LIMIAR

Domingos Antom Garcia

 

Vaia por diante o meu agradecimento a Abrente Editora por oferecer-me a oportunidade de coordenar este livro que tenta ampliar e tornar mais fundo o debate independentista na nossa naçom negada. Umha coordenaçom em que tenhem muito a ver Carlos Morais e Noa Rios, que sugerírom ideias, nomes e contactos, e assi mesmo Ramom Muntxaraz, a quem devo a incorporaçom ao projecto de Gonçález Blasco e de Martínez Orero e ao que provei de convencer em repetidas ocasions, e seguirei no empenho, para que ordenasse as suas muitas notas a respeito do estabelecimento das relaçons de colonizaçom na nova orde mundial, e Maurício Castro, que contribuiu sobretudo à disposiçom final e assumiu a revisom lingüística da totalidade.

Em Julho de 99, enviava umha primeira carta a uns vinte e cinco possíveis colaboradores/as, em que se explicava o plano genérico (os grandes apartados e a atribuiçom de sujeitos concretos a cada um) e se faziam indicaçons em relaçom coa extensom de cada trabalho (em torno das 450 linhas), a ediçom em galego plenamente reintegrado (de nom produzir-se indicaçom em contra, pois nesse caso respeitaria-se a normativa do colaborador ou colaboradora), a data de entrega (25 de Setembro)... Também se solicitavam indicaçons sobre temas, títulos, focages, outros nomes a incorporar e se marcava o impreciso objectivo de abrir "um debate sério, rigoroso, de diferentes sensibilidades, ópticas e tendências, com liberdade... sobre o independentismo em tempos do que dérom em chamar globalizaçom e pensamento único. Nom quero pôr cancelas prévias, por mais que o anterior já se poda considerar como tal". Logo de comunicaçons individuais com cada um e cada umha das que aceitárom a encomenda (por fortuna os mais) começárom-se a receber os primeiros ensaios, mas aginha se desbotou a ideia de publicaçom a finais de ano, porque o que principiou coa intençom de ser um livrinho dumha dúzia de contributos precedidos dum breve achegamento histórico, foi adquirindo dimensons impensáveis, especialmente na parte histórica. O caso é que em um de Dezembro se abria um novo prazo de entrega (em Fevereiro de 2000) e estabelecia-se "o plano quase definitivo". Tampouco se cumprírom as novas datas, já que a parte histórica seguia a incrementar-se, e no horizonte foi abrindo-se a intençom de estar na rua no mes de Julho. Por quê estas aclaraçons? Para pedir escusas aos que levam perto dum ano esperando, para dar fé da enorme dificuldade de investigar sem apoios e sacrificando o escasso tempo de lazer (por mais que a actividade nom alienante, criativa, faga parte desse lazer), para salientar a participaçom desinteressada, o por vezes tam doestado voluntarismo, num mundo em que tudo se monetariza e para indicar que aguardar pagou bem a pena. E, a piques de findar o mes de Junho, está-se, ainda, à espera dumha última entrega ao tempo que se fam as últimas correcçons lingüísticas e se desenha a totalidade para a imprensa. Embora nom se quer transmitir a impressom de precipitaçom, senom a de sossego enriquecedor.

O livro tem duas partes bem diferenciadas:
1. Treze ensaios sobre independência e sociedade.
2. Umha achega testemunhal, cronológica e documental à história da esquerda independentista.

PARTE I: TREZE ENSAIOS SOBRE INDEPENDÊNCIA E SOCIEDADE.

No que atinge a I, podem assinalar-se três apartados: os seis primeiros ensaios tenhem a ver coa identidade (em chave anti-essencialista, dialéctica, construtivista, mas reivindicando o próprio e resistindo à unidimensionalidade abafadora que se mascara sob símbologia pluralista e regionalista), económica, espácio-temporal, de classe, lingüística, massmediática, e na didáctica dos clássicos; os três que se seguem configuram o político, matinando sobre nacionalismo e internacionalismo, a questom da soberania, e as modalidades de violência; os quatro últimos conformam o bloco dos novos movimentos sociais alternativos ou alteractivos, ecologismo, feminismo, mocidade e anti-militarismo. É quase obrigado ir um por um, mas entenda-se a modo dum mapa-múndi, que indica globalidades e grandes temáticas, abre interrogantes, mas nom suplanta, antes bem convida, a abrir as cartas específicas e minuciosas de cada ensaio. Embora sempre caiba o sao exercício de ir ao grao e saltar estas farraposas páginas prévias.

Xavier Simom Fernández matina a respeito de Economia e Natureza, perguntando-se polo jeito de construir um sistema económico com mais justiça, que se ocupe dos países pobres e disponha umha produçom e um consumo compatíveis co equilíbrio ecológico. Delata os monstros gerados polas "liberdades económica e política" burguesas que se traduzem em desatendimento em muitos casos de necessidades primárias, em mercantilizaçom da Natureza e das pessoas (fetichismo da mercadoria e reificaçom, diria Marx) em igualdades formais e desigualdades reais, em negaçom de futuro para as geraçons vindeiras. No tocante à Galiza, indaga sobre a capacidade para decidir sobre os nossos recursos naturais, de capital e humanos, numhas relaçons internacionais equitativas. O trabalho pretende cimentar as bases para essa correspondência entre economia e natureza, relaçom que mudou ao longo da história e que analisa em dous tipos de economias, as tradicionais e as do capital. Por serem estas últimas as dominantes, suscita num terceiro apartado "a relaçom entre o crescimento económico e o deterioramento sócio-ambiental para, finalmente, discutir arredor das possibilidades de estender os seus padrons produtivos e de consumo ao conjunto da humanidade".
Daniel Pino e César Portela reflectem sobre o rururbano e criticam que o campo poda conceituar-se como resíduo do desenvolvimento metropolitano. Propugnam a interrelaçom do hábitat urbano e a natureza, umha "Arquitectura do Território" respeitosa coa dialéctica Home-Meio ao tempo que se desfám por um lado de tópicos ruralistas e delatam por outro o afám uniformizador e a incapacidade de regulamentar o feito diferencial. Denominam arquitectura com maiúsculos a que é capaz de mudar o funcional em estético, sublimar o quotidiano e trascender um tempo efémero. Em contra das vertentes globalizadora e folclórica do aldeanismo, advogam por um ruralismo (nom sinónimo de atraso, que ligue à Terra, às raízes, à história) em combinaçom cum urbanismo nom desleigado, pois urbano nom é sinónimo de "culto e moderno". Concluem com estas palavras: "... hoje é mesmo acuciante (...) planificar fora do concreto território das vilas e cidades para facé-lo em áreas (...) metropolitanas. É na necesária formulaçom de objectivos e estratégias de ordem territorial ampla, como se pode chegar a perfilar umha nova síntese entre o rural e o urbano. No que se consiga (...) estaremos assistindo ao nascimento dumha nova cultura que, herdando o melhor da tradicional, assuma a sua própria modernidade".

Inácio Martínez Orero fai análise da classe trabalhadora como sujeito revolucionário, para o que se detém no exame do fracasso do sistema económico capitalista como modelo social e económico, já que quatro de cada cinco pessoas vivem em precariedade e a quinta parte de tal precariedade traduz-se em miséria absoluta. Aliás, repassa o desmoronamento do denominado "socialismo real", que se apresentava como alternativa, e a nova etapa imperialista em que "os grandes consórcios capitalistas e as multinacionais som o poder (antítese da democracia) que verdadeiramente manda no mundo". Também aponta a incidência negativa dumha Comunidade Europeia que responde às expectativas do Capital, mas nada tem a ver coa "Europa dos povos e das clases populares". Fai umha descriçom pormenorizada da populaçom de Galiza atendendo à economia simbiótica, à feminizaçom do desemprego, à divisom do trabalho por género, às taxas de actividade, ao grande número de pré-reformados e pensionistas, ao incremento do sector de serviços, à perda de empregos na agricultura e na pesca, à funçom pública, ao desemprego e aos contratos temporais, ao estudantado... A seguir, incide na situaçom sindical e necessidade premente da solidariedade de classe para resistir os embates dum Capital que "vai estratificando a classe Trabalhadora para debilitar o seu potencial reivindicativo e transformador". Encerra com estas palavras de combate: "Unir, organizar e luitar. Tecer umha rede de movimentos sociais alternativos, ganhando e consolidando espaços ideológicos e sociais. Construir espaços económicos próprios e alternativos. Praticar umha solidariedade internacionalista real. Incidir politicamente para ganhar e consolidar umha base social conscientizada para condicionar o poder político e elaborar alternativas aos planos do capital. Toda umha actividade revolucionária aguarda por nós".

Maurício Castro Lôpez escreve sobre língua e identidade indicando como "através da língua materializa-se boa parte do acervo cultural dum povo, os seus costumes, as suas relaçons sociais... A sua identidade", embora advirta contra essencialismos lingüísticos que menoscabem outros traços conformadores da especificidade. Outrossi denuncia que com excesiva freqüência as formulaçons culturais galegas só aspiram a um espaço próprio "dentro do grande campo cultural comum hispano", que se faga umha política de portas fechadas ao galego-luso-brasileiro e que se pratique um infausto isolacionismo. Constata como ao faltar um cronoespaço simbólico próprio bem assentado "o esfarelado corpo social defensor do galego vegeta entre o serviço a Espanha de sectores teoricamente "galeguistas", o possibilismo inoperante do "nacionalismo cultural" maioritário e um voluntarismo impotente dos sinceramente comprometidos (e nom hipotecados) com a língua e a cultura nacionais". Inspirando-se em Wallerstein, entrança a problemática lingüística dentro da expansom capitalista arrasadora de povos e culturas, ao tempo que salienta como a Galiza, pola condiçom de periferia, pudo preservar a sua identidade. E, antes de deter-se no presente e o futuro da nossa língua, evidencia como o agromar articulado da consciência galega no XIX vai de consum coa ofensiva do projecto nacional espanhol ao ir perdendo as colónias e como o franquismo potencializou a autofobia e instalou os galegos em permanente diglossia. Já na actualidade, explica o recuar do galego na medida em que se destrui a ruralidade e vam desaparecendo os velhos. Velaí a questom: nom se trata de que o galego passe a ser peça de museu, mas um instrumento de comunicaçom; muita gente nova nom o fala ou castrapeja; o reintegracionismo nom acaba por triunfar, produzindo-se a falácia de separar normalizaçom de normativizaçom e ocasionando-se umha hibridaçom galego-espanhol "nom já como línguas, quanto como universos culturais autónomos". E, em lugar de botar as culpas ao poder, tem de assumir "o povo o protagonismo da luita pola língua" e os objectivos lingüísticos tenhem de primar sobre as luitas partidárias, sendo tarefas urgentes a criaçom de espaços físicos urbanos de encontro, centros de ensino em que o galego seja língua veicular e meios de comunicaçom em galego. "A normalizaçom, como plasmaçom prática da independência do nosso povo no plano lingüístico, nom pode converter-se em totem ou abstracçom idealista (...). O reencontro em plenitude entre a língua galega e o povo que a criou só poderá vir da sua vontade expressa enfrentada com a injusta realidade actual que o nega, com vistas à sua superaçom".

Margarita Ledo Andión em "Diversificar a mundializaçom" (em relaçom co audiovisual no contexto dumha Economia Política das Comunicaçons) indica como nom basta com produzir conteúdos, cumpre construir um público. Entre os apartados do seu ensaio figuram a identidade entendida como diversidade; os espaços culturais e geo-lingüísticos; o local na era da digitalizaçom; e a mundializaçom da diversidade. Para a professora, a Identidade e a Diversidade nom som estáticas, nem esse "algo mais ou menos estável que costuma apresentar-se sob a aura de Patrimonial. Trabalhamo-lo como um Konstructor que organiza a Cultura em tanto que memória colectiva que fai possível a comunicaçom entre os membros de umha comunidade historicamente situada (ou des-situada (...) ("de cara às funçons expressiva -ou de criaçom de sentido-, económica -ou de relaçom co ambiente- e legitimadora (ou de argumentaçom para "fixar as convençons que permitem as relaçons sociais"). Está a postular o reconhecimento do outro na interrelaçom cultural e que existam áreas geolingüísticas constitutivas da "mundializaçom para além do mercado global". Insiste em que da cultura europeia "a televisom pública entendemo-la como um operador identitário, sobremaneira em pequenos países, da Finlándia a Fisterra, e nas sociedades imersas em processos de recuperaçom da soberania" e postula a construçom dumha área geo-lingüística da lusofonia. Está em jogo a ruptura do "conceito unificado do Global". Finaliza a sua colaboraçom assi: "Claude Contamine (...) referiu-se à mundializaçom desde a diversidade, ao local como umha obra aberta. O primeiro sujeito, a mundializaçom, vem imposto pola técnica, está permitido pola cultura e dirigido pola economia (...). A outra cara, a que nomeou como "localizaçom aberta", tem no seu haver a história (...), é umha condiçom para o desenvolvimento e quem sai ganhando é a liberdade (...). Tam frágil de expressar como desejo".

Elvira Souto encara-se coa maneira de editar os nossos clássicos em que "o editor tem de escolher quer queira quer nom entre vários graus de infidelidade ao texto original" e separar a dirigida a especialistas da dos manuais escolares, sempre cos objectivos de servir às causas lingüística, literária e social, nom esvaecendo "as marcas autorais", mantendo a estética, sem atraiçoar o sentido... Nom é tarefa doada "porque aos problemas que som comuns a todas as sociedades nós temos de acrescentar as mui adversas circunstáncias em que sobrevive a nossa cultura desde há séculos. Circunstáncias adversas e também indiferença, desleixo e umha miga de prepotência que explicam, embora nunca justifiquem, a forma caótica em que som apresentados os textos clássicos aos escolares". Igualmente menciona a urgência de "acometer(mos) umha nova codificaçom". Depois de exemplificar o caos editor em textos de Rosalia e Pondal, propom que só se fagam alteraçons ortográficas, morfo-sintácticas, lexicais, editoriais e doutros tipos "que resultem imprescindíveis e tenham algumha finalidade didáctica". Conclui assi: "Fiquemos por aqui para nom tornar excessivamente prolixa esta revisom. Fiquemos por aqui mas nom encolhamos os ombros. Pobre ou rico, com os seus problemas e incoerências, as suas lacunas e as suas grandezas, o nosso património literário bem merece um pouco mais de lealdade. E os escolares galegos um pouco mais de respeito."

Carlos Taibo desfia diversos pseudoargumentos anti-independentistas (concretamente seis): o da esterilidade num mundo crescentemente interdependente, botando no olvido que "amiúde a demanda de independência responde à vontade expressa de pôr fim a um prolongado período de colonizaçom externa traduzido num permanente espólio de recursos"; a visom estatalista defensora da integridade territorial que nom pára na análise da situaçom concreta; o artificialismo ou construçom de "comunidades imaginárias", esquecendo que as comunidades existentes também som fruto da invençom; que tratar do interesse das elites, dos grupos dominantes, sem parar a examinar que tal universalizaçom semelha falsa; o velho problema da violência legítima, nom lembrando que "o status quo antes do processo de independência é quase sempre o produto da violência"; a questom da etnicidade como se fosse umha característica universal de movimentos nacionalistas e independentistas. Resumindo o anterior: "o discurso dominante nas nossas sociedades mostra umha geral vontade de demonizaçom dos nacionalismos responsivos e de paralela legitimaçom de poderes estatais que escondem o vigor de nacionalismos silenciosos comodamente instalados nos seus privilégios". Logo de exemplificar esses argumentos e contra-argumentos no caso jugoslavo, refere-se na parte final à ligaçom Nacionalismo-Internacionalismo: "O primeiro sem o segundo é umha realidade geradora de suspeitas e sempre ruim, que reflecte antes xenofobos sentimentos de superioridade que umha vontade de emancipaçom. O segundo sem o primeiro bem pode ser, pola sua conta, um exercício vazio produto da ignoráncia de muitas realidades marcadas pela opressom e a injustiça". Também critica a tam estendida ideologia de que os Estados estám a desaparecer no processo globalizador, quando é o poder económico e financeiro que quer ver-se livre de travages. Enfim: o desqualificado como localista e isolacionista justifica-se "como defesa dos valores próprios frente à ameaça dumha cultura que, universal mas nom universalista, responde obscenamente aos interesses dumha minoria privilegiada que teima em ratificar a sua situaçom de tal".

Xavier Vilhar Trilho analisa o que seria um processo de federalizaçom do Estado espanhol em que a questom da independência seria medular. Situa o sujeito num mundo interdependente com graves assuntos internacionais, como os acidentes nucleares ou a camada de ozono, num planeta de culturas diferenciadas que tenhem de resistir ao assimilacionismo, num sistema capitalista de troca desigual. Independência relativa, mas, pergunta-se, "por quê Catalunha, Euskal Herria ou a Galiza não podem aspirar à mesma pouca independência que tem actualmente o Reino de Espanha?". A independência, por mais que formal, sempre será mais independência que o seu nom desfrute (nom se entenda esta afirmaçom como justificaçom do status quo). É crítico co Estado e adentra-se no tema da violência que é assunto para os partidários da secesom, mas também para os que se oponhem a ela. Centrando-se no caso galego, às razons de subordinaçom política e cultural acrescenta as económicas, que nom seriam egoístas, "pois o que se buscaria com a independência seria eliminar o atraso e o subdesenvolvimento económicos provocados pela situação de uma dependência económica de natureza quase colonial". Aprofunda nos conceitos de naçom cultural, política e jurídica e advoga polo multiculturalismo. Também fai um repasso pormenorizado da questom lingüística e afirma que "os castelhano falantes da Catalunha, Galiza e Euskal Herria nom poderão gozar nos territórios catalão, galego e vasco das facilidades com que devem contar os falantes autóctones, porque, de não ser assim, os castelhano falantes converteriam-se nos agentes de uma comunidade lingüística vizinha de superior demografia e prestigio cultural, a castelhano falante, que actuaria como um cavalo de Tróia (...) dentro das comunidades lingüísticas não castelhano-falantes, desintegrando-as desde o interior delas". Introduz-se no complexo assunto da soberania num horizonte de paz e salvaguarda dos direitos humanos. E, já na parte final, define o Estado independente como o detentor de "capacidade para participar em pé de igualdade com os demais Estados na organização das interdependências recíprocas através das regras da boa vizinhança do direito internacional". Entende a federaçom como superaçom dos movimentos soberanistas tradicionais e, concretizando no Estado espanhol, admite que qualquer das naçons existentes poda preferir "constituir-se numa comunidade política à parte, em centro de imputação do poder constituinte e em membro, com plenos direitos e deveres, da comunidade internacional."

Antom Garcia Matos fala da violência do poder, da estrutural, em geral, mais especialmente da de Espanha sobre o povo galego: "Esses corpos sofrentes, violentados, impotentes, fatais e resignados, expulsados, cuspidos seriam para sempre o corpo dumha Galiza secularmente vexada, violada na sua mais sagrada defesa e amor à Terra". Ocupa-se da questom ético-ideológica para desmascarar a ideologia universalista das democracias formais e dos direitos humanos que demoniza o nacionalismo e o marxismo e pular por um "materialismo ético" (Alain Badiou) e umha "ética da libertaçom". Outrossi lhe preocupa o que nomeia como violência fantástica: "Para o nacionalismo a incapacidade, a frustraçom e a impotência para a transgressom, som sublimados em verbalismo retórico, desafogo literário e folclórico e ritual tribal, cujo paroxismo é o que chamamos culturalismo." Finda o ensaio cum breve recordatório da luita independentista desde o "primeiro independentismo (de pré-guerra)" até a dissoluçom da APU.

Manuel Soto Castinheira estuda o ecologismo e a autodeterminaçom na Galiza, indicando como a maior parte das organizaçons ecologistas pulam pola diversidade cultural e o desenvolvimento económico autocentrado. Sendo o ecologismo um movimento radical "que se di integrador das diversas luitas sociais (defesa do ambiente, defesa do património histórico-cultural, pacifismo, feminismo, antirracismo, solidariedade cos países pobres...), que qualifica os interlocutores mais próximos de esquerda tradicional por nom entenderem estes a luita ambiental na sua plenitude, e tratando-se de organizaçons que incluem entre os seus princípios o da autodeterminaçom dos povos, caberia pensar que o problema no Estado espanhol é plenamente assumido (...). Porém isto nom é assi ainda. Organizaçons ecologistas estatais seguem buscando vias de actuaçom na Galiza, através de grupos locais galegos federados ou integrados em projectos estatais, ou promovendo modelos de organizaçom-coordenaçom que podem dividir (...) a colaboraçom dos grupos galegos entre si. Manifesta-se também isto no rejeitamento por parte das organizaçons do centro estatal dum quadro de relaçons em pé de igualdade (...) que para algumhas organizaçons galegas só se pode pensar desde o respeito à independência e o exercício da nom ingerência". Entende o independentismo como "umha resposta concreta a umha situaçom de dependência política (...) sem deixar de considerar (...) outras saídas como pode ser o (con)federalismo". Preocupa-se da urdidura "capitalismo, globalizaçom e deterioramento ambiental" para propor um desenvolvimento sustentável frente ao crescimento, assinalando como "a irrupçom da consciência ecologista achegou nom só soluçons pontuais a diversos problemas, senom também um novo conceito de desenvolvimento" e conclui reivindicando umha coordenaçom entre todos os grupos ecologistas da Galiza, que se vem fazendo na FEG, onde "qualquer grupo membro pode participar sem renunciar à sua independência nem ceder o seu direito de representaçom pública ante a sociedade e a administraçom."

Lupe Cês divide o seu trabalho a respeito de feminismo e independentismo em três apartados nos quais fai repasso, primeiro, do independentismo e o feminismo organizado, referindo-se ao "parto, dependência e madurecimento de MNG", incidindo sobretudo na emergência, em 1986, dentro do BNG dessa primeira oganizaçom feminista da Galiza sob a legenda de "mulheres livres na Pátria libertada" e considerando aliás as organizaçons mistas, epígrafe que encerra com estas palavras: "Os debates internos sobre auto-organizaçom das mulheres, a prioridade que tem entre as jovens militantes o compromisso feminista; o teorizar sobre a nossa luita como algo "sectorial" e nom de transformaçom profunda da sociedade em todos os campos; a mesma negaçom da nossa realidade de algumhas posiçons independentistas, som um exemplo da situaçom actual". No segundo apartado, fai análise de "O projecto de país e o projecto feminista" distinguindo entre as independentistas que luitam por umha Galiza com Estado próprio e as correntes libertárias que pulam por libertá-la do jugo do Estado espanhol e de qualquer outro Estado. O terceiro tenta pensar o futuro fazendo incidência especial na questom demográfica e os direitos da mulher e no assunto da representaçom política. Pom fim ao ensaio com estas palavras: "Todas estas reflexons devem perceber-se dentro da necessidade de dar alternativas concretas a problemas pontuais. O Feminismo vê-se obrigado a levar avante luitas concretas pola simples sobrevivência, defender alternativas tácticas que mesmo apresentam contradiçons, a realidade impom muitas vezes as reivindicaçons mais imediatas, as do dia a dia, mas a nossa é umha vocaçom de ruptura e transformaçom, de revoluçom global, no público e no privado, para toda a Humanidade."

Miguel Garcia Nogales em "O combate da mocidade galega pola independência" examina o espaço que corresponde ao movimento juvenil no seio do Movimento de Libertaçom Nacional Galego (o tecido sectorialidade/globalidade), interroga-se se conseguirá o poder a imaginaçom do estudantado, separando nitidamente as revoltas estéticas das luitas revolucionárias, e considera que as bases da acçom política dos moços tenhem de ser: "rachar as dinámicas sociais individualistas e competitivas..."; "destruir o véu desmobilizador que cobre a consciência nacional e de classe da mocidade obreira, revitalizar um espírito combativo amorfo por anos de educaçom sobre mentiras, dogmas inquestionáveis e falácias neoliberais..."; "construir para si um modelo militante arredado do projecto juvenil do capital e dos média (consumista, individualista, passivo, egocêntrico), mas enraizado e fortemente centrado na realidade do país..."; "contextualizar as suas reivindicaçons e estrategias no seio dum movimento político de libertaçom nacional...". Em nota a rodapé recolhe umha pergunta que se fai o sociólogo Justo de la Cueva: "quê vam fazer os jovens bascos desempregados ou precarizados quando se lhes acabar o colchom familiar? Suicidar-se? Emigrar a nengumha parte? Ou é que, decatando-se de que nom tenhem que perder mais que o seu desemprego, tentarám fazer a revoluçom". E os jovens galegos?

André Seoane, no seu trabalho sobre o antimilitarismo, indica na introduçom contextualizadora a divisom em três apartados: "Um primeiro dedicado à análise daqueles elementos fundamentais para entender qual é a funçom do militarismo nas sociedades capitalistas; um segundo será um percurso histórico em que conheceremos como se introduziu o problema no nosso país e como o povo galego reagiu frente a ele; e o último (...) para tirar conclusons e estabelecer as linhas mestras do que tem que ser o MAG nos vindeiros anos". Nas conclusons assinala como o militarismo na Galiza é umha arma ao serviço do Imperialismo Espanhol e como o nacionalismo oficial "demonstrou umha incapacidade histórica para compreender a necesidade de criar umha alternativa à opressom nacional e social de Galiza unindo todas as luitas anti-sistémicas existentes dotando-as dum discurso patriótico"; também como o exército espanhol está a transformar a sua estrutura mastodôntica no processo de incorporaçom ao chamado "exército ocidental", polícia internacional da globalizaçom, "actuando rapidamente em qualquer parte do planeta quando lhes for requerido"; bem como "os corpos policiais, um deles, a Guardia Civil, ainda militar, cumprem umha funçom de repressom que noutrora cubriu o exército..."; igualmente aponta que o Estado Espanhol está a aproveitar a situaçom de precariedade laboral da mocidade galega para oferecer "aos/às colonizados/as um posto de sipaio em que poderám ganhar a vida"; por último, aposta por um modelo de defesa civil que permita "enfrontar-se ao imperialismo sem ceder nem um ápice da sua soberania a umha burocracia militar que, em outros lugares, tem-se demonstrado usurpadora da revoluçom".


PARTE II: UMHA ACHEGA TESTEMUNHAL, CRONOLÓGICA E DOCUMENTAL À HISTÓRIA DA ESQUERDA INDEPENDENTISTA.


Gostaria de principiar por patentear que o que tinha intençom de ser umha cronologia breve do independentismo com algum apêndice documental passou a converter-se em mais de dous terços do livro e achega elementos essenciais para ir cobrindo esse ermo (em modo nengum justificável polo que sempre se di das dificuldades de historiar o presente, pois há, como se pode ver, umha já dilatada história e, mesmo na actualidade, umha academia e outras instáncias, que estudam minúcias de duvidosa utilidade teórica-prática cos parabéns e o financiamento dos poderes instituídos e fácticos, bem poderiam dar umha olhadela a questons em que está em jogo a nossa sobrevivência como identidade diferenciada e, inclusive, a simples sobrevivência) dessa Galiza recusada.

Se difícil foi tracejar em I esse mapa que os autores e autoras qualificarám, a bom seguro, de escaso, esvaído ou algo menos confissável, em II apresenta-se de todo o ponto inviável tentá-lo (som páginas e páginas de testemunhos documentados pormenorizadamente e de textos de diversas etapas, impossíveis de sintetizar, nem tam sequer minimamente, de nom querer mudar o limiar num pesadelo). Assi pois, só resta convidá-l@s a ir à leitura dos textos directamente. Embora por cortesia cos autores/as e cos leitores/as me vaia permitir umha linhas de apresentaçom sumária.

Abre-se cum artigo (de 1979) do professor Lôpez-Suevos em que debatia (sujeito a que voltou em repetidas ocasions) sobre o independentismo "formal", a pervivência das discontinuidades de orige cultural por mais que se teime em suprimir as fronteiras políticas, a questom dum Estado plurinacional, a nom existência em abstracto dumha dimensom óptima das naçons, os problemas da homogeneidade e da heterogeneidade intranaçom, o complexo do colonizado, a nom existência de países "naturalmente" ricos ou pobres, a Europa das naçons, etc., etc.

Luis Gonçález Blasco (Foz) colabora cum ensaio, ou mais bem um livro dentro doutro, co título "Da crise no Comité Central da UPG em 1976 à cisom da FPG em 1989". Cumpre tomar boa nota de algo que di no apartado de justificaçom e agradecimentos: "Vou fazer algo de história de umha parte deste processo [está a referir-se ao independentismo galego] em que participei como actor. Esta participaçom vai condicionar o meu trabalho (...). Em alguns casos, excederei-me dos limites temporais que me tenho marcados por considerar que a história é um continuum em que nem sempre se podem fazer cortes mecánicos (...). Também deverei tocar, mesmo tangencialmente, processos em que tivem pouco ou nada a ver mas cujo estudo é necessário para a compreensom de todo o processo (...) e seria bom que gentes que os vivêrom desde o interior achegassem também o seu ponto de vista".

Inácio Martínez Orero, como no caso anterior um livro dentro do livro, escreve sobre as pegadas da história recente do independentismo, mas convergindo nos factos que acontecêrom entre 1986 e 1991 e as suas conseqüências. E aliás convida, como no caso de Gonçález Blasco, a que "cada umha das pessoas que participamos na luita, e sobretodo as que assumimos e tivemos mais responsabilidades, deixemos narradas as nossas lembranças e análises para reconstruir, desde diferentes jeitos de ver as cousas, a curta história do independentismo revolucionário (...). Mas a história teria mais valor objectivo no momento que alguém, historiador ou historiadora, ou pessoa que conheça a metodologia científica da investigaçom, ponha mans à obra e comece a relatar dum jeito honesto, o mais objectivo possível". De muito interesse as páginas finais de "Algumhas achegas para a nova etapa" em que fai autocrítica, convida a aprender do passado e a seguir construindo um movimento revolucionário (no que há que "estar co povo, aprender do povo e luitar co povo") na periferia do primeiro mundo, mas com carácter global e solidário.

Noa Rios Bergantinhos entrevista Antom Árias Curto e fai-lhe as mais variadas perguntas sobre a constituiçom, a procedência política do núcleo inicial, a evoluçom posterior, a participaçom das mulheres, a organizaçom e financiamento, a cobertura política, os elementos ideológicos básicos, os referentes internacionais, a valorizaçom do projecto do EG. Igualmente, a respeito da situaçom actual do conjunto da esquerda independentista.

Carlos Morais e Noa Rios Bergantinhos explicam de jeito sucinto em "Recuperemos a história da esquerda independentista" (em menos de cem linhas, o que me escusa de seguir escrevendo) o sentido do seu prolixo, complexo e laborioso trabalho de cronologia, comportamento eleitoral e selecçom de documentos, mais de cem páginas em letra miúda e grande formato para contribuir para encher um oco, por mais que o expressem coa modesta intençom de "chamar a atençom sobre a necessidade de recuperarmos o nosso passado". Reclamam também um "Instituto Nacional de Documentaçom e Estudos Históricos do Independentismo" que se centre em recuperar a documentaçom "espalhada por meio mundo, abandonada nos faiados de inumeráveis casas, guardada em colecçons particulares, ou desordenada nos arquivos de diversos Estados". Também aludem à quantidade de consultas realizadas de que se deduz doadamente os milhares de horas acumuladas nestas páginas que tenhem diante.

Se ainda nom saltárom este prólogo, nom quero entretê-l@s por mais tempo. Nom é um livro para ler nunhas poucas horas. É umha obra aberta para estudar com acougo, pois nom é doada, e debater com desacougo.


Domingos Antom Garcia Fernández
Ponte-Vedra, Julho de 2000

Economia e natureza ou como construir sistemas sócio-económicos mais justos. Xavier Simom Fernández.

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