QUE FAZER? SEGUIDO DE O ESTADO E A REVOLUÇOM
IV. O TRABALHO ARTESANAL DOS ECONOMISTAS E A ORGANIZAÇOM DOS REVOLUCIONÁRIOS
As afirmaçons da Rab. Dielo examinadas acima, quando di que a luita económica é o meio de agitaçom política mais amplamente aplicável, que a nossa tarefa consiste agora em imprimir à própria luita económica um carácter político, etc., reflectem umha concepçom estreita das nossas tarefas, nom só no terreno político mas também no de organizaçom. Para a «luita económica contra os patrons e o governo» é absolutamente desnecessária umha organizaçom centralizada para toda a Rússia (que, por isso mesmo, nom pode formar-se no decorrer de tal luta), umha organizaçom que reúna num único impulso comum todas as manifestaçons de oposiçom política, de protesto e de indignaçom, umha organizaçom formada por revolucionários profissionais e dirigida por verdadeiros chefes políticos de todo o povo. E isto compreende-se. O carácter da estrutura de qualquer instituiçom é determinado, natural e inevitavelmente, polo conteúdo da actividade dessa instituiçom. Por isso, a Rab. Dielo, com as afirmaçons que examinamos anteriormente, consagra e legitima nom só a estreiteza da actividade política, mas também a estreiteza do trabalho de organizaçom. E neste caso, como em todos, é um órgao de imprensa cuja consciência se inclina perante a espontaneidade. E, contudo, o prosternar-se perante formas de organizaçom que surgem espontaneamente, o nom ter consciência de como é estreito e primitivo o nosso trabalho de organizaçom, o nom ver até que ponto somos ainda «artesaos» neste importante domínio, a falta desta consciência, digo, é umha verdadeira doença do nosso movimento. Nom é, evidentemente, umha doença própria da decadência, mas do crescimento. Mas precisamente agora, quando a vaga da indignaçom espontánea nos envolve, por assim dizer, a nós dirigentes e organizadores do movimento, é particularmente necessária a luita mais intransigente contra toda a defesa do atraso, contra toda a legitimizaçom da estreiteza de vistas neste sentido; é particularmente necessário despertar em quantos participam ou se propom participar no trabalho prático o descontentamento polo trabalho artesanal que reina entre nós e a decisom inquebrantável de nos desembaraçarmos dele.
a) O que é o trabalho artesanal?
Tentemos responder a esta pergunta esboçando em poucas palavras um quadro da actividade de um círculo social-democrata típico dos anos 1894-1901. Assinalamos já a atracçom geral da juventude estudantil daquele período polo marxismo. Claro que esta atracçom nom visava só, nem sequer tanto, o marxismo como teoria, mas como resposta à pergunta: «Que fazer?», como apelo a avançar contra o inimigo. E os novos combatentes avançavam com umha preparaçom e um equipamento extraordinariamente primitivos. Em muitíssimos casos quase que nom tinham equipamento e faltava-lhes totalmente a preparaçom. lam para a guerra como verdadeiros mujiques que acabam de deixar o arado, armados apenas com simples paus. Sem nengumha ligaçom com os velhos militantes do movimento, sem nengumha relaçom com os círculos de outras localidades ou mesmo com os de outros pontos da cidade (ou de outros estabelecimentos de ensino), sem qualquer organizaçom das diferentes partes do trabalho revolucionário, sem nengum plano sistemático de acçom para um período mais ou menos prolongado, um círculo de estudantes entra em contacto com operários e começa a trabalhar. Gradualmente desenvolve umha propaganda e umha agitaçom cada vez mais vasta e, polo facto da sua intervençom, atrai a simpatia de sectores operários bastante amplos, a simpatia de umha parte da sociedade instruída, que fornece dinheiro e pom à disposiçom do «Comité» novos e novos grupos de jovens. O prestígio do comité (ou da uniom de luita) cresce, cresce a amplitude do seu campo de acçom e vai alargando a sua actividade de umha maneira completamente espontánea: as mesmas pessoas que, um ano ou alguns meses antes, intervinham em círculos de estudantes e resolviam a questom «Para onde ir?», que estabeleciam e mantinham relaçons com os operários, compunham e publicavam folhas volantes, estabelecem relaçons com outros grupos de revolucionários, arranjam literatura, iniciam o trabalho da ediçom de um jornal local, começam a falar em organizar umha manifestaçom e por fim passam às operaçons militares abertas (operaçons militares abertas que podem ser, segundo as circunstáncias, a primeira folha volante de agitaçom, o primeiro número de um jornal, a primeira manifestaçom.
De umha maneira geral, estas operaçons
conduzem, logo de início, a um fracasso imediato e completo. Imediato
e completo porque estas operaçons militares nom som o resultado de
um plano sistemático, bem meditado e minuciosamente preparado, de umha
luita prolongada e tenaz, mas, simplesmente, o crescimento espontáneo
de um trabalho de círculo, feito de acordo com a tradiçom; porque
a polícia, como é natural, conhecia quase sempre todos os principais
dirigentes do movimento local, que já tinham «dado que falar»
nos bancos da Universidade, e só aguardava o momento mais propício
para lançar a rede, deixando de propósito o grupo crescer e
alargar-se para ter um corpus delicti tangível, e deixando de cada
vez, propositadamente, alguns indivíduos dela conhecidos, como «semente»
(expressom técnica que empregam, tanto quanto sei, tanto os nossos
como os gendarmes). Nom se pode deixar de comparar esta guerra a umha marcha
de bandos de camponeses armados de paus contra um exército moderno.
E só se pode admirar a vitalidade de um movimento que se alargou, cresceu
e obteve vitórias apesar da completa falta de preparaçom dos
combatentes. É certo que, do ponto de vista histórico, o carácter
primitivo do equipamento era nom só inevitável ao princípio,
mas mesmo legítimo, como umha das condiçons que permitia atrair
grande quantidade de combatentes. Mas quando começárom as operaçons
militares sérias (e começárom já na realidade
com as greves do Verao de 1896), as deficiências da nossa organizaçom
de combate figérom-se sentir cada vez mais. Depois do primeiro momento
de surpresa, depois de ter cometido umha série de erros (como dirigir-se
à opiniom pública contando os malefícios dos socialistas
ou deportar para os centros industriais da província operários
das capitais), o governo nom tardou a adaptar-se às novas condiçons
da luita e soube colocar nos pontos convenientes os seus destacamentos de
provocadores, de espions e de gendarmes providos de todos os meios modernos.
As prisons tornárom-se tam freqüentes, estendêrom-se a umha
tal quantidade de pessoas, varrêrom a tal ponto os círculos locais,
que a massa operária ficava literalmente sem dirigentes, o movimento
adquiria um carácter esporádico incrível e era absolutamente
impossível estabelecer qualquer continuidade ou coordenaçom
no trabalho. A extraordinária dispersom dos militantes locais, a composiçom
fortuita dos círculos, a falta de preparaçom e a estreiteza
de vistas no que se refere às questons teóricas, políticas
e de organizaçom eram a conseqüência inevitável das
condiçons descritas. As cousas chegárom a tal extremo que, em
alguns locais, os operários, vendo a nossa falta de firmeza e de hábitos
de actividade clandestina, sentem desconfiança em relaçom com
os intelectuais e afastam-se deles: os intelectuais, dizem, provocam detençons
pola sua acçom demasiado irreflectida!
Todos aqueles que conhecem um pouco
o movimento sabem que nom há um social-democrata sensato que nom veia
iá, finalmente, no trabalho artesanal umha verdadeira doença.
Mas para que o leitor nom iniciado nom vá julgar que «construímos»
artificialmente umha fase particular ou umha doença particular do movimento,
recorreremos ao testemunho já umha vez citado. Que nos perdoem a extensom
da citaçom.
«Se a passagem gradual a umha actividade prática mais ampla, escreve B-v no n.o 6 da Rab. Dielo, passagem que depende directamente do período geral de transiçom que atravessa o movimento operário russo, é um traço característico ...existe, no conjunto do mecanismo da revoluçom operária russa, outro traço nom menos interessante. Referimo-nos à escassez geral de forças revolucionárias aptas para a acçom95, que se fai sentir nom somente em Petersburgo, mas em toda a Rússia. A medida que o movimento operário se intensifica, à medida que a massa operária se desenvolve em geral, à medida que as greves se tornam mais freqüentes, que a luita de massas dos operários se trava mais abertamente, o que fai recrudescer as perseguiçons governamentais, as prisons, os desterros e as deportaçons, esta escassez de forças revolucionárias de alta qualidade torna-se cada vez mais sensível e, indubitavelmente, nom deixa de influir na profundidade e no carácter geral do movimento. Muitas greves desenvolvem-se sem que as organizaçons revolucionárias exerçam sobre elas umha influência enérgica e directa ..., fai-se sentir a falta de folhas volantes de agitaçom e de literatura ilegal..., os círculos operários ficam sem agitadores. ...Ao mesmo tempo nota-se constantemente a falta de dinheiro. Numha palavra, o crescimento do movimento operário ultrapassa o crescimento e desenvolvimento das organizaçons revolucionárias. Os efectivos de revolucionários activos som demasiado insignificantes para concentrar nas suas maos a influência sobre toda a massa operária em agitaçom, para dar a todos os distúrbios ao menos umha sombra de harmonia e de organizaçom ...Os círculos dispersos, os revolucionários dispersos nom estám unidos, nom estám agrupados, nom constituem umha organizaçom única, forte e disciplinada, com partes metodicamente desenvolvidas. E depois de ter feito a reserva de que o aparecimento imediato de novos círculos, em substituiçom dos que fôrom destruídos, «prova unicamente a vitalidade do movimento... mas nom demonstra a existência de umha quantidade de militantes revolucionários plenamente aptos», o autor conclui: «A falta de preparaçom prática dos revolucionários de Petersburgo reflecte-se também nos resultados do seu trabalho. Os últimos processos, particulartnentt: dos grupos de «Auto-emancipaçom» e «luita do Trabalho contra o Capital»96 mostram claramente que um agitador jovem, que nom começa pormenorizadamente as condiçons do trabalho e, por conseqüência, da agitaçom numha fábrica determinada, que nom conheça os princípios da conspiraçom e que só tenha assimilado» (terá mesmo assimilado?) «as ideias gerais da social-democracia, pode trabalhar uns quatro, cinco ou seis meses. Depois vem a prisom, que provoca muitas vezes o desmoronamento de toda a organizaçom ou, polo menos, de umha parte dela. Cabe perguntar: pode um grupo trabalhar com êxito, com proveito, quando a sua existência está limitada a alguns meses? É evidente que os defeitos das organizaçons existentes nom podem ser atribuídos inteiramente ao período de transiçom ...é evidente que a quantidade, e sobretudo a qualidade, dos efectivos das organizaçons activas desempenham aqui um papel de nom pouca importáncia, e a tarefa primordial dos nossos social-democratas ...deve consistir em unificar realmente as organizaçons, com umha selecçom rigorosa dos seus membros.»
b) O
trabalho artesanal e o economismo
Devemos agora deter-nos numha questom que certamente já se pujo a todos os leitores: pode estabelecer-se umha relaçom entre este trabalho artesanal, como doença de crescimento, que afecta todo o movimento, e o «economismo», como umha das tendências da social-democracia russa? Pensamos que sim. A falta de preparaçom prática, a falta de habilidade no trabalho de organizaçom som, com efeito, cousas comuns a todos nós, mesmo a aqueles que, desde o início, mantiveram inflexivelmente o ponto de vista do marxismo revolucionário. É certo que ninguém poderia lançar à cara dos práticos esta falta de preparaçom por si só. Mas, além da falta de preparaçom, o conceito «trabalho artesanal» supom também outra cousa: supom o reduzido alcance de todo o trabalho revolucionário em geral, o nom compreender que com base neste trabalho de vistas estreitas nom se pode constituir umha boa organizaçom de revolucionários, e, por último e isto é o principal supom tentativas para justificar esta estreiteza de vistas e para a erigir numha «teoria» particular, isto é, supom o culto da espontaneidade também neste campo. E mal se manifestárom tais tentativas, tornou-se evidente que o trabalho artesanal está relacionado com o «economismo» e que nom nos libertaremos da estreiteza no nosso trabalho de organizaçom se nom nos libertarmos do «economismo» em geral (quer dizer, de umha concepçom estreita tanto da teoria do marxismo como do papel da social-democracia e das suas tarefas políticas). E essas tentativas fôrom observadas em duas direcçons. Uns começárom a dizer que a massa operária nom tinha formulado ainda, ela própria, tarefas políticas tam amplas e tam combativas como aquelas que lhe «impunham» os revolucionários, que deve ainda luitar por reivindicaçons políticas imediatas, travar «uma luita económica contra os patrons e o governo»(97) (e a esta luita «acessível» ao movimento de massas corresponde, naturalmente, umha organizaçom «acessível» mesmo à juventude menos preparada).
Outros, alheios a todo o «gradualismo»,
começárom a dizer que se podia e se devia «fazer a revoluçom
política», mas que, para isso, nom havia qualquer necessidade
de criar umha forte organizaçom de revolucionários que educasse
o proletariado numha luita firme e tenaz; que para isso era suficiente agarrarmos
todos no pau já conhecido e «acessível». Falando
sem alegorias: que organizássemos a greve geral (98) ou estimulássemos
o processo do movimento operário «adormecido», com um «terror
excitante»(99). Estas duas tendências, a oportunista e a «revolucionarista»,
capitulam perante o trabalho artesanal imperante, nom acreditam na possibilidade
de se libertar dele, nom compreendem a nossa primeira e mais urgente tarefa
prática: criar umha organizaçom de revolucionários capaz
de dar à luita política energia, firmeza e continuidade.
Acabamos de citar as palavras de
B-v: «O crescimento do movimento operário ultrapassa o crescimento
e desenvolvimento das organizaçons revolucionárias.» Esta
«valiosa informaçom de um observador directo» (comentário
da Redacçom da Rabótcheie Dielo ao artigo de B-v) tem para nós
um duplo valor. Demonstra que tínhamos razom ao considerar que a causa
fundamental da crise que a social-democracia russa atravessa actualmente reside
no atraso dos dirigentes («ideólogos», revolucionários,
social-democratas) em relaçom com o ascenso espontáneo das massas.
Demonstra que todo o palavreado dos autores da carta «economista»
(no n.º 12 do Iskra), B. Kritchévski e Martínov, sobre
o perigo de minimizar a importáncia do elemento espontáneo,
da cinzenta luita quotidiana, sobre a táctica-processo, etc., som precisamente
umha defesa e umha exaltaçom do trabalho artesanal.
Essa gente que nom pode pronunciar
a palavra «teórico» sem um aceno desdenhoso, que chama
«sentido da vida» à sua prosternaçom perante a falta
de preparaçom para a vida e perante a falta de desenvolvimento, mostram
de facto que nom compreendem as nossas tarefas práticas mais imperiosas.
Às pessoas que ficárom para trás gritam: «Marcade
passo! nom vos adiantedes!» Aqueles a quem falta energia e iniciativa
no trabalho de organizaçom, a quem faltam «planos» para
organizar ampla e ousadamente o trabalho, falam da «táctica-processo»!
O nosso pecado capital consiste em rebaixar as nossas tarefas políticas
e de organizaçom ao nível dos interesses imediatos, «tangíveis»,
«concretos» da luita económica quotidiana. Mas continuam
a cantar-nos: há que imprimir à própria luita económica
um carácter político! Repetimos: isto é literalmente
o mesmo «sentido da vida» que demonstrava possuir a personagem
da epopeia popular que gritava, ao passar um enterro: «Oxalá
tenhades sempre algo que levar!»
Recordade a incomparável
presunçom, verdadeiramente digna de Narciso, com a qual estes sábios
ensinavam Plekhánov: «Aos círculos operários nom
som acessíveis em geral (sic!) as tarefas políticas no sentido
real, prático desta palavra, isto é, no sentido de umha luita
prática, conveniente e eficaz por reivindicaçons políticas»
(Resposta da Redacçom da «R. D.», p. 24). Há círculos
e círculos, senhores!. A um círculo de «artesaos»
nom som, por certo, acessíveis as tarefas políticas, enquanto
nom reconhecer o carácter artesanal do seu trabalho e dele nom se livrar.
Mas se, além disso, esses artesaos estám enamorados dos seus
métodos, se escrevem sempre em itálico a palavra «prático»
e se imaginam que a prática exige que eles rebaixem as suas tarefas
ao nível de compreensom das camadas mais atrasadas das massas, entom,
evidentemente, estes artesaos som incuráveis e, com efeito, as tarefas
políticas som-lhes em geral inacessíveis. Mas, para um círculo
de corifeus como Alexéieve Míchkine, Khaltúrine e Jeliábov,
som acessíveis as tarefas políticas no sentido mais real, mais
prático do termo, precisamente porque, e no grau em que, a sua propaganda
ardente encontra eco na massa, que desperta espontaneamente, porque a sua
fervente energia é secundada e apoiada pola energia da classe revolucionária.
Plekhánov tinha mil vezes razom quando nom só indicou qual era
esta classe revolucionária, nom só demonstrou que era inevitável
e iniludível o seu despertar espontáneo, mas colocou mesmo aos
«círculos operários» umha elevada e grandiosa tarefa
política. E vós invocades o movimento de massas que surgiu desde
entom para rebaixar esta tarefa, para reduzir a energia e o alcance da actividade
dos «círculos operários». Que é isto senom
egolatria do artesao enamorado dos seus métodos? Vangloriades-vos do
vosso espírito prático e nom vedes o facto conhecido por todo
o militante pratico russo: que milagres pode fazer, na obra revolucionária,
nom só a energia de um círculo, mas mesmo a energia de um único
indivíduo. Ou pensais que no nosso movimento nom podem existir os corifeus
que existírom na década de 70? Por que razom? Porque estamos
pouco preparados? Mas preparamo-nos, prepararemo-nos e estaremos preparados!
É verdade que a água estagnada da «luita económica
contra os patrons e governo» criou entre nós, infelizmente, limo,
aparecêrom pessoas que se pugérom de joelhos adorando a espontaneidade
e que contemplam religiosamente (segundo a expressom de Plekhánov)
o «traseiro» do proletariado russo. Mas saberemos desembaraçar-nos
deste limo. É precisamente agora que o revolucionário russo,
guiado por umha teoria verdadeiramente revolucionária, apoiando-se
numha classe verdadeiramente revolucionária, que desperta espontaneamente,
pode finalmente finalmente! levantar-se em toda a sua estatura
e desenvolver todas as suas forças de gigante. Para isso, só
é necessário que na massa dos práticos, na massa ainda
mais extensa dos que sonham com o trabalho prático já desde
os bancos da escola, qualquer tentativa de rebaixar as nossas tarefas políticas
e o alcance do nosso trabalho de organizaçom seja acolhida com troça
e desprezo. E estejam certos, senhores, conseguiremo-lo!
No artigo Por onde Começar?
escrevim contra a Rabótcheie Dielo: «Em 24 horas pode-se
modificar a táctica de agitaçom nalgum problema especial, a
táctica de realizaçom de algum pormenor de organizaçom
do partido, mas mudar, nom digo em 24 horas, mas em 24 meses, as suas concepçons
sobre o problema de saber se é necessária, em geral, sempre
e absolutamente, a organizaçom de combate e a agitaçom política
entre as massas, é cousa que só podem fazer pessoas sem princípios.»
A Rabótcheie Dielo responde: «Esta acusaçom do Iskra,
a única que pretende estar baseada na realidade, carece em absoluto
de fundamento. Os leitores da R. Dielo sabem muito bem que, desde o princípio,
nom só exortamos à agitaçom política, sem esperar
que aparecesse o Iskra» ... (dizendo ao mesmo tempo que, nom só
aos círculos operários, «mas nem mesmo sequer ao movimento
operário de massas se pode pôr como primeira tarefa política
o derrubamento do absolutismo», mas somente a luita por reivindicaçons
políticas imediatas, e que «as reivindicaçons imediatas
se tornam acessíveis às massas depois de umha ou, quando muito,
várias greves») ...«mas que também com as nossas
publicaçons editadas no estrangeiro proporcionamos aos camaradas que
actuam na Rússia os únicos materiais de agitaçom política
social-democrata (e, nestes únicos materiais, nom só praticárom
com a maior amplitude a agitaçom política exclusivamente no
terreno da luita económica, mas ainda concluírom, enfim, que
esta agitaçom limitada «é a mais amplamente aplicável».
E nom reparam, senhores, que a sua argumentaçom demonstra precisamente
a necessidade do aparecimento do lskra dado o carácter destes
materiais únicos e a necessidade da luita do Iskra contra a Rabótcheie
Dielo? )... «Por Outro lado, a nossa actividade editorial preparava
na prática a unidade táctica do partido... «(a unidade
de crer que a táctica é o processo de crescimento das tarefas
do partido, que crescem ao mesmo tempo que este? Que rica unidade!)... «e,
por isso mesmo, tornava possível criar umha «organizaçom
de combate», para cuja formaçom a Uniom fijo tudo o que era acessível
a umha organizaçom residente no estrangeiro» (R. D., n.º
10, p. 15). Vá tentativa para sair do embaraço! Que figérom
tudo quanto lhes era acessível, é cousa que nunca pensei em
negar. O que afirmei e afirmo é que os limites do que lhes é
«acessível» se estreitam pola miopia das suas concepçons.
É ridículo que se fale de «organizaçom de combate»
para luitar por «reivindicaçons políticas imediatas»
ou para «a luita económica contra os patrons e o governo».
Mas, se o leitor quiger ver as pérolas da atracçom «economista» polo trabalho artesanal, terá de passar naturalmente da ecléctica e vacilante Rab. Dielo ao conseqüente e decidido Rabo Misl. «Duas palavras agora sobre a chamada intelectualidade revolucionária escrevia R. M. No Suplemento separado, p. 13. É certo que mais de umha vez demonstrou na prática que está totalmente disposta «a entrar na luita decisiva com o tsarismo». Unicamente, o mal está em que, perseguida sem tréguas pola polícia política, a nossa intelectualidade revolucionária considerava esta luita com a polícia política como umha luita política contra a autocracia. É por isso que a pergunta: «Onde buscar forças para a luita contra a autocracia?» continua ainda sem resposta por parte deles.»
Nom é verdade que é
incomparável este olímpico desprezo pola luita contra a polícia,
sentido por um admirador (no pior sentido do termo) do movimento espontáneo?
Está disposto a justificar a nossa falta de habilidade para o trabalho
conspirativo dizendo que, com o movimento espontáneo de massas, para
nós nom tem importáncia, no fundo, a luita contra a polícia
política!! Muito poucos subscreverám esta conclusom monstruosa,
tam dolorosamente som sentidas por todos as deficiências das nossás
organizaçons revolucionárias. Mas se Martínov, por exemplo,
nom a subscreve, é unicamente porque nom sabe ir até o fim das
suas teses ou nom tem a coragem de o fazer. Com efeito, acaso umha «tarefa»
como a de que as massas apresentem reivindicaçons concretas, que prometam
resultados tangíveis, exige umha preocupaçom especial para criar
umha organizaçom de revolucionários sólida, centralizada
e combativa? nom realiza também esta «tarefa» umha massa
que, de maneira nengumha, «luita contra a polícia política»?
Mais ainda, seria realizável esta tarefa se, além de um
reduzido número de dirigentes, nom se encarregassem de a cumprir também
(na sua grande maioria) operários que som absolutamente incapazes de
«luitar contra a polícia política»? Estes operários,
os homens médios da massa, som capazes de dar provas de umha energia
e umha abnegaçom gigantescas numha greve, num combate de rua com a
polícia e a tropa, podem (e som os únicos que podem) decidir
o resultado de todo o nosso movimento, mas precisamente a luita contra a polícia
política exige qualidades especiais, exige revolucionários profissionais.
E nós nom nos devemos só preocupar com que a massa «apresente»
reivindicaçons concretas, mas também com que a massa de operários
«destaque», em número cada vez maior, estes revolucionários
profissionais. Eis-nos, assim, chegados ao problema das relaçons entre
a organizaçom de revolucionários profissionais e o movimento
puramento operário. A esta questãq. pouco desenvolvida na literatura,
dedicamos nós, «os políticos», muito tempo em conversas
e discussons com camaradas que tenhem mais ou menos tendência para o
«economismo». Vale a pena determo-nos especialmente nela. Mas
primeiro terminemos com outra citaçom a ilustraçom da nossa
tese sobre a relaçom entre o trabalho artesanal e o «economismo».
«O grupo «Emancipaçom do Trabalho» dizia o senhor N. N. Na sua Resposta exige que se luite directamente contra o governo, sem pensar onde está a força material necessária para esta luita, sem indicar os caminhos que ela deve seguir.» E, sublinhando estas últimas palavras, o autor faz, a propósito da palavra «caminhos», a seguinte observaçom: «Esta circunstáncia nom pode ser explicada por fins conspirativos, porque no programa nom se trata de umha conjura, mas de um movimento de massas. E as massas nom podem avançar por caminhos secretos.
Será, por acaso, possível umha greve secreta? Será possível realizar em segredo umha manifestaçom ou apresentar umha petiçom em segredo?» (Vademecum, p. 59.)
O autor abordou de perto tanto a «força material» (os organizadores das greves e das manifestaçons) como os «caminhos» polos quais esta luita tem que seguir; mas permaneceu, contudo, confuso e perplexo, porque se «prosterna» perante o movimento de massas, quer dizer, considera-o como umha cousa que nos exime da nossa actividade, da actividade revolucionária, e nom como umha cousa que deve encorajar e estimular a nossa actividade revolucionária. Umha greve secreta é impossível para as pessoas que nela participam ou que com ela tenham relaçom imediata. Mas, para a massa dos operários russos, esta greve pode ser (e é na maioria dos casos) «secreta», porque o governo terá o cuidado de cortar todas as comunicaçons com os grevistas, terá o cuidado de tornar impossível toda a difusom de notícias sobre a greve. E é aqui que já se torna necessária a «luita contra a polícia política», umha luita especial, umha luita que nunca poderá ser travada activamente por umha massa tam ampla como aquela que participa nas greves. Esta luita deve ser organizada, «segundo todas as regras da arte», por pessoas que tenham como profissom a actividade revolucionária. E o facto de as massas se terem integrado espontaneamente no movimento nom torna agora menos necessária a organizaçom desta luita. Polo contrário, a organizaçom torna-se, por este motivo, mais necessária, porque nós, os socialistas, faltaríamos às nossas obrigaçons directas perante as massas se nom soubéssemos impedir à polícia de tornar secreta (e se, por vezes, nom preparássemos nós próprios em segredo) qualquer greve ou manifestaçom. E saberemos fazê-lo precisamente porque as massas que despertam espontaneamente destacarám também do seu seio um número cada véz maior de «revolucionários profissionais» (desde que nom nos ocorra convidar os operários, em todos os tons, a continuar a marcar passo).
c)
A organizaçom de operários e a organizaçom de revolucionários
Se, para um social-democrata, no
conceito de «luita económica contra os patrons e o governo»
se encontra englobado o de luita política, é natural esperar
que o conceito de «organizaçom de revolucionários»
fique mais ou menos englobado no de «organizaçom de operários».
É o que realmente acontece, de modo que, quando falamos de organizaçom,
falamos línguas absolutamente diferentes. Lembro-me, por exemplo, como
se fosse ontem, de umha conversa que tivem um dia com um «economista»,
bastante conseqüente, que eu ainda nom conhecia100. A conversa girava
em torno da brochura Quem Fará a Revoluçom Política?
Rapidamente coincidimos na opiniom de que o defeito principal desta brochura
era o de nom ter em conta a questom da organizaçom. Pensávamos
já estar de acordo, mas... ao continuar a conversa, apercebemo-nos
que falávamos de cousas diferentes. O meu interlocutor acusava o autor
de nom ter em conta as caixas de greve, as sociedades de socorros mútuos,
etc.; eu, polo meu lado, pensava na organizaçom de revolucionários
indispensável para «fazer» a revoluçom política.
E, a partir do momento em que esta divergência se revelou, nom me recordo
de ter estado algumha vez de acordo com este «economista» sobre
qualquer questom de princípio!
Mas em que consistia o motivo das
nossas divergências? Nem mais nem menos no facto de os «economistas»
se desviarem constantemente da social-democracia para o trade-unionismo, tanto
no que se refere às tarefas de organizaçom como às tarefas
políticas. A luita política da social-democracia é muito
mais ampla e mais complexa do que a luita económica dos operários
contra os patrons e o governo. Do mesmo modo (e como conseqüência
disto), a organizaçom de um partido social-democrata revolucionário
deve ser, inevitavelmente, de um género diferente da organizaçom
dos operários para a luita económica. A organizaçom de
operários deve ser, em primeiro lugar, sindical; em segundo lugar,
deve ser o mais ampla possível; em terceiro lugar, deve ser o menos
clandestina possível (aqui e no que se segue, refiro-me, bem entendido,
apenas à Rússia autocrática). Polo contrário,
a organizaçom de revolucionários deve englobar, antes de tudo
e sobretudo, pessoas cuja profissom seja a actividade revolucionária
(por isso falo de umha organizaçom de revolucionários, pensando
nos revolucionários social-democratas). Perante esta característica
geral dos membros de umha tal organizaçom, deve desaparecer por completo
toda a distinçom entre operários e intelectuais, para nom falar
já da distinçom entre as diferentes profissons de uns e outros.
Necessariamente, esta organizaçom nom deve ser muito extensa, e é
preciso que seja o mais clandestina possível. Detenhamo-nos nestes
três pontos distintivos.
Nos países que gozam de
liberdade política, a diferença entre a organizaçom sindical
e a organizaçom política é perfeitamente clara, como
também é clara a diferença entre as trade-unions e a
social-democracia. É claro que as relaçons entre esta última
e as trade-unions variam inevitavelmente de país para país,
segundo as condiçons históricas, jurídicas, etc., podendo
ser mais ou menos estreitas, complexas, etc. (devem ser, na nossa opiniom,
o mais estreitas e o menos complexas possível), mas, nos países
livres, nem sequer se pom o problema de identificar a organizaçom dos
sindicatos com a organizaçom do partido social-democrata. Na Rússia,
contudo, o jugo da autocracia apaga, à primeira vista, qualquer distinçom
entre a organizaçom social-democrata e as associaçons operárias
porque todas as associaçons operárias a todos os círculos
estám proibidos, e a greve, principal manifestaçom e arma de
luita económica dos operários, é considerada em geral
como um crime de direito penal (por vezes mesmo como um delito político!).
Assim, as condiçons da Rússia, por um lado, «incitam»
fortemente os operários que luitam no terreno económico a pensar
nas questons políticas, e, por outro, «incitam» os social-democratas
a confundir o trade-unionismo com a social-democracia (e os nossos Kritchévski,
Martínov e C.ª, que nom param de falar sobre o «incitamento»
do primeiro género, nom notam o «incitamento» do segundo
género). Com efeito, imaginemos pessoas absorvidas noventa e nove por
cento pola «luita económica contra os patrons e o governo».
Ante uns, nem umha só vez se porá a pergunta, durante todo o
período da sua actividade (de 4 a 6 meses), da necessidade de umha
organizaçom mais complexa de revolucionários. Outros, talvez,
«tropeçarám» com a literatura bernsteiniana, relativamente
bastante difundida, e adquirirám a convicçom de que o que tem
umha importáncia essencial é a «marcha progressiva da
cinzenta luita quotidiana». Outros, enfim, deixarám-se, talvez,
seduzir pola ideia tentadora de dar ao mundo um novo exemplo de «estreita
ligaçom orgánica com a luita operária», de ligaçom
do movimento sindical com o movimento social-democrata. Quanto mais tarde
chega um país ao capitalismo e, por conseguinte, ao movimento operário,
dirám essas pessoas, tanto mais podem os socialistas participar no
movimento sindical e apoiá-lo, e tanto menos pode e deve haver sindicatos
nom social-democratas. Até aqui, este raciocínio é perfeitamente
correcto, mas o mal é que vam mais longe e sonham com umha fusom completa
entre a social-democracia e o trade-unionismo. Vamos ver, em seguida, a partir
do exemplo dos «Estatutos da Uniom de luita de Sam Petersburgo»
a influência prejudicial destes sonhos sobre os nossos planos de organizaçom.
As organizaçons operárias para a luita económica devem ser organizaçons sindicais.
Todo o operário social-democrata
deve, dentro do possível, apoiar estas organizaçons e nelas
trabalhar activamente. De acordo. Mas é absolutamente contrário
aos nossos interesses exigir que só os social-democratas podam ser
membros das unions «profissionais», já que isso reduziria
a nossa influência sobre a massa. Que participe na uniom profissional
todo o operário que compreenda a necessidade da uniom para a luita
contra os patrons e o governo. O próprio objectivo das unions profissionais
seria inexequível se nom agrupassem todos os operários a quem
é acessível ainda que mais nom fosse este degrau elementar de
compreensom, se estas unions profissionais nom fossem organizaçons
muito amplas. E quanto mais amplas forem estas organizaçons, tanto
mais ampla será a nossa influência nelas, influência exercida
nom somente polo desenvolvimento «espontáneo» da luita
económica, mas também pola acçom consciente e directa
dos membros socialistas das unions sobre os seus camaradas. Mas, numha organizaçom
ampla, a clandestinidade rigorosa é impossível (pois exige muito
mais preparaçom do que a necessária para participar na luita
económica). Como conciliar esta contradiçom entre a necessidade
de contar com efectivos numerosos e o regime clandestino rigoroso? Como conseguir
que as organizaçons profissionais sejam o menos clandestinas possível?
Em geral, nom pode haver mais do que duas vias: ou a legalizaçom das
associaçons profissionais (que em certos países precedeu a legalizaçom
das associaçons socialistas e políticas), ou a manutençom
da organizaçom secreta, mas tam «livre», tam pouco formalizada,
tam lose, como dim os alemáns, que para a massa dos membros o regime
clandestino fique reduzido a quase nada.
A legalizaçom das unions operárias nom socialistas e nom políticas já começou na Rússia e nom pode caber a menor dúvida de que cada passo do nosso movimento operário social-democrata, que cresce em progressom rápida, multiplicará e encorajará as tentativas de legalizaçom, tentativas realizadas sobretudo polos partidários do regime vigente, mas também, em parte, polos próprios operários e os intelectuais liberais. A bandeira da legalizaçom já foi içada polos Vassíliev e os Zubátov; os senhores Ozerov e os Worms já prometêrom e dérom o seu concurso à legalizaçom, e a nova corrente já encontrou adeptos entre os operários. E nós nom podemos deixar de ter em conta esta corrente. Sobre a maneira de a ter em conta, dificilmente pode existir, entre os social-democratas, mais do que umha opiniom. O nosso dever consiste em desmascarar constantemente toda a participaçom dos Zubátov e dos Vassíliev, dos gendarmes e dos padres nesta corrente, e revelar aos operários as verdadeiras intençons destes elementos. O nosso dever consiste em desmascarar também a nota conciliadora, de «harmonia», que se manifeste nos discursos dos liberais nas reunions públicas de operários, quer essas notas se devam a que essas pessoas estejam sinceramente convencidas que é desejável umha colaboraçom pacífica das classes, quer tenham a intençom de ficar bem vistas polas autoridades, quer sejam simplesmente inábeis. Devemos, enfim, pôr os operários em guarda contra as armadilhas da polícia que, freqüentemente, nestas reunions públicas e nas sociedades autorizadas observa os «mais ardorosos» e procura aproveitar-se das organizaçons legais para introduzir provocadores também nas ilegais.
Mas fazer tudo isto nom significa
de modo nengum esquecer que a legalizaçom do movimento operário,
beneficiará-nos, no fim de contas, a nós e nom de modo algum,
aos Zubatov. Polo contrário, precisamente com a nossa campanha de denúncias
separamos o trigo do joio. Já. mostramos qual é o joio. O trigo
consiste em interessar polas questons sociais e políticas sectores
operários ainda mais vastos, os sectores mais atrasados; em nos libertarmos,
nós, os revolucionários, das funçons que som, no fundo,
legais (difusom de obras legais, socorros mútuos, etc.) e cujo desenvolvimento
nos dará, infalivelmente, materiais cada vez mais abundantes para a
agitaçom. Neste sentido, podemos e devemos dizer aos Zubátov
e aos Ózerov: Trabalhem, senhores, trabalhem! Enquanto vocês
montam umha armadilha aos operários (ou pola provocaçom directa
ou pola corrupçom «honesta») dos operários com a
ajuda do «struvismo») nós vamo-nos encarregando de os desmascarar.
Enquanto vocês dam um passo efectivo para a frente mesmo que seja
sob a forma do mais «tímido ziguezague», mas, apesar disso,
um passo em frente, diremos a vocês: Fagam o favor! Um passo efectivo
para a frente nom pode ser senom um alargamento efectivo, mesmo que minúsculo,
do campo de acçom dos operários. E todo o alargamento deste
género beneficiará-nos e apressará o aparecimento de
associaçons legais, onde nom serám os provocadores que pescarám
os socialistas, mas os socialistas que pescarám adeptos da sua causa.
Numha palavra, a nossa tarefa consiste agora em combater o joio. A nossa tarefa
nom consiste em semear o trigo em pequenos vasos. Ao arrancar o joio, limpamos
o terreno para que o trigo poda crescer. E enquanto os Afanássi Ivánovitch
e as Pulkhéria Ivánovna101 se dedicam ao cultivo doméstico,
devemos preparar ceifeiros que hoje saibam arrancar o joio e amanhá
ceifar o trigo(102).
Assim, nós nom podemos,
por meio da legalizaçom, resolver o problema da criaçom de umha
organizaçom sindical o menos clandestina e o mais ampla possível
(mas ficaríamos encantados se os Zubátov e os Ozerov nos oferecessem
a possibilidade, mesmo parcial, de resolver o problema deste modo para
o que temos de os combater com a maior energia possível!). Resta-nos
o recurso das organizaçons sindicais secretas e devemos prestar toda
a ajuda aos operários que seguem já (segundo sabemos com toda
a certeza) por esse caminho. As organizaçons sindicais podem nom só
ser extraordinariamente úteis para desenvolver e reforçar a
luita económica, como podem tornar-se, além disso, um auxiliar
valioso da agitaçom política e da organizaçom revolucionária.
Para chegar a este resultado, para orientar o movimento sindical nascente
na senda desejável para a social-democracia, é preciso, antes
de mais, compreender bem o absurdo do plano de organizaçom que os «economistas»
de Petersburgo preconizam, há já cerca de cinco anos. Este plano
foi exposto nos Estatutos da caixa operária de resistência, de
Julho de 1897 (List. «Rab.», n.º 9-10, p. 46, do n.º
1 do Rab. Misl) e nos Estatutos da organizaçom operária sindical,
de Outubro de 1900 (boletim especial, impresso em Sam Petersburgo e mencionado
no n.º 1 do Iskra). Estes dous estatutos tenhem um defeito essencial:
regulamentam com todo o pormenor umha vasta organizaçom operária
e confundem-na com a organizaçom dos revolucionários. Tomemos
os segundos estatutos, por serem os que estám melhor elaborados. Componhem-se
de cinqüenta e dous parágrafos: 23 exponhem a estrutura, o modo
de administraçom os limites de competência dos «círculos
operários» que serám organizados em cada fábrica
(«dez homens no máximo») e elegerám os «grupos
centrais» (de fábrica). «O grupo central di o §
2 observa tudo o que se passa na fábrica e tem a seu cargo a
crónica dos acontecimentos.» «O grupo central presta contas
do estado da caixa, mensalmente, a todos os contribuintes» (§ 17),
etc. Som consagrados 10 parágrafos à «organizaçom
de bairro» e 19 à complicadíssima relaçom do «Comité
da organizaçom operária» e do «Comité da
uniom de luita de Sam Petersburgo» (delegados de cada bairro e dos «grupos
executivos» «grupos de propagandistas, para as relaçons
com as províncias, para as relaçons com o estrangeiro, para
a administraçom dos depósitos, das ediçons, da caixa»).
A social-democracia = a «grupos
executivos» no que se refere à luita económica dos operários!
Seria difícil demonstrar com mais evidência como o pensamento
do «economista» se desvia da social-democracia para o trade-unionismo;
até que ponto lhe é estranha toda a noçom de que o social-democrata
deve, acima de tudo, pensar numha organizaçom de revolucionários
capazes de dirigir toda a luita emancipadora do proletariado. Falar da «emancipaçom
política da classe operária», da luita contra a «arbitrariedade
tsarista» e redigir semelhantes estatutos de umha organizaçom
é nom ter a menor ideia de quais sejam as verdadeiras tarefas políticas
da social-democracia. Nem um só da meia centena de artigos revela o
mínimo de compreensom, por parte dos autores, da necessidade da mais
ampla agitaçom política entre as massas, de umha agitaçom
que lance luz sobre todos os aspectos do absolutismo russo, bem como sobre
a fisionomia das diferentes classes sociais da Rússia. Por outro lado,
com tais estatutos, nom só som irrealizáveis os fins políticos,
mas mesmo os fins trade-unionistas, pois estes exigem umha organizaçom
por profissons, cousa que os estatutos nem sequer mencionam.
Mas o mais característico
é, talvez, o peso espantoso de todo este «sistema» que
procura ligar cada fábrica ao «comité» por intermédio
de umha série de regras uniformes, minuciosas até o ridículo,
com um sistema eleitoral de três graus. Encerrado no estreito horizonte
do «economismo», o pensamento perde-se nos pormenores que cheiram
a papelada e burocracia. Na realidade, três quartos dos parágrafos
nunca serám, claro está, aplicados; em contrapartida, umha organizaçom
tam «clandestina», com um grupo central em cada fábrica,
torna fácil que os gendarmes efectuem vagas de prisons incrivelmente
vastas. Os camaradas polacos já passárom por esta fase do movimento;
houvo umha altura em que todos eles estavam entusiasmados com a ideia de criar
caixas operárias por toda a parte, mas renunciárom a ela sem
tardar quando se convencêrom que só davam umha colheita abundante
aos gendarmes. Se queremos amplas organizaçons de operários
e nom amplas vagas de prisons, se nom queremos fazer o gosto aos gendarmes,
devemos fazer com que estas organizaçons nom sejam formalizadas. Mas
poderám entom funcionar? Vejamos quais som as suas funçons:
«... Observar tudo o que se passa na fábrica e fazer a crónica
dos acontecimentos» (§ 2 dos Estatutos). Será absolutamente
necessário regulamentar isto? nom seria este objectivo muito melhor
atingido por meio de crónicas na imprensa ilegal, sem necessidade de
criar grupos especiais para esse efeito? «... Dirigir a luita dos operários
pola melhoria da sua situaçom na fábrica» (§ 3 dos
Estatutos). Para isto também nom há nengumha necessidade de
regulamentaçom. Todo o agitador, com dous dedos de testa, saberá
averiguar perfeitamente, através de uma simples conversa, quais som
as reivindicaçons que os operários querem apresentar; depois
saberá transmiti-las a umha organizaçom restrita, e nom ampla,
de revolucionários que editará umha folha volante apropriada.
« ...Criar umha caixa ...com umha quotizaçom de dous copeques
por rublo» (§ 9) e dar mensalmente conta a todos os contribuintes
do estado da caixa (§ 17); excluir os membros que nom paguem a sua quotizaçom
(§ 10), etc. Eis para a polícia um verdadeiro paraíso,
porque nom há nada mais fácil do que penetrar no segredo de
cada «caixa central de fábrica», confiscar o dinheiro e
encarcerar todos os elementos activos. Nom seria mais simples emitir selos
de um ou dous copeques, com o carimbo de umha certa organizaçom (muito
restrita e muito secreta), ou mesmo sem qualquer carimbo, fazer recolhas de
fundos cujos resultados seriam dados a conhecer num jornal ilegal, com umha
linguagem convencional? Alcançariam-se os mesmos objectivos e os gendarmes
teriam muitíssimo mais trabalho
para deslindar os fios da organizaçom.
Poderia continuar esta análise
dos Estatutos, mas creio já ter dito o bastante. Um pequeno núcleo
bem unido, composto polos operários mais seguros, mais experientes
e mais bem temperados, com delegados nos principais bairros, e em rigorosa
ligaçom clandestina com a organizaçom de revolucionários
poderá perfeitamente, com o mais amplo concurso da massa e sem nengumha
regulamentaçom, realizar todas as funçons que competem a umha
organizaçom sindical e, além disso, realizá-las precisamente
da maneira desejável para a social-democracia. Só assim se poderá
consolidar e desenvolver, apesar de todos os gendarmes, o movimento sindical
social-democrata.
Objectarám-me que umha organizaçom tam lose, que nom está formalizada, sem nengum membro conhecido e registado, nom pode ser classificada de organizaçom
É possível, para
mim a denominaçom nom tem importáncia. Mas esta «organizaçom
sem membros» fará tudo o que é necessário e assegurará,
desde o próprio início, um contacto sólido entre as nossas
futuras trade-unions e o socialismo. Aqueles que, sob o absolutismo, querem
umha ampla organizaçom de operários, com eleiçons, relatórios,
sufrágio universal, etc., som uns utopistas incuráveis.
A moral é simples: se começarmos
por estabelecer de umha maneira sólida umha forte organizaçom
de revolucionários, podemos assegurar a estabilidade do movimento no
seu conjunto e atingir, simultaneamente, os objectivos social-democratas e
os objectivos propriamente trade-unionistas. Mas se começarmos por
constituir umha ampla organizaçom operária com o pretexto de
que esta é a mais «acessível» à massa (na
realidade, é aos gendarmes que esta organizaçom será
mais acessível e porá os revolucionários mais ao alcance
da Polícia) nom atingiremos qualquer destes objectivos, nom nos desembaraçaremos
do nosso trabalho artesanal e, com o nosso fraccionamento e os nossos fracassos
contínuos, nom faremos senom tornar acessíveis à massa
as trade-unions do tipo Zubátov ou Ózerov.
Quais deverám ser, propriamente,
as funçons desta organizaçom de revolucionários? -Vamos
dizê-lo com todo o pormenor. Mas examinemos primeiro um raciocínio
muito típico do nosso terrorista que, mais umha vez (triste destino!),
anda de braço dado com o «economista». A revista para operários
Svoboda (no seu número 1) contém um artigo intitulado «A
organizaçom», cujo autor procura defender os seus amigos, os
«economistas» operários de Ivánovo-Voznessensk.
«É umha cousa
má di ele umha multidom silenciosa, inconsciente; é
umha cousa má um movimento que nom vem da base. Vede o que sucede numha
cidade universitária: quando os estudantes, na época das festas
ou durante o Verao, regressam às suas casas, o movimento operário
paralisa. Pode ser umha verdadeira força um movimento operário
assim, estimulado de fora? De maneira nengumha... Ainda nom aprendeu a andar
sozinho, tem que ser amparado. O mesmo se passa em todos os lugares: os estudantes
vam-se e o movimento cessa; encarceram-se os elementos mais capazes, a nata,
e o leite azeda; prende-se o «comité» e enquanto nom se
forma um novo sobrevém mais umha vez a calma. E nom se sabe o que será
este novo «comité»; talvez em nada se pareça com
o antigo; aquele dizia umha cousa, este dirá o contrário; a
ligaçom entre o ontem e o amanhá está quebrada; a experiência
do passado nom beneficia o futuro, e tudo porque o movimento nom tem raízes
profundas na multidom; porque nom som umha centena de patetas, mas umha dezenas
de homens inteligentes quem fai o trabalho. E umha dezena de homens caem sempre
facilmente na boca do lobo; mas, quando a organizaçom engloba a multidom,
quando tudo vem da multidom é impossível destruir a causa»
(p. 63).
A descriçom dos factos é correcta. Dá um bom quadro do nosso trabalho artesanal. Mas as conclusons, pola sua falta de lógica e de tacto político, som dignas do Rabótchaia Misl. É o cúmulo da falta de lógica, porque o autor confunde o problema filosófico e histórico-social das «profundas raízes» do movimento com umha questom técnica de organizaçom como é a da luita mais eficaz contra os gendarmes. É o cúmulo da falta de tacto político porque, em vez de se apelar para os bons dirigentes contra os maus, o autor apela para a «multidom» contra os dirigentes em geral. Isto significa tentar fazer-nos retroceder no que se refere a organizaçom, do mesmo modo que a ideia de substituir a agitaçom política polo terror excitante nos fai retroceder no sentido político. Na verdade, encontro-me perante um verdadeiro embarras de richesses(103), sem saber por onde começar a análise da confusom que nos é oferecida polo Svoboda. Para maior clareza, começarei por um exemplo: o dos alemáns. Ninguém negará, espero, que a sua organizaçom engloba a multidom, que entre eles tudo vem da multidom, que o movimento operário aprendeu a andar sozinho.
Contudo, como esta multidom de
vários milhons de homens sabe apreciar a sua «dezena» de
chefes políticos experimentados, como adere a eles! Mais de umha vez,
no parlamento, os deputados dos partidos adversos tenhem procurado provocar
os socialistas dizendo-lhes: «Sodes uns belos democratas! O movimento
da classe operária nom existe entre vós senom em palavras; na
realidade, é sempre o mesmo grupo de chefes que se mostra. Desde há
anos, desde há dezenas de anos, som sempre o mesmo Bebel e o mesmo
Liebknecht! Os vossos delegados de operários, pretensamente eleitos
som mais inamovíveis que os funcionários nomeados polo imperador!»
Mas os alemáns sempre acolhêrom com um sorriso de desprezo estas
tentativas demagógicas de opor a «multidom» aos «chefes»,
de nela despertar maus instintos de vaidade, de privar o movimento de solidez
e estabilidade, minando a confiança que a massa sente pola «dezena
de homens inteligentes». Os alemáns atingírom já
suficiente desenvolvimento político, tenhem suficiente experiência
política, para compreender que, sem «umha dezena» de chefes
de talento (e os talentos nom surgem às centenas), de chefes provados,
profissionalmente preparados e instruídos por umha longa prática
e bem unidos entre si, nom é possível, na sociedade contemporánea,
a luita firme de qualquer classe. Também os alemáns tivérom
os seus demagogos, que adulavam as «centenas de patetas», colocando-as
acima das «dezenas de homens inteligentes»; que bajulavam o «punho
poderoso» da massa, empurravam (como Most ou Hasselmann) esta massa
para acçons «revolucionárias» irreflectidas e semeavam
a desconfiança em relaçom com os chefes firmes e inabaláveis.
E foi unicamente graças a umha luita tenaz e intransigente contra os
elementos demagógicos de toda a espécie instalados no seu seio
que o socialismo alemám cresceu e se fortaleceu. E neste período
em que toda a crise da social-democracia russa se explica polo facto de as
massas, que despertam espontaneamente, nom terem chefes suficientemente preparados,
inteligentes e experimentados, os nossos sabichons dim-nos com a ingenuidade
digna de um pateta: «Má cousa é, quando um movimento nom
vem da base!»
«Um comité formado por estudantes nom nos convém porque é instável. »
Perfeitamente justo! Mas a conclusom
a tirar é que o que é necessário é um comité
de revolucionários profissionais, sem que importe se som estudantes
ou operários os que som capazes de fazer a sua educaçom como
revolucionários profissionais. polo contrário, vós tirades
a conclusom de que nom é necessário estimular do exterior o
movimento operário! Na vossa ingenuidade política, nem sequer
dades conta de que fazedes o jogo dos nossos «economistas» e do
nosso trabalho artesanal. Permitide que vos faga umha pergunta: Como é
que os nossos estudantes «estimulárom» até agora
os nossos operários? Unicamente levando os estudantes aos operários
os fragmentos de conhecimentos políticos que eles próprios tinham,
os fragmentos de ideias socialistas que eles tinham podido adquirir (porque
o principal alimento espiritual do estudante dos nossos dias, o marxismo legal,
nom pudo dar-lhe mais do que as primeiras letras, mais do que fragmentos).
E este «estímulo de fora» nom foi muito considerável,
mas, polo contrário, insignificante, escandalosamente insignificante
no nosso movimento. Porque até agora nom figemos mais do que cozinhar-nos
demasiadamente no nosso próprio molho, do que nos prosternar com demasiado
servilismo perante a elementar «luita económica dos operários
contra os patrons e o governo». Nós, revoluclonários de
profissom, devemos dedicar-nos cem vezes mais a este género de estímulos,
e dedicaremo-nos. Mas precisamente porque escolhedes essa odiosa expressom
de «estímulo de fora» que, inevitavelmente, provoca no
operário (pelo menos no operário tam pouco desenvolvido como
vós) a desconfiança em relaçom com todos os que lhe trazem
de fora conhecimentos políticos e experiência revolucionária,
e que desperta nele o desejo instintivo de repelir todas as pessoas deste
género, agis como demagogos; e os demagogos som os piores inimigos
da classe operária.
Sim, sim! E nom vos apressedes a gritar contra os meus «procedimentos» polémicos «sem espírito de camaradagem»! nom tenho dúvidas quanto à pureza das vossas intençons; já dixem que a ingenuidade política por si só também pode converter umha pessoa em demagogo. Mas demonstrei que descestes até a demagogia, e nunca me cansarei de repetir que os demagogos som os piores inimigos da classe operária.
Som os piores porque excitam os
maus instintos da multidom, e porque é impossível aos operários
atrasados reconhecer estes inimigos, que se apresentam, às vezes sinceramente,
na qualidade de amigos. Som os piores porque, neste período de dispersom
e de vacilaçom, em que a fisionomia do nosso movimento ainda se está
a formar, nada há de mais fácil do que arrastar demagogicamente
a multidom, que só as provaçons mais amargas poderám
depois convencer do seu erro. Eis porque, neste momento, a palavra de ordem
para os social-democratas russos actuais deve ser a de combater resolutamente
tanto o Svoboda que está a descer até à demagogia como
a Rabotcheie Dielo que está a descer até a demagogia (mais adiante
voltaremos mais pormenorizadamente a este assunto) (104).
«É mais fácil
caçar umha dezena de homens inteligentes do que umha centena de parvos.»
Esta verdade magnífica (que vos trará sempre os aplausos da
centena de parvos) parece evidente unicamente porque, no curso do vosso raciocínio,
saltastes de umha questom para outra. Começastes e continuades a falar
da captura do «comité», da captura da «organizaçom»,
e agora saltades para outra questom: para a captura das «raízes
profundas» do movimento. Naturalmente, o nosso movimento é indestrutível
só porque tem centenas e centenas de milhares de raízes profundas,
mas nom é isto que está em causa, de modo nengum. Nem mesmo
agora, apesar do nosso trabalho artesanal, é possível «capturar-nos»,
no que se refere às nossas «raízes profundas», e,
todavia, todos deploramos e nom podemos deixar de deplorar a captura das «organizaçons»,
o que destrói toda a continuidade no movimento. Pois bem, já
que levantades o problema da captura das organizaçons e insistides
em discuti-la, direi-vos que é muito mais difícil caçar
umha dezena de homens inteligentes do que umha centena de patetas, e continuarei
a defender este ponto de vista, sem fazer caso dos vossos esforços
para atiçar a multidom contra o meu «espírito antidemocrático»,
etc. Por «homens inteligentes» em matéria de organizaçom
deve-se entender, como o indiquei em várias ocasions, apenas os revolucionários
profissionais, quer sejam estudantes ou operários que se forjem como
tais revolucionários profissionais. Pois bem, eu afirmo: 1) que nom
pode haver movimento revolucionário sólido sem umha organizaçom
estável de dirigentes, que assegure a continuidade; 2) que quanto mais
extensa for a massa espontaneamente integrada na luita, massa que constitui
a base do movimento e que nele participa, mais premente será a necessidade
de semelhante organizaçom e mais sólida deverá ela ser
(já que será mais fácil aos demagogos de toda a espécie
arrastar as camadas atrasadas da massa); 3) que tal organizaçom deve
ser formada, fundamentalmente, por homens entregues profissionalmente às
actividades revolucionárias; 4) que num país autocrático,
quanto mais restringirmos o contingente dos membros de umha organizaçom
deste tipo, a ponto de nom incluir nela senom os filiados que se ocupem profissionalmente
de actividades revolucionárias e que tenham já umha preparaçom
profissional na arte de luitar contra a polícia política, mais
difícil será «caçar» esta organizaçom,
e -5) maior será o número de pessoas, tanto da classe
operária como das demais classes da sociedade, que poderám participar
no movimento e colaborar activamente nele.
Convido os nossos «economistas»,
terroristas e «economistas-terroristas»105 a refutar estas teses,
das quais nom desenvolverei, neste momento, senom as duas últimas.
O problema de saber se é mais fácil pescar umha «dezena
de homens inteligentes» do que umha «centena de patetas»
reduz-se ao problema que analisei mais atrás, de saber se umha organizaçom
de massas é compatível com a necessidade de manter um rigoroso
regime clandestino? Nunca poderemos elevar umha organizaçom ampla ao
nível da clandestinidade, sem a qual nem sequer se pode falar de umha
luita firme e continuada contra o governo. E a concentraçom de todas
as funçons clandestinas nas maos do menor número possível
de revolucionários profissionais nom significa, de maneira algumha,
que estes últimos «pensarám por todos», que a multidom
nom tomará umha parte activa no movimento. Polo contrário, a
multidom fará surgir do seu seio um número cada vez maior de
revolucionários profissionais, porque saberá entom que nom basta
que alguns estudantes e operários que luitam no terreno económico
se reúnam para constituir um «comité», mas que é
necessário, através dos anos, educar-se como revolucionários
profissionais, e «pensará» nom somente no trabalho artesanal,
mas precisamente nesta educaçom. A centralizaçom das funçons
clandestinas da organizaçom nom implica, de maneira algumha, a centralizaçom
de todas as funçons do movimento. A colaboraçom activa das mais
amplas massas na literatura ilegal, longe de diminuir, decuplicará,
quando umha «dezena» de revolucionários profissionais centralizar
as funçons clandestinas dessa actividade. Assim, e só assim,
conseguiremos que a leitura da literatura ilegal, a colaboraçom nela,
e mesmo, em certa medida, a sua difusom, deixem quase de ser umha obra clandestina,
pois a polícia compreenderá rapidamente quanto som absurdas
e impossíveis as perseguiçons judiciais e administrativas por
causa de cada exemplar de publicaçons distribuídas em milhares
de exemplares. E isto é válido nom só para a imprensa,
mas também para todas as funçons do movimento, incluindo as
manifestaçons. A participaçom nom só nom ficará
prejudicada, mas, polo contrário, terá muito mais probabilidades
de êxito se umha «dezena» de revolucionários profissionais,
provados, bem preparados, polo menos tam bem como é a nossa polícia,
centralizar todos os aspectos clandestinos: ediçom de panfletos, elaboraçom
do plano aproximado, nomeaçom de um grupo de dirigentes para cada bairro
da cidade, cada zona fabril, cada estabelecimento de ensino, etc. (dirá-se,
já sei, que as minhas concepçons «nom som democráticas»,
mas mais adiante refutarei em pormenor essa objecçom nada inteligente).
A centralizaçom das funçons mais clandestinas pola organizaçom
dos revolucionários nom debilitará, antes reforçará
a amplitude e o conteúdo da actividade de umha grande quantidade de
outras organizaçons destinadas ao grande público e, por conseqüência,
o menos regulamentadas e o menos clandestinas possível: sindicatos
operários; círculos operários de autodidactas e de leitura
de publicaçons ilegais, círculos socialistas, círculos
democráticos para todos os outros sectores da populaçom, etc.,
etc. Estes círculos, sindicatos e organizaçons som necessários
por toda a parte; é preciso que sejam o mais numerosos e as suas funçons
o mais variadas possível, mas é absurdo e prejudicial confundir
estas organizaçons com a dos revolucionários, apagar as fronteiras
que existem entre elas, extinguir na massa a consciência, já
de si incrivelmente obscurecida, de que para «servir» um movimento
de massas é necessário dispor de homens que se consagrem especial
e inteiramente à acçom social-democrata, e que estes homens
devem forjar-se com paciência e tenacidade até se converterem
em revolucionários profissionais.
Sim, esta consciência está incrivelmente obscurecida. O nosso erro principal em matéria de organizaçom consiste em que com o nosso trabalho artesanal comprometemos o prestígio dos revolucionários na Rússia. Um revolucionário mole, vacilante nos problemas teóricos, de horizontes limitados, que justifica a sua inércia com a espontaneidade das massas, mais parecido com um secretário de trade-union do que com um tribuno popular, sem um plano audacioso e de grande alcance que imponha respeito até aos seus adversários, inexperiente e inábil na sua arte profissional (a luita contra a polícia política), nom é, desculpade, um revolucionário, mas um pobre artesao!
Que nengum prático se ofenda com este duro epíteto, pois, no que se refere à falta de preparaçom, aplico-o a mim próprio em primeiro lugar. Trabalhei num círculo106 que se colocava vastas e multilaterais tarefas, e todos nós, membros do círculo, sofríamos enormemente ao ver que nom éramos mais do que artesaos num momento histórico em que, parafraseando a velha máxima, se poderia dizer: Dade-nos umha organizaçom de revolucionários e revolucionaremos a Rússia! E quanto mais freqüentemente desde entom tivem de recordar o agudo sentimento de vergonha que entom experimentava, tanto mais aumentou em mim a amargura sentida contra esses pseudo-social-democratas cuja propaganda «desonra o título de revolucionário», e que nom compreendem que a nossa tarefa nom consiste em advogar que o revolucionário seja rebaixado ao nível de artesao, mas elevar o artesao ao nível do revolucionário.
d) Envergadura
do trabalho de organizaçom
Como vimos, B-v fala da «escassez
de forças revolucionárias aptas para a acçom, escassez
que se fai sentir nom só em Petersburgo, mas em toda a Rússia».
Nom creio que haja alguém que poda pôr em dúvida este
facto. Mas o problema consiste em como explicá-lo. B-v escreve:
«Nom vamos procurar
esclarecer as razons históricas deste fenómeno; diremos somente
que, desmoralizada por umha reacçom política prolongada e desarticulada
por mudanças económicas que se processárom e ainda se
processam, a sociedade promove um número extremamente reduzido de pessoas
aptas para o trabalho revolucionário; que a classe operária,
destacando revolucionários operários, completa em parte as fileiras
das organizaçons clandestinas, mas que o número destes revolucionários
nom responde às exigências da época. Tanto mais que o
operário, ocupado onze horas e meia por dia na fábrica, nom
pode, pola sua situaçom, desempenhar senom, principalmente, funçons
de agitador, enquanto a propaganda e a organizaçom, a distribuiçom
e reproduçom de literatura clandestina, a publicaçom de proclamaçons,
etc., estám, na sua maior parte, quer se queira ou nom, a cargo de
forças intelectuais extremamente reduzidas.» (R. Dielo, n.º
6, pp. 38-39.)
Nom estamos de acordo em muitos pontos com esta opiniom de B-v; e em particular nom estamos de acordo com as palavras sublinhadas por nós, as quais mostram, com singular relevo, que, depois de muito ter sofrido (como todo o militante prático que pense um pouco) por causa do nosso trabalho artesanal, B-v nom pudo encontrar, subjugado com está polo «economismo», umha saída para esta situaçom intolerável.
Nom, a sociedade fornece um número
extremamente grande de pessoas aptas para a «causa», mas nós
nom as sabemos utilizar a todas. Neste sentido, o estado crítico, o
estado de transiçom do nosso movimento, pode ser formulado assim: nom
há homens e há umha infinidade de homens. Há umha infinidade
de homens, porque tanto a classe operária como sectores cada vez mais
variados da sociedade fornecem, todos os anos, um número sempre maior
de descontentes, que querem protestar, que estám dispostos a cooperar,
naquilo que puderem, na luita contra o absolutismo, cujo carácter insuportável,
se nom é ainda notado por todos, é já sentido por massas
cada vez mais extensas e cada vez de forma mais aguda. Mas, ao mesmo tempo,
nom há homens, porque nom há dirigentes, nom há chefes
políticos, nom há talentos organizadores capazes de organizar
um trabalho simultaneamente amplo e unificado, coordenado, que permita utilizar
todas as forças, mesmo as mais insignificantes. «O crescimento
e o desenvolvimento das organizaçons revolucionárias»
estám atrasados, nom só em relaçom com o crescimento
do movimento operário, como reconhece também B-v, mas ainda
em relaçom com o crescimento do movimento democrático geral
em todos os sectores do povo. (Aliás, é provável que
isto fosse hoje reconhecido por B-v, como complemento da sua conclusom.) A
envergadura do trabalho revolucionário é demasiado reduzida
quando comparada com a ampla base espontánea do movimento, está
demasiado abafada pola pobre teoria da «luita económica contra
os patrons e o governo». Mas entretanto hoje nom só os agitadores
políticos, mas também os organizadores social-democratas tenhem
de «ir a todas as classes da populaçom»(107). Nom
creio que haja um único militante prático que duvide que os
social-democratas podam repartir as mil funçons fragmentárias
do seu trabalho de organizaçom entre os diferentes representantes das
classes mais diversas. A falta de especializaçom é um dos mais
graves defeitos da nossa técnica, que B-v deplora com tanta amargura
e com tanta razom. Quanto mais pequenas forem as diversas «operaçons»
do trabalho geral, tanto mais pessoas se poderám encontrar capazes
de as executar (e completamente incapazes, na maioria dos casos, de serem
revolucionários profissionais), tanto mais difícil será
para a polícia «pescar» todos estes «militantes com
funçons parcelares» e tanto mais difícil será montar,
a partir da captura de umha pessoa por qualquer ninharia, um «processo»
que justifique os gastos do Estado com a «segurança». E
no que respeita ao número de pessoas dispostas a colaborar connosco,
já dixemos no capítulo anterior qual foi a mudança gigantesca
que se operou a esse respeito nos últimos cinco anos. Mas, por outro
lado, também para agrupar num todo único todas estas pequenas
fracçons, para nom fragmentar com as funçons do movimento o
próprio movimento e para inspirar ao executante das pequenas funçons
a fé na necessidade e no valor do seu trabalho, fé sem a qual
nunca trabalhará (108), para tudo isto é necessária,
precisamente, umha forte organizaçom de revolucionários experimentados.
Com semelhante organizaçom, a fé na força do partido
tornará-se tanto mais firme e tanto mais extensa quanto mais clandestina
for a organizaçom. E na guerra, como se sabe, o mais importante nom
é só inspirar confiança nas suas próprias forças
ao exército próprio, mas também impressionar o inimigo
e todos os elementos neutrais; umha neutralidade amistosa pode, às
vezes, decidir a contenda. Com semelhante organizaçom, erigida sobre
umha base teórica firme e contando com um órgao social-democrata,
nom haverá que recear que o movimento seja desviado do seu caminho
polos numerosos elementos «estranhos» que a ele tenham aderido
(pelo contrário, precisamente agora, quando predomina o trabalho artesanal,
vemos como muitos social-democratas, julgando-se os únicos, verdadeiros
social-democratas, desviam o movimento para a linha do Credo). Numha palavra,
a especializaçom pressupom, necessariamente, a centralizaçom,
e, por sua vez, exige-a incondicionalmente.
Mas o próprio B-v, que tam bem mostrou toda a necessidade da especializaçom, nom a aprecia suficientemente, na nossa opiniom, na segunda parte do raciocínio citado.
Segundo ele, o número de
revolucionários procedentes dos meios opêrários é
insuficiente. Esta observaçom é perfeitamente correcta, e sublinhamos,
umha vez mais, que a «valiosa informaçom de um observador directo»
confirma inteiramente a nossa opiniom sobre as causas da crise que a social-democracia
atravessa actualmente e, portanto, sobre os processos de a remediar. Nom só
os revolucionários em geral estám atrasados em relaçom
com o ascenso espontáneo das massas, mas os próprios operários
revolucionários estám em atraso em relaçom com o ascenso
espontáneo das massas operárias. E este facto confirma do modo
mais evidente, mesmo do ponto de vista «prático», nom só
o absurdo mas também o carâcter político reaccionário
da «pedagogia» com que somos obsequiados com tanta freqüência
quando se discutem os nossos deveres em relaçom com os operários.
Este facto testemunha que a primeira e mais imperiosa das nossas obrigaçons
é contribuir para a formaçom de operários revolucionários
que, do ponto de vista da sua actividade no partido, estejam ao mesmo nível
que os revolucionários intelectuais (sublinhamos: do ponto de vista
da sua actividade no partido, porque, noutros aspectos nom é, longe
disso, tam fácil nem tam urgente, embora necessário, que os
operários atinjam o mesmo nível). Por isso, a nossa atençom
deve voltar-se principalmente para elevar os operários ao nível
dos revolucionários e nom para descermos nós próprios
infalivelmente ao nível da «massa operária», como
querem os «economistas», e infalivelmente ao nível do «operário
médio» como quer o Svoboda (que, neste aspecto, passa ao segundo
grau da «pedagogia» economista). Nada mais longe de mim do que
a ideia de negar a necessidade de umha literatura popular para os operários
e de outra literatura especialmente popular (mas nom vulgar, bem entendido)
para os operários especialmente atrasados. Mas o que me indigna é
essa constante mistura da pedagogia com as questons políticas, com
as questons de organizaçom. Porque vocês, senhores campeons do
«operário médio», no fundo o que fam é ofender
os operáriós com esse seu desejo de se inclinarem sempre para
eles antes de lhes falar de política operária ou de organizaçom
operária. Ergam-se, portanto, para falar de cousas sérias, e
deixem a pedagogia aos pedagogos, e nom aos políticos e organizadores!
nom existirám também entre os intelectuais elementos avançados,
elementos «médios» e «massas»? nom reconhecerá
toda a gente a necessidade dumha literatura popular para os intelectuais?
E nom se escreve essa literatura? Mas imaginade que, num artigo sobre a organizaçom
dos estudantes universitários ou de secundária, o autor, num
tom de quem fai umha descoberta, se pom a repisar que o que falta, antes de
mais, é umha organizaçom de «estudantes médios».
Tal autor seria, com certeza, e com toda a razom, posto a ridículo.
Diriam-lhe: dê-nos você, se é que as tem, algumhas ideiazinhas
sobre organizaçom, e nós próprios já veremos quem
é «médio», superior ou inferior. Mas se nom tem
ideias próprias sobre organizaçom todo o seu palavreado sobre
a «massa» e sobre os «elementos médios» será
simplesmente fastidioso. Compreenda, de umha vez para sempre, que as questons
de «política» e de «organizaçom» som
por si só tam sérias que nom se pode falar delas senom com extrema
seriedade: pode-se e deve-se preparar os operários (assim como os estudantes,
universitários e liceais) para poder abordar perante eles estas questons,
mas, umha vez que fôrom abordadas, dê verdadeiras respostas, nom
faga marcha atrás para os «elementos médios» ou
para a «massa», nom escape com frases e anedotas (109).
Para se preparar plenamente para o seu trabalho, o operário revolucionário deve converter-se também num revolucionário profissional. É por isso que B-v nom tem razom quando di que por o operário estar ocupado onze horas e meia na fábrica, as outras funçons revolucionárias (salvo a agitaçom) «estám necessariamente a cargo de um número extremamente reduzido de intelectuais». Isto nom acontece «necesariamente», mas como conseqüência do nosso atraso, porque nom compreendemos que é nosso dever ajudar todo o operário que se distinga polas suas capacidades a tornar-se um agitador, organizador, propagandista, distribuidor, etc., etc., profissional. Neste aspecto, malbaratamos vergonhosamente as nossas forças, nom sabemos cuidar do que tem de ser cultivado e desenvolvido com particular solicitude. Vede os alemáns: tenhem cem vezes mais forças que nós, mas compreendem perfeitamente que os operários «médios» nom fornecem com demasiada freqüência agitadores, etc., verdadeiramente capazes. Por isso, procuram pôr imediatamente todo o operário capaz em condiçons que lhe permitam desenvolver plenamente, e aplicar plenamente as suas aptidons: fam dele um agitador profissional, encorajam-no a alargar o seu campo de acçom, a estendê-lo de umha fábrica a toda umha profissom, de umha localidade a todo o país. Assim, o operário adquire experiência e perícia profissional, alarga o seu horizonte e os seus conhecimentos, observa de perto os chefes políticos eminentes de outras localidades e de outros partidos, esforça-se por se elevar ele próprio ao nível deles e de reunir em si o conhecimento do meio operário e o vigor das convicçons socialistas com a competência profissional, sem a qual o proletariado nom pode travar umha luita tenaz contra inimigos perfeitamente adestrados. É assim, e só assim, que surgem da massa operária os Bebel e os Auer. Mas o que num país politicamente livre se fai em grande parte por si só, entre nós deve ser realizado sistematicamente polas nossas organizaçons. Todo o agitador operário que tenha algum talento, que «prometa», nom deve trabalhar onze horas na fábrica. Devemos arranjar maneira de ele viver por conta do partido, de ele poder passar à clandestinidade no momento preciso, de mudar de localidade, porque doutro modo nom adquirirá grande experiência, nom alargará o seu horizonte, nom se poderá manter sequer uns anos na luita contra os gendarmes.
Quanto mais amplo e mais profundo
for o ascenso espontáneo das massas operárias, tanto mais estas
destacam nom só agitadores de talento mas também organizadores,
propagandistas e militantes «práticos» de talento, «práticos»
no melhor sentido da palavra (que som tam escassos entre os nossos intelectuais,
na maior parte um pouco apáticos e descuidados à maneira russa).
Quando tivermos destacamentos de operários revolucionários (e,
bem entendido, revolucionários de «todas as armas») especialmente
preparados por umha longa aprendizagem, nengumha polícia política
do mundo poderá acabar com eles, porque esses destacamentos de homens
consagrados de corpo e alma à revoluçom gozarám igualmente
de umha confiança ilimitada das mais vastas massas operárias.
E é umha grande falta nossa nom «empurrar» bastante os
operários para este caminho que é comum a eles e aos «intelectuais»,
para o caminho da aprendizagem revolucionária profissional, puxando-os
com demasiada freqüência para trás com os nossos estúpidos
discursos sobre o que é «acessível» à massa
operária, aos «operários médios», etc.
Neste aspecto, como nos demais, o reduzido alcance do trabalho de organizaçom está indiscutível e intimamente relacionado (embora a imensa maioria dos «economistas» e dos militantes práticos novatos o nom reconheçam) com a reduçom do alcance da nossa teoria e das nossas tarefas políticas. O culto da espontaneidade dá origem a umha espécie de receio de nos afastarmos, nem que seja um passo, do que é «acessível» às massas, um receio de subir demasiado alto, acima da simples satisfaçom das suas necessidades directas e imediatas. Nom tenham medo, senhores! Lembrem-se que em matéria qe organizaçom nos encontramos num nível tam baixo que até é absurda a própria ideia de podermos subir demasiado alto!
e)
A organizaçom de «conjurados» e a «democracia»
E há entre nós muitas
pessoas tam sensíveis à «voz da vida» que, acima
de tudo, temem precisamente isto, acusando os que mantenhem as opinions atrás
expostas de partilharem as ideias de «A Vontade do Povo», de nom
compreender a «democracia», etc. Temos de nos deter nessas acusaçons
que, como é natural, som também apoiadas pola Rabótcheie
Dielo.
O autor destas linhas sabe muito
bem que os «economistas» de Petersburgo já acusavam o Rabótchaia
Gazeta de partilhar as ideias de «A Vontade do Povo» (o que é
compreensível se a compararem ao Rab. Misl). Por isso nom ficamos nada
surpreendidos quando, depois do aparecimento do Iskra, um camarada nos informou
que os social-democratas da cidade X classificavam o Iskra como um órgao
que partilha as ideias de «A Vontade do Povo». Naturalmente esta
acusaçom era para nós um elógio, pois qual é o
social-democrata digno desse nome a que os «economistas» nom tenham
feito a mesma acusaçom?
Estas acusaçons devem-se
a umha dupla confusom. Em primeiro lugar, a história do movimento revolucionário
é tam mal conhecida entre nós que toda a ideia de umha organizaçom
de combate centralizada que declara umha guerra decidida ao tsarismo é
considerada como dentro do espírito de «A Vontade do Povo».
Mas a magnífica organizaçom dos revolucionários da década
de 70, que a todos nós devia servir de modelo, foi criada, nom polos
partidários de «A Vontade do Povo», mas polos de «Terra
e Liberdade» (110), que se cindírom em seguidores de «A
Partilha Negra» e de «A Vontade do Povo». Por isso é
absurdo, histórica e logicamente, ver numha organizaçom revolucionária
de combate algumha cousa especificamente própria de «A Vontade
do Povo», porque toda a tendência revolucionária, se pensa
realmente numha luita séria, nom pode prescindir de semelhante organizaçom
revolucionária. O erro dos partidários de «A Vontade do
Povo» nom foi o de procurar integrar todos os descontentes na sua organizaçom
e orientá-la para umha luita decidida contra a autocracia. Polo contrário,
isto constitui o seu grande mérito histórico. E o seu erro consistiu
em se ter baseado numha teoria que, na realidade, nom era de modo algum umha
teoria revolucionária, e de nom ter sabido, ou nom ter podido, estabelecer
umha ligaçom firme entre o seu movimento e a luita de classes no seio
da sociedade capitalista em desenvolvimento. E só a mais grosseira
incompreensom do marxismo (ou a sua «compreensom» no sentido do
«struvismo») pudo levar à opiniom de que o aparecimento
de um movimento operário espontáneo de massas nos exime da obrigaçom
de criar umha organizaçom de revolucionários tam boa como a
dos partidários de «Terra e Liberdade», ou até incomparavelmente
melhor. Esse movimento, polo contrário, impom-nos precisamente esta
obrigaçom, porque a luita espontánea do proletariado nom se
transformará na sua verdadeira «luita de classe» enquanto
nom for dirigida por umha forte organizaçom de revolucionários.
Em segundo lugar, muitos e entre eles, polos vistos, E. Kritchévski (R. D., n.º 10, p. 18) nom compreendem bem a polémica que os social-democratas sempre sustentárom contra a concepçom da luita política como umha luita «de conjurados».
Protestamos e protestaremos sempre,
evidentemente, contra a reduçom da luita política às
dimensons de umha conjura(111), mas isto, claro está, nom significava
de modo algum que negássemos a necessidade de umha firme organizaçom
revolucionária. Assim, por exemplo, no folheto mencionado na nota encontra-se,
ao lado da polémica contra aqueles que querem reduzir a luita política
a umha conjura, o esquema de umha organizaçom (como ideal dos social-democratas)
suficientemente forte para poder, «com o objectivo de assestar um golpe
decisivo no absolutismo», recorrer tanto à «insurreiçom»
como a qualquer «outra forma de ataque»112. Pola sua forma, umha
tal organizaçom revolucionária firme num país autocrático
pode também ser chamada organizaçom «de conjurados»,
porque a palavra francesa «conspiraçom» equivale em russo
a «conjura» e o carácter conspirativo é imprescindível,
no mais elevado grau, a umha organizaçom deste tipo. O carácter
conspirativo é de tal maneira condiçom imprescindível
numha organizaçom deste género que todas as outras condiçons
(número de membros, sua escolha, suas funçons, etc.) tenhem
de estar de acordo com ela. Seria, por isso, de umha extrema candura recear
que nos acusassem, aos social-democratas, de querer criar umha organizaçom
de conjurados. Todo o inimigo do «economismo» deve orgulhar-se
dessa acusaçom, bem como da acusaçom de partilhar as ideias
de «A Vontade do Povo».
Objectarám-nos que umha
organizaçom tam poderosa e tam rigorosamente secreta, que concentra
nas suas maos todos os fios da actividade conspirativa, organizaçom
necessariamente centralista, pode lançar-se com demasiada facilidade
a um ataque prematuro, pode forçar irreflectidamente o movimento, antes
que o tenham tornado possível e necessário a extensom do descontentamento
político e a força da efervescência e da indignaçom
da classe operária, etc. A isso responderemos que, falando em termos
abstractos, nom se pode negar, evidentemente, que umha organizaçom
de combate pode lançar-se numha batalha impensada que pode terminar
numha derrota, que nom seria absolutamente inevitável noutras condiçons.
Mas, num problema destes, é impossível limitarmo-nos a consideraçons
abstractas, porque todo o combate implica umha possibilidade abstracta de
derrota, e nom existe outro meio de diminuir essa possibilidade do que preparar
organizadamente o combate. E se pugermos o problema no terreno concreto das
condiçons actuais da Rússia, teremos de chegar a esta conclusom
positiva: umha forte organizaçom revolucionária é absolutamente
necessária precisamente para dar estabilidade ao movimento e preservá-lo
da possibilidade de ataques irreflectidos. Precisamente agora, quando nos
falta umha organizaçom deste género e o movimento revolucionário
cresce espontánea e rapidamente, observam-se já dous extremos
(que, como é lógico, «se tocam»): ou um «economismo»
completamente inconsistente, acompanhado de prédicas de moderaçom,
ou um «terror excitante» nom menos inconsistente, que tende a
«produzir artificialmente, no movimento que se desenvolve e se consolida
mas que ainda está mais perto do seu ponto de partida do que do seu
fim, sintomas do seu fim» (V. Z., na Zariá, n.º 2-3, p.
353). E o exemplo da Rab. Dielo demonstra que já existem social-democratas
que cedem perante estes dous extremos. Isto nada tem de surpreendente porque,
abstraindo outras razons, «a luita económica contra os patrons
e o governo» nunca satisfará um revolucionário, e aparecerám
sempre, aqui ou acolá, extremos opostos. Só umha organizaçom
combativa centralizada, que aplique com firmeza a política social-democrata
e que satisfaga, por assim dizer, todos os instintos e aspiraçons revolucionárias,
pode preservar o movimento de um ataque irreflectido e preparar um ataque
que prometa êxito.
Objectarám-nos, também,
que o ponto de vista exposto sobre a organizaçom contradi o «princípio
democrático». Enquanto a acusaçom anterior é de
origem especificamente russa, esta tem um carácter especificamente
estrangeiro. E só umha organizaçom no estrangeiro («A
Uniom dos social-democratas russos») pudo dar à sua redacçom,
entre outras, a seguinte instruçom:
«Princípio
de organizaçom. Para favorecer o desenvolvimento e a unificaçom
da social-democracia, é preciso sublinhar, desenvolver, luitar por
um amplo princípio democrático na sua organizaçom de
partido, o que se tornou especialmente imprescindível dado o aparecimento
de tendências antidemocráticas nas fileiras do nosso partido.»
(Dous Congressos, p. 18.)
No capítulo seguinte veremos
como precisamente a Rab. Dielo luita contra as tendências «antidemocráticas»
do Iskra. Por agora, vejamos mais de perto o «princípio»
proposto polos «economistas». Todos concordarám, provavelmente,
que o «amplo princípio democrático» implica duas
condiçons imprescindíveis: em primeiro lugar, umha publicidade
completa, e, em segundo lugar, o carácter electivo de todos os cargos.
Sem publicidade seria ridículo falar de democracia, e além disso
sem umha publicidade que nom fique limitada aos membros da organizaçom.
Chamaremos democrática à organizaçom do partido socialista
alemám porque nele tudo se fai publicamente, mesmo as sessons dos seus
congressos; mas ninguém classificará de democrática umha
organizaçom que se oculte de todos os que nom sejam seus membros atrás
do véu do segredo. Portanto, que sentido tem propor um «amplo
princípio democrático», quando a condiçom fundamental
deste princípio é irrealizável por umha organizaçom
secreta? O «amplo princípio» mais nom é do que umha
mera frase, sonora mas oca. Mais ainda. Esta frase demonstra umha total incompreensom
das tarefas urgentes do momento em matéria de organizaçom. Todos
sabem até que ponto está espalhada entre nós, na «grande»
massa de revolucionários, a falta de secretismo. Já vimos como
B-v se queixa disto amargamente, exigindo, com toda a razom, «uma severa
selecçom dos filiados» (R. D., n.º 6, p. 42). E eis que
imediatamente surgem pessoas que se ufanam do seu «sentido da vida»
e, numha situaçom destas, sublinham, nom a necessidade do mais severo
secretismo e da mais severa (e, por conseqüência, mais restrita)
selecçom de filiados, mas um «amplo princípio democrático»!.
A isto chama-se dar na ferradura em vez de dar no cravo.
Nom se passam melhor as cousas
em relaçom à segunda característica da democracia: o
carácter electivo. Nos países que gozam de liberdade política,
esta condiçom subentende-se por si própria. «Considera-se
membro do partido todo aquele que aceite os princípios do seu programa
e ajuda o partido na medida das suas forças», di o artigo primeiro
dos Estatutos de organizaçom do Partido Social-Democrata Alemám.
E como toda a arena política está completamente descoberta para
todos, como a cena para os espectadores de um teatro, o que se aceita ou nom
se aceita, se se presta apoio ou nom, som cousas sabidas por todos através
dos jornais e das reunions públicas. Toda a gente sabe que determinado
político começou desta ou daquela maneira, seguiu esta ou aquela
evoluçom, tivo este ou aquele comportamento num momento difícil
da sua vida, se distingue, em geral, por estas ou aquelas qualidades: portanto,
é natural que todos os membros do partido podam, com conhecimento de
causa, eleger ou nom este ou aquele dirigente para um determinado cargo do
partido. O controlo geral (no sentido literal do termo) de cada passo do membro
do partido ao longo da sua carreira política cria um mecanismo de acçom
automática, cujo resultado é aquilo que em biologia se chama
a «sobrevivência do mais apto». A «selecçom
natural», produto da completa publicidade, do carácter electivo
e do controlo geral, assegura que, ao fim e ao cabo, cada figura política
ocupe «o seu lugar», se encarregue do trabalho mais adequado às
suas forças e às suas aptidons, sofra, ele próprio, as
conseqüências dos seus erros, e demonstre aos olhos de todos a
sua capacidade para reconhecer as suas faltas e evitá-las.
Mas tentade encaixar este quadro
na moldura da nossa autocracia! Será por acaso concebível entre
nós que «todo aquele que aceita os princípios do programa
do partido e ajuda o partido na medida das suas forças» controle
todos os passos dados polos revolucionários clandestinos? Que todos
elejam umha ou outra pessoa entre estes últimos, quando, no interesse
do seu trabalho, o revolucionário é obrigado a ocultar a sua
verdadeira personalidade a nove décimos destes «todos»?
Reflectide, nem que seja só um momento, acerca do verdadeiro sentido
das sonoras palavras da Rab. Dielo e vereis que umha «ampla democracia»
de umha organizaçom de partido, nas trevas da autocracia, quando som
os gendarmes quem selecciona, nom é mais do que um brinquedo inútil
e prejudicial. É um brinquedo inútil porque, na prática,
nunca nengumha organizaçom revolucionária pudo apliclar umha
ampla democracia, nem a pode aplicar por mais que o deseje. É um brinquedo
prejudicial porque as tentativas para aplicar, na prática, um «amplo
princípio democrático» só tornam mais fácil
à polícia lançar as grandes vagas de prisons e perpetuam
o trabalho artesanal imperante, distraindo o pensamento dos militantes práticos
da séria e imperiosa tarefa de se forjarem como revolucionários
profissionais, desviando-o para a redacçom de pormenorizados estatutos
«no papel» sobre sistemas eleitorais. Só no estrangeiro,
onde freqüentemente se reúnem homens que nom tenhem possibilidades
de encontrar um trabalho real e verdadeiro, se pudo desenvolver aqui e ali,
sobretudo em pequenos grupos, esta mania de «brincar à democracia».
Para mostrar ao leitor çomo
é indigna a maneira como a Rab. Dielo gosta de preconizar um «princípio»
tam nobre como a democracia no trabalho revolucionário, vamos, umha
vez mais, recorrer a umha testemunha. Trata-se de E. Serebriakov, director
da revista de Londres Nakanúne, que sente um fraco pola Rab. Dielo
e umha grande aversom por Plekhánov e polos «plekhanovistas»:
nos artigos sobre a cisom da «Uniom dos Social-democratas Russos»
no estrangeiro, a Nakanúne pujo-se decididamente ao lado da R. Dielo
e atirou com umha verdadeira nuvem de palavras mesquinhas sobre Plekhánov.
Por isso tanto mais valor tem para nós esta testemunha sobre este problema.
No artigo intitulado «Sobre o Apelo do «Grupo de Auto-emancipaçom
dos Operários»» no n.º 7 da Nakanúne (Julho
de 1899), E. Serebriakov dizia que era «indecente» levantar a
questom «de prestígio, de primazia, do que se chama o aerópago,
num movimento revolucionário sério» e dizia, entre outras
cousas, o seguinte:
«Míchkine,
Rogatchov, Jeliábov, Mikháilov , Peróvskaia, Fígner
e outros nunca se considerárom dirigentes e ninguém os tinha
eleito nem nomeado, embora na realidade o fossem, porque tanto em período
da propaganda como em período da luita contra o governo se encarregárom
do trabalho mais difícil, fôrom aos locais mais perigosos e a
sua actividade foi a mais frutuosa. E a primazia nom resultava dos seus desejos,
mas da confiança que os camaradas que os rodeavam tinham na sua inteligência,
na sua energia e na sua lealdade. E temer um areópago (e se nom se
o teme nom há motivo para se falar dele) que pode dirigir o movimento
autoritariamente, é já demasiada candura. Quem o obedeceria?»
Perguntamos ao leitor: Que diferença
existe entre um «areópago» e as «tendências
antidemocráticas»? nom é evidente que o «plausível»
princípio de organizaçom da R. Dielo é tam cándido
como indecente? Cándido, simplesmente porque ninguém obedecerá
um «areópago» ou pessoas de tendências antidemocráticas,
sempre que «os camaradas que os rodeiam nom tenham confiança
na sua inteligência, na sua energia e na sua lealdade». Indecente,
como saída demagógica em que se especula com a vaidade de uns,
com a ignoráncia de outros sobre o verdadeiro estado do nosso movimento
e com a falta de preparaçom e o desconhecimento da história
do movimento revolucionário de ainda outros. O único princípio
de organizaçom sério a que se devem subordinar os dirigentes
do nosso movimento deve ser: o mais severo secretismo, amais severa selecçom
dos filiados, e a preparaçom de revolucionários profissionais.
Estando reunidas estas qualidades, estará assegurada umha cousa mais
importante do que a «democracia», a saber: a plena e fraternal
confiança mútua entre os revolucionários. É indiscutível
que necessitamos desta cousa mais importante porque entre nós, na Rússia,
nom se pode falar em substituí-la por um controlo democrático
geral. E cometeríamos um grande erro se julgássemos que a impossibilidade
de um controlo verdadeiramente «democrático» torna incontrolados
os membros de umha organizaçom revolucionária: nom tenhem tempo
para pensar nas formas pueris de democracia (democracia no seio de um grupo
restrito de camaradas entre os quais reina plena confiança mútua),
mas sentem muito vivamente a sua responsabilidade sabendo, além disso,
por experiência, que umha organizaçom de verdadeiros revolucionários
nom recuará perante nengum meio para se desembaraçar de um membro
indigno. Além disso, está bastante difundida entre nós
umha opiniom pública dos meios revolucionários russos (e internacionais)
que tem atrás de si umha longa história e que castiga com implacável
rigor qualquer falta aos deveres de camaradagem (e a «democracia»,
a verdadeira, nom a democracia pueril, está compreendida, como a parte
no todo, neste conceito de camaradagem!). Tende tudo isto em conta e compreenderedes
que repugnante cheiro a brincadeiras no estrangeiro aos generais exalam todos
estes falatórios e resoluçons sobre «tendências
antidemocráticas»!.
Há que observar, além disso, que a outra fonte destes falatórios, isto é, a andura, se alimenta também da confusom de ideias acerca do que é a democracia. No livro do casal Webb sobre as trade-unions inglesas há um capítulo curioso: «A democracia primitiva». Dizem os autores, neste capítulo, como os operários ingleses, no primeiro período de existência dos seus sindicatos, consideravam como característica imprescindível da democracia que todos figessem de tudo na direcçom dos sindicatos: nom só todos os problemas eram decididos por votaçom de todos os membros, mas também os cargos eram desempenhados, sucessivamente, por todos os filiados. Foi necessária umha longa experiência histórica para que os operários compreendessem o absurdo de tal concepçom de democracia e a necessidade, por um lado, de existirem instituiçons representativas e, por outro, a necessidade de funcionários profissionais. Fôrom necessários alguns casos de falência de caixas sindicais para fazer compreender aos operários que a relaçom proporcional entre as quotizaçons que pagavam e os subsídios que recebiam nom podia ser decidida só por votaçom democrática, mas que exigia, além disso, o conselho de um perito de seguros. Lede, também, o livro de Kautsky sobre o parlamentarismo e a legislaçom popular e veredes que as conclusons deste teórico marxista coincidem com os ensinamentos dados por longos anos de prática dos operários unidos «espontaneamente». Kautsky protesta energicamente contra a concepçom primitiva da democracia de Rittinghausen, ridiculariza as pessoas sempre prontas a