LÍNGUA, CULTURA E IDENTIDADE NA GALIZA ACTUAL


Maurício Castro, presidente da Fundaçom Artábria


A importáncia da língua na configuraçom da identidade


A força de ser repetido nos textos teóricos do nacionalismo galego desde os seus inícios, a afirmaçom tem perdido parte do seu poder conotativo, deixando de transmitir o conteúdo semántico para degenerar em mero recurso retórico que o mesmo pode ser usado polos nacionalistas do BNG que polos espanholistas do PP; polas entidades folclóricas pós-franquistas que ainda mantenhem posiçons nas nossas vilas e cidades, que por organizaçons independentistas mais -ou menos- conseqüentes; polo apresentador televisivo que mal usa o galego nos sessenta minutos semanais de programa, que polo estudante comprometido com a causa normalizadora; polo pai galegofalante que fala espanhol à sua filha espanholfalante e votante nacionalista, que pola mae galegofalante com convicçons, impotente ante a deserçom idiomática do seu filho ao pouco de entrar na escola pública que tanto defende... Contudo, e ainda que desgastado polo uso gratuíto sem correspondência prática, vemo-nos na obriga de dizê-lo mais umha vez, com Castelao: se ainda somos galegos e galegas é por obra e graça do idioma.

Porque esta sentença guarda em si todo o universo significativo, todo o sustento da aposta a que muitos povos na história tenhem recorrido para ultrapassarem as estreitas margens de soberania cedidas polo poder estrangeiro imposto e recomeçar a sua história em liberdade. Nom pretendemos defender qualquer essencialismo lingüístico que leve a desprezar outros traços centrais e definitórios da identidade específica dos povos. De facto, a língua nom é elemento indispensável na autoafirmaçom e conseguinte autodeterminaçom ou construçom nacional. É mais bem a vontade de ser de cada povo, e a partir daí a vontade de construir um projecto nacional próprio, o que possibilita a posta em prática desse direito. Daí que povos vizinhos que partilham língua como elemento definidor podam nom sentir-se parte de umha mesma naçom (sérvio e croata, p. ex.).

A língua é, isso sim, ingrediente de primeira ordem na formaçom e conservaçom dessa base material que subjaz objectivamente à vontade subjectiva imprescindível para viabilizar um projecto nacional. Porque, lembremo-lo, a língua é o único elemento cultural de que precisam todos os mais, quer dizer, através da língua materializa-se boa parte do acervo cultural de um povo, os seus costumes, as suas relaçons sociais,... A sua identidade.

A perda da língua, por si, nom implica o desaparecimento de umha comunidade nacional, mas a realidade mostra-nos teimudamente que ambos os factos costumam efectivar-se ao mesmo ritmo. Seria difícil saber se é a perda da língua que provoca a liquidaçom de todo esse universo simbólico -e material-que dá conteúdo ao povo que a falava, ou se é a progressiva dependência económica e cultural que fai com que a língua, associada à personalidade colectiva em declínio, se apague progressivamente. Seguramente estejamos ante um processo diálectico que parte da componente económica para incidir na social e cultural, cujo empobrecimento afunde mais na perda de autoestima e incapacidade de reacçom colectiva. Umha reacçom colectiva que pode mesmo chegar tarde e topar já umha etnicidade deteriorada ou transmutada.
No caso irlandês, por exemplo, oitocentos anos de dependência do poder inglês conseguírom enfraquecer a identidade e a língua irlandesas . A vontade de ser do povo irlandês, historicamente comprometido na sua sobrevivência, acabou em 1921 por atingir plasmaçom política na sua independência e criaçom de um Estado próprio. Mas esse facto nom garantiu a sobrevivência da identidade precedente à tomada de consciência. A dia de hoje, a língua continua minorizada, a comunidade nacional irlandesa tem incorporado o inglês ao seu corpo identitário, com outros muitos ingredientes materiais e objectivos que a definem como grupo humano. Há pouco umha rapariga irlandesa reconhecia-me que a identidade irlandesa estava muito erosionada face à inglesa e que, ante a perda da língua, a música aglutinara boa parte da vontade de ser colectiva. Seguramente se trate de um projecto diferente do que poderia ser protagonizado por umha recuperaçom lingüística acompanhada de todo esse universo ou cosmovisom que nestas décadas escapou entre os dedos ao povo irlandês apesar de contar com umha arma de construçom tam importante como o Estado próprio.

Na nossa Galiza, a manutençom da língua ao longo dos séculos de domínio castelhano-espanhol foi parelho à conservaçom da identidade do nosso povo, materializada numha capacidade e consciência produtivas próprias, numha forma de assentamento na terra específica e diferente da dos povos vizinhos, numha realidade antropológica e etnográfica marcadamente original e compactadora da nossa comunidade humana. É claro que esta conservaçom é relativa, porquanto se tem dito com toda a razom que a história do nosso povo é, a partir do século XVI, a história de um processo de perda de memória colectiva do que tinha sido no passado. Aliás, achamos em falta no caso galego o compromisso da classes dirigentes -ou a maior parte delas-na defesa da identidade e os seus interesses como classe nacional, o que, juntamente com as relaçons económicas que nos vinculam com a metrópole, permite detectar pontos em comum com o colonialismo clássico.

Mas o certo é que, até fins do século XIX, a Galiza mantivo boa parte da sua integridade como comunidade indígena sem acesso às vias de progresso capitalista que naquela altura se abriam noutros lugares do Estado espanhol. Mesmo até já ultrapassada a primeira metade do século XX, a Galiza conservava, degradada, a identidade nucleada por um idioma que subsistia em precário, nas mesmas condiçons que vivia a grandíssima parte do povo galego.

Durante este século, e nomeadamente na sua segunda metade, acentuou-se a situaçom de dependência galega, com transformaçons sócio-económicas de fundo calado que nas últimas décadas levárom a desfazer a base sociológica que conservara a identidade tradicional galega.

Com tudo isto queremos sublinhar como a língua acompanha a identidade, mais do que ser causa dela, e como a perda da língua costuma transparecer a liquidaçom de toda a materialidade que encarna. No caso galego, este processo avança a olhos vistos por mais que, paralelamente, pareça querer desenvolver-se umha consciência nacional plasmada no voto nacionalista e em pouco mais... De jeito que pode acontecer que essa nova consciência deixe de identificar-se com o que tradicionalmente definiu a nacionalidade galega, ou com elementos centrais da mesma, como a língua.
Nom sabemos aonde pode chegar a citada "vontade de ser" incipiente, mas por enquanto carece de grandes objectivos no que di respeito à articulaçom da Galiza como naçom, limitando-se a manifestar a reclamaçom de "reformular" o Estado espanhol para que a Galiza "tenha mais peso" nas decisons que lhe afectam. Quer dizer, podemos estar longe mesmo das aspiraçons históricas de um nacionalismo irlandês que, contudo, deixou no caminho boa parte do seu ser colectivo originário.
Na política estritamente lingüística, evita-se entrar a definir os objectivos estratégicos em termos de "territorialidade" , e os próprios programas partidários ajustam-se ao desenvolvimento "polo livro" do modelo bilíngüe oficial, ante a possibilidade de outros pronunciamentos comportarem custos eleitorais.

Nesta altura, as formulaçons culturais galegas nom passam em muitos casos de aspirarem a um espaço próprio dentro do grande campo cultural comum hispano. Mesmo de discursos declarados "radicais", mantém-se umha alarmante dependência dos modelos difundidos polo Estado. Fai-se da cultura galega umha variante marcada a respeito da espanhola, autolimitada sob parámetros do "diferente", tomando como referência a hegemónica cultura hispana. Vemos isto claramente na negativa a abrir as portas ao campo por história e por conveniência futura próprio para um relacionamento igualitário a partir da nossa identidade: o galego-luso-brasileiro face ao hispanoamericano em que nos insere Espanha .

Nom espanta que personagens como Francisco Vasques (presidente da Cámara da Corunha) reajam incontroladamente ante o primeiro gesto neste senso de um eurodeputado galego em Estrasburgo, ao aproveitar a oficialidade do português para incorporar o galego a um uso pertencente à funçom internacional (algo impensável noutras comunidades minorizadas da Europa como a basca ou a catalá). Lembremos que acusou o político nacionalista de "negar a sua espanholidade". Mas sim espanta que todo um flamante novo académico da língua como Francisco Fernández Rei , com certeza defensor da língua, se revoltasse ante esse mesmo facto reivindicando a persistência no isolacionismo mais furibundo e irredento.

Limita-se amiúde a cultura galega a umha versom adaptada da difundida por Espanha . Isto é conseqüência do enfraquecimento progressivo do já de por si fraco espaço simbólico galego, que lembramos está constituído polos falantes completos de umha língua, que constituem o centro difusor de cultura original e criativa da qual se nutre a comunidade lingüística em questom. A falta de um sólido espaço simbólico próprio, o esfarelado corpo social defensor do galego vegeta entre o serviço a Espanha de sectores teoricamente "galeguistas", o possibilismo inoperante do "nacionalismo cultural" maioritário e um voluntarismo impotente dos sinceramente comprometidos -e nom hipotecados- com a língua e a cultura nacionais.

Ante estas três "linhas de fuga" resultantes da inexistência do espaço simbólico galego, nom nos cansamos de repetir que:

1º.- A suposta normalizaçom lingüística oficial nom pode ser chamada assim, pois é umha aposta pola mais lazarenta dependência cultural e lingüística a respeito das potentes cultura e língua espanholas. A vertente gráfica é apenas a ponta de um icebergue cujas dimensons nom alcança na sua totalidade a visom humana. É pois umha aposta pola progressiva e inexorável homologaçom com os padrons do poder colonial, que lingüisticamente se manifesta na evidente hibridaçom com o idioma dominante, ao tempo que se teima em culpar o reintegracionismo de todos os males do galego.

2º.- O possibilismo, gráfica e simbolicamente representado polos "mínimos", é um beco sem saída, um caminho a nengures que subordina qualquer avanço real e significativo na construçom de um espaço simbólico próprio à consecuçom de nom se sabe que quota de poder político manifestado numha opçom partidária concreta. O exemplo irlandês di-nos que, mesmo postos no mais ambicioso dos planos estratégicos (a conquista da independência), um aparelho político-administrativo nom garante a normalizaçom se nom for precedido ou acompanhado da articulaçom dos sectores sociais interessados na mesma. O contrário supom, como já se está a ver, largar lastro e redefinir o projecto com umhas coordenadas que o distanciam de umha reconstruçom nacional que restaure a identidade conservada durante séculos, e que hoje vemos como nos "escapa entre os dedos".

3ª.- O voluntarismo impotente de aqueles sectores que nom fam parte dos grupos anteriores desgarra-se na sua impossibilidade de atingir umha certa incidência real, carente de um plano normalizador que priorize a articulaçom de um espaço simbólico, por pequeno que for quantitativamente, mas com o peso qualitativo suficiente para tornar-se em núcleo ideativo, centro emissor de normalidade que o faga medrar de dentro para fora. Este caminho efectiva-se através de projectos muito concretos como podam ser centros sociais, meios de comunicaçom ou escolas, por citar três vias pouco ou nada exploradas e que noutras comunidades lingüísticas tenhem demonstrado a sua utilidade. Projectos concretos motivadores que empurrem à sua multiplicaçom, partindo sempre de um princípio sociolingüístico básico: os objectivos lingüísticos devem situar-se por cima das opçons político-partidárias concretas, pondo-as ao seu serviço para evitar que aconteça, como hoje, o contrário.

Temos já apontado algumhas chaves que explicam a importáncia da língua, a sua decadência aqui e agora, e a possível via de recuperaçom. Vamos agora tentar aprofundar um bocado no camino trilhado até chegarmos aonde estamos, bosquejando as linhas mestras que julgamos devem guiar a recuperaçom do nosso espaço lingüístico e cultural.

Da história à actualidade: para percebermos o presente

Talvez nom esteja actualmente na moda ligar fenómenos sociais acontecidos num país concreto como a Galiza a acontecimentos globais e históricos de carácter sócio-económico, sobretudo se esse acontecimento, de grandes dimensons, for o modo de produçom capitalista. Um sistema mundializado que conta entre os seus méritos fazer acreditar na sua irremediabilidade e bondade até, apesar de nos factos confirmar-se dia a dia a sua inviabilidade em termos nom já das sociedades humanas, quanto da sobrevivência do próprio planeta como até hoje o conhecemos.

Consideramos necessária umha pequena incursom nessas ligaçons históricas entre a Galiza e o mundo se quigermos perceber os séculos de histórica dependência da nossa terra a respeito de grandes centros de decisom alheios aos interesses do país. Entre outras causas, porque queremos partir da negaçom de qualquer malfadado destino que nos condenou teleologicamente a umha miserável existência como povo.
Na verdade, a dependência da Galiza, a partir sobretudo do século XVI, está ligada à progressiva irrupçom do que Wallerstein chama capitalismo histórico . Nascido numha Europa feudal em crise, por iniciativa das minorias oligárquicas, supujo umha aposta por umha globalizaçom económica que o mercantilizou tudo, e que obrigou a umha reformulaçom das superestruturas políticas herdadas do medievo em favor de grandes Estados-naçom construídos à custa de comunidades nacionais marginalizadas pola hegemonia de determinados espaços económicos no centro da economia-mundo capitalista. Galiza ficou enquadrada no espaço económico e político representado primeiro polos Reis Católicos, que cresceu até converter-se em hegemónico tentando com os Habsburgo converter-se em Império, ao modo dos existentes noutras fases históricas anteriores. Mas a natureza do capitalismo mundial nom admitiria a plasmaçom política de novos impérios. O fracasso nessa tentativa seguiu-se da perda de potencial económico e protagonismo político em favor da Holanda (século XVII), que por sua vez cederia a sua hegemonia à Inglaterra (séc. XIX), e esta aos EEUU (segunda metade do século XX), prévia derrota da candidatura alemá; uns EEUU que actualmente vivem a sua própria crise...

Este novo sistema capitalista, que irrompe nos séculos XV e XVI, irá queimando etapas e vendo como surgem movimentos anti-sistémicos na sua fase mais avançada, na qual ainda estamos. Tais movimentos som o comunista e o nacionalista, que quando se conjugam produzem um potente movimento de resposta em princípio chamado a ultrapassar o modo de produçom capitalista, mas que até esta altura se tem mostrado incapaz de enterrar esse sistema mundial, porventura devido ao carácter particular e nom universalizador das acometidas revolucionárias, carácter que acabou por favorecer que terminassem engolidas polo potencial do sistema com que queriam dar cabo.É neste quadro de desenvolvimento e expansom internacional do capitalismo que devemos situar o aniquilamento físico de povos inteiros, com as suas línguas e culturas próprias, sistematicamente reproduzido em todos os cantos do planeta. É manifestado com intensidade e características diferentes segundo em que ámbito do palco mundial se desenvolva, indo do extermínio cru e nu dos povos índios americanos, à deslocaçom maciça de povos africanos para serem escravizados ou à assimilaçom progressiva e igualmente efectiva dos povos europeus atrapados sob os aparelhos estatais dos grandes projectos económicos do centro capitalista, cuja lógica incluiu a criaçom de grandes naçons ao serviço dos ditos projectos. Neste senso, e sem entrarmos na discussom de se a irrupçom capitalista supujo avanço real para o conjunto do planeta em termos de bem-estar global, sim podemos afirmar sem duvidá-lo um instante que significou um tam evidente como injusto empobrecimento no que se refere à diversidade cultural e lingüística das sociedades humanas, empobrecimento que continua avançando a ritmo crescente.

Quanto aos povos assimilados no continente europeu, evidenciou-se umha maior agressividade ali onde o capitalismo estava mais desenvolvido, como os Estados inglês e francês, o que nalgum caso provocou mesmo a reacçom das burguesias dessas naçons minorizadas, como a catalá dentro do Estado espanhol, que pactuou com a oligarquia espanhola em funçom de interesses económicos comuns, mas sem aceitar unanimemente a sua submissom cultural. Noutros casos, o imperialismo desses Estados acabou por significar o desaparecimento de línguas e culturas presas no seu seio. É o caso da Cornualha, no Estado británico, que perdeu a derradeira falante natural de córnico em 1777.

Durante todos esses séculos, independentemente das vicissitudes político-administrativas do Estado que nos "apadrinha", o povo galego, afastado e esquecido do capitalismo industrial incipiente pola sua condiçom periférica, conservou umha identidade, um idioma, umha cultura e umhas características sócio-económicas próprias, por mais que até o século XIX nom começasse a formular-se umha vontade de ser subjectiva que fora apagada por centos de anos de negaçom imbuída dos centros de poder espanhóis. Lembremos a coincidência entre essa primária articulaçom da consciência galega e a ofensiva do projecto nacional espanhol nuns tempos em que está a perder as "províncias de ultramar" e portanto vê minguar o espaço físico referencial de construçom da sua naçom.

O franquismo supujo umha dura prova para este povo. Aniquilados fisicamente os sectores mais lúcidos e conscientes da necessidade de construir a naçom galega, atravessamos décadas de repressom de qualquer cousa que representasse a consciência galega. Potencializou-se o auto-ódio e enfraqueceu-se a nossa auto-estima, mas o certo é que, em época tam serôdia como a década de sessenta, a realidade sociológica e económica mantinha-se ainda nuns parámetros de presença maioritária da identidade galega na imensa maioria das manifestaçons do povo. Isso sim, umha identidade ferida e deteriorada polas agressons sistemáticas, auto-negada e desprezada polos próprios utentes quando chegava o momento de socializá-la fora das grandes reservas rurais em que sobrevivera. É isto o que explica a famosa diglossia diagnosticada naquela altura polos primeiros sociolingüistas galegos .
Porém, a partir dessa altura, a sociedade galega sofreu transformaçons estruturais na sua economia, com implicaçons demográficas e em geral sociológicas de que a língua e a identidade galegas nom pudérom abstrair-se . E chegamos assim ao ponto de partida da nossa formulaçom no que di respeito ao contexto sociolingüístico nas últimas décadas, contexto que nos toca viver e transformar se quigermos pôr as bases de um futuro para a língua da Galiza, e com ela da nossa identidade colectiva como povo que quer ser naçom.

Se em 1950 a correlaçom entre populaçom rural e urbana era de 78'6% e 21'4% respectivamente, em finais da década de setenta, a percentagem de assentamento rural face ao urbano representava ainda 71'5% contra 28'5%. A intensa e repentina concentraçom de indústrias e serviços nas escassas áreas urbanas ainda nom dá a volta ao que fora umha característica constante na história demográfica da Galiza: o seu carácter rural. O certo é que a emigraçom e o êxodo às cidades vinha já ao longo do século XX encurtando a diferença entre populaçom urbana e rural, que em 1900 se calcula que se repartia com percentagens respectivas de 10% e 90%. Mas, nas últimas décadas, o despovoamento rural tem-se incrementado, o que juntamente com o envelhecimento da sua populaçom e a concentraçom dos habitantes nas vilas principais de cada comarca, onde se agrupam os serviços públicos mais importantes, tem transformado radicalmente a composiçom social galega. Hoje a populaçom galega caracteriza-se polo seu progressivo envelhecimento e a baixa taxa de natalidade, junto da sua distribuiçom irregular, concentrada nas zonas costeiras e alguns vales do interior, ficando cada vez mais despovoado o resto do território.
Estes dados tenhem umha série de conseqüências evidentes na configuraçom da identidade, no que esta tem de base objectiva que alicerça a formulaçom do nosso projecto nacional. A Galiza rural foi historicamente a que conservou a identidade colectiva deste povo, e nom tanto por persistência consciente ante a invasom cultural alheia quanto polo isolamento imposto e a inexistente penetraçom dos mecanismos sócio-económicos definidores dos novos tempos. O papel reservado à Galiza polo capitalismo histórico representado polo Estado espanhol permitiu-lhe manter essa empobrecida, erosionada e nom evoluída personalidade até tempos bem recentes . Mas as últimas três décadas fôrom fulcrais na sua rápida liquidaçom, que acabamos de esquematizar em cifras.

O correspondente cultural ao processo que comentamos reflecte-se na perda dos costumes ligados a essa ruralidade em declínio; na perda da prática musical no seu contexto histórico, o que tornou providencial a recolha de material etnomusical nestes decénios e permite hoje umha certa recriaçom e actualizaçom no contexto urbano de semelhante tesouro ancestral resgatado da derrubada do mundo que o criara; na ruptura da transmissom intergeracional das milenárias narraçons populares que só parcelarmente fôrom e som resgatadas a partir das derradeiras geraçons transmissoras... Mas sobretudo na perda do ingrediente comum a todas essas e outras manifestaçons da nossa cultural nacional: a língua. Um ingrediente cuja conservaçom como córpus, numha gramática ou em gravaçons etnolingüísticas nom é suficiente para dizermos que ficou resgatado. Porque a língua, ou mantém o seu papel central na interligaçom colectiva do povo que a criou e usou durante tantos séculos, ou devém puro resíduo museístico carente de razom de ser conforme à sua própria natureza.
A rápida transformaçom da sociedade galega nos últimos trinta anos manifesta-se no vertiginoso recuo do galego como instrumento lingüístico de comunicaçom. Nos anos sessenta era muito maioritário o seu uso em todas as geraçons, embora fosse um uso ferido polo fenómeno diglóssico, que se manifestava na partiçom funcional entre galego e espanhol. O galego ocupava folgadamente as funçons reduto: a de identidade (pensamento) e a familiar, além da laboral -indo da mais interna à mais externa-. O espanhol ganhara o terreno das funçons mais externas: cultural, institucional, local,... A manutençom das funçons que chamamos reduto, a de identidade e a familiar, é o que historicamente tinha garantido umha certa vitalidade à nossa língua, embora fosse em precário. Contra o que pudesse parecer, a estabilidade dessa partiçom terminou por mostrar-se como nom eterna, dado que a partir sobretudo da década de sessenta, as modificaçons estruturais da sociedade galega activárom a invasom funcional do espanhol ante a qual o galego nom foi capaz de reagir.

O certo é que nesses anos começou a reorganizar-se o nacionalismo galego em defesa dos direitos nacionais, entre os que a língua ocupou lugar de destaque. Mas o diagnóstico de aquela situaçom por parte dos sectores comprometidos com a língua nom preveu semelhante retrocesso como o que hoje verificamos. O incipiente movimento normalizador, crescentemente mobilizador e tensionado, mantivo o pulso de maneira mais ou menos intuitiva durante a chamada transiçom conseguindo concesons por parte do poder. Umhas concesons que, paradoxalmente, acabárom por adormecer, desactivar, essa movimentaçom normalizadora. Tinha-se conseguido a cooficialidade, mesmo umha Lei de Normalizaçom Lingüística e até umha norma padrom (imposta por decreto e contrária a qualquer consenso dos agentes sociais implicados). Mas no caminho perdera-se a tensom normalizadora dos sectores populares mais conscientes, que confiárom o labor de recuperar a sua língua aos centros de poder até essa altura abertamente repressores do galego e de aí para a frente muito mais subtis e efectivos numha política igualmente conducente à assimilaçom definitiva da nossa língua nacional.

Hoje, no limiar do século XXI, cumpre pararmos a reflectir um bocado no acontecido nestas últimas décadas. Na evoluçom geral da sociedade galega no plano económico, cultural, sociológico. Nas implicaçons dessa evoluçom no plano lingüístico, porque as tivo. Num quadro económico de descomposiçom dos sectores produtivos galegos, de aprofundamento na contradiçom campo-cidade, de correlaçom demográfica entre ambos os espaços em termos de já 63'% face a 36'5% , de contínuo envelhecimento populacional,... O quê está a acontecer com a língua?

Nom é preciso especularmos com as implicaçons do contexto anterior, que se completa no cultural na cooficialidade lingüística, o acesso do galego a funçons formais e outras concesons polo estilo. Existem dados objectivos que descrevem com umha certa precisom qual foi a situaçom da língua galega na década de noventa.
Os inquéritos falam-nos de valorizaçom positiva da língua por parte da populaçom galega, de um alto grau de conhecimento da mesma,... e de umha queda espectacular no que di respeito aos usos.

Nom queremos abafar com dados, mas é fundamental fazer referência a alguns que constituem a prova objectiva da nossa base argumental. Vejamos portanto o que nos dim:

Historicamente, foi muito maioritária a populaçom monolíngüe inicial em galego sobre a monolíngüe inicial em espanhol, de forma que entre as pessoas que hoje tenhem mais de 65 anos som 81,8% face a 11'3%. Segundo descermos na idade, reduz-se a diferença e na faixa etária entre 16 e 20 som POLA PRIMEIRA VEZ NA HISTÓRIA maioritárias as galegas e galegos monolíngües iniciais em espanhol (45% face a 34%).

Quanto à língua de uso habitual, os dados absolutos do total da Galiza dim-nos que falam mais galego ou só galego 68'6%, falando portanto mais espanhol ou só espanhol 31'4%. Este é o dado empregado continuamente polas instituiçons e grandes meios de comunicaçom para afirmarem que na Galiza a normalizaçom lingüística avança a bom ritmo. No entanto, devemos debruçar em dados relativos para chegarmos a um retrato mais realista. Nas pessoas menores de 26 anos, a relaçom situa-se já no conjunto da Galiza entre 53'4% (mais ou só espanhol) e 46'5% (mais ou só galego), enquanto entre as de mais de 65 era de 15'3% e 87'2% respectivamente. Se analisarmos o hábitat, veremos que nos espaços urbanos falam maioritaria ou exclusivamente espanhol 62'4% e só ou mais galego o restante 37'7%. Quer dizer, o galego é já minoritário no conjunto da Galiza em pessoas menores de 26 anos e também em todas as idades nos centros urbanos do país, até o ponto de que se combinarmos espaço urbano e periurbano com idade baixa (16 a 25 anos), chegamos a dados de maior ou exclusivo uso habitual do galego como 35'1% em Compostela, 9'8% na Corunha, 4'8% em Ferrol, ou 14'3 em Vigo. Portanto, minorias em ocasions exíguas.

Poderíamos continuar com dados referidos a diferentes sectores como o ensino, os meios de comunicaçom, a administraçom, a justiça, etc., para comprovarmos a posiçom totalmente marginal do galego como língua de uso real e efectivo nesses ámbitos. Porém, evitaremos aprofundar nessa linha, porquanto é evidente com só dar umha vista de olhos sobre a realidade que nos rodeia. Sim me pareceu necessário oferecer os dados anteriores para tentar desmitificar a suposta maioria de galegofalantes. O certo é que na gente nova e nos espaços urbanos -onde se projecta o seu futuro- o galego é já muito minoritário, e só a grande percentagem de populaçom envelhecida fai com que os dados absolutos continuem, de algumha maneira, a enganar os nossos sentidos. Isto dá umha trascendência enorme ao momento histórico que estamos a viver, pois significa que o espanhol está passando de ser língua minoritária maiorizada a língua maioritária maiorizada, enquanto o galego de língua maioritária minorizada a língua minoritária minorizada . A correlaçom actual conduz a umha completa marginalizaçom do idioma "menor" face ao "maior" e é umha situaçom instável, ao contrário da anterior, definida por umha estabilidade concretizada na Galiza nos séculos de minorizaçom do galego como língua maioritária. Eis, em essência, a mudança qualitativa da situaçom social do galego a que vimos fazendo referência. Eis, além do mais, a realidade que a maioria do nacionalismo galego actual nom afronta, acusando de "catastrofistas" o que nom som senom análises objectivas.
Só a falta de compreensom desta realidade pode explicar que a defesa da língua nom seja prioritária no agir do nacionalismo, quer seja nas suas organizaçons políticas e sociais, quer nas instituiçons a que acede como oposiçom ou força governante até.
Aliás, as forças anti-galegas dominantes na Galiza actual sabem, essas sim, aproveitar certos dados como o grau de conhecimento ou a valorizaçom que o povo galego maioritariamente mostra nos mesmos inquéritos a que fazemos referência, para desinformar sobre a saúde actual da nossa comunidade lingüística.

Com efeito, os dados referidos ao conhecimento som altos, o que se explica a partir primeiro do contacto que ainda existe entre a maioria do povo galego com a língua, que mantém espaços ambientais amplos, junto da proximidade lingüística com o dominante espanhol, que torna fácil perceber e até falar galego a partir desse idioma. De outra parte, haveria que relativizar esse grau de conhecimento pola degradaçom e hibridaçom que sofre o galego, o que fai com que se encurte a distáncia com o espanhol satelizando a nossa língua até o ponto de afirmarem-se competentes em galego pessoas que, sem o conhecimento profundo do falante inicial ou nativo, se limitam a castrapejar de qualquer maneira. Isso, para nom falarmos do plano escrito, onde a dependência permite que quase qualquer pessoa alfabetizada em espanhol se poda considerar competente em galego, porque "se escrevem de modo muito semelhante".

Quanto à valorizaçom positiva que a maioria das pessoas perguntadas fam da língua e da necessidade de normalizá-la, sendo um bom dado em si, nom indica mais do que a existência de umha maioria social que ocupa posiçons longe do espaço simbólico, do uso completo, mas que da periferia a respeito do mesmo nom mantém atitudes agressivas com umha hipotética normalizaçom. Polo contrário, afirma que a apoiaria. Mas, na verdade, nom compromete a sua vontade com um processo desse tipo, senom que manifesta no dia a dia umha total passividade que, é claro, poderia transformar-se em actividade de articular-se um espaço simbólico e aplicar-se umha planificaçom adequada. No entanto, sem a articulaçom desse espaço, a situaçom tem-se manifestado historicamente instável e a perda de referentes materiais como a própria língua junto do reforço da presença e assunçom do espanhol como língua de identidade de amplos sectores da populaçom galega pode fazer com que num futuro em que já tenham morrido os "avôs que falavam galego", este deixe de despertar neles essa apática simpatia, para afirmarem-se na sua nova identidade lingüística. Nesse suposto, o galego poderia inclusive manter certos espaços de uso em qualidade de língua de transmissom cultural, e até resultar prestigioso o seu conhecimento ou uso em determinados "ritos" professionais ou culturais (algo disso já acontece em certos postos funcionariais dependentes da administraçom autonómica), mas sem a imprescindível transmissom natural que define as línguas vivas. Nom seria o primeiro caso na história, é claro.

Adoptando a conceptualizaçom relativa à aprendizagem -individual e colectiva- introduzida por Sánchez Carrión , podemos analisar as características do caso galego dizendo que historicamente se situou no máximo de uso primário, com umha óptima correspondência na percepçom natural e umha baixíssima motivaçom. A ruptura do circuíto da aprendizagem nesse ponto impossibilitou o ascenso à percepçom secundária e dela ao conhecimento mais elaborado que acabaria por estender o uso generalizado. Ao nom acontecer isto, a falta de motivaçom junto da ruptura na transmissom natural da língua -lembremos o hábito de os pais galegofalantes falarem espanhol aos filhos- provocou a queda no uso das novas geraçons. É um caso semelhante ao de Euskal Herria Norte, onde se está a produzir também umha importante diminuiçom do uso polo mesmo processo degenerativo no circuíto de aprendizagem. E é o caso contrário do acontecido no Sul de Euskal Herria, onde se partia de usos muito baixos e um grande índice de motivaçom -é habitual os pais espanholfalantes se preocuparem para que os filhos acudam a escolas em que o basco é língua veicular e mesmo acudirem eles a Euskaltegis (academias de euskara para adultos) para poderem ajudá-los a completar-se lingüisticamente; este ponto de partida encarreirou nas últimas décadas a recuperaçom do uso social do euskara, mais falado nas geraçons mais novas .

Ante o panorama sociolingüístico que nos apresentam os dados citados e outros em que nom entramos por falta de espaço, as camadas declaradamente interessadas na normalizaçom nom tenhem actualizado a sua diagnose do estado de saúde lingüística actual da sociedade galega e, conseqüentemente, nom tenhem formulado umha planificaçom que se corresponda com a necessidade de retomar o pulso normalizador e pôr as bases para que a situaçom poda ser transformada em termos de recuperaçom lingüística. Em geral, continua-se a recitar velhos conceitos como a diglossia e argumentos como a suposta maioria social galegofalante para definir a realidade e reclamar a normalizaçom. Isso, quando nom temos que escuitar intelectuais sinceramente comprometidos com a língua falarem dos "importantes avanços conseguidos nos últimos anos" , nos quais dim que cumpre aprofundar no futuro, "ao que sem dúvida há de contribuir a consecuçom dum governo nacionalista na Junta", sentenciam outros.
Sem pretender arruinar a festa a ninguém, nem exercer de agoireiro ou pesimista, quero reivindicar a necessidade de adequarmos o discurso normalizador à realidade actual da língua e o país. Nom servem velhas receitas que o tempo fijo caducar, e o facto de nom admitirmo-lo nom vai evitar que a roda da história passe por cima do nosso povo fazendo dele parte finalmente assimilada ao ser nacional espanhol.
E a realidade é que a populaçom galega está a ver-se transformada em direcçom à progressiva urbanizaçom, e essa é a tendência imediatamente futura. Aliás, o facto de a gente nova ser muito maioritariamente espanholfalante fai com que a sombra da decadência do galego se projecte sobre as próximas décadas como algo inevitável se nom pugermos remédio. De outra parte, esse remédio nom pode limitar-se à passiva valorizaçom positiva da língua, nem à simples actividade votante dessa maioria jovem e espanholfalante.

Por umha nova dinámica popular normalizadora

Para que umha comunidade lingüística recupere a sua língua, minorizada e ameaçada como a nossa, devem cumprir-se algumhas condiçons como que adquira a vontade de salvar-se, e nom se lhe impida tomar as medidas apropriadas para fazê-lo . A partir daí, cumpre-lhe atingir o seu compactamento e posta em prática de umha planificaçom em que o governo deverá jogar o seu papel, mas nom suplantar a iniciativa e vontade de umha colectividade que decidiu já que quer existir como grupo humano diferenciado, contribuindo assim para o enriquecimento geral das sociedades humanas.

Nom existem receitas milagrosas que garantam a salvaçom de umha comunidade lingüística, como tambén nom pode dizer-se em nengum momento que umha comunidade lingüística esteja condenada a desaparecer. Existem exemplos históricos de povos que perdem a língua apesar de contarem com umhas condiçons objectivas óptimas para a sua recuperaçom, enquanto o caso do hebreu -ressuscitado dos textos religiosos- confirma que de se darem as condiçons subjectivas adequadas, podem salvar-se os contextos mais adversos no caminho da normalizaçom da língua que um povo fai sua.

É claro que o primeiro passo para mudarmos a situaçom adversa em que o povo galego está imerso deve partir da tomada de consciência dessa situaçom. Daí a insistência com que repetimos que cumpre actualizarmos o diagnóstico sobre a saúde do galego. É fundamental que os sectores conscientizados do pulso real da língua se articulem, conformem esse espaço simbólico que dinamize o processo de recuperaçom, e o fagam sem pôr mais impedimentos dos que tal empresa já tem pola presença conflituosa do espanhol como língua hegemónica.

Cumpre, portanto, adoptarmos critérios gerais motivadores para um cada vez maior número de galegos e galegas. Um desses critérios é sem dúvida o reintegracionismo. Quase duas décadas de política e de normativa oficiais tenhem dado mostras da sua incapacidade para mobilizar vontades a favor do idioma. Foi geral -e, em nossa opiniom, errada- a tendência a arrumar o chamado "conflito normativo", cedendo à imposiçom do isolacionismo em nome de avançarmos unidos e deixarmos debates "secundários" para quando o galego estivesse "normalizado". Dessa mentalidade parte a separaçom conceptual entre "normalizar" e "normativizar" assumida polo nacionalismo, e que com a passagem dos anos se tem demonstrado falaz. Aliás, evidenciou-se a autêntica ordem de prioridades do poder: pujo na imposiçom do padrom espanholizador todo o empenhamento que negou nom só ao avanço na normalizaçom do estátus, senom mesmo ao cumprimento da lei aprovada polas próprias instáncias oficiais.

A norma e filosofia oficiais tenhem servido de pontais na hibridaçom formal entre galego e espanhol, nom já como línguas, quanto como universos culturais autónomos. Esta crescente confussom entre ambos os sistemas -sempre em favor do que de partida era mais forte- funciona como elemento desmotivador na reafirmaçom da identidade galega, e portanto na promoçom de um discurso da responsabilidade social quanto à necessária normalizaçom lingüística.

Tudo isto, sem levar em conta o antidemocrático do processo de marginalizaçom e repressom até, dos sectores que contra vento e maré mantivérom alta a bandeira do reintegracionismo, algo imprescindível para hoje podermos falar de reorientaçom da política lingüística e cultural na Galiza.

De outra parte, e nom menos importante, devemos deixar de interiorizar certo discurso maioritariamente estendido que fai recair toda a responsabilidade das deficiências em matéria de política lingüística sobre o poder, concretizado na legislaçom ou no governo. Porque a assunçom desse discurso mantém-nos de algum jeito alheios a essa política, o que por conseqüência provoca, como máximo, a apática simpatia a que já nos temos referido linhas atrás. Devemos estender um novo discurso da responsabilidade, que faga assumir ao povo o protagonismo da luita pola língua, e situe o papel do Estado, governo, ou legislaçom de turno no seu lugar, fundamental e complementar do labor dos grupos sociais articulados, mas nom substituto deles.

Esta nova mentalidade social começa a sementar-se a partir da prática social. Cumpre darmos passos na compactaçom do enfraquecido e disperso espaço simbólico galego e na sua activaçom, recuperando a tensom normalizadora existente anos atrás e superando-a em qualidade e quantidade. Nom podemos continuar a dar paus de cego, senom trabalhar coordenadamente para atingir primeiro espaços comuns de trabalho normalizador e depois ou simultaneamente avanços concretos que sirvam para reforçar a motivaçom social.

A legislaçom, o governo, o Estado,.... virám ao rego como conseqüência dessa acçom social que situe os objectivos lingüísticos por cima das disputas partidárias, obrigando as forças políticas, económicas e sociais a situar-se a respeito do repto normalizador.
Vendo a realidade actual quanto a coesom e acçom social em favor do galego, achamos um deserto onde cada quem clama polo seu lado, enquanto a maioria social fica alheia à política propagandística do poder e às queixas testemunhais de agrupaçons incapazes de aglutinar um corpo social significativo, porventura por nem ser essa a intençom dos seus promotores. O fraco movimento social normalizador, como outros movimentos sociais, está supeditado a directrizes partidárias, jogando a fazer "oposiçom institucional" , mais do que a preocupar-se por dar passos no caminho da galeguizaçom objectiva e efectiva. A sua acçom limita-se amiúde ao aproveitamento do fax e dos espaços informativos que cedem os meios com vistas a ocupar essa quota correspondente aos "galeguistas".

A alternativa passa por, umha vez que se compreende que o protagonismo deve corresponder à socieda e civil, desenvolver iniciativas concretas entre as que podemos citar:

- A posta em funcionamento de espaços físicos onde os galegofalantes das nossas cidades se encontrem, se reforcem e promovam actividades conjuntas que situem o idioma no centro das mesmas. Existe algumha experiência recente no nosso país neste senso, como a Fundaçom Artábria de Ferrol, além das desenvolvidas com sucesso em países como a Catalunha (Via Fora, em Barcelona, p. ex.) ou Euskal Herria (Café Antzokia em Bilbo, entre outras).

- A organizaçom sectorial de pessoas atingidas por umha problemática lingüística, como poda ser o ámbito do ensino. As iniciativas neste campo podem ir da desobediência civil ante a gritante discriminaçom de crianças galegofalantes pola inexistência na maioria das cidades de escolas em que o galego seja língua veicular, à aposta pola criaçom de umha rede alternativa de centros sustentados polos próprios pais onde se garanta que o ensino deixa de ser mecanismo espanholizador, do tipo dos promovidos por outras comunidades lingüísticas como a bretoa (escolas Diwan), a basca (Ikastolas) ou a catalá (escolas Bressola, na Catalunha Norte), por citar algumhas cujos resultados som palpáveis.

- O desenho e execuçom de umha planificaçom que leve à progressiva implantaçom de meios de comunicaçom em galego, iniciativa sempre adiada apesar de todo o corpo social pró-galego concordar na sua necessidade.

Estas e outras iniciativas que todos e todas podemos ter em mente e tantas vezes temos comentado com a frustraçom de nunca levá-las à prática, podem ter nom só o valor objectivo que implicam para a língua, senom também provocar a motivaçom subjectiva da desmobilizada ou inconsciente base social hoje desactivada. Por isso, de partida, nom se precisa de adesons maciças, senom mais bem de grupos qualitativamente capacitados, polo seu compromisso e claridade de ideias, para puxar inicialmente de um processo que sem dúvida terá efeitos multiplicativos desde que se vejam os seus primeiros frutos. E por isso, também, será importante basear esta nova dinámica em projectos construtivos de oposiçom aos hoje dominantes protagonizados polo espanhol, alternativos e capazes de ganhar a cumplicidade primeiro e a adesom depois, de amplas camadas sociais. Paralela e espontaneamente, esta dinámica precisa de organismos populares mais centrados na "reivindicaçom" ou demanda de eliminaçom de entraves para essas e outras iniciativas, dando lugar a umha nova e rica dialéctica social em que o galego ocupe o centro da espiral de progresso.
Provavelmente estas linhas podam ser acussadas de utópicas, porquanto efectivamente nom tenhem lugar nesta terra e neste tempo. Porém, ante a realidade esmagadora que vivemos no que di respeito à crise das identidades nacionais nom homologadas polo sistema mundial, achamos mais utópico confiar em que um processo eleitoral, umha legislaçom ou um governo, por si sós, vaiam resolver a crise que o nosso povo atravessa, pois acreditamos que sem a implicaçom directa do mesmo na sua afirmaçom nacional, esta nom lhe virá dada por graça divina de qualquer signo.

A normalizaçom, como plasmaçom prática da independência do nosso povo no plano lingüístico, nom pode converter-se em totem ou abstracçom idealista, sem concreçom no presente. Igual que a autodeterminaçom colectiva, a construçom da naçom e outros objectivos estratégicos como a justiça social, os direitos das mulheres, a liberdade ou o socialismo, só podem efectivar-se a partir da transformaçom radical da base social que aspira a conquistá-los. O reencontro em plenitude entre a língua galega e o povo que a criou unicamente poderá vir da sua vontade expressa enfrentada com a injusta realidade actual que o nega, com vistas à sua superaçom.


DIVERSIFICAR A MUNDIALIZAÇOM. Margarita Ledo

 

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