Ramom Lôpez Suevos é na
actualidade Professor de Estrutura Económica na Faculdade de Ciências
Económicas e Empresariais da
Universidade de Compostela
É um lugar comum hoje suster que a independência das pequenas naçons é inviável, querendo significar com isto que a sua independência política é –ou seria— meramente formal, além de incorrer nuns custos económicos proibitivos. No que segue, discute-se este ponto de vista, entendendo por “tamanho” dumha naçom a dimensom populacional dumha unidade de decisom política formalmente soberana.
Umha naçom pequena é também e por
definiçom um mercado interno pequeno, em comparaçom coas naçons mais povoadas
de similar nível económico. Portanto, umha limitaçom económica que se deriva da
pequena dimensom e a incapacidade para aproveitar as economias de produçom em
grande escala. Nom obstante, esta afirmaçom cumpre matizá-la.
Em primeiro lugar, das
discontinuidades e perturbaçons que introduz a existência de pequenas unidades
soberanas só umha parte é imputável à ausência dumha integraçom política
supranacional e à subsistência dumhas barreiras alfandegueiras. Há outras
discontinuidades, derivadas do feito nacional, que pousam em diferenças de
índole cultural (língua, usos, costumes). A menos que se defenda a assimilaçom
plena das naçons “diferenciadas”, as discontinuidades de origem cultural
seguirám a existir após a supressom das fronteiras políticas, coas suas
correspondentes repercusons económicas, como tem assinalado Svennilson.
Em segundo lugar, na análise dos
efeitos associados à existência de pequenas naçons deverám-se deslindar os
factores tecnológicos dos propriamente económicos ou daqueles que só se podem
evaluar negativamente no suposto de que reja um determinado modo de produçom.
Assim, por exemplo, afirma-se que existirá um meirande grau de monopólio nos
mercados dumha naçom pequena, mas esse feito carece de significaçom no quadro
dum sistema planificado.
Em terceiro lugar, a independência
nom se confunde coa autarcia e, desde logo, neste último senso nom existem
países independentes no mundo. Isto significa que o mercado internacional pode
neutralizar em parte as limitaçons económicas que implica um reduzido mercado
interno. E dizemos em parte, porque nom todo bem económico é susceptível de ser
apropriado através do comércio e porque umha dependência forte do mercado
exterior introduz novos problemas. Co que a análise se traslada ao estudo do
impacto do comércio exterior sobre as pequenas naçons.
Ao abrir a naçom às relaçons
económicas internacionais, agromam duas ordes de problemas. Por umha banda,
resulta que, como já adiantamos, toda umha série de bens económicos nom som
susceptíveis do comércio internacional (serviços, actividades do governo,
construçom, transporte e comunicaçons) ou seria perigoso fazer depender o seu
abastecimento do exterior (indústria de armamentos), polo que devem ser
produzidos internamente e persiste o problema de garantir a sua oferta a custos
competitivos a nível mundial. Agora bem, essas actividades -que constituem umha
parte importante mas nom maioritária do Produto Interior Bruto- nom gozam em
muitos casos de economias de escala; é o exemplo do comércio e serviços
pessoais, quiçás da construçom, e dumha série de serviços sociais (saúde, ensino,
estradas e transportes). Neste último caso, o embaratecimento da produçom
semelha depender mais da densidade da populaçom que da populaçom absoluta.
Incluso e polo que se refere ao custo dos serviços do Governo por conceito de
Administraçom Geral e Legislaçom, E.A.G. Robinson tem afirmado que as economias
derivadas dos tamanhos das naçons acadaram como máximo 1% só Produto Interior
Bruto. Mas também nom está claro que isto seja assim, porque o que cumpre
comparar é o custo de manter umha burocracia estatal própria co custo que para
um Estado plurinacional vai supor manter duas administraçons paralelas, umha de
índole estatal e outra de tipo intermédio, “nacional”. De facto, para que a
formaçom dum Estado plurinacional seja umha alternativa a discutir como forma
de resoluçom do problema nacional, tem que recolher na sua estruturaçom
territorial algum tipo de administraçom subestatal, única maneira de ajeitar-se
às características económicas e culturais das naçons que englobe. É mais,
haveria que ver até que ponto a criaçom dumha administraçom nacional própria
nom representa simultaneamente, em muitos casos concretos, umha simplificaçom
da administraçom local pré-existente.
Por outra banda, existem
efectivamente razons tanto teóricas como empíricas para que as economias
pequenas sejam também economias mais abertas, mais dependentes do comércio
internacional do que as grandes naçons; neste senso, S. Kuznets verificou que
existe umha correlaçom positiva entre a taxa de comércio exterior de
mercadorias (comércio exterior/Renda Nacional) e o decrescimento do tamanho das
naçons. Umha forte dependência do comércio exterior de mercadorias e a
incerteça no tocante ao seu volume e flutuaçons pode ser grave, porquanto
atinge a umha variável nom controlável por instáncias nacionais e porque, como
tem demonstrado com toda a claridade Ch. Kindleberger, as flutuaçons no
comércio exterior dos países subdesenvolvidos possuem um alto multiplicador
interno que amplifica drasticamente o impacto inicial. Todo isto é verdade, mas
chegados a esse ponto semelha claro que nom se pode seguir a fazer a análise em
abstracto.
Nom existe em abstracto umha
dimensom óptima das naçons. Quando, ponhamos por caso, se afirma dumha pequena
naçom em luita pola sua independência que o mais que logrará e mudar de Estado
dominante, estám-se a formular mal as cousas, já que o ponto de partida a
efeitos dumha comparaçom é a situaçom actual de assovalhamento nacional e nom
umha abstracta e inexistente situaçom de independência. Aliás, a soberania política
formal concede umha marge de manobra a utilizar —explorando as rivalidades
interimperialistas, a existência de blocos, a posiçom dos países nom alinhados,
etc, tentando a diversificaçom dos intercámbios exteriores por produtos e
países, actuando sobre o capital estrangeiro, etc. Sempre é mais “independente”
umha naçom que ostentar a plena soberania formal do que umha naçom formal e
materialmente assovalhada, e se a independência nacional for acompanhada dumha
profunda mutaçom das estruturas sociais, é definitivamente certo que umha
economia cumha forte abertura ao comércio exterior nom tem por quê ser umha
economia que se desenvolva para fora.
Em certos casos concretos, os
feitos que estamos a debater servem de suporte teórico a umha saída
federalista. Um federalismo autêntico integraria num grau notável o Exército e
Diplomacias nacionais no Estado federal, aproveitando as economias de escala
nos serviços governamentais e incrementando a capacidade de negociaçom na área
internacional, que já nom é a da naçom mas a da federaçom, e potenciaria umha
divisom federal do trabalho sobre pressupostos igualitários para cada naçom.
Ponto importante a destacar é que
há também conseqüências económicas positivas derivadas do feito mesmo de ser
umha naçom pequena, que reforçam o argumento de que o efeito económico neto do
tamanho das naçons nem se pode precisar em abstracto nem é doado de determinar.
Como norma geral, as pequenas naçons som economicamente mais homogéneas e
coesas, o que se traduz numha maior virtualidade da planificaçom económica e
numha mais rápida capacidade de adaptaçom e flexibilidade quando se imponhem
mudanças económicos. Do ponto de vista político, estas sociedades som menos
coercitivas, ao estarem mais integradas e propiciar um tipo de lealdades colectivas
mais directo e factível. Como valorizar todo isto?.
Qualquer que for a conclusom a que
nos levarem estas reflexons, umha cousa está clara: nom existe a nível empírico
nengumha correlaçom firmemente estabelecida entre a dimensom das naçons e o seu
ritmo de crescimento ou o seu grau de desenvolvimento económico; como já
assinalamos noutra ocasiom, os estudos efectuados sobre as conseqüências
económicas das unions alfandegárias também nom acreditam argumentos de peso em
prol da integraçom. Nom existem, pois, nem sequer em abstracto, argumentos
económicos totalmente concluentes a favor da integraçom económica ou contra a
independência das pequenas naçons.
Sem embargo, em naçons colonizadas
e sempre em termos parelhos, muita gente coloca teimudamente o interrogante:
seremos capazes de viver sós?. Isto é um típico complexo de inferioridade,
complexo de colonizad@ [2].
O que sucede é que a espoliaçom e desarticulamento destas economias se tem
levado até um extremo tal que o próprio Estado imperialista tem que tomar
cartas no assunto, via Segurança Social, para neutralizar algumhas das suas
conseqüências sociais potencialmente mais explosivas, mas sem entrar no fundo
do problema, pois equivaleria a negar a sua natureza nacional e de classe. A
realidade é que estas naçons estám esgotadas e exploradas, de maneira que torar
as estruturas de dependência e rescatar a soberania nacional é abrir os vieiros
do desenvolvimento económico, social e cultural. Os países nom som naturalmente
ricos ou pobres, senom que chegam a desenvolver-se ou empobrecer-se. O problema
do desenvolvimento é um problema de estruturas sociais e de soberania nacional.
É possível que o futuro seja dos
grandes espaços políticos, mas hoje e aqui, como se construi esse futuro da
perspectiva de qualquer povo colonizado da Europa Ocidental?. Esse futuro passa
pola reconversom dos actuais Estados europeus numha Europa das Naçons, que a
longo prazo nom só possibilitará senom que exigirá –pola própria limitaçom dos
respectivos espaços nacionais— umha autêntica comunidade supranacional;
perspectiva de futuro bem diferente do imperialismo assimilacionista hoje
prevalecente. A possibilidade dumha Europa solidária passa hoje pola
descolonizaçom das naçons assovalhadas da Europa.
[1] O presente ensaio foi publicado em 1979 pola editora Edicións do Cerne dentro do volume Do capitalismo colonial, da autoria do próprio Ramom Lôpez Suevos. A obra incluía trabalhos de imprensa publicados entre 1975 e 1979. Decidimo-nos a reproduzi-lo, com o consentimento do seu autor, polo interesse que a dia de hoje continua a manter o seu conteúdo, à par de supor umha das escasas tentativas de elaboraçom teórica independentista de parámetros sócio-económicos. O mesmo autor trata com maior profundidade o tema deste trabalho numha obra posterior, Dialéctica do desenvolvimento: naçom, língua, classes sociais, editado pola AGAL em 1983, nomeadamente nos capítulos segundo e terceiro. A língua foi revisada e actualizada de acordo com o próprio uso reintegracionista que no presente assume Ramom Lôpez Suevos. Suprimírom-se a maior parte das notas a rodapé.
[2]
Por
esta razom, as organizaçons anti-imperialistas destes países vem-se, no
confronto ideológico, obrigadas a afirmar e demonstrar, umha e outra vez, que
as suas naçons tenhem capacidade avondo para principiar sozinhas os vieiros do
desenvolvimento económico, com tal de torarem previamente os laços da
dependência colonial. Repassem-se, a este respeito, os documentos do IRA
irlandês, da UDB e da FLB da Bretanha, do nacionalismo sardo, do
independentismo portorriquenho, da FLNC corsa, dos movimentos nacionalistas
canário ou galego...
DA CRISE NO COMITÉ CENTRAL DA UPG EM 1976 À CISOM DA FPG EM 1989. L. GONÇÁLEZ BLASCO, “FOZ”