OS CLÁSSICOS NOS LIVROS DE TEXTO

 

Elvira Souto Presedo, professora de Didáctica da Língua e a Literatura na Universidade da Corunha


A ediçom de textos literários escritos em épocas anteriores a este presente lingüístico nosso, caracterizado no plano normativo pola presença de vários padrons que aspiram a converter-se no estándard comum do galego, é assunto delicado que levanta nom poucos problemas e suscita mui justificados debates.

Publicar hoje um texto de qualquer etapa prévia à formulaçom e difusom das propostas normativizadoras que na actualidade circulam na Galiza obriga o editor a tomar umha série de decisons relativas à forma ortográfica, morfo-sintáctica e mesmo nalgumhas ocasions léxica em que esse texto há de ser apresentado aos leitores. Nom sendo o caso das ediçons fac-símiles (caso bem particular em que, logicamente, nom há lugar a qualquer tipo de modificaçom), o editor tem de escolher quer queira quer nom entre vários graus de infidelidade ao texto original, da simples eliminaçom daquelas práticas ortográficas que perderom toda a vigência (algum grafema, apóstrofos, determinados usos do hífen, etc.) até alteraçons mais sérias que às vezes chegam a afectar, como já dixemos, o léxico.

Todo depende em última análise do objectivo da ediçom. Entre o texto que se dirige a especialistas e o que se publica nos manuais escolares para ser lido nas aulas dos diferentes ciclos do ensino obrigatório medeia umha distáncia considerável no que a essa exigência de fidelidade di respeito. O que nom significa, nom deveria significar, que haja de reservar-se para uns, os primeiros, todo o esmero e o rigor editorial e que os outros, os textos dirigidos aos escolares, podam ser transcritos de qualquer maneira e sem nengum respeito por autor e leitores.

Nom podemos esquecer que muitos nenos galegos se iniciam na leitura literária e no conhecimento dos clássicos através precisamente dos textos que encontram nas páginas dos seus manuais de aprendizado lingüístico, onde, apesar das mudanças introduzidas pola última reforma educativa, a literatura continua a ocupar um lugar de relevo. E como este primeiro contacto vai repercutir na sua formaçom de leitores (no só na sua competência lingüística, também no seu gosto, na percepçom dos específicos mecanismos que regulam o funcionamento deste discurso, no conhecimento da diversidade estilística e autoral, etc.) e na sua formaçom como indivíduos sociais, o risco de umha ediçom descuidada ou mal orientada vir a incidir negativamente nessa formaçom complexa deve levar-nos a ser mui exigentes com o trabalho dos editores.

Ora, é justamente por isto, por o autor de livros de texto ter de servir à vez a causa lingüística, a causa literária e à causa social, que o problema da fidelidade se pom, com toda a sua gravidade, desde o primeiro momento. Mui especialmente quando se trata de obras de autores já desaparecidos pois nestes casos, que som os de maior significaçom histórica e os que mais se afastam, via de regra, de qualquer disciplina estandardizadora, as modificaçons devem ser feitas, é óbvio, sem o consentimento dos autores.

Reproduzir um poema de Rosalia tal como foi publicado no seu tempo significa sem dúvida contribuir a fixar no aluno formas que, no estándard cuja difusom pretende garantir o manual, som consideradas erróneas. Mas corrigir, ou "normativizar" como agora se di, o que Rosalia escreveu nom só pode levar a esvaecer as marcas autorais, empobrecer esteticamente o texto e até atraiçoar o seu sentido, senom que pode também contribuir a apagar as pegadas que as convulsons sociais imprimirom nele e a mostrar as figuras mais prestigiosas das nossas letras como um grupo compacto de praticantes (avant la lettre, e por isso mesmo raiz e origem) do estándard que sustenta esse concreto manual. E todo isto, insistimos, sen o consentimento da autora e muitas vezes mesmo sem a certeza de que a emenda introduzida seja a mais apropriada para os objectivos didácticos que se tenhem na mira.

Por muito que se justifique em termos pedagógicos, a eliminaçom pretensamente higiénica de todas as formas discrepantes de um determinado padrom, ainda que momentaneamente ajude a evitar problemas a escolares e professores, quase sempre acarreta a meio prazo consequências (sócio-)didácticas negativas que nom convém desdenhar.

Como havemos pois de fazer? Onde havemos de situar o ponto de equilíbrio entre a necessária preservaçom das qualidades estéticas (e nom só) da obra e a nom menos necessária adequaçom do texto às necessidades do aprendizado lingüístico? Como conjugar as exigências dessa instruçom escolar com os requisitos de umha formaçom social nom alienada? A resposta nom é fácil.

Nom é fácil porque aos problemas que som comuns a todas as sociedades nós temos e acrescentar as mui adversas circunstáncias em que sobrevive a nossa cultura desde há séculos. Circunstáncias adversas e também indiferença, desleixo e umha miga de prepotência que explicam, embora nunca justifiquem, a forma caótica em que som apresentados os textos clássicos aos escolares. E note-se bem que hoje já nom é possível atribuir este caos à coexistência, nos manuais escolares, de diferentes padrons pois os subsídios que o governo galego distribui com a parcialidade de todos conhecida parecem ter resultado argumento mui convincente para acabar com a dissidência. Nom, este caos nasce do pouco cuidado, da ignoráncia, da obsessom "normativa". Nasce das dúvidas e ansiedades dos autores do estándard que difundem os livros de texto aprovados pola autoridade política (ILG/RAG). E nasce, sobretodo, dessa resistência teimosa a reconhecer a necessidade urgente de acometer(mos) umha nova codificaçom, resistência que os obriga a andar emendando e remendando constantemente o modelo.

No entanto, e sem negar a gravidade destes problemas, pensamos que, polo menos nalguns aspectos concretos, seria possível definir critérios comuns que introduzam um mínimo de racionalidade na transcriçom de textos clássicos nos manuais de uso escolar. Evitariam-se deste modo atentados tam sérios ao nosso património cultural como o que cometem os autores do manual de Rodeira (Lingua e Literatura), que estragam mui seriamente com as suas emendas um dos mais célebres poemas de Rosalia, ou a proliferaçom de extravagáncias tam infelizes como as que se nos oferecem nos manuais de Anaya (Lingua Galega), onde se reproduz o famoso poema desta mesma autora "Adiós ríos, adiós fontes..." em duas versons diferentes. Atentados e extravagáncias aos que se sumam os perpetrados polos membros do Colectivo Alborada que, no manual da Ed. Fontel para 6º curso de ensino primário, nom só se permitem ignorar as mais recentes, e nalguns aspectos dificilmente discutíveis, leituras de Os pinos, o poema de Pondal que dá letra ao Hino Galego, senom que nom duvidam em alterar morfologicamente o texto até hoje canónico para o adaptarem às mais rígidas e castelhanas formas do justilho ILG/RAG.
Comentaremos brevemente estes três casos e apontaremos a seguir algumhas possíveis, e logicamente mui provisórias, normas de ediçom.

"Has de cantar..." de Rosalia de Castro

O texto cuja ediçom comentaremos em primeiro lugar aparece no apartado que se dedica à actividade de leitura na Unidade Didáctica nº 10 do livro Lingua e Literatura (Ed. Rodeira, Grupo EDB, 2º Ciclo Educaçom Primária, 1993). Som várias as razons polas que este texto resulta particularmente interessante.

1) Trata-se de um fragmento da composiçom primeira de Cantares Gallegos, poema que, por razons nom só estéticas (embora também),todo o galego medianamente informado reconhece.

2) A unidade didáctica em que o fragmento é reproduzido aparece precedida de umha epígrafe, "Louvanza da lingua", que anuncia sem equívoco possível qual o eixo temático que a estrutura. Ora, se atentarmos no lugar que ocupa no conjunto (de dezasseis unidades ao todo) logo comprovaremos que a altura do curso para que foi pensada deve situar-se em torno ao 17 de Maio, dia das Letras Galegas. Suspeita que plenamente se confirmam no apartado "Lingua e Sociedade" e que a torna mais interessante porquanto o seu carácter em muitos sentidos excepcional reflecte mui bem o lugar,também excepcional, da própria efemêride. De resto, um dos aspectos que melhor singulariza esta unidade no conjunto reside precisamente na eleiçom do próprio poema pois com diferença ao que acontece na quase totalidade do resto do livro aqui se propom um clássico e nom um texto escrito ad hocœ nem, em princípio,adaptado para objectivos extra-literários -gramaticais ou outros- como acontece com as narrativas populares em muitas outras partes do livro.

3) Em terceiro lugar queremos chamar a atençom sobre os exercícios com que se procura garantir a compreensom do texto (umha dada compreensom) pois som exemplo acabado, parece-nos, da exuberáncia emotiva com que é norma nestes casos substituir outros conteúdos mais estritamente escolares e outras orientaçons ideológicas menos eivadas de sentimentalismo : pede-se aos alunos para enumerarem as qualidades que no poema se atribuem à Galiza e à sua língua, assinalarem os sentimentos que aí se exprimem, completarem frases do tipo "A lingua serve para...", etc. E, por se ainda ficarem dúvidas ao respeito do que se pretende, os próprios autores preocupam-se de esclarecer o assunto: "A nosa lingua serve para aprender, falar, escribir e tamén para expresa-las nosas vivencias e sentimentos" (o sublinhado é deles).

4) A ênfase que se pom em ressaltar os aspectos sentimentais do poema nom se corresponde porém com a observáncia desse princípio que já dixemos sim nos parece irrenunciável e com demasiada frequência vemos conculcado, também, na escola : o respeito devido aos textos, mais ainda se se trata de um poema como este que ocupa, sem lugar a qualquer dúvida, um lugar sobranceiro nas letras galegas. Nom só se modifica, mui seriamente, léxico e morfologia, senom que também se altera gravemente a métrica, o ritmo e a rima sem que para isso se ofereça nengum tipo de justificaçom. Ponhamos alguns exemplos :

. O texto aparece precedido, como se indicou, de umha epígrafe ("Louvanza da lingua") que o leitor desprevenido interpreta necessariamente como título do poema (como programador portanto de umha mui concreta leitura).

. Os versos : "Lugar mais hermoso / no mundo n'hachara", som transcritos, acrescentando umha sílaba, como : "Lugar mais fermoso / no mundo non achara", (o sublinhado é dos autores e remete para o vocabulário da unidade, onde, com bem pouca exactitude por certo, se sinonimiza este verbo com "atopar").

Repare-se que a elisom nom responde unicamente a umha necessidade métrica pois é fenómeno frequente na oralidade de muitos galego-falantes primários e isto nom se indica em parte nengumha.

. Mas nom é este o único caso : "pelras" substitui-se por "pérolas" (v.14); o celebérrimo "Cantarte hei, Galicia" troca-se nos versos 25 e 29 por "Cantar hei Galicia" sem que se nos diga por quê (embora nós podamos imaginá-lo), enquanto,
incongruentemente, se conserva no verso 43; "Mimosa, soave" (v. 33) passa a "Mimosa, suave", grafia que, neste sistema, reduz o hiato a ditongo; no verso 48, "na lingua que eu falo", suprime-se o pronome : "na lingua que falo", etc.

A estas "correcçons" devem ser acrescentadas outras várias que igualmente afectam a composiçom em diversos planos, algumhas delas realmente incríveis. Veja-se como transcrevem os autores do manual estes versos de Rosalia :

Texto de Rosalia -------------------------------Texto da Ed. Rodeira
"De espumas que o mare -------------------"De escumas do mar
con pelras gomita; -----------------------------que pérolas vomita
de froles que nacen ---------------------------de flores que nacen
ó pé das fontiñas.-------------------------------" ó pé das fontiñas."

Seria quase que impossível trair mais o original : altera-se a estrutura paralelística modificando-se o significado e suprime-se a paragoge eliminando a rima vocálica (mare/nacen) (note-se que no entanto mais adiante sim se respeita, v.28).

. Noutras ocasions é o ritmo que se vê alterado polas correcçons dos autores. "Que os ánxeles neles / dormidos se quedan" (vv. 21ª22) transcreve-se como : "Que os anxiños neles / durmidos se quedan". Alteraçom particularmente grave porquanto se modifica o esquema de quatro acentos fixos da moinheira, um dos nossos ritmos mais populares e que Rosalia utiliza profusamente.

. Também nom faltam intromissons audazes no próprio imaginário da autora. Os versos "xa en forma de pombas / xa en forma de niebras" aparecem, sem que saibamos por quê, sob esta estranha fórmula : "xa en forma de pombas, / xa en forma de herbas" (vv.23 e 24).

Para nada dizer da curiosa apresentaçom editorial, onde se modificam seriamente signos de pontuaçom e pausas interestróficas, provocando deste modo nom poucos problemas para a leitura.

E todo isto num manual dirigido a escolares de dez anos aos que a seguir se oferece, provavelmente para compensar a fraude, aquela notícia sensacional já antes citada : a língua em que o poema está escrito, a nossa língua, tem a rara virtude de servir "para aprender, falar, escribir e tamén para expresa-las nosas vivencias e sentimentos".

"Adios rios, Adios fontes..." de Rosalia de Castro

Como antes indicámos, a editora Anaya oferece duas versons diferentes destoutro poema de Rosalia, nengumha delas fiel ao texto original. Umha aparece no livro de terceiro curso (Lingua 3, pág. 69), curiosamente a mais próxima ao texto da autora, a outra no de quinto curso (Lingua 5, pág. 30).

"Texto do manual de 3º curso -----------------"Texto do manual de 5º curso

Adiós ríos, adiós fontes, ------------------------Adeus, ríos; adeus, fontes;
adiós regatos pequenos, -----------------------adeus, regatos pequenos;
adiós vista dos meus ollos, --------------------adeus, vista dos meus ollos;
non sei cando nos veremos. -------------------non sei cándo nos veremos.
Miña terra, miña terra, ---------------------------Miña terra, miña terra,
terra onde me eu criei, --------------------------terra onde me eu criei,
hortiña que quero tanto, -------------------------hortiñas que quero tanto,
figueiriñas que plantei. --------------------------figueiriñas que plantei,
Prados, ríos arboredas, ------------------------prados, ríos, arboredas,
pinares que move o vento, --------------------piñeirais que move o vento,
paxariños piadores, -----------------------------paxariños piadores,
casiña do meu contento. -----------------------casiña do meu contento,
Muíño dos castañares, -------------------------muíño
das castiñeiras,
noites claras de luar, ----------------------------noites claras de luar,
campaniñas timbradoras ----------------------campaíñas timbradoras
da igrexiña do lugar. ----------------------------da igrexiña do lugar,
Amoriñas das silveiras -------------------------amoriñas das silveiras
que eu lle daba ó meu amor, -----------------que lle daba ó amor meu,
camiñiños entre o millo. ------------------------camiñiños entre o millo,
!adiós para sempre, adiós! -------------------¡adeus, para sempre adeus!
¡Adeus, gloria!¡Adeus contento!
¡Deixo a casa onde nacín,
deixo a aldea que coñezo
por un mundo que non vim!

(Em itálico as diferenças entre ambos os textos).

Nos dous casos o poema inclui-se no apartado "Expresión oral" e em ambos se recomenda a sua memorizaçom com a ajuda da versom musicada de Amancio Prada. Preciso será portanto perguntarmo-nos qual dos dous textos esperam os autores que os escolares retenham e confiarmos que a boa memória destes seleccione o que aprendêrom em primeiro lugar (o de 3º curso). Nom só por ser esta a versom mais respeitosa com o texto da autora, senom também porque as alteraçons que aí se fam estám longe de ter a gravidade das que encontramos no manual de 5º curso, onde, como no caso antes comentado do livro de Rodeira, o esquema acentual resulta alterado ("adiós" /"adéus", "pináres" / "piñeiráis") e a rima modificada ("ó meu amor" / "ó amor meu"). Diga-se no entanto que nos exercícios do manual de 3º curso, ainda que na transcriçom do texto se respeita o castelhanismo "Adiós", o poema é citado, incongruentemente, como "Adeus ríos, adeus fontes". (!)

Provavelmente por tratar-se de um poema mui conhecido, com poucas dificuldades lingüísticas e de fácil memorizaçom, este texto aparece nos manuais de quase todas as editoras e também nalgum outro caso em mais de umha ocasiom (Ed. Edelvives), o que, ao nom haver critérios editoriais comuns, dá como resultado a previsível diversidade de versons. Assim, por exemplo, nos manuais de Edelvives (Lingua galega 4, pág. 122 e Lingua galega 5, pp. 110-111) e Bruño (Herdanza, Lingua galega 6, pág. 33) opta-se por oferecer umha versom mais próxima do original e fazer as emendas a pé de página, no manual da Ed. Buño sob a epígrafe "Normativizado" (sic).

Mas se neste caso o procedimento é similar, nom por isso coincidem os resultados pois nem as divergências com o original om as mesmas (o verso "Quen pudera n'o deixar" aparece como "Quen pudera non deixar" (Edelvives) e "Quem puidera non deixar" (Bruño), palavras como "antre", "sin", "trimbadoras" aparecem com diferente forma em cada um dos três livros, etc.), nem som os mesmos fenómenos os que se corrigem em nota de rodapé : nos manuais de Edelvives passam por boas formas tam claramente castelhanas como "pinares", "castañares", etc. enquanto autores do manual da Ed. Buño optam pola exaustividade, levando o seu zelo "normativizador" ao extremo de corrigir o sonoro "m'eu criei" de Rosalia por umha fórmula tam incolora como "eu me criei", nom sabemos se preferível da perspectiva do estándard em questom mas em modo nengum melhor em termos estéticos.

"Os Pinos" de Eduardo Pondal.

A seguir transcrevemos o texto oficial do Hino Galego e a versom que dele oferece a Ed. Fontel (Galego Prático 6, p.92) para se poderem apreciar as diferenças. Nem será preciso sublinhar a importáncia que tem este texto e, consequentemente, a gravidade das emendas. Mais ainda nestes momentos em que, a raiz da leitura proposta por Manuel Ferreiro do poema de Eduardo Pondal, o próprio Parlamento estuda a conveniência de introduzir reformas na versom até agora canónica.

Texto oficial Texto da Ed. Fontel

Que din os rumorosos Que din os rumorosos
na costa verdecente, na costa verdecente,
ao raio transparente raio transparente
do prácido luar? do plácido luar?
Que din as altas copas Que din as altas copas
de escuro arume arpado de escuro arume arpado
co seu ben compasado co seu ben compasado
monótono fungar? monótono fungar?
Do teu verdor cinguido "Do teu verdor cinguido
e de benignos astros, e de benignos astros
confín dos verdes castros confín dos verdes castros
e valeroso chan, e valeroso chan
non des a esquecemento non des a esquecemento
da inxuria o rudo encono; da inxuria o rudo encono;
desperta do teu sono esperta do teu sono,
fogar de Breogán. Fogar de Breogán.
Os bos e xenerosos Os bos e xenerosos
a nosa voz entenden a nosa voz entenden,
e con arroubo atenden e con arroubo atenden
o noso ronco son, o noso rouco son,
mais sóo os iñorantes mais só os ignorantes,
e féridos e duros, e féridos e duros,
imbéciles e escuros imbéciles e escuros
non os entenden, non. non nos entenden, non.
Os tempos son chegados Os tempos son chegados
dos bardos das edades dos bardos das idades,
que as vosas vaguedades que as vosas vaguidades
cumprido fin terán; cumprido fin terán;
pois, donde quer, xigante pois onde quer xigante
a nosa voz pregoa a nosa voz pregoa
a redenzón da boa a redención da boa
nazón de Breogán. Nación de Breogán.

(Em itálico as diferenças entre um e outro texto)

Parece claro que para os autores do manual da Ed. Fontel é mais importante evitar que os escolares fixem formas nom "normativas" que respeitar a tradiçom do texto canónico. Nom obstante, a sua paixom correctora detém-se no título, cujo evidente castelhanismo ("pinos") só se corrige em nota de rodapé, e na forma "quer" que, felizmente, parece ter merecido o indulto apesar de este concreto estándard nom a reconhecer.

Contodo, estas correcçons nom teriam demasiada importáncia (salvo no caso de "redenzón" e "nazón", onde a morfema galego é substituído polo correspondente do espanhol, acrescentando-se deste modo umha sílaba a cada um dos versos), se nom fosse porque agora mesmo, como já indicámos, está em estudo a revisom de algumhas formas do texto oficial.

A leitura que do manuscrito de Pondal propom Manuel Ferreiro (De Breogán aos Pinos. O texto do Himno Galego, Ed. Laiovento, 1997), base de trabalho da comissom designada polo Parlamento para fixar o novo texto, corrige com argumentos mui convincentes, entre outras, as formas "cinguido", "chan", "féridos", "só" (que passam a "cingido", "clan", "férridos", "sós"). No entanto, na versom da Ed. Fontel em todos estes casos, e apesar da evidente falta de sentido de algumhas das expressons tradicionais ("valeroso chan") ou da argumentaçom e respaldo documental que Ferreiro oferece para justificar outras mudanças ("férridos"), os autores do manual aferram-se à leitura tradicional ("féridos") contribuindo mesmo nalgumha ocasiom a reforçar com exercícios de vocabulário essa, mui provavelmente errónea, leitura ("Féridos" = "Persoas groseiras, violentas e crueis").

Exercícios, diga-se também, em que se oferecem outra definiçons igualmente discutíveis : "Arpado" = "Co son da arpa (sic) ou instrumento musical." Note-se que o nome do instrumento musical é "harpa" -daí "harpado"- e que a forma sem "h" inicial ("arpado", sinónimo de "farpado") significa outra cousa ("que ten dentes como os da serra"). Ignoramos em qual destas duas formas pensava Pondal mas enquanto houver dúvidas o mais prudente parece evitar introduzir estes problemas no ensino primário.

ALGUNS CRITÉRIOS POSSÍVEIS PARA A EDIÇOM DOS CLÁSSICOS NOS LIVROS DE TEXTO DO ENSINO PRIMÁRIO

Em primeiro lugar, e como lógica consequência do que até agora foi comentado, diremos que em nossa opiniom nos textos clássicos editados nos manuais escolares nom se deveriam introduzir mais modificaçons ortográficas, morfo-sintácticas, léxicas, editoriais ou outras que aquelas que forem absolutamente indispensáveis e estiverem ao serviço de propósitos didácticos mui bem definidos (mais vale pecar por defeito que por excesso).

Isto implica, entre outras cousas que :

a) nom se há de modificar nunca o texto quando as formas utilizadas polo autor forem aceitadas polo estándard que se usa no manual, mesmo no caso de estas soluçons nom coincidirem com as que o editor prefere. Haverám de respeitar-se portanto, quando assim estiver no texto original, a forma plena da contracçom a+o (ao), as formas que nom representam graficamente a assimilaçom oral do artigo ("comer o caldo" e nom "come-lo caldo"), os sufixos -bel (que nom serám substituídos por -ble), etc. etc. Como se trata de algumhas das correcçons mais frequentes, umha medida tam elementar como esta serviria para eliminar muitas das actuais infidelidades.

b) ham de respeitar-se as formas originais que no entram nesse concreto estándard quando a sua substituiçom polas formas "normativas" correspondentes acarretar mudanças que afectam à qualidade artística do texto. Estám neste caso aquelas correcçons, também mui frequentes, que alteram a medida de um verso, o ritmo de um poema, a caracterizaçom de umha personagem, etc.

Vejam-se como exemplo, para além das já antes comentadas, as correcçons que se fam no fragmento do poema de Celso Emilio Ferreiro "Historia dun desleigado contado por il mesmo", reproduzido na Unidade 9 do manual Lingua 5 da Ed. Anaya (p.86). A "normativizaçom" a contrapelo a que som submetidos dá como resultado a alteraçom da medida dos seguintes versos :

V. 4 : coarenta passa a corenta (umha sílaba menos)
V. 6 : calquer passa a calquera (umha mais)
V.10 : sanas passa a sás (umha menos)
V.18 : cencia passa a ciencia (umha mais)
V.22 : si tercia passa a se se tercia (umha mais)
V.23 : adepende passa a depende (umha menos)
V.28 : dés passa a deas (umha mais)
V.31 : leer passa a ler (umha menos)
V.32 : lee passa a le (umha menos)
V.40 : dalgunhos passa a dalguns (umha menos)
V.51 : noustante passa a non obstante (umha mais)

Em segundo lugar devemos fazer referência a algumhas modificaçons que afectam à apresentaçom do texto e incidem na estruturaçom dos seus significados. Também aqui cremos que se há de procurar introduzir apenas aquelas alteraçons que resultem imprescindíveis e tenham algumha finalidade didáctica. Em caso contrário há de reproduzir-se o texto tal como o autor o deixou, o que significa que:

a) nom se há de alterar em nengum caso a ordem em que o autor dispujo as diferentes partes do seu texto, por muito que o editor prefira outra organizaçom. Ham de evitar-se em consequência alteraçons como as que se fam no manual Lingua 4 da Ed. Anaya (pp.24-25) onde se reproduz o poema "O maio" de Curros Enríquez alterando sem nengumha justificaçom a ordem das estrofes.

b) nom se ham de suprimir partes de um texto com critérios ideológicos ou moralistas.

Um exemplo acabado de censura ideológica encontramo-lo na Unidade nº 6 do manual da Ed. Bruño (Alfaia. Lingua Galega 3, p. 65), onde se reproduz um fragmento de "Lume no pazo" tam inócuo que o combativo poema de Ramón Cabanillas pode ser apresentado aos escolares do segundo ciclo, sem nengum problema, como a mera notícia de um sucesso infeliz (de facto, a Unidade Didáctica 6 dedica-se precisamente à composiçom das notícias).

Como amostra de censura moralista veja-se a versom de "Sabela" que aparece em Lingua 6 (Ed. SM, p.24), onde os responsáveis da ediçom podam todas as frases com que o narrador de Castelao descreve o corpo da protagonista da história, umhas vezes para substituí-las por fórmulas mais austeras ("os andares, arfados e velaíños, facían no aire ronseles de gracia" transforma-se num severo "os seus andares"), outras, mais radicalmente, para eliminar todo rasto da expressom considerada audaz (as frases "e os engados da sua carne non tiñan segredo para os ollos de ningúen", "O corpo era un gran corazón prisado" desaparecem por completo).

c) nom se ham de modificar as pausas do texto mediante a pontuaçom ou a disposiçom editorial. No manual da Ed. Anaya (Lingua 6, p. 46-47) a comovedora apresentaçom de Balbino, o protagonista de Memorias dun neno labrego, neste caso um clássico de autor vivo, é reproduzida como se o narrador protagonista respondesse, imperturvável, as perguntas de um questionário burocrático:

"Eu son... Balbino. Un rapaz de aldea. Como quen di un ninguén. E ademais, pobre...."

d) nom se há de dar título a um texto que carece dele nem, no seu caso, modificar o que já tem. O título, como potente programador de leitura que é, tende a orientar a decodificaçom do receptor num determinado sentido e é mui discutível que seja legítimo contrariar a escolha do autor como fam, por exemplo, os responsáveis do manual Galego Práctico 6 (Ed. Fontel, p. 36) que intitulam o relato da eloquente história de Panchito, umha das mais conhecidas Cousas de Castelao, com um enunciado tam pouco feliz como "O negriño que chegou das Américas".

e) se o texto verbal for acompanhado de um debuxo e com ele formar umha unidade, como acontece nas Cousas de Castelao, este nom há de ser suprimido nem substituído por outro como igualmente fam os autores do já citado manual da Ed. Fontel que, depois de lhe inventar um título, ilustram a história de Panchito com um debuxo que nada tem a ver (nem em intençom nem em qualidade) com o do autor.
Diremos por último que de pouco ou nada há de servir qualquer debate em torno a estes problemas se nom se partir de um princípio prévio e elementar, nom por óbvio menos descuidado: qualquer emenda que se figer aos textos originais há de fazerªse correctamente (as correcçons com correcçom).

Ponhamos exemplos concretos. Nom se há de corrigir "comprido" (crescido, alto) por "cumprido" (Galego 6 (Ed. Fontel, p. 36), imaginando (com razom ou sem ela) que Castelao pretendia mostrar o seu Panchito como um rapaz "cumpridor". Nom se hám de emendar caprichosamente "anceios" por "devezos" (ibidem), "Cantiga para durmir a un neno" por "Canción para durmir a un neno" (note-se que nom corrigem porém o castelhanismo sintáctico) (Ronsel 2000, Ed. Obradoiro-Santillana, p.62), nem se há de emendar o popular "préstemos" de Curros Enriquez polo espanhol "préstamos" (Lingua 4, Ed. Anaya, p.24) em lugar do galego "empréstimos", ou a mui galega forma "desprovidos" que usa F. Cuevillas ("Louvanza da choiva") polo castelhanizante "desprovistos" enquanto se deixa passar sem qualquer comentário o castelhanismo "tronos" (Galego Práctico 6, Ed. Fontel, p.12). Hám de respeitar-se formas orais como "papai", perfeitamente legitimas num contexto literário (Os dous de sempre), por mui "normativa" que seja "papá" (Lingua 6, Ed.SM, p. 34)) e, postos a corrigir, a "branca pruma" de Rosalia há de passar a "branca pluma" nom a "branca prima" como aparece repetidas vezes em Lingua 6 (p.101) e "ganar o pan" a "gañar o pan" ("gaña-lo pan" se se quer) mas nunca ao híbrido "gana-lo pan" que aparece na versom de Ed. Fontel do tam maltratado relato de Castelao (Galego 6, p.36).

Fiquemos por aqui para nom tornar excessivamente prolixa esta revisom. Fiquemos por aqui mas nom encolhamos os ombros. Pobre ou rico, com os seus problemas e incoerências, as suas lacunas e as suas grandezas, este é o nosso património literário e como tal merece toda a nossa lealdade.

E os escolares galegos um pouco mais de respeito.

 

O INDEPENDENTISMO NO CONTEXTO DA GLOBALIZAÇOM. Carlos Taibo

 

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