaruga e, em qualquer caso, de jeito nom generalizado, ultimamente vem-se tentando por couto às eivas mais significativas provocadas polas grandes e nom planificadas transformaçons havidas tanto no seu interior como no território e no hábitat rural. Tenta-se coutar o crescimento desenfreado e anárquico, tenta-se dotar as populaçons de infraestruturas, equipamento urbano (educativo, sanitario, desportivo, sócio-cultural, assistencial, etc, etc.) e também de espaços livres e zonas verdes (parques urbanos, tratamento ajeitado de espaços naturais, etc). Mas, em quase todos os casos, mesmo os mais louvados, estas operaçons conhecidas sob o genérico de planeamento urbano, padecem umha eiva básica: no melhor dos supostos, tentam a resoluçom dos défices dumha perspectiva meramente quantitativa. E, para maior desgraça, mesmo esta resoluçom quantitativa só se plasma no papel nos documentos do Plano; a sua gestom efectiva poucas vezes se acada, ou se concretiza em lugares nom previstos, totalmente desajeitados para a funçom que deles se demandava. A legislaçom vigente, há que dizê-lo, pouco ajuda. Até agora, porque se tratava dumha legislaçom estatal, nitidamente uniformadora e, portanto, incapaz de regular o feito diferencial (mesmo o urbano) do nosso país. Desde há três anos existe umha Lei do Solo da Galiza, mas, no que atinge ao meio urbano e, sobretodo no que respeita à gestom urbanística, bem pouco se tem andado.

Como tampouco se avançou no tratamento normativo acaído do meio rural, apesar dos esforços por dotarmo-lo dumha Lei de Ordenaçom do Meio Rural, cuja tramitaçom e aprovaçom semelha atorar em "invisíveis valados".

O que estám a precisar as urbes e as vilas galegas nom é só a acomodaçom do que se dá no nível do solo ou do subsolo: nas ruas, infraestruturas de abastecimento e saneamento, redes de comunicaçom, parques, etc., em dimensons proporcionais às populaçons que se prevém para oito ou dez anos, senom também a qualidade arquitectónica -nom só construtiva- desses espaços e a dos prédios que vam acovilhar os diferentes usos que origina a complexidade urbana, assim como o diálogo entre eles.

Esses aspectos som essenciais se se quiger que, quanto antes, se poda recuperar essa capacidade de entendimento global sobre o cenário onde os indivíduos e os colectivos representam as suas próprias vidas (individuais e sociais).

O urbanismo que se vem praticando nestes anos tem-se reduzido a umha questom essencialmente jurídica: o cumprimento (há que dizer que teórico e nom real) do equilíbrio entre as cargas e os benefícios que provoca o próprio planeamento. A preocupaçom pola forma da cidade, polas leis do seu próprio desenvolvimento e, nom digamos, sobre a forma e disposiçom da edificaçom, passam a um mui segundo plano. Nom há, cuido que tal cousa é obvia, um referente assumido de cidade em quase nengures.

Ninguém vai por em dúvida que um bairro nom pode ser bom se nom se dota convenientemente. Mas as dotaçons urbanísticas nom o som todo. É preciso desenhar espaços, que outra cousa nom é construir ou reconstruir território, resolvendo as necessidades das populaçons a que vam destinadas, mas dentro das necessidades há que incluir mesmo as aspiraçons, os desejos e, por quê nom, os mesmos sonhos. Por aqui tem que começar a se construir a nova cultura urbana. A Arquitectura com maiúsculas é aquela que transforma funçons em beleza, que sublima o quotidiano, que dá a umha necessidade social, de seu, temporal, umha dimensom que trascende do tempo.

Evidentemente, o que estám a precisar hoje em dia as nossas cidades e vilas, além desse lavor de gestom das carências e de controlo do crescimento, é a assunçom de modelos a que referenciar o lavor ininterrompido de construçom e reconstruçom dos seus espaços, onde a Arquitectura, Arquitectura com maiúsculas, tem que ter um lugar preminente. É um problema, essencialmente, de falta de consciência social, porque gente que a saiba desenvolver, afortunadamente, nom falta entre nós. Porém, a ignoráncia, a perda do norte, a ausência dumha cultura de seu -como conseqüência dos ataques contra a cultura gerada polo nosso povo ao longo dos séculos, que devém tanto do uniformismo falsamente internacionalista, mesmo anterior ao aldeanismo globalizador, quanto por essoutro aldeanismo, ignorante e folclórico- som razons mais que suficientes para que a sociedade e o poder nom reparem no feito -só aparentemente contraditório- de que, quiçá precisamente pola fondura da crise que padece o nosso país, nom som profissionais capazes de cumprir esse labor tam necessário, repito, agora mesmo, o que escasseia na Galiza.

O governo das cidades e das vilas da Galiza durante todo o processo em que se gesta um aparente divorcio entre o rural e o urbano tivo como (des)norte a máxima de que a urbe, portanto, também a cultura abrolhada nela, vinha a ser o referente culto e moderno, que era preciso opor ao rural, concebido sempre como referente do atraso, económico e cultural e, por isso, miolo e cerne de todos os nossos males. Os que governárom, no senso mais amplo do termo, as cidades e vilas nestes últimos lustros, armados de tam nefasto instrumento ideológico, fôrom quem de provocar os grandes desastres acontecidos no tratamento do espaço (de todo o território) em que hoje (mal)vivemos; porém, nom o fôrom para impedir que agora tenham acedido a governar essas cidades gentes que, precisamente nom tenham abeirado nessa falácia estúpida. Em tal caso, de ter algumha eiva a ideologia dos que agora tentar dar rumo (e pulo) às nossas cidades, é justamente a contrária: alguns tiques que ainda ficam em determinados sectores, que nom fôrom quem de superar atitudes que mais tenhem de aldeám que de cultura rural.

A nova síntese tem que chegar dumha necessidade, e já se sabe: a necessidade pode vir em virtude. Essa necessidade nom é outra que a demanda que hoje é mesmo acuciante, de planificar fora do concreto território das vilas e cidades para fazê-lo em áreas que, a falta de melhor termo, chamamos "metropolitanas". É na necessária formulaçom de objectivos e estratégias de ordem territorial ampla, que se pode chegar a perfiar umha nova síntese entre o rural e o urbano. No que se consiga (e para isso tenhem-se que implicar forçosamente as populaçons de cada área, sectorial e territorialmente consideradas) estaremos assistindo ao nascimento dumha nova cultura, que herdando o melhor da cultura tradicional, assuma a sua própria modernidade.

 

A CLASSE TRABALHADORA COMO SUJEITO REVOLUCIONÁRIO. Inácio Martínez Orero

 

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