DIVERSIFICAR A MUNDIALIZAÇOM

Margarita Ledo Andión, professora na Faculdade de Jornalismo (Universidade de Santiago de Compostela)

Tendemos a pensar que produzir conteúdos pode chegar a dar-se com o suporte de políticas públicas, mas nom semelha tam fácil assegurar que do mesmo modo se construi um público. Mas é que, aliás, o facto de produzir conteúdos sem construir um público, torna em inútil o primeiro dos cometidos porquanto o estranha das relaçons sociais de comunicaçom. Construir um público articulando, por exemplo, mecanismos de distribuiçom e de exibiçom, construí-lo a partir do interesse público -acesso ao que poderíamos resumir como representaçons da realidade a partir de origes e actores diversos- significa perceber "La culture au pluriel", dando o giro lingüístico com que nos mimou Michel de Certeau. Significa observar os processos ligados ao seu tempo, embora esse tempo seja o do neoliberalismo, o das suas medidas legais transnacionais e o do interesse privado como valor supremo do que se nos apresentou primeiro como "Autoestrada", agora como Sociedade da Informaçom.

Tendemos a recomendar, quando consideramos estratégias à volta do papel que deveria desenvolver o audiovisual como economia, como política e, em curto, como parte mais detectável da extinçom da sociedade em honra da concorrência, que se ponha o acento na formaçom crítica, que se definam programas de inversom, que se discutam jeitos de cooperaçom entre produtoras independentes e televisom, que se estabeleça um espaço de complementariedade entre emissores público e privados, and so on.

Mas ao que nos vamos aproximando da realidade, os seus paradoxos fam com que repensemos, de outras variantes, ou de outro modo de introduzirmo-nos nessas variantes, o audiovisual.

A identidade como diversidade

Com a frase do início, "Diversificar a mundializaçom", pretendo afirmar que se bem já nom é possível evitar os grandes cenários, nestes grandes cenários que umhas vezes tratamos como Integraçom ou em ocasions como Redes e quase nunca como retorno para o contrato com o senhor feudal -por isso lhees recomendo debruçar na leitrua sossegada do trabalho de Venturelli que tomei como referência-, deveu dominante, no nível da opiniom, certo determinismo tecnológico com que se costuma ocultar ordens de silêncio sobre o democrático, sobre a transnacionalizaçom de umha única fábrica de conteúdos, com o qual se anula, de maneira lisa, o local, o local que nom se increva nesse sabor tam americano como os "multiplex" que fam crescer de dia em dia o número de ecrans na Europa e a cifra de benefícios para a UPI (United International Picture), a conjunçom de Paramount, Universal e MGM. A pouco que nos esforçarmos, vamos ver que, com efeito, apenas existe o local. Mas vamos fazê-lo de um tipo de abordagem pouco convencional.

Julgamos, em primeiro lugar, que nom convém secundarizar aquelas categorias que como Identidade ou como Diversidade, sim quenos ressituam na capacidade de expressom real, categorias que nos permitem entrar por um outro caminho no modo de pensar o mais aparentemente contrário à liberdade, por exemplo o sistema de quotas, esse par de filmes de label europeu que o Presidente da Cámara de Estrasburgo exige à UGC ao conceder-lhe autorizaçom para umha superfícioe de ecráns em que a relaçom é de 10 a 1 a favor dos filmes USA, como garantia, ou melhor, como participaçom do cinema francês, griego ou português na liberdade.

Talvez seja conveniente aclarar que na nossa formulaçom nem Identidade nem Diversidade som algo prefixado ou herdado. Identidade e Diversidade nem sequer o utilizamos como esse algo mais ou menos estável que costuma apresentar-se sob a aura de Patrimonial. Trabalhamo-lo como um Konstructor que organiza a Cultura em tanto memória colectiva que fai possível la comunicaçom entre os memgbros de umha colectividade historicametne situada -ou des-situada, nom esqueçamos que somos de um país de emigraçom- tornando possível a criaçom de sentido -funçom expressiva-, permitindo-lhe a relaçom com o ambiente que o rodeia -funçom económica- e outorgando-lhe capacidade argumentativa para fixar as convençons que permitem as relaçons sociais -funçom legitimadora- tal e como a define Armand Mattelart em A Comunicaçom Mundo e a quem devemos, e creio que é de lei lembrarmo-lo aquí, o primeiro livro sobre Meios que lim na sua traduçom para o português, justo depois da revoluçom de Abril: Meios de Comunicação de Massa, Ideologias e movimento revolucionário.

Espaços culturais e geo-lingüísticos

Um Konstructor, quer dizer, um conceito que admite categorias de tipo político e que terám que ver com a democracia como princípio para a relaçom entre Culturas, com o reconhecimento do outro; que admite categorias económicas, no caso que tratamos situadas à volta das indústrias culturais, da circulaçom de produtos e do uso do dispositivo tecnológico como satisfaçom de necessidades e como signo de um certo capital em conhecimento; que requer categorias ideológicas para configurar essa areia solidária e controvertida que denominamos, de novo, relaçons sociais de comunicacçom em lugar de Tratado de Livre Comércio, bi ou multilateral.
Relaçons sociais de Comunicaçom que se dotam de corpo, de experiência, e de desejo, de consciência, em áreas geo-lingüísticas, com ou sem contornos físicos definidos, e num espaço cultural, polo tanto económico e político, bi-regional se nos referíssemos à Uniom Europeia/Latinoamérica e Caraíbas, que nos conduz polos mesmos dilemas: Mantemos ou nom a Diversidade Cultural -lembrem que para nós se manifesta na troca de conteúdos polos suportes habituais do sistema mediático- mantemo-la como um activo e como umha possibilidade para um novo Modelo de desenvolvimento, um Modelo que transversalize, que harmonize a integraçom com o bem-estar e com a qualidade?

Um dilema que como todos os que tenhem a ver com alternativas à liberalizaçom, nos situa na mesma suspeita de prazo temporal, de umha conta atrás para objectivos concretos e para um Programa de acçom, legível e reconhecível, em que se demonstre que a UE é um actor com umha escola diferente à Usamericana e de que Latinoamérica ou as Caraíbas som os nossos aliados e nom um campo de práticas de tiro ou um palco para o ensaio geral da globalizaçom, com o traje de três peças do Fundo Monetário Internacional, e que começou quando Al Gore anuncia em Buenos Aires que o futuro se chama "Autoestrada da Informaçom". No número 3 de Le Dipló, a recente ediçom de Le Monde Diplomatique para o Cone Sul, o professor Jorge Beinstein, sob o epígrafe de "impagável, incobrável, ingusta" -refere-se à dívida- formula a construçom de estratégias à volta da recomposiçom do mercado interno e da sociedade civil e o Estado, "como dinamizador e protector da produçom local".
A ideia que acabo de transmitir-lhes fai parte das posiçons que mantivem durante o encontro de peritos que sob a denominaçom "Cultural Integration? Cultural Heritage and EU/Latin American and Caribbean Cooperation" nos convocou em Tuusula, Finlándia, de 2 a 4 de Novembro de 1999, para debatermos alguns aspectos do protocolo final da Conferência de Chefes de Estado e de Governo que se conhece como Declaraçom do Rio de Janeiro. Entre os acordos da Declaraçom do Rio -ponto 62, ámbito cultural, educativo, etc.- menciona-se a troca da produçom cultural audiovisual como um dos alicerces da cooperaçom e, mais à frente, recorda-se o direito dos povos a manterem a sua identidade cultural e lingüística.

Também, e repararmos nas "Prioridades para a acçom", vemos que no seu ponto 15 se lhe outorga especial atençom "aos sectores susceptíveis de gerarem emprego produtivo" e, obviamente, um destes sectores é o audiovisual ali onde se vincularesm a industria de programas, de conteúdos, as telecomunicaçons e a digitalizaçom, para redefinirem o espaço em termos de fluxos "although with key economic and cultrual 'nerve centers' in the nework of flows" acerta Harold Innis para que um dos estudiosos de Latinoamérica, o professor Sinclair, poda assegurar que som as áreas geolingüísticas o primeiro exemplo deste espaço virtual em que emergem novos centros. A trama Meios/Diversidade, quando a analisamos a partir da Identidade, passa a ser o núcleo organizador da indústria cultural e o activo principal na definiçom de áreas geolingüísticas como constitutivas da mundializaçom para além do mercado global.

É conhecido que a cultura europeia assinala a Televisom pública como um signo identitário e como um factor necessário para a democracia, o pluralismo e a vocaçom de igualdade nomeadamente em pequenos países, em situaçons periféricas ou nas sociedades em processo de normalizaçom. Sabem, aliás, que nom é por acaso que da filosofia que influi a política para o audiovisual se declare o compromisso de proteger a produçom europeia e a consideraçom da língua e da cultura como constitutivas do público e como obrigaçons de serviço público. A afirmaçom, no Protocolo final ao Tratado de Amsterdam -Junho de 1997- de que o sistema de radiodifusom pública dos Estados membros está directamente relacionado com as necessidades democráticas, sociais e culturais de cada sociedade e com a necessidade de preservar o pluralismo nos Meios de Comunicaçom, coincide com as recomendaçons do Informe final do grupo de peritos da GD X, para o emprego, relacionamentos industriais e assuntos sociais -Abril de 1997- que sob a legenda "Alimentar umha Europa multicultural" conclui que a utilizaçom das tecnologias da informaçom e da comunicaçom poderám manter umha visom multicultural da Europa no seio da sociedade da informaçom, considerada como um pólo de desenvolvimento cultural, de transmissom de ideias e de factos de civilizaçom, de promoçom de contactos directos entre grupos diversos, em geral em dispersom, e de apoio ao multilingüismo da sociedade europeia, e chama a atençom para a cooperaçom com programas extraeuropeus que justificam, também para a Universidade Pública.

Do "local na Era Digital

Salientamos de novo que na cultura europeia a televisom pública é entendida como um operador identitário, nomeadamente em pequenos países, de Finlándia a Fisterra, e em sociedades que estám mergulhadas em processo de recuperaçom de soberania, de acesso ao direito de expressom, ou de desenvolvimento que é o caso da nossa naçom, com uns 3 milhons de habitantes no interior e aproximadamente los mesmos no exterior.

Como parte da história material da cultura, a partir do binómio que definem entre si Diversidade Cultural e Era Digital, a Galiza estaria a ponto de extinguir-se se desde 1985, por decisom do Parlamento autónomo, nom contasse com umha televisom pública, a TVG, que é, além do mais, o elemento nuclear do sector audiovisual.
Aproximando-nos da sua significaçom de parámetros económicos, no relatório da Companhia de Radiotelevisom da Galiza (CRTVG) para 1999, assinala-se que 80% do seu orçamento, à roda dos 12 mil milhons de pesetas, revertem sobre a economia produtiva da Galiza e 4 mil milhons directamente sobre a iniciativa privada do audiovisual. Como vector que arrasta a nossa incorporaçom ao espaço-mundo sob coordenadas que passam pola construçom efectiva de umha área geo-lingüística para a lusofonia, a área do galego-português, ou pola criaçom de umha comunidade virtual de galeguidade ao longo da Latinoamérica, desde 1 de Abril de 1997 a Televisom da Galiza, TVG, inicia para a América as emissons "Galiza TV" com a sua audiência-modelo naqueles países com colectivos importantes (Argentina, Venezuela, México) para gaelgos de segunda e terceira geraçom que nom conhecem o seu país de referência mas que mantenhem o idioma, e com ligaçom nos Centros galegos desde Setembro de 1998. Ao longo desses ano, "Galiza TV" emitiu por Hispasat 8.760 horas de televisom, resultado de umha linha de acçom que conjuga a política e a tecnologia sob o signo da identidade cultural na sua dupla vertente: como reclamo, fazermo-nos visíveis, e como mercado, singularizarmo-nos como oferta para um universo, umha "imagined community", que é também a maior área potencial de distribuiçom cinematográfica e de projectos de co-produçom.

Porque se bem o número de produçons audiovisuais começa a ser relevante, a sua circulaçom é praticamente inexistente fora do próprio cirtuíto da TVG. Como dado, e segundo o catálogo elaborado polo "Observatório do Audiovisual Galego" que dirijo no Departamento de Ciências da Comunicaçom da USC, para o biénio 1997-1998, as obras realizadas ascendem a 62, com predomínio do documental para televisom -um total de 27 títulos- e com 9 longametrages, umha cifra emblemática que nos fai pensar na hipótese de umha indústria do cinema a partir da nossa cultura nacional. Os dous terços das produçons tenhem como língua original o galego, embora seja muito escasso o número de obras dobradas ou legendadas.
Antes de descrevermos os actores, as peças imprescindíveis para abrir jogo no audiovisual, voltamos a lembrar que os contemplamos no seio de um processo identitário, um processo que está na origem e sem o qual nom existiria a diversidade cultural e que é condiçom substancial da comunicaçom; um processo mediado pola produçom de conteúdos através dos quais configuramos a nossa capacidade de intervençom na construçom da pluralidade. Voltamos a recordar que, da nossa formulaçom, a pluralidade consiste no estabelecimento efectivo de espaços lingüísticos de comunicaçom, com as televisons e com a tecnologia, por exemplo para a multiversom, a favor, e que perderemos a nossa capacidade de expressom se nom conseguirmos circular com produtos do imaginário no mundo real. Vamos lembrar Marjorie Ferguson quando pensa no Mundo como mosaico, um mosaico de que deriva umha Ordem com re-alinhamentos regionais, com fracturas étnicas e nacionais com vectores mediáticos que se entrecruzam para pôr fim ao conceito unificado do Global. Porque é precisamente neste conceito de quebra do modo uniforme de pensar o global onde podemos tornar-nos visíveis. Onde temos que tornar-nos entendíveis. Onde a produçom audiovisual tem que ultrapassar filtros com um peso excessivo para a política de representaçom -quem o produz, quem o difunde, quem o distribui- tal e como assinala Sinclair ao vincar que "many nations, core and peripherical, place a special importance on the international profile they can stablish with their audiovisual exports".
A CRTVG, de umha parte, os programas institucionais -europeus ou galegos- que se enquadram numha política estruturadora da produçom, da difusom e da formaçom, de um outro, alélm das empresas, som vértices do sector audiovisual na Galiza. Excepto a Televisom da Galiza, com quase que seiscentas pessoas, a nível nominal o sector compunha-se em fins do ano passado (1998) de 91 pequenas empresas, embora umha primeira correcçom, após localizar aquelas que se descobravam em diferentes sociedades, reduzisse o seu número a 74, de entre as que 48 mantivérom actividade estável nos últimos anos e 39 estám reunidas em AGAPI, Associaçom Galega de produtores Independentes.

A principal actividade das companhias produtoras orienta-se para TV e cinema, por esta ordem, para vído institucional e publicitário e para o aluguer de serviços, com tendência à alça para projectos multimédia desde 1997. A modo de exemplo, a animaçom "Bicho", realizada integramente na Galiza, do guiom à posproduçom, configurada como jogo de computador, foi prémio "Laus"ao melhor multimédia em 1998. Como sintoma de mudanças na cultura do sector remarcamos a revalorizaçom das funçons de "Ideiaçom" e do papel que se atribui à formaçom sobretodo no ámbito das tecnologias digitais. 70% dos produtos usam o idioma galego e o volume de negóci do audiovisual, exercício de 98, igualou o do livro, com 5 mil milhons de pesetas, no conjunto de um hipersector, o da comunicaçom, que contabiliza 150 mil milhons.

No nível de produtoras, e apesar do aparecimento e desaparecimento de numerosas sociedades, desde 1995 vimos observando um processo crescente de estruturaçom, além da concentraçom de actividades em aproximadamente 10% de empresas que estabelecem acordos entre elas, diversificam a produçom, apoiam-se no marketing, fam contratos de pré-aquisiçom, elaboram projectos de co-produçom e estám interessadas em cortar a passage a umha das nossas deficiências crónicas: a falta de circuítos de distribuiçom e de comercializaçom. Som, além disso, os principais partenaires para programas de tipo institucional, como o "Plano de Fomento do Cinema", de 1998, em que TVG assume um investimento directo de mil milhons de pesetas em filmes, por um período de 3 anos, e prevê um efeito multiplicador de índice 5. O Plano da CRTVG incorpora produtoras, entidades financeiras e a administraçom autonómica numha estratégia de apoio à cinematografia que a empresa pública compensa com o direito de emissom das obras que resultem desta iniciativa e como parte da campanha de image da própria TVG. Este programa soma-se ao "Plano de Ficçom Feita na Galiza", de 1997, e nada fai pensar que poda manter-se por muito tempo a antiga fórmula "umha empresa/um projecto subsidiado", fórmula que mantivo a produçom num estado de rotineira semiconsciência, entre o voluntarismo, a aventura e as perspectivas de aniquilamento.

Num visionado panorámico 2 sobre 3 de empresas galegas do audiovisual, formalizadas na sua maior parte como Sociedades Limitadas, som de menos de 5 empregados, com cimos como CTV, com 50 pessoas, ou Continental, com 15. De criaçom recente, a partir de um acordo das produtoras Faro e Continental, Costa Oeste sai a cena com obras em co-produçom com a Latinoamérica, como o documentário "Carlos Velo", ou inovando formatos através da adptaçom das características do docu-soap a umha série sobre orquestras de romage, rodada no passado verao com a "Paris de Noia" e "Novas Ideias". Entre os objectivos de Costa Oeste dá-se prioridade à criaçom de umha distribuidora, Image Galega, no seio de um possível acordo com a Administraçom, e na qual se conjugariam interesses económicos e políticos para fazer visível a produçom em língua galega na arena internacional e nas citas reguladas que mantenhem os mercados através de feiras e de festivais.
Por seu turno, TVG, com direito de exploraçom exclusiva sobre grande número de obras, -como novidade apontamos que acaba de negociar a favor de VideoVoz os direitos noutras línguas e para fora da Galiza da série "Marés Vivas"- nom acaba de desenvolver dentro do seu organograma a alínea de vendas e ainda 60% das empresas fam distribuiçom própria, ocorre como tendência o contrato de seviços de firmas especializadas e emerge, como umha variante real, a questom das áreas geolingüísticas, com a orientaçom de produtos para o espaço do galego-português (29%); do castelhano, incluída a Latinoamérica (18%) e do inglês (12%). A consideraçom da língua galega ocmo um valor de troca, como um plus de mercado, está num nível alto para 37% e para 13% a sua significaçom é menor. 10% das produtoras julgam que umha produçom galega é aquela realizada em língua gaelga. Som índices tirados de um inquérito representativo que realizou o antes mencionado "Observatório do Audiovisual Galego".

The Northvision

Com certa freqüência, da Galiza fazemos análises comparativas com umha área cultural intraeuropeia, no chamado Arco Atlántico, e que conformam a Irlanda, Gales, a Escócia e a Bretanha, umha área reflexo da complexidade histórica e da multiplicidade de factores que nos unem através de laços culturais tradicionais de fácil localizaçom na música de raiz ou na literatura oral, para além de na mitologia e nas construçons rituais ou o nomadismo, e fazemo-lo porque existe um exemplo visível, S4C, que conseguiu o milagre de ser umha televisom política nacional, competitiva e de qualidade, além pôr em andamento um ambicioso projecto digital que nom abrange apenas a emissom, como também o aprendizado e as aplicaçons no ámbito dos relacionamentos de troca. No nosso caso som frtuo de um par de programas de investigaçom cujos resultados estám publicados.

Mas agora interessa-nos como experiência prévia e para enquadrar o tipo de possibilidade que estamos a desenhar, irmos mais para cima, para umha área de ligames lingüísticas e culturais, em que desde 1959 as televisons públicas estabelecêrom um serviço de troca de programas e de equipas, que se metêrom em co-produçons e que em 1998 quase que duas mil hora de programaçom, 606 livres de cargas, além do fluxo diário de notícias e teletexto, segundo o relatório apresentado polo seu Coordenador, Steffen Johanssen, no Forum Europeu de Cinema e Televisom que tivo lugar no passado Dezembro na cidade de Praga, e também nom o lugar é casual si pensarmos na importáncia que para a integraçom europeia representam os países do Leste. Estávamos a falar de Norhvision, com cobertura para seis países -Dinamarca, Finlándia, Noruega, Suécia e Islándia-, com 23 milhons de pessoas habituadas aos legendados, com umha estrutura de funcionamento muito, muito simples, sem qualquer classe de estátus legal, e com capacidade para ter circulando 300 co-produçons em Documentário, Infantis, Drama, Entretenimento e Educaçom.
NV opera a três níveis de co-produçom: em criaçom, em troca e a nível de financiamento, e considera-se a si própria a aliança de maior sucesso na área nórdica, com certeza, e isto acrescentamo-lo nós, de talante bem diferente à Uniom Europeia de radiodifusom ou ao que no seu dia se nos apresentou como a primeira tele paneuropeia, Euronews. Justo o que falta no resto da Europa, a co-produçom, é o ponto que tendencialmente se reforça em NV, singularmente no campo do cinema da realidade, na ficçom e nos espaços para crianças.

A dia de hoje, e porque nos últimos cinco anos foi estabilizando-se o consumo de cinema e de tv-séries de carácter nacional, retrotraindo o audiovisual para o mercado interior, a Europa vinca, quer vincar, a distribuiçom cinematográfica como ponta de lança para a integraçom do mercado do audiovisual. Folga dizer que neste caso a criaçom d um público é o nó górdio em que vários problemas se entrecruzam na hora de defrontar umha soluçom. O mais conhecido é o número de casas fornecedooras que operam na Europa -por volta de 500, dados de 1998- e que vam das 45 na Espanha às 161 em França, a maioria com um único filme, embora seja certo que se observa um rápido processo de concentraçom. Um outro dado menos conhecido é que na Europa se produz mais, em número, do que nos Estados Unidos -cifras de 1997- e que vam em aumento os dividendos por entradas em sala, com um acrêscimo de 7% no nível nacional entre 1993 e 1997 (de 15 a 22). Mas esta linha ascendente quebra em 98 polo efeito Titanic e os índices voltam ao começo da década. E, por fim, o items mais contestado: O quê quer dizer ser um filme europeu quando pensamos no conteúdo? Quer dizer que podamos identificá-lo com umha das suas cinematografias nacionais. E aquí radica, após a experiência falhida do que se chamou "europudding", o ponto de inflexom. Os peritos reconhecêrom no antes mencionado Forum do Cinema e da TV que o conteúdo nacional nom é o problema, queo problema está no desenho de estratégias de distribuiçom como parte das políticas públicas de construir a diversidade, de incorporar a cultura ao modelo de desenvolvimento, de considerar a multitude de mercados dentro do mercado (especializado/geral, Europa/um país, de autor/comercial) e pondo os olhos na formaçom, na cooperaçom entre directores e televisom, e na defesa de medidas de protecçom.

Mundializar a Diversidade

Se pensarmos a Universidade através da sua funçom de aconselhar à sociedade, se a vermos como parte do campo de relacionamentos que gera a indústria cultural e com a necessidade de medidas normativas que garantam a sua existência, o panorama que se desenha tem por força que enquadrar-se entre a pressom da desregulaçom e das teses neoliberais, da convergência e da concorrência entre as major, e a sociedade da informaçom como sociedade do conhecimento, quer dizer, a mundializaçom como resultado de espaços geo-lingüísticos e culturais de comunicaçom. Se, aliás, coincidirmos emq ue vam à par produçom identitária e políticas públicas, e que a indústria de conteúdos se organiza a partir da televisom, o seu rol -o da televisom- aproxima-se mais e mais da esfera cidadá com responsabilidades na programaçom, no financiamento de produtos e na circulaçom.

Há 25 anos, em 1974, o Centro Territorial de TVE na Galiza começou a emitir um informativo diário em língua galega e em 1985 cria-se a CRTVG, com duas sociedades, Televisom da Galiza, TVG, e a Rádio Galega. Ambas as duas emitirám a sua programaçom em galego, incluindo os espaços publicitários no caso da rádio e realizando campanhas de promoçom do uso do galego nos comerciais de televisom. Em todo o caso, a criaçom da Tv pública da Galiza, que realiza o seu primeiro programa em 25 de Julho de 1985 e que declara no seu texto fundacional, como pontos de interesse, romper o monopólio estatal e recuperar a identidade através, por exemplo, de temas e autores galegos -a nossa primigénia versom do sistema de quotas-, é todo um sintoma da entronizaçom da tv como organizadora da produçom cultural e do futuro entramado do sector audiovisual.
Como sabem, a partir da Lei de Televisom Privada de 1988, fam apariçom três canais comerciais, dous abertos e um codificado. Tanto Antena 3 como Tele 5, em 1994 e 1998 respectivametne, realizam desconexons territoriais para a Galiza mas nengumha delas utiliza o galego, excepto o rótulo "O tempo" em Tele 5, mantendo-se o idioma como diferendo e como património da TVG que, além de ser oficialmente monolíngüe, desde Abril de 97, tal e como avançamos, dá começo às emissons "Galiza TV" via satélite, com umha percentage de programaçom em castelhano e o resto de conteúdos -excepto aqueles espaços que respondem à modalidade "produçom alheia"- repetindo a grelha da TVG. Aliás, a TVG emite por Via Digital o espaço "Telenotícias" e em 1995 começou à eissom regular do primeiro teletexto em galego. No "Plano de actuaçom e linhas gerais de programaçom da CRTVG e Sociedades para o ano 1998" assinalava-se como um dos objectivos atingir um volume de publicidade em galego de 50%, indicando que se bem em 1996 a proporçom fora de 64 horas para o galego face a 221 horas para o castelhano, em 1997 o galego se situa em 104, às que cumpre acrescentar 90 horas de auto-promoçom do canal, face a 258 da publicidade em castelhano.

No que di respeito à programaçom geral, VG emitiu em 1998 umhas sete mil e quinhentas horas para a Galiza e nove mil para a latinoamérica via Panamsat, além da oferta em Via Digital.

Em 1998 começa a se desenvolver o antes mencionado "Plano de Acçom para o Cinema", completando o estabelecido um ano antes para ficçom (séries, sit-com, telefilms, documentários, etc.) com investimentos directos, garantias financeiras e ajudas à promoçom e à distribuiçom. No dito programa, que recolhe a produçom de 6 longametrages, 8 curtas, 12 documentários e 5 comédias de situaçom, tivo especial relevo o acordo estabelecido entre TVG e a fornecedora catalá filmax para a dobrage para galego de 8 filmes, a ediçom em galego de 24 vídeos de cinema infantil e familiiar e a estreia, fora da Galiza, de 6 filmes dos que q própria TVG seja co-produtora. De facto, O sucesso em sala das primeiras das fitas dobradas, a irlandesa de Peirce Brosnan "um amor por descubrir", em Outubro de 1998, fai com que pola primeira vez o idioma seja considerado um valor de troca e que, a seguir, em Janeiro de 1999, o filme de Xavier Villaverde "Finisterre", se projecte apenas em idioma galego. Polo contrário, o filme de José Luís Cuerda, a partir de relatos de Manuel Ribas, "A Língua das Borboletas", exibe-se nas duas versons, galego e castelhano, com domínio para a segunda em cidades tam significativas como Vigo.

Do compromisso Filmax-TVG salientamos os pontos 4 e 5 polos que Filmax "se compromete a produzir na Galiza, associada com produtoras galegas ou constituindo umha empresa própria com domicílio social na Galiza, um mínimo de seis filmes em três anos", além de prever umha alça na contrataçom da dobrage de filmes. Durante este mesmo ano, a empresa Filmax regista-se oficialmente na Galiza, incorpora-se a AGAPI e cria a factoria de animaçom Bren, participada pola Junta da Galiza através de XES-Galiza, conseguindo fundos do IGAPE para a construçom de ifraestruturas por um valor superior aos mil milhons de pesetas.

Quanto às actividades de dobrage, que contárom com o seu primeiro convénio colectivo em 1995, interessa sublinhar que se trata de um ámbito estabilizado, com 6 empresas, 4 delas a trabalhar em exclusiva para TVG, e ainda que o último ano descêrom as horas contratadas por Televisom da Galiza (684,5 em 1997, 560 horas em 1998), é a empresa pública quem mantém este sub-sector, além de fazer-lhe desenvolver certas pautas de qualidade lingüística e de contribuir para que aumente os seus índices de profissionalidade.

Utilizando a terminologia estándar para identificar no nível tipológico a produçom, TVG estabelece dous grandes epígrafes na sua classificaçom: Produçom própria interna/externa e Produçom alheia. A produçom própria interna di respeito à aqueles programas realizados com recursos técnicos e profissionais do canal, com cargo aos orçamentos da TVG e, ocasionalmente, em colaboraçom com empresas comerciais e com instituiçons. Por via de regra, trata-se de informativos, magazines, espaços infantis e de serviço público e retransmissons. A produçom própria externa, realizada no canal mas em associaçom com privadas ou públicas alheias, é a mais representativa da colaboraçom com produtoras independentes. Assi, durante 1998, TVG realizou 28 contratos com produtors por valor de mil e setecentos milhons de pesetas para 928 horas de programaçom que incluem programas-espectáculo ou de entrenimento. A produçom alheia di respeito, somente, à aquisiçom de direitos de emissom.
Para a difusom do seu sinal, TVG autiliza onda hertzianas, satélite ou a rede Internet, e vem eleaborando um plano de actuaçom específico para webcasting, que continua a filosofia iniciada em 1997, quando foi a primeira emissora europeia e a sétima do mundo que situou em directo o seu sinal via internet.

Para a transmissom do seu sinal analógico terrestre, TVG usa Retegal, com umha rede de 127 re-emissores e 600 micro-emissores ao longo da Galiza toda e que dam cobertura praticamente a todo o território, um tecido de emissores e de re-emissores que permite às unidades móveis ligaçons a partir de qualquer localizaçom.
Para a Argentina, Venezuela ou o México, "Galiza TV", que se emitiu desde 1997 via Panamsat, a partir de 1 de Janeiro de 1999 chega via Hispasat, quer directamente ou através do cabo e desde Setembro de 1998 para a Europa através de Hispasat/Eutelsat.

Em programas informativos, TVG mantém-se no segundo posto de audiência, depois de TVE, com quotas que chegam a 30% para o Telejornal (meiodia) e para séries como "Marés Vivas", com umha média de 31,4 de share na sua primeira temporada de emissom. Um sintoma da boa acolhida para os informativos em língua galega é que TVE-Galiza, o único canal que emite também informativos em galego, chega a atingir na faixa do meiodia um share de 24,9% a que cumpre somar 29% que na mesma faixa horária (14.00h. a 14.30h.) obtém o infomrativo de proximidade "Telejornal Galiza". Segundo dados de Sofres, para 1998 a média em prime-time (20.00h. a 24.00h.) de TVG foi de 22%.

Talvez assistamos, pola primeira vez, à conjunçom da política, contemos com o favor da tecnologia e tenhamos que entender as produçons nacionais como um activo europeu no tira-puxa entre o domínio usamericano -80% do mercado do cinema, por exemplo- e a necessidade de harmonizaçom dos diferentes actores que intervenhem e som consitutivos do espaço europeu do audiovisual.

Já é um lugar comum remarcar que no plano económico a Europa conta com grupos audiovisuais de talha e dotados de estratégias transnacionais, que no plano técnico o numérico debe contribuir para a superaçom de barreiras lingüísticas, que no plano cultural a Europa dispom de um património considerável e de catálogos pouco explorados, além de possuir umha rede de canais públicos que som outros tantos suportes fortes, caso de se dotarem de meios e de propostas que fagam efectiva cultura europeia do audiovisual. Há escassamente duas semanas concluía em Praga a ediçom número onze do Foro europeu do cinema e a televisom. Dominique Wolton, enquanto radicaliza a sua crença na democracia de massas como liberdade de acesso à cultura, falou da diversidade como identidade, de preservar -fôrom as suas palavras- a televisom nacional e de procurar o equilíbrio entre o sector público e o privado como um dos signos do património político europeu. Claude Contamine, no relatório final, referiu-se à mundializaçom a partir da diversidade, ao local como umha obra aberta. O primeiro sujeto, a mundializaçom, impom-no a técnica, a cultura permite-o, a economia dirige-o, as normas adaptam-se. A outra face, o que chamou a "localizaçom aberta", tem no seu haver a história e a cultura, é umha condiçom para o desenvolvimento e quem sai ganhando é a liberdade.

Tam longe. Tam frágil. Tam fácil de exprimir como desejo.

Bibliografia

Crantor, J-M e Le Borgne, F.- The World Film and Television Market, IDATE, 1999
Ledo Andión, M.- Informe sobre o audiovisual en Galicia, 1998, CCG, Santiago de Compostela, 2000

11th European Television and Film Forum. Global and Local: the choices facing the European audiovisual industry, EIM, Düsseldorf, 2000

Mattelart, A.- La Comunicación-Mundo, Fundesco, Madrid, 1993

Sinclair, J.- "Geolinguistic Region as global space: the case of Latin America" ind Anuário Unesco/Umesp de comunicaçom regional 1998, Cátedra Unesco de Comunicação para o Desenvolvimento Regional, São Paulo, 1998

Venturelli, S.- "Cultural Rights and World Trade Agreements in the Information Society", in Gazette, Vol. 60 (1), Sage Pub. London, 1998


OS CLÁSSICOS NOS LIVROS DE TEXTO. Elvira Souto

 

Voltar ao índice