Manuel Soto Castinheira é
Professor de Engenharia Química na Universidade da Corunha e Presidente da
Associaçom para a Defesa Ecológica da Galiza (ADEGA).
Hoje a Galiza forma parte do Estado
espanhol no quadro do Estado das autonomias, um quadro nom só insatisfatório
para determinadas forças políticas, senom tamém para outros movimentos sociais,
e concretamente para boa parte do movimento ecologista. Na Galiza, podemos
afirmar que a actual configuraçom do Estado é insatisfatória para a maior parte
das organizaçons ecologistas, que incluem entre os seus princípios
programáticos a defesa da diversidade cultural (o galego como língua normal ou
única, por exemplo), o desenvolvimento económico autónomo e autocentrado
(ademais de social e ambientalmente sustentável), e mesmo a autodeterminaçom
dos povos. Este princípio afecta às relaçons norte-sul e países pobres-países
ricos, mas tamém afecta às naçons sem estado que por diversas vicisitudes históricas
hoje formam parte, administrativa e politicamente, do Estado espanhol.
Como ecologistas galegos temos que
ser partidários da transferência total de competências ao governo galego (sem
os limites fixados no quadro constitucional de hoje), pois a Galiza nom só é o
nosso ámbito de actuaçom, senom também de organizaçom e de reivindicaçom e
construçom dum modelo de desenvolvimento sustentável. O modelo de
desenvolvimento polo que optemos os galegos e galegas deve ser responsabilidade
nossa, mentres que a contribuiçom ao desenvolvimento sustentável a nível
planetário só se pode realizar através do intercámbio, o diálogo e a
solidariedade, se quigermos que essa contribuiçom seja positiva.
A autodeterminaçom de Galiza nom é
só um direito sobre o qual pode decidir a chamada classe política, senom algo
que se exercita desde o povo e, por ende, desde as próprias organizaçons
ecologistas. Isto é assi especialmente para aquelas organizaçons de ámbito
nacional, que tenhem como território de actuaçom toda a Galiza. Porém, isto nom
elimina a necessidade de relaçons com aquelas organizaçons homólogas na maioria
do ideário sócio-político-ambiental e geograficamente mais próximas, como podem
ser as da Península Ibérica, nem fai desaparecer as vantages que dumha relaçom
em pé de igualdade se podem derivar.
Por outro lado, e apesar da
centralizaçom política e administrativa a nível da Uniom Europeia, é ainda em
Madrid onde se decide como se aplica a política comunitária, e tamém onde se
tomam decisons sobre alguns dos projectos de maior impacto ambiental na Galiza.
Isto fai conveniente algum tipo de relaçom com organizaçons doutras latitudes
do Estado.
Tratando-se dum movimento radical
como é o ecologismo, dum movimento que se di integrador das diversas luitas
sociais (defesa do ambiente, defesa do património histórico-cultural,
pacifismo, feminismo, anti-racismo, solidariedade cos países pobres...), que
qualifica os interlocutores mais próximos de esquerda tradicional por nom
entenderem estes a luita ambiental na sua plenitude, e tratando-se de
organizaçons que incluem entre os seus princípios o da autodeterminaçom dos
povos, caberia pensar que o problema nacional no Estado espanhol é plenamente
assumido polas pessoas e colectivos integrantes do movimento ecologista.
Porém, isto nom é assi ainda.
Organizaçons ecologistas estatais seguem buscando vias de actuaçom na Galiza,
através de grupos locais galegos federados ou integrados em projectos estatais,
ou promovendo modelos de organización-coordenaçom que podem dividir a coordenaçom
e colaboraçom dos grupos galegos entre si. Manifesta-se também isto no
rejeitamento por parte das organizaçons do centro estatal dum quadro de
relaçons em pé de igualdade entre organizaçons galegas e aquelas. Um quadro de
relaçons que para algunhas organizaçons galegas só se pode pensar desde o
respeito à independência e o exercício da nom ingerência (falamos de relaçons
entre organizaçons de similar ideário sócio-político e ambiental), e co
objectivo acrescentado de superar a actual situaçom de dependência política.
Falar de ecologismo e
independentismo fecharia-nos muito o tema, que eu considero de interesse na sua
amplitude de ecologismo e autodeterminaçom dos povos, ou de ecologismo e desenvolvimento
sustentável e autocentrado, ou, em definitivo, de ecologismo e democracia. O
independentismo é umha resposta concreta a umha situaçom de dependência
política, umha resposta legítima, sem deixar de considerar que frente a esta
dependência cabe propor outras saídas como pode ser o (con)federalismo. Na
Galiza, o ecologismo está avondo alheio a estas questons, bem porque as
considera dumha segunda orde, ou bem porque nom considera que seja o momento
apropriado para (o ecologismo) tomar umha opçom em tal sentido. Isto nom evita
que eu valorize como positivo o independentismo explícito, pois é positivo
pular por cada umha das possíveis saídas à situaçom de dependência que vive a
Galiza.
Porém, ao ecologismo galego, mais
que umha meta concreta como é a independência ou que um determinado povo
disponha dum Estado próprio independente, interessa-lhe o processo de
emancipaçom social em si mesmo, o processo de construçom dumha democracia participativa
e nom só formal. A emancipaçom das diversas classes e grupos sociais e a
democracia som condiçons imprescindíveis para a convivência pacífica e o
desenvolvimento das pessoas e, em último extremo, som condiçons imprescindíveis
para um desenvolvimento (económico) sustentável; um desenvolvimento ambiental e
socialmente sustentável que só pode ser autocentrado e nom dependente. Aliás,
dispor dum Estado independente nom garante necessariamente um avanço real para
estes objectivos; de aí que o que mais nos interesse seja o processo e nom o
fim.
O ecologismo como associacionismo
de base e como expressom política, explícita ou nom, propom amiúde umha mudança
no modelo sócio-económico-político vigente. Um aspecto mui importante do
ecologismo é a sua actuaçom descentralizada, a modo de grupos tanto locais como
próprios de cada povo, e enraizada nas culturas locais, trabalhando polo
desenvolvimento autocentrado, e a concienciaçom, formaçom e informaçom ao nível
mais básico, única forma de potenciar a autonomia real das pessoas e dos povos
face aos interesses dos grupos de pressom económica, como as grandes
transnacionais. Eis o reflexo do lema Pensa global, actua local, que na Galiza
nos fai valorizar a importáncia nom só de conservar a biodiversidade, a nossa flora
e fauna, senom tamém a cultura própria e a língua, como contribuiçom à
manutençom da diversidade cultural e ao incremento da consciência sobre o
direito dos povos á sua autodeterminaçom.
Em definitivo, o ecologismo galego
nom é alheio às questons de autoderminaçom dos povos, nem conceitualmente nem
na sua praxe diária. Por isso, centraremo-nos neste campo e tentaremos dar umha
visom mais ampla de aspectos sociais e políticos relacionados tanto coa questom
nacional como coa construçom da democracia, aspectos que poderiam semelhar
secundários na luita pola defesa do ambiente, mas que tenhem umha importáncia
capital.
A mundializaçom e a
sobrevalorizaçom da comunicaçom som dous aspectos que merecem umha consideraçom,
ainda que superficial, para situarmos a questom da explotaçom dos povos e a
crise ambiental.
A mundializaçom supom hoje a
dominaçom do sistema económico capitalista sobre o espaço mundial. Os Estados
nom desaparecerám mas, como ámbito de acumulaçom capitalista, som substituídos
por umha rede de transnacionais. Isto vai acompanhado da conseguinte eliminaçom
de fronteiras físicas e regulares (estatais) que constituem hoje um obstáculo à
acumulaçom a escala mundial. Num processo dominado pola globalizaçom e o
carácter privatizador, organizaçons multilaterais (FMI, BM, OMC...) estimulam,
orientam, financiam ou imponhem as directrizes a serem adoptadas polos Estados,
sem prejuízo de que estes organismos respondam aos interesses das
transnacionais e dos países capitalistas dominantes.
O actual processo de globalizaçom
consiste ante todo numha exacervaçom da acumulaçom capitalista; exacervaçom que
se realiza por duas vias: i) a expansom das áreas de negócio a todo o planeta
(expansom geográfica que ultrapassa os Estados); ii) o incremento do montante
monetário dumha mesma operaçom, dumha mesma infraestrutura ou dum mesmo
serviço. Ambos os dous princípios actuam de forma combinada: os agentes da
acumulaçom internacional só promoverám soluçons que puderem aplicar de forma
uniforme em amplas regions do planeta, mui por acima dos actuais lindes
estatais; e de entre as possíveis soluçons, elegerám só aquelas que
centralizarem mais capital, para começar, aquelas mais caras.
O controle do mercado (se é certo
que existe concorrência, tamém o é que a capacidade de concorrer está em funçom
do quadrado do capital já acumulado) e das tecnologias, em primeiro lugar, e o
controle da comunicaçom, em segundo lugar e como última garantia, permitem a
estes agentes impor as suas opçons a governos, colectividades e indivíduos, que
acabam optando “democraticamente” por soluçons caras e pouco satisfatórias. As
transnacionais elegerám portanto soluçons de elevado custo (nucleares,
incineraçom, transgénicos, auto-estradas, aviom, AVE, automóvel...),
tecnologicamente custosas (a tecnologia mostra um elevado potencial para a
centralizaçom e a acumulaçom), de reduzido emprego (altas taxas de mam de obra
actuam de forma redistributiva, contrária a acumulaçom, agás quando se trata de
soldos miséria), e que se puderem aplicar em amplas regions (soluçons que nom
requerem adaptaçons locais, culturais, ambientais, etc).
Parelho a esta globalizaçom
neo-liberalista, dá-se um crescimento desmedido da comunicaçom, também
globalizada através da Internet e outros meios de crescimento sem limites. A
comunicaçom tem ultrapassado largamente o seu óptimo, até o extremo de que
parte das suas vantages se tenhem trocado em autêntica opressom às pessoas.
Porém, pouco podemos acreditar na consideraçom de que a comunicaçom global
acabará por diluir as diferenças culturais e ideológicas entre os povos: a
história mostra-nos como séculos de intercámbio e convivência próxima nom é
razom suficiente para diluir as peculiaridades nem a diversidade cultural dos
povos.
Mas todo isto situamo-lo na esfera
do sistema económico, o capitalismo. Portanto, nada novo. Só mudam as formas, a
extensom e a magnitude em que se realiza o processo de apropriaçom de recursos
e mais-valias.
Em definitivo, povos e pessoas,
individuos e colectividades acham-se submetidos portanto às mesmas forças
opressoras. Se antes os povos eram vítimas de Estados opressores, agora som-no
tamém das empresas e instituiçons transnacionais.
Porém, o que si é novo, mas nom da
era Internet senom de todo o último terço do século XX, e conseqüência dum
modelo de desenvolvimento encetado já décadas atrás, é a deterioraçom
ambiental, expressada como contaminaçom, perda da qualidade dos recursos e
esgotamento dos mesmos, além de cataclismos e catástrofes de diversa índole. A
injustiça e a deterioraçom ambiental tenhem pois umha raiz comum e a
particularidade de que umha reforça a outra, ou a existência dumha reforça as
conseqüências negativas da outra. A esquerda tradicional acertou em pôr em
primeira linha de luita a anulaçom da injustiça (a luita pola emancipaçom dos
oprimidos polo capital), mas nom compreende ainda dumha forma cabal o problema
do meio ambiente, que requere nom só solidariedade coas pessoas que hoje vivem
(e que tenhem interesses que hai que defender...) senom tamém solidariedade
coas geraçons futuras, que herdarám um mundo tam deteriorado para o que a
ciência e a tecnologia (sempre interessadas) podem nom ter soluçons.
E se como dizíamos mais acima a
globalizaçom conduz a soluçons uniformes, caras, de tecnologia dura e reduzido
emprego, a conservaçom do meio ambiente entra directamente em confrontaçom com
este modelo: as soluçons ecológicas requerem umha forte adaptaçom local e
tecnologias brandas, ao tempo que adoitam ser redistributivas e criadoras de
emprego.
Problemas ambientais e modelo
económico: desenvolvimento sustentável frente a crescimento
A actividade humana supom um
impacto nos ecossistemas em que se desenvolve e de que as pessoas fazemos
parte. Em ecologia, a biodiversidade é considerada como o principal índice da
riqueza dum ecossistema, referindo-se á diversidade de espécies de flora e
fauna e formas de vida diferentes, resultando que quanto maior for o número
destas (nom o número total de indivíduos, senom o de espécies diferentes) maior
é a riqueza biológica, e mais numerosos e complexas som as relaçons entre os
componentes do ecossistema.
Mui diversos factores podem
conduzir para umha reduçom da biodiversidade. Entre eles, a simples humanizaçom
do território, da qual poderíamos considerar nunha primeira aproximaçom que
medra parelha ao continuado crescimento da populaçom mundial. A mais populaçom,
mais necessidades de espaço e de alimentos.
Mas umha reflexom algo mais
profunda mostra-nos que as sociedades industrializadas ocidentais, de que a
galega é um exemplo (que se acha na sua periferia, mas bem mais próxima ao
modelo e situaçom do centro que do terceiro mundo; outra cousa é a dependência
ou independência política), tenhem praticamente estabilizada a sua populaçom,
mas nom assi o seu consumo. Aqui entra em jogo o sistema económico, que nom é
só a forma de produzir, senom tamém de consumir.
Tanto a direita mais liberal como
as esquerdas tradicionais, apresentam nos seus programas políticos objectivos
de crescimento económico, quer dizer, de incremento da produçom e do consumo,
por mais que a populaçom nom medre. O sistema económico baseia-se nesse
crescimento continuado, até o ponto de que o sistema político entra em crise
cada vez que o crescimento se paraliza.
Este modelo de crescimento
económico continuado, para umha populaçom constante, requere do incremento
continuado do consumo per cápita. Aliás, numha sociedade industrializada e
fundamentalmente urbana, o consumo implica previamente toda umha complexa trama
de processos extractivos/produtivos (que em muitos casos tenhem lugar a grandes
distáncias), transporte, transformaçom e distribuiçom (posta em mercados cada
vez mais globais e longínquos) que incrementam fortemente a carga ambiental
desse consumo. De outra parte, se as necessidades básicas dunha pessoa
(alimentaçom, abrigo, habitaçom, cultura... ) som mui semelhantes num ou noutro
povo, o modelo económico capitalista foi quem de inventar e criar necessidades
artificiais, disparando o consumo, tanto no último elo (o indivíduo) quanto por
causa das etapas intermédias do processo produtivo/distributivo. Estamos
portanto ante a sociedade do consumismo, onde o sistema económico nom está ao
serviço da humanidade, para satisfazer as suas necessidades, senom que utiliza
a sociedade, as pessoas, para incrementar o consumo e o volume de negócio, e
reproduzir-se a si próprio sob o signo do crescimento.
Em definitivo, nom é o crescimento
demográfico o principal factor que ameaça o equilíbrio ecológico a nível
planetário, senom o modelo económico capitalista-consumista. O incremento da
industrializaçom e o crescimento económico leva a um incremento na geraçom de
resíduos. A comparaçom entre países industrializados e nom industrializados
indica-nos que um incremento em 25 vezes o PNB vai acompanhado dum incremento
em 150 vezes a geraçom per cápita de resíduos. A conclusom é clara: nom é
possível universalizar o actual modelo económico dos países industrializados,
por simples razons de eqilíbrio ecológico ou de pura sobrevivência. A justiça
social implica, portanto, mudar de modelo económico.
A resposta do sistema a estas
questons é bem conhecida por repetida umha e outra vez: a soluçom aos problemas
da miséria e da deterioraçom ambiental virá da ciência e da tecnologia. O
actual modelo económico está promovendo um desenvolvimento científico sem
precedentes, polo que só é preciso confiar no sistema e nas soluçons que a
ciência nos achegará. Questionar este posicionamento é pouco menos que
arriscar-se a ser considerado cavernícola. Porém, cabem duas concepçons
diferentes de como utilizar a ciência e a tecnologia. Umha, a que aplica o
sistema, consistente em situar a ciência e a tecnologia no ámbito do mercado,
sendo este o que decide que é o que se investiga e que descobrimentos se levam
a prática e com que finalidade —finalidade que, neste modelo, nom é outra que a
do maior lucro ecónomico no menor tempo possível, sem parar em consideraçons de
tipo social, internacional ou ambiental.
Questionar esta utilizaçom da
ciência nom é estar contra o progresso científico, senom prevenir os graves
efeitos negativos que se podem derivar da utilizaçom da tecnologia. A outra
atitude ante a ciência compom-se de dous elementos significativos. De um lado,
muitas aplicaçons tecnológicas ham de ser limitadas ou mesmo proibidas na sua
totalidade. Ao conhecido exemplo dos usos bélicos ou energéticos da tecnologia
nuclear, venhem a somar-se outros muitos exemplos já clássicos no campo da
indústria química (DDT e outros biocidas, CFCs, PCBs, etc, por citar só alguns
já proibidos, ou outros como poderia ser o PVC e outros plásticos). A estas
proibiçons teríamos que somar, nos últimos anos e no futuro imediato, muitas
das aplicaçons dos organismos transgénicos. Decatemo-nos de que limitar ou
proibir estas aplicaçons altamente daninhas para o meio ambiente ou para as
economias locais nom é estar contra a ciência.
Por outro lado, incluso muitas
tecnologias que nom encerram problemas ambientais tenhem que ser reguladas na
sua aplicaçom, especialmente no que se refere á extensom e velocidade de
introduçom. E isto porque cumpre que as avaliaçons de impacto ambiental tenham
umha base mais sólida que a que se pode tirar dos estudos prévios, mas
sobretodo, porque as novas tecnologias implicam mudanças sociais às quais a
populaçom se tem que adaptar se nom quigermos causar traumas e desajustamentos
que, afinal, se traduzem em desequilíbrios e nunha maior injustiça social, em
vencedores e vencidos. Temos exemplos abundantes de como a introduçom de novas
tecnologias, aparentemente inócuas, provoca a destruiçom das economias locais e
a dependência, quando nom quotas de miséria ainda maiores.
Longe de compartilhar o optimismo
pola rapidez com que tenhem lugar as mudanças tecnológicos fornecidos pola
ciência e a investigaçom, temos que propor o princípio de precauçom. Precauçom
ante os efeitos ecológicos das novas tecnologias, polo geral deficientemente
avaliados, e precauçom ante o feito de que tais mudanças se estám a produzir a
umha velocidade maior que a velocidade de adaptaçom das populaçons locais.
Os problemas de saúde e qualidade
de vida associada à geraçom de resíduos (lixo urbano, resíduos da indústria,
depósitos de entulho de minas, águas residuais urbanas e industriais ...), bem
como ao desaparecimento de espécies e dos seus hábitats naturais, levou ao
aparecimento das reivindicaçons ambientais, e com elas dos grupos ecologistas e
verdes.
Umha das primeiras conseqüências
desta consciência emergente foi o processo de traslado de indústrias poluentes
e/ou de resíduos tóxicos ao terceiro mundo. Neste ámbito, mesmo nos serve a
Galiza como exemplo dumha situaçom intermédia no contexto mundial: produzimos
pasta de celulose para papel (90% da poluçom e só o 10% do emprego por tonelada
de papel) mas nom o papel que consumimos (que implicaria o 10% da contaminaçom
e o 90% do emprego do processo global). Outro exemplo é a produçom de alumínio
em bruto, utilizando para isso a electricidade das Pontes e a bauxita de
África: o resultado é umha forte contribuiçom á chuva ácida na Galiza e a
geraçom de resíduos tóxicos, ao tempo que fazemos de intermediários na
espoliaçom do terceiro mundo.
Mas a irrupçom da consciência
ecologista achegou nom só soluçons pontuais a diversos problemas, como também
um novo conceito do desenvolvimento. Em primeiro lugar, xurdírom os conceitos
de tecnologias limpas e produçom limpa, quer dizer, a consideraçom das focages
preventivas e a reduçom em orige no referido à geraçom de resíduos, emissons e
impacto ambiental de diferentes actividades. Hoje muitos sectores produtivos
estám reduzindo a sua contaminaçom unitária (contaminaçom por tonelada de
produto). Os avanços neste ámbito ham de considerar-se como imprescindíveis
para formular umha soluçom aos problemas ambientais, para propor um modelo
viável de desenvolvimento sustentável. Hoje algumhas fábricas e actividades que
antano eram fortemente poluentes consideram-se compatíveis coas exigências
dunha qualidade de vida e conservaçom avançadas. Portanto, frente ao processo
de divisom internacional antes comentado (indústrias poluentes ao terceiro
mundo e menos poluentes aos países avançados) cabe pensar o desenvolvimento de
economias autocentradas e cum elevado grau de autosuficiência e/ou
independência perfeitamente compatíveis coa perservaçom do meio ambiente e a
natureza local.
Existe portanto umha possibilidade
nom desdenhável para todos aqueles povos em processo de autodeterminar-se que
quigerem optar por um desenvolvimento sustentável a longo prazo e compatível
coa conservaçom da natureza e a reproduçom dos recursos naturais. Pensemos na
importáncia que pode ter para a Galiza, para Cuba ou para outros países sermos
conscientes da viabilidade dessa opçom, máxime quando o socialismo operante nos
países do leste europeu, durante tantas décadas hipotecado na corrida e
confrontaçom co imperialismo capitalista, deixou um triste legado ambiental.
Mas a viabiliade desta opçom
requere sem dúvidas um passo mais: mudar muitos conceitos e supostas
prioridades que a mesma esquerda continua fazendo seus. Em primeiro lugar,
cumpre desbotar o crescimento económico como o motor do bem-estar da populaçom
e dos povos, e mudar o consumo irracional por umha cultura em que cada pessoa
deve saber que os recursos som limitados, no país e no planeta, e que a sua
mera extracçom e uso implica fortes impactos ambientais que se nom limitamos
minarám o próprio bem-estar ou o das geraçons futuras mais imediatas.
Logicamente, isto só será possível se o capitalismo deixar de ser o modelo
reitor na tomada de decisons político-económicas e especialmente no referido
aos investimentos em infraestruturas. A conscientizaçom ambiental e a procura
de soluçons ecológicas aos problemas ambientais som portanto condiçons
necessárias de qualquer processo de emancipaçom real, e como tais devem
acompanhar todo processo de autodeterminaçom.
O movimento ecologista na Galiza
hoje e a questom nacional
As primeiras organizaçons
ecologistas na Galiza figérom a sua apariçom em meados dos anos setenta, após a
morte do ditador. Diversos documentos mostram umha certa preocupaçom polas
questons ambientais em anos anteriores, mas o sistema nom permitia a
legalizaçom formal de organizaçons deste tipo. ADEGA legalizou-se em 1976, ano
em que tamém se criaria a SGHN.
Nos primeiros anos, ADEGA estivo
federada em Amigos de la Tierra (Federaçom espanhola da internacional Friends
of the Earth), e a SGHM formaria parte da Sociedade Espanhola de Ornitologia
(SEO). Os debates e os movimentos nos modelos organizativos sucedêrom-se
durante anos, condicionados pola tónica geral de confronto entre
espanholismo-nacionalismo que nesses anos se vivia em sectores da esquerda e
dos movimentos alternativos. Porém, a decantançom que levaria à situaçom actual
nom se fijo esperar, e ADEGA separaria-se da FOE em 1979.
Desde começos dos 80 ADEGA foi
umha organizaçom totalmente independente de qualquer grupo exterior ou
interior. A começos dos anos 90 ADEGA estabelece de novo relaçons formais coa
Oficina Europea do Meio Ambiente (OEMA) e coa Assembleia Galega de Grupos
Ecologistas e Naturalistas de Galiza (AGENG, hoje Federaçom Ecologista Galega,
FEG). Porém, estas relaçons concebêrom-se já dumha óptica diferente, sem ceder
nengunha quota de soberania, tanto em relaçom coa FEG quanto coa OEMA.
Simultaneamente, ADEGA participaria em foros de debate de ámbito estatal ou
ibérico, como pudérom ser as reunions de Cidadáns contra a incineraçom, Amantes
do lixo, etc, ou colaborado em campanhas como a Inicitiva Legislativa Popular
contra a energia nuclear. ADEGA tamém fai parte da Plataforma Ecologista
Luso-Galaica e da Associaçom Internacional do Lobo.
De forma geral, podemos dizer que
todos os colectivos que conformam o movimento ecologista galego vivêrom durante
os noventa umha década livre de ataduras estatais que pudessem condicionar a
autonomia e a iniciativa de acçom. Isto apesar de algúns grupos manterem
relaçons formais e participarem em projectos estatais como a Coordenadora de
Organizaçons de Defesa Ambiental (CODA). Esta tinha um modelo organizativo que
podemos considerar flexível, de tipo federativo, em que os grupos locais
assumiam a obriga de achegar a correspondente quota e dispunham de toda a liberdade
de acçom.
Porém, o trabalho da CODA como
organizaçom central foi devedor dumha determinada forma de entender o Estado,
mais bem alonjada dos posicionamentos nacionalistas. Ainda que o reconhecimento
da autoderminaçom dos povos formava parte explicita dos princípios ideológicos
da CODA, a incompreensom do que isto devia supor na prática para a Galiza
faria-se patente em mais dumha ocasiom. Quando a Federaçom Ecologista Galega se
dirigiu à CODA para estabelecer vias de comunicaçom e colaboraçom entre ambas
as organizaçons, que segundo a proposta galega se deveriam fazer em pé de
igualdade, a resposta da CODA foi que a FEG tinha a opçom de federar-se,
entrando formalmente na organizaçom estatal. A negativa da CODA deixou as
cousas como estavam, sem a possibilidade de contactos oficiais entre ambas
organizaçons. Finalmente, a CODA desapareceria em 1998, dando paso a criaçom de
Ecologistas en Acción, num processo de unificaçom e centralizaçom seguindo o
modelo vigente de organizaçom do Estado -o das autonomias-, ainda que com
algumhas cessons a determinados colectivos.
Na sua assembleia de 1999, a raiz
dumha proposta de Ecologistas en Acción, ADEGA acordou umhas bases para umha
possível relaçom com este grupo estatal, partindo do reconhecimento da total
soberania e da necessidade de avançar para um modelo de relaçom simétrica no
canto da relaçom assimétrica de “o grupo que forma parte de”. Mas esta opçom
nom interessou nem a Ecologistas em Acción, nem ao grupo Erva, que hoje
constitui a “federaçom galega” da organizaçom estatal. Nom hai caminho
percorrido para valorizar como funciona o novo modelo de organizaçom deste
projecto estatal, nem se constitui um passo adiante ou atrás com relaçom ao que
era CODA. Porém, os grupos ecologistas galegos que optarem por umha relaçom em
pé de igualdade co movimento ambiental doutras zonas do Estado tenhem, a
respeito de Ecologistas en Acción, um modelo a seguir: este é o do protocolo de
colaboraçom entre esta organizaçom e a Confederação Portuguesa de Associações
de Defesa Ambiental (CPADA).
Portanto, os interesses estatais
continuam manifestando-se, e a independência real do movimento ecologista
galego nom se deve considerar como umha situaçom definitiva. Um aspecto a ter
especialmente em conta será o uso da língua, tanto no material divulgativo como
na comunicaçom entre os membros activos do grupo. O outro aspecto é o papel que
jogam os grupos que num momento dado podem ficar como meras pantalhas de
reflexo ou difusom de campanhas e problemáticas que lhes venhem dadas.
De outro lado, além do que
consideramos movimento ecologista organizado, existe umha consciência
ecologista nom nacionalista, mesmo espanholista, devedora dum modelo de acçom
delegada, que se manifesta no sócio/a que só assume o compromisso do pagamento
da quota e vê satisfeito o seu contributo através dos meios de comunicaçom,
espanholizantes e alienantes como nunca. Isto si é um factor mui importante a
ter em conta. Em condiçons apropriadas, este sector pode ser desencadeante dum
desencontro entre nacionalismo e ecologismo, quer dizer, entre dous elementos
dumha mesma alternativa, a do desenvolvimento autocentrado e sustentável.
Por último, farei umha mençom à necessidade dumha coordenaçom autónoma e independente entre todos os grupos ecologistas da Galiza. Com mais de quinze anos de história, esta coordenaçom vem-na realizando a Federaçom Ecologista Galega (FEG), que reúne perto dumha trintena de grupos. A FEG, antes AGENG (Assembleia de Grupos Ecologistas e Naturalistas da Galiza) foi evoluindo e adaptando a sua estrutura às necessidades e objectivos marcados polos grupos membros nas sucessivas assembleias. Em nengum momento deixou de funcionar como umha coordenadora dos grupos ecologistas galegos. Hoje mantém o carácter assemblear combinado cumha maior capacidade de acçom. Na FEG, qualquer grupo membro pode participar sem renunciar à sua independência nem ceder o seu direito de representaçom pública ante a sociedade e a administraçom.
FEMINISMO E INDEPENDENTISMO.
Lupe Cês