O COMBATE DA MOCIDADE GALEGA POLA INDEPENDÊNCIA

 

Miguel Garcia Nogales é Porta-Voz Nacional da Assembleia da Mocidade Independentista.

 

1. Sectorialidade e globalidade, ou o espaço de seu que ao movimento juvenil corresponde no seio do movimento de libertaçom nacional galego.

 

O juvenil é um sector extremamente heterogéneo, que reproduz no seu seio a diversidade e mesmo o enfrontamento de interesses que a sociedade alberga: entre a mocidade existem as diferenças e os antagonismos de classe. Se um debate encalhado no feminismo polemiza acerca de qual é a contradiçom principal que deve dirigir a acçom política -ponhamos por caso- dumha mulher operária, bem a que a enfronta como mulher à sociedade patriarcal, bem a que a enfronta como obreira ao modo de produçom capitalista, a polémica nom tem razom algumha de existir a respeito do sector juvenil: a mocidade é um estádio passageiro que nom determina interesses ou estabelece contradiçons principais, mas que apenas moldeia baixo certas circunstáncias a condiçom de classe e os interesses e projecto político que esta determina. Claramente, a condiçom de classe há de primar sobre a idade na acçom política a desenvolver pola moça trabalhadora. E, porém, nom negamos em absoluto que a juventude seja factor configurante dessa acçom: existe, com efeito, todo um feixe de circunstáncias próprias à mocidade, que moldeia baixo parámetros específicos as inquedanças políticas que a condiçom de classe imprime: dependência familiar, adolescência, a formaçom educativa e a procura do primeiro emprego como eixos na configuraçom das perspectivas de toda umha vida; ingresso, assi, como agente, no modo de produçom, que acompanha o processo de construçom d@ moç@ como sujeito social... som algumhas das realidades vividas pol@ jovem e que configuram a circunstáncia social em que há de desenvolver a sua consciência política. Defendemos, entom, como traços definitórios do sector juvenil, da mocidade, frente a limites de idade arbitrários, um conjunto de características sociais que modulam necessidades e interesses próprios, sobre o condicionamento de classe.

A concepçom que sustenta esta afirmaçom encerra derivaçons políticas e organizativas muito mais profundas do que puder semelhar: se o juvenil é um sector definido sociologicamente, e nom apenas o resultado de restarmos à pirámide populacional as faixas inferiores -ponhamos por caso- a 25 ou 30 anos de idade, as respostas organizadas aos problemas políticos da juventude deverám fugir de ser mimetismos a escala das políticas gerais, para procurar umha máxima adaptaçom táctica e organizativa à realidade social da mocidade. Esta conceiçom é a que ampara a reivindicaçom de auto-organizaçom da juventude. E, porém, defendemos que a condiçom juvenil só é que modula baixo determinadas circunstáncias a condiçom social, alimentada na nossa sociedade por factores como a condiçom dependente do país, o género ou, fundamentalmente, o papel a desenvolver no modo de produçom que o colonialismo sustenta, e que, por isso, a independência táctica e organizativa deve de se conjugar coa unidade estratégica da mocidade organizada com o povo organizado. O projecto político e sectorial que representa a Assembleia da Mocidade Independentista (AMI), sintetiza estes dous extremos fundamentais da actividade juvenil revolucionária: a combinaçom, baixo a forma de movimento, da autonomia organizativa da mocidade coa pertença a um projecto político global, no nosso caso independentista.

A definiçom, o entendimento, a compreensom e a aplicaçom prática da necessidade de organizarmo-nos politicamente a juventude sobre este eixo, sectorialidade-globalidade, é, desde a sua II Assembleia Nacional[1], a principal ocupaçom teórica da organizaçom em que milito. É um problema teórico que qualquer movimento juvenil deve enfrontar, mas que na Galiza de hoje, como conseqüência da inexistência dum referente político de libertaçom nacional, adquire especial urgência no seio da mocidade independentista. Compreender o elemento dialéctico sobre o que este eixo se construi, a relaçom de interdependência que existe entre os dous extremos aparentemente excluintes, entender que umha actividade sectorial eficaz necessita dum projecto global que a contextualize, e que este nom é mais do que pura casca oca se nom hai expressons sectoriais do seu conteúdo ante situaçons concretas, é o grande passo de gigante que a AMI começou a dar em Novembro de 1997. Que a mocidade deve contextualizar o seu projecto sectorial no seio dum projecto político mais amplo, e que este último é pura ideologia se nom contar com pontos reais de apoio e influência nos diferentes sectores sociais da Naçom, é umha tese central no desenvolvimento do combate político da mocidade galega, e a contradiçom que aparentemente pode semelhar que implica, sintetiza-se com facilidade baixo o conceito político de movimento: a luita juvenil, com efeito, deve coordenar a sua autonomia táctica e o seu compromisso estratégico no seio dum movimento político. Outras questons, sem dúvida de muito maior calado, abrem-se ao perguntarmo-nos acerca de qual é na Galiza o papel que à mocidade cumpre desenvolver no seio de tal movimento, que compromisso estratégico deve guardar o combate juvenil a respeito do movimento independentista, que relaçom guarda o combate político da mocidade galega coa luita independentista do conjunto da populaçom, e que papel corresponde desenvolver a aquele no seio desta.

A traduçom galega das características sociológicas que definem o sector juvenil fam deste, no seu conjunto, umha força social objectivamente interessada na libertaçom nacional da Galiza. Além das diferenças de classe que alberga no seu seio, além dos mais agudos enfrontamentos de interesses, existe um comum denominador ao conjunto da mocidade galega, e este é o interesse comum em superar a condiçom dependente do país. Isto acontece em virtude do próprio funcionamento do colonialismo, que opera: 1. Impedindo o normal desenvolvimento do conjunto das classes sociais autóctones, de jeito que onde à classe obreira enfronta desemprego e sobre-exploraçom laboral, ao camponesato opom políticas discriminatórias desenhadas em base à satisfaçom de interesses alheios (leia-se quota láctea...), e à pequena burguesia a competência desleal frente a monopólios transnacionais; 2. Homogeneizando, conseqüentemente, o grosso das classes populares galegas, e nom precisamente arredor do aumento do nível de vida, mas dumha depauperaçom generalizada que é conseqüência do bloqueio da economia nacional: o desvertebramento dos sectores produtivos nacionais ou o disparo da taxa de desemprego juvenil desenham um futuro incerto a compartir (se bem a diferentes níveis) polo conjunto da mocidade galega; 3. Implantando dinámicas superestruturais de apoio à política económica que afectam por igual ao conjunto da sociedade galega, e que se agudizam no relevo generacional: afastamento civil da participaçom política, desculturalizaçom e alheamento, como três das principais. Na Galiza, o combate da mocidade pola independência é hoje, em primeiro lugar, o combate das moças e moços do país pola nossa própria independência, polas condiçons mínimas para um desenvolvimento pessoal que as condiçons sócio-económicas coloniais tornam quase impossível. Objectivos sociais globais e sectoriais identificam-se plenamente ao amparo do colonialismo. E, porém, este comum denominador ao conjunto da juventude galega (o enfrontamento às condiçons de bloqueio do próprio desenvolvimento, social e pessoal) ocupa um lugar de maior ou menor importáncia nas necessidades e motivaçons de cada quem, em base ao conjunto da circunstáncia social do seu desenvolvimento e, entom, à sua procedência de classe. Que lugar ocupa, daquela, o combate juvenil no seio do Movimento de Libertaçom Nacional? Do visto deduzimos que ocupa um lugar próprio, isto é, que na Galiza umha luita juvenil coerente deve inserir-se na sua totalidade na luita independentista, que nom hai no seio grosso da mocidade galega, entendida como sector, interesses contrários à libertaçom nacional, mas que esta é condiçom necessária para a realizaçom dos seus interesses mais próprios. É quanto ao rol a desenvolver polo sector juvenil no seio do movimento independentista, que atopamos diferentes conceiçons e, entom, diferentes respostas.

 

2. Conseguirá o poder a imaginaçom do estudantado? Fazer do juvenil um movimento estético ou mais um instrumento para a libertaçom nacional é umha questom de hegemonia de classes.

Umha conceiçom alicerçada na experiência concreta do papel desenvolvido por certos sectores juvenis nas revoltas sociais em que sobressaiu o Maio francês de 68, alentada por toda umha certa mística da juventude e pretendidamente reafirmada numha miragem da situaçom actual, levaria a adjudicar à mocidade certo papel de vanguarda política no seio do movimento. Concretamente, esta visom assentaria nas supostas condiçons que o estudantado, em virtude do seu acesso à cultura e das suas circunstáncias materiais (relativa autonomia familiar), desfruta politicamente; no nosso país, pretenderia ter um exemplo corroborativo no impulso que a mocidade -e especialmente a estudantil- estaria a dar ao independentismo. Umha história do nacionalismo galego onde certa mitificaçom da juventude levou insistentemente a ver nela a “redentora” ou “salvadora” dum país -Galiza- com reticências a se libertar no presente, acabaria por alicerçar esta conceiçom com que, porém, nom acabamos de comungar. Duvidamos, essencialmente, do “potencial revolucionário” que quer atribuir-se ao estudantado.

Em primeiro lugar, cumpre termos presente os condicionantes sociais a determinar a actividade política do estudantado, onte e hoje. Proclamado como umha vitória da progressia sessentista e do Estado de Providência, a abertura inter-classista das Universidades galegas nom levou, como nalgum momento poderia pensar-se, a umha elevaçom do grau de consciência política nas faculdades, como conseqüência do “desembarco” no seu seio das classes trabalhadoras. Num primeiro termo, porque continua a existir umha peneira classista no acesso à universidade: a legalidade e o potenciamento institucional dumha educaçom privada cada vez mais preparada para competir praças universitárias à educaçom pública, a insuficiência e recorte das bolsas, o aumento das taxas, e as nulas perspectivas laborais que abrem -se bem todas- principalmente aquelas titulaçons de acesso mais doado, continuam a fazer dos estudos superiores no nosso país um certo privilégio unicamente ao alcance dum raquítico 20% da juventude galega. Mas, num segundo termo, e fundamentalmente porque as universidades nom som já na Galiza capazes de se converterem no fervedoiro crítico, intelectual, político e associativo que as caracterizara hai 30 ou 15 anos. Longe ficam os tempos em que a juventude pequeno-burguesa iniciava o activismo em contacto clandestino cumha intelectualidade ideologizada e ideologizadora. Fukuyama destruiu o mito do 68; a morte das ideologias que leva implícita a triunfalista proclama neoliberal da “fim da história”, desarticula literalmente o mecanismo que convertia as faculdades em centros de politizaçom: a ideologia[2]. O estudantado é um sector eminentemente ideologista, mas a universidade já nom ideologiza nos parámetros da esquerda e, muito polo contrário, converte-se em projector incontestado da ideologia burguesa mais refinada e actualizada, à vez que em paradigma dos comportamentos competitivos, passivos e passotas que a nova ordem promulga.

Nesta ordem de cousas, e em segundo lugar, fai-se necessário olhar a realidade e tirarmos conclusons importantes a respeito da desmobilizaçom geral e da perda de interesse e compromisso social que demonstram as faculdades galegas neste fim de século, quando as contradiçons económicas e sociais empenham em se acentuar dia a dia e em dar a razom, assi, às mais questionadas das tendências sócio-económicas capitalistas apontadas polo marxismo. Baixo esta realidade cumpre, quando menos, questionarmos a sério que o estudantado esteja a ser um certo reduto contestatário. O movimento estudantil galego está, de facto, mais dividido e desmobilizado do que nunca, e as honrosas excepçons nom devem ocultar umha tónica dominante na qual a militáncia política pode chegar a se confundir mais cumha extravagáncia estética (hippie, punckie, skin, cheguevara...), do que a se identificar cum comprimisso firme coas necessidades do país. Por muito que o consignismo radical e as estéticas rupturistas abrolhem do mais preocupante ermo político –o que a dia de hoje atravessa a Galiza— as dinámicas políticas dominantes entre a pequena burguesia mais radicalizada nom contam hoje coa firmeza militante, coa seriedade política, coa projecçom social, coa profundidade revolucionária que as circunstáncias exigem, e achegam-se mais, em demasiadas ocasions, a certa orientaçom esquerdista das mesmas dinámicas individualistas, consumistas e conservadoras que triunfam no grosso da mocidade. A hegemonia, no movimento juvenil, dum estudantado que nom é capaz quase de se mobilizar com valentia contra a espanholizaçom e privatizaçom do ensino, as deficiências das aulas, a corrupçom nos departamentos, a precariedade dos centros... imprime a este, finalmente, mais um feixe de ideologismos e tiques esquerdistas do que a orientaçom revolucionária e popular que necessita. A hegemonia do estudantado no seio do movimento juvenil actual poderia, nom tanto corroborar a capazidade dinamizadora desse sector, quanto ajudar a explicar as desviaçons mais desmobilizadoras que este, tamém na sua facçom independentista, padece.

 

Concretizando, achamos:

1. Que, em quanto que sector social, a mocidade fica objectivamente interessada na independência nacional, mas que nom possui interesses próprios capazes de estabelecer contradiçons estruturais com o modo de produçom e, portanto, capazes de outorgar ao seu combate político um papel determinante no processo de libertaçom nacional. Que isto nom quer dizer que o seu papel nom seja fundamental, que a organizaçom sectorial da sua actividade política nom seja umha necessidade de primeira ordem, e que, se bem nom está capacitada para desenvolver como tal um papel de vanguarda política, nom seja em si própria umha força revolucionária.

2. Que um movimento revolucionário nom pode suster-se em ideologia, mas que tem que se construir sobre consciência, e que, assi, o papel do estudantado no seio do movimento revolucionário nom é o de força dirigente. Que isto nom nos leva a negar que baixo circunstáncias bem afastadas das presentes hoje nas nossas universidades, o estudantado, como conseqüência das suas circunstáncias concretas –e, de qualquer jeito, passageiras—, dumha miragem de independência familiar, dum relativo grau de ideologizaçom política (a anos luz, ainda assi, do de outros tempos), poda chegar a desenvolver certo papel de revulsivo social, de faísca política, se bem isto nom o capacita baixo nengum ponto de vista para assumir, entanto que estudantado, o compromisso, a iniciativa, a constáncia, a consistência, o prestígio ante as classes populares, em que se baseia qualquer papel de vanguarda revolucionária. Que, quando é hegemonizado polo sector estudantil, o movimento juvenil perde a enorme valia que tem para o processo revolucionário. Que, no seio dos sectores acomodados da pequena-burguesia mais moça, a condiçom juvenil nom fai hoje, em muitos casos, mais do que provocar certas inquietaçons, mais estéticas do que políticas, que, de nom ser arrastadas por um movimento político forte e centrado nas necessidades do país, acabarám, como muito, por se auto-consumir em pubs de medido desenho nacional-popular.

3. Que o movimento juvenil nom seja central nem o papel do estudantado o de motor, nom significa que o combate sectorial da mocidade pola independência nom tenha, no nosso país, umha importáncia fundamental. Que o desenvolvimento do importante papel que ao movimento juvenil toca jogar no seio do movimento de libertaçom nacional passa por aprofundar na crítica (extensível hoje por hoje ao conjunto do independentismo) às orientaçons políticas ideologistas, e pola análise das necessidades populares concretas a que tal movimento deve responder.

Se a mocidade estudante dorme, maioritariamente, no sonho burguês do acriticismo, do apoliticismo militante e o individualismo a ultrança, hai um pesadelo intenso com capacidade para espertar à mocidade trabalhadora do mesmo sonho neoliberal: este pesadelo é a realidade material que encara hoje a Galiza, e que tem desenhado na juventude das classes trabalhadoras a sua vítima fundamental. Com efeito, a diferença do estudantado pequeno-burguês, a mocidade desempregada ou trabalhadora nom precisa do contacto cumha ideologia em crise para passar à actividade política: tomar consciência da sua própria situaçom é avondo. James Petras explica, no seu informe sociológico sobre os efeitos da social-democracia liberal do PSOE no Estado espanhol[3], como as condiçons materiais para a militáncia política da mocidade obreira som insuperáveis: é a nossa geraçom um banço mais na necessária corrida capitalista cara a acumulaçom de todo em maos duns poucos, a costa da depauperaçom progressiva e constante dumha maioria cada vez maior. Afogadas em cifras as espectativas que para a nossa geraçom pudérom criar o auge económico e mais o Estado de Providência que dizia parir a transiçom, a juventude trabalhadora da Galiza de fim de século volve sofrer, a nível económico, mas tamém político e cultural, o colonialismo de maneira selvagem. Está a ser hoje, a mocidade trabalhadora galega, protagonista dum crescimento e assentamento do desemprego juvenil, da sobre-exploraçom laboral e a depauperaçom geral das condiçons de trabalho, completamente desconhecido pola história mais recente da classe obreira galega, e unicamente comparável em gravidade ao recorte das liberdades democráticas e à perda acelerada da consciência patriótica e de referentes culturais próprios que o está a acompanhar. O sociólogo estado-unidense explica tamém que esta juventude, filha do liberalismo político introduzido selvagemente baixo máscara de “socialista” e “obreiro”, filha tamém no nosso país -acrescentaríamos nós- das renúncias mais flagrantes dum nacionalismo oficial consagrado à desmobilizaçom, ao acomodamento e ao pacto, é a mais indefesa que a história do colonialismo espanhol pariu na Galiza. O individualismo, o desprestígio manifestado da política, o associacionismo ou o sindicalismo[4], a plena assunçom dos dogmas sociais, políticos e económicos de Espanha, a falta de memória histórica acerca das luitas sociais e patrióticas com que poder defender-se do derrotismo, o esfarelamento, lento mas constante, dos referentes simbólicos que nos vertebram como naçom (nomeadamente o lingüístico)... deixam as maos livres ao aparelho económico, político e ideológico colonial (que, a diferença dos tempos das nossas mais e pais, hoje conta com sindicatos obreiros, imprensa livre, progressia antifranquista...da sua mao). Legalizado o despedimento livre baixo a forma de raquíticos contratos temporais, questionadas ou facticamente revisadas muitas das conquistas fundamentais de século e meio de luita obreira, elevadas as taxas do desemprego juvenil mui além dum escandaloso 30%, convertido o salário mínimo interprofissional num auténtico privilégio laboral, regularizada a sobre-exploraçom, elevado o preço da independência familiar a golpe de especulaçom selvagem... conclui Petras que “ainda que a qualidade de vida da mocidade trabalhadora era melhor que a dos seus pais e mais mentres o que estavam era a medrar, as perspectivas de futuro hoje som muito mais negativas”. E é precisamente nesta realidade que devemos basear o desenvolvimento dum movimento juvenil capaz de levar a mocidade galega ao combate pola independência.

Se a condiçom juvenil nom fai no seio da pequena-burguesia mais acomodada muito mais do que modular os seus interesses e as suas dinámicas de classe para extravagáncias intelectuais ou exotismos políticos doadamente assimiláveis pola ideologia dominante e polo mercado, no seio da classe obreira implica directamente um cartom de entrada aos recintos mais escuros (e cada vez mais amplos) dos novos projectos económicos e sociais capitalistas. A mocidade trabalhadora galega é, deste ponto de vista, a “avançadinha” do processo colonial espanhol na Galiza e, assi, as condiçons do seu desenvolvimento acham-se gravemente travadas por umha agudizaçom generalizada das contradiçons económicas, políticas e culturais, que provoca que seja este sector da sociedade galega o de futuro mais incerto e estabilidade mais ameaçada. No contexto criado por um modo de produçom que provoca necessariamente, etapa após etapa, a agudizaçom das contradiçons que ele próprio gera, as camadas mais jovens do Trabalho detentam as condiçons objectivas idóneas para o impulso de processos transformadores rupturistas. E a história política do nosso país é aval firme a esta afirmaçom: a participaçom de moças e moços das classes populares nas avanguardas revolucionárias actuantes na Galiza, tanto durante o franquismo quanto durante a monarquia parlamentar, é reveladora. 26 anos tinha um jovem trabalhador de 1936 quando resolveu começar o seu combate armado contra o fascismo, jornaleiro galego que passaria à história da resistência guerrilheira no nosso país baixo o nome de Foucelhas, e cujo combate haveria de se prolongar durante anos até as suas últimas conseqüências; contemporáneos a ele, Mário Rodrigues Tosada bota-se ao monte com apenas 23 anos de idade, Davide Fuentes Álvarez “Velasco” tem 16 anos quando participa em acçons guerrilheiras em Veiga de Valcarce, e O Piloto ingressa na guerrilha galega anti-franquista aos 28 anos de idade; mocidade trabalhadora é tamém a que encabeça e fai germolar a UPG para posicionamentos patrióticos e marxista-leninistas, mocidade que tem em Moncho Reboiras o exemplo de compromisso mais profundo: obreiro da construçom aos 15 anos, militante na clandestinidade da UPG aos 19, membro do Comité Central e do Comité Executivo do Partido aos 22, impulsor da linha mais combativa que caracterizará a organizaçom desde 1972 e até 1975, motor da Frente Militar da UPG aos 24 anos, e assassinado pola polícia espanhola aos 25; e foi mocidade das classes populares galegas (principalmente labreg@s) quem deu, a través de ERGA, o impulso primeiro ao movimento juvenil nacionalista, como tamém fôrom jovens o 42% das pessoas detidas nas acçons levadas a cabo pola polícia espanhola e a Guarda Civil contra o Exército Guerrilheiro do Povo Galego Ceive, sendo popular e trabalhadora a procedência dos quadros jovens mais destacados: Antom Garcia Matos e Carlos Deive eram moços de 20 anos quando começárom a sua militáncia independentista no EGPGC, Duarte Abad Lojo e Manuel Chao Dobarro tinham 22, nem Sefa Rodrigues, nem Sam Martim Bouça, nem Alexandra de Queirós, nem Lola Castro nem José Vilar... superavam os 30 anos de idade. A História mais recente da resistência galega está construída dos pequenos grandes episódios que constituem a entrega, a vitalidade, a decisom, o compromisso e a coerência de centos de patriotas e revolucionári@s jovens.

 

3. Organizarmos desde a juventude a libertaçom nacional

A arma com que Espanha está a se defender hoje no nosso país da bomba de relojaria que umha nova geraçom de oprimid@s e explorad@s galeg@s representa, é umha pantalha de consumo, ilusom de democracia e bem-estar, e luzes fluorescentes, que convida insistentemente à desmobilizaçom política. Tal imagem construi-se sobre as bases que cimentárom o progresso económico e a conquista de formalidades democráticas que vivêrom os nossos pais e mais, e que puliu o reforço e a incontestabilidade do capitalismo que em 1989 se quixo ver. Umhas bases que hoje estám a se desmoronar. Existe umha contradiçom entre a forma de consciência imperante hoje em dia na mocidade galega e as condiçons materiais em que esta está a se desenvolver, umha contradiçom entre umha estrutura económica e social a caminhar para a instabilidade, e umha superestrutura ideológica a assentar no conservadorismo. Tal forma de consciência construiu-se sobre a segurança e a abundáncia material que o auge económico pudo causar na geraçom anterior, e que na nova geraçom tivo o seu reflexo através do hiper-proteccionismo familiar e dumha educaçom que primou a comodidade como um valor e o conflito como umha experiência a evitar pola criança ou @ jovem, mas a assumir sacrificadamente pola boa mae ou pai que nom quer que @ filh@ passe polo que ela ou ele tivérom que passar nos duros anos de pós-guerra. Petras afirma ao respeito que “A prolongada dependência familiar [a que obrigam as condiçons económicas e que permitem mais e pais] cria um ponto de vista social conformista, onde a ideia de conseguir as cousas grátis socava o pensamento crítico. A ideia de sair ao mundo como trabalhador independente colheita um sentido de eficácia ao actuar por si próprio e fazer-se cargo da própria vida. Este é o prelúdio da assunçom de responsabilidade na acçom política e social. A prolongada dependência familiar fomenta a infantilizaçom. O antigo comportamento adolescente prolonga-se e persiste a passividade: aguarda-se que a mai cozinhe e limpe a roupa e que o pai solte o dinheiro para um fim de semana de saltinhos no bar. A ideia de rebeliom toma assi a forma de concertos de rock camorristas e politicamente seguros, de punhadas no futebol, ou de jóias e roupas excéntricas, todo isto convenientemente subvencionado pola família”. Este conformismo alimenta umha covardia endémica da juventude de hoje na hora de enfrontar os seus problemas fundamentais, e principalmente a ditadura dum mercado laboral agressivo até o extremo. Mas esta forma de consciência tem umha base material temporal, e em declínio. O conservadorismo e a ideologia burguesas encontram campo abonado na falta de responsabilidade e o acomodamento dumha juventude infantilizada, mas começa a ficar sem oxigénio em quanto a protecçom da família nom é quem de evitar o contacto coa realidade, quando a necessidade de independência familiar se agudiza, seja polo desejo normal de realizaçom pessoal d@ jovem, seja por um óbvio imperativo biológico e generacional. As maes e os pais da mocidade galega de hoje acabarám por morrer. Que será, entom, dumha juventude condenada ao desemprego, a exploraçom selvagem e condiçons escravistas de sobrevivência?[5]

A inactividade e desmobilizaçom actual da mocidade trabalhadora galega nom deve chamar-nos a engano: nom deve levar-nos a desestimar o seu potencial, nem a ver, comparativamente, um regueiro de verdadeiro fervor revolucionário na estética política da pequena burguesia mais revoltosa. Explica-nos o marxismo: primeiro, que a acçom política obedece em último termo à necessidade de superaçom das contradiçons latentes na estrutura económica da sociedade; segundo, que as realidades sociais devem ser entendidas dialécticamente, no movimento contínuo que lhes imprime a existência de contradiçons internas. O combate juvenil independentista deve englobar todos aqueles movimentos de contestaçom à realidade problemática que o colonialismo espanhol fai viver à mocidade galega no seu conjunto e como sector, mas deve ser inequivocamente hegemonizado pola mocidade trabalhadora. Sendo o sector quantitativa e qualitativamente mais importante da juventude galega, só a sua presença (e o conseguinte despraçamento do centro do movimento daqueles sectores estudantis ideologistas) garante a projecçom social, a introduçom nas massas e o afastamento da simples estética política, que o combate da mocidade galega necessita hoje. O baixo grau de consciência e activismo políticos que a juventude das classes trabalhadoras regista hoje nom deve ser, por outra parte, entendido como um mal caído do céu ou como a corroboraçom neoliberal do fim da luita de classes; muito polo contrário, deve ser interpretado como umha conseqüência da fase actual do desenvolvimento dessa luita na Galiza e, ao amparo das tendências sócio-económicas que se constatam, como um estádio passageiro da consciência de classe, em flagrante contradiçom coas necessidades ideológicas que a realidade material do país imprime à mocidade e, assi, com os anos contados.

É labor do movimento juvenil galego agudizar esta contradiçom que, dizemos, existe entre o grau de consciência da juventude e as condiçons sócio-económicas que lhe vam (que já lhe estám a) tocar viver. Agudizá-la dum ponto de vista político, evitando que a nossa se converta em mais umha geraçom de emigrantes galeg@s, mas que seja definitivamente umha nova geraçom de revolucionári@s. Um movimento juvenil ainda em construçom, mas que deve basear a sua acçom política em:

a) rachar as dinámicas sociais individualistas e competitivas que definem o carácter dominante desta juventude de entre-séculos. O associacionismo juvenil num sentido amplo e sem restriçons, mesmo pré-político (associaçons juvenis de bairros, sócio-culturais, de lazer e desportivas...), converte-se hoje em dia numha prioridade para a restituiçom dos valores da solidariedade social e a identidade de grupo que o colonialismo desintegra. Novamente Petras, aponta que “é fundamental educar em novos valores sócio-culturais, que brindem umha compreensom mais profunda das relaçons entre o descontente privado e a realidade social: apenas assi é que se há de dar a base para umha visom alternativa da sociedade, o Estado e o trabalho”. Conjuntamente, devolver o prestígio à organizaçom e mais ao combate políticos, separando-os das dinámicas e posturas mais possibilistas, devolvendo-lhes a capazidade e os métodos de luita rupturistas que os identifiquem ante a juventude como meios de verdadeira intervençom social, é um repto fundamental que o movimento juvenil independentista nom deve esquivar.

b) destruir o véu desmobilizador que cobre a consciência nacional e de classe da mocidade obreira, revitalizar um espírito combativo amorfo por anos de educaçom sobre mentiras, dogmas inquestionáveis e falácias neoliberais. Potenciar a contradiçom entre umha forma de consciência caduca e umha estrutura social empenhada em fechar qualquer porta de futuro digno, através dumha prática sectorial em contínuo contacto com as problemáticas e as necessidades mais sentidas da juventude galega. Devolver ao movimento juvenil a sua utilidade e direcçom obreira, sem esquecer que é o conjunto do sector –da mocidade galega— quem fica interessado objectivamente na libertaçom nacional, e quem deve engrossar as fileiras dum movimento tam amplo e englobador como dinámico e combativo.

c) Construir para si um modelo militante arredado do projecto juvenil do capital e dos média (consumista, individualista, passivo, egocêntrico), mas enraizado e fortemente centrado na realidade do país e nas necessidades que esta provoca. Superar a militáncia vacilante e estética por um compromisso baseado na disciplina, o esforço, a austeridade e a resistência tanto às adversidades do próprio movimento quanto à repressom do inimigo.

d) contextualizar as suas reivindicaçons e estratégias no seio dum movimento político de libertaçom nacional, do qual o movimento juvenil independentista há de ser concebido como mais umha engrenagem, que nom como umha reproduçom em miniatura. O combate organizado da mocidade galega pola independência é parte integrante do combate do povo pola libertaçom nacional, e a luita do povo pola sua independência compom-se dos contributos políticos e organizados que cada um dos seus sectores sociais desenvolve para combater as expressons concretas do colonialismo. É o articulamento das diferentes frentes de luita, que nom a sua supeditaçom, o meio para enriquecer a luita da esquerda independentista e levá-la definitivamente ao seio do povo.

O combate da mocidade pola independência encerra nom só o compromisso patriótico de mais umha geraçom de galegas e galegos, mas a luita necessária dumha juventude que precisa de libertar-se para desenvolver-se. Este combate político deve inserir-se no seio dum amplo movimento de libertaçom nacional e dar assi novos folgos ao projecto histórico de independência e socialismo. Assi é que o entende a AMI. Assi é que, já em 1934, o entendia o independentismo galego: “Han de sér sin dúbida as xuventudes, o mesmo que foron en todol-os países opresos, as que conquerindo a concencia do estado de opresión da Galiza fagan xuntanza e se dispoñan a loita, pasando por enriba das consideracións e das cordialidades aconselladas pol-os mal chamados apóstolos do galeguismo, verdadeiros estorbos pra o camiñar do povo cara o seu porvir. Terán que ser as mocedades galegas quenes, abranguendo nunha forte aperta o ideal arredista, han de espallalo antre o povo galego, facendo nacer n-él o entusiasmo e a fe perdida, e terán que facelo desbotando toda posibilidade de concordia cos nemigos da Terra e cos que finxen estar ao servizo do ideal liberdador pra medrar e sadisfacer as suas noxentas ambizóns”[6].

 

 

 

NOTAS

 

[1] A II Assembleia Nacional da AMI celebrou-se em Compostela durante os dias 22 e 23 de Novembro de 1997. O documento de Estratégia aprovado pola Assembleia supujo o ponto de partida da implicaçom da AMI a respeito da reorganizaçom do Movimento Independentista Galego. Nele, a mocidade independentista afirmávamos que “o interesse objectivo que temos na re-organizaçom do MIG vem ser conseqüência da necessidade da existência dumha expressom política capaz de desenvolver coerentemente um programa independentista de jeito global, e que nos permita, assi, desenvolver a nós um trabalho nitidamente sectorial, que ao mesmo tempo seja a expressom do próprio movimento no seio da mocidade galega”.

 

[2] Os conceitos de “ideologia” e “consciência” aparecem aqui quase como opostos. Mentres que a “consciência” será para nós o entendimento da própria realidade material unido à assunçom das necessidades que esta implica, a “ideologia” é um corpo de valores, ideias, discursos e análises, que adoptamos de fóra como representaçom válida da realidade. Jogamos coa acepçom propriamente marxista para aplicá-la aos sectores mais acomodados que, a través da ideologia, fam com que a sua situaçom “apareça invertida como numha cámara escura”, auto-convertendo-se em vanguarda revolucionária.

 

[3] Informe publicado no número correspondente ao mês de Março de 1996 da revista espanhola Ajoblanco, baixo o título Qué ha pasado en España.

[4] As tendências apontadas por Petras a nível estatal nom fam no nosso país mais do que reafirmar-se, quando nom agudizar-se. Um estudo relativamente recente da USC (X.M.Sabucedo, C.Arce e M.Rodríguez: Xuventude e Política en Galicia, Biblioteca de divulgación da USC, 1992) fortalece a teoria do desprestígio e os condicionantes sociológicos (que nom ideológicos) como causantes principais do baixo nível de associacionismo e compromisso político que regista a mocidade galega. A este respeito, e sempre seguindo o citado estudo, factos como o alto nível de consciência política e de classe da juventude do país, que provoca que “ante todas e cada umha das perguntas de igualitarismo, os nossos sujeitos respondem de maneira maioritária no polo radical e igualitarista. Para eles, a distribuçom da riqueza nom é justa, e a colaboraçom entre as classes sociais nom é possível”, ou que apenas um 32,7% da juventude galega veja representados no Governo os interesses da maioria, frente a um amplo 47,1% que considera que o Governo apenas tem em conta “os interesses duns poucos”, passando por que três pilares sociais como som a Banca, a Igreja e as Forças Armadas Espanholas sejam apontadas como as instituiçons polas que maior desconfiança manifesta a juventude do país,... contrastam com o dado de unicamente um raquítico 3,5% d@s jovens estudad@s materializarem este descontente num “interesse activo na política” .

[5] O sociólogo vasco Justo de la Cueva formula a questom, a respeito da mocidade de Euskal Herria, baixo os seguintes termos: “que vam fazer os jovens bascos desempregados ou precarizados quando acabar o colchom familiar? Suicidar-se? Emigrar a nengumha parte? Ou é que, decatando-se de que nom tenhem que perder mais que o seu desemprego, tentarám fazer a revoluçom?”

 

[6] A Fouce, número 74, Buenos Aires, Setembro de 1934.

 

ANTIMILITARISMO E INDEPENDENTISMO NA GALIZA. André Seoane Antelo

 

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