QUE FAZER?, SEGUIDO DE O ESTADO E A REVOLUÇOM

 

I. DOGMATISMO E «LIBERDADE DE CRÍTICA»

 

a) Que significa «liberdade de crítica»?

A «liberdade de crítica» é, sem dúvida algumha, a palavra de ordem actualmente mais em voga, aquela que aparece com mais freqüência nas discussons entre socialistas e democratas de todos os países. À primeira vista parece mais estranho do que ver umha das partes em litígio reclamar-se solenemente da liberdade de crítica. Acaso no seio dos partidos avançados se levantárom vozes contra a lei constitucional que, na maior parte dos países europeus, garante a liberdade da ciência e da investigaçom científica? «Algo se passa aqui», dirá necessariamente toda a pessoa alheia à questom que tenha ouvido essa palavra de ordem, agora em voga, repetida em todas as esquinas, mas que nom tenha penetrado ainda no fundo do desacordo. Esta palavra de ordem é, evidentemente, umha dessas pequenas frases convencionais que, como as alcunhas, som consagradas polo uso e se tornam quase nomes comuns.»

Com efeito, nom é segredo para ninguém que, na social-democracia internacional (7) contemporánea se formárom duas tendências cuja luita ora se reaviva e irrompe em chamas, ora se abranda e arde lentamente sob as cinzas de imponentes «resoluçons de tréguas». Em que consiste a «nova» tendência que assume umha atitude «crítica» frente ao marxismo «velho, dogmático», dixo-o Bernstein e mostrou-no Millerand com suficiente clareza.

A social-democracia deve transformar-se de partido da revoluçom social num partido democrático de reformas sociais. Esta reivindicaçom política foi apoiada por Bernstein com toda umha bateria de «novos» argumentos e consideraçons bastante harmoniosamente orquestrados. Foi negada a possibilidade de fundamentar cientificamente o socialismo e de demonstrar do ponto de vista da concepçom materialista da história a sua necessidade e a sua inevitabilidade; foi negado o facto da miséria crescente, da proletarizaçom, e da exacerbaçom das contradiçons capitalistas; foi declarada inconsistente a própria concepçom do objectivo final e rejeitada categoricamente a ideia da ditadura do proletariado; foi negada a oposiçom de princípios entre o liberalismo e o socialismo; foi negada a teoria da luita de classes, por pretensamente nom ser aplicável a umha sociedade estritamente democrática, governada de acordo com a vontade da maioria, etc.

Assim, a exigência de umha viragem decisiva da social-democracia revolucionária para o social-reformismo burguês era acompanhada de umha viragem, nom menos decisiva, para a crítica burguesa de todas as ideias fundamentais do marxismo. E como esta crítica era, desde há muito, dirigida contra o marxismo da tribuna política e da cátedra universitária, em numerosas publicaçons e numha série de tratados científicos; como toda a nova geraçom das classes cultas foi educada sistematicamente, durante decénios, com base nesta crítica, nom é de estranhar que a «nova» tendência «critica» na social-democracia tenha surgido, de repente, completamente acabada, tal como Minerva da cabeça de Jupiter. polo seu conteúdo, esta tendência nom tivo de se desenvolver nem de se formar, foi transplantada directamente da literatura burguesa para a literatura socialista.

Prossigamos. Se a crítica teórica de Bernstein e as suas ambiçons políticas estavam ainda pouco claras para alguns, os franceses tivérom o cuidado de fazer umha demonstraçom prática do «novo método». Mais umha vez, a França justificou a sua velha reputaçom de «país em que as luitas históricas de classe fôrom, mais do que em qualquer outro, levadas até ao fim decisivo» (Engels, extracto do prefácio a Der 18 Brumaire8 de Marx). Em vez de teorizar, os socialistas franceses lançárom directamente maos à obra; as condiçons políticas da França, mais desenvolvidas no sentido democrático, permitírom-lhes passar imediatamente ao «bernsteinianismo prático» com todas as suas conseqüências. Millerand deu exemplo brilhante deste bernsteinianismo prático; nom foi sem motivo que Bernstein e Vollmar se apressárom a defender e a elogiar tam zelosamente Millerand! Com efeito, se a social-democracia nom é, no fundo, senom um partido de reformas, e deve ter a coragem de o reconhecer abertamente, um socialista nom só tem o direito de entrar para um ministério burguês como deve sempre aspirar a isso. Se a democracia significa, no fundo, a supressom da dominaçom de classe, por que motivo um ministro socialista nom há de encantar todo o mundo burguês com os seus discursos sobre a colaboraçom das classes? Porque nom há de ele conservar a sua pasta, mesmo depois dos assassínios de operários polos gendarmes terem mostrado, pola centésima e a milésima vez, o verdadeiro carácter da colaboraçom democrática das classes? Porque nom há ele de participar pessoalmente na felicitaçom do tsar, a quem os socialistas franceses outro nome nom dam agora do que o de herói do chicote, da forca e da deportaçom (knouteur; pendeur et déportateur)? E em recompensa desta infinita humilhaçom e auto-aviltamento do socialismo perante o mundo inteiro, da corrupçom da consciência socialista das massas operárias –a única base que nos pode assegurar a vitória–, em recompensa de tudo isto, oferecem-nos pomposos projectos de reformas meseráveis, tam miseráveis, que se tinha consguido obter mais dos governos burgueses!

Aqueles que nom fecham deliberadamente os olhos nom podem deixar de ver que a nova tendência «crítica» surgida no seio do socialismo nom é mais do que umha nova variedade do oportunismo. Se nom julgarmos as pesssoas polo brilhante uniforme com que elas próprias se vestírom, nem polo título pomposo que a si próprias se dérom, mas segundo a sua maneira de agir e as ideias que de facto propagam, tornará-se claro que a «liberdade de crítica» é a liberdade da tendência oportunista no seio da social-democracia, a liberdade de transformar esta última num partido democrático de reformas, a liberdade de introduzir no socialismo ideias burguesas e elementos burgueses.

A liberdade é umha grande paIavra, mas foi sob a bandeira da liberdade de indústria que se figérom as piores guerras de pilhagem. Foi sob a bandeira da liberdade de trabalho que se espoliárom os trabalhadores. O emprego actual da expressom «liberdade de crítica» encerra a mesma falsidade intrínseca. Pessoas realmente convencidas de ter feito avançar a ciência nom reclamariam para as novas concepçons a liberdade de existir ao lado das antigas, mas a substituiçom destas últimas polas primeiras. Mas os grítos actuais de «Viva a liberdade de crítica!» lembram demasiado a fábula do tonel vazio(9).

Pequeno grupo compacto, seguimos por um caminho escarpado e difícil, de maos dadas firmemente. Estamos rodeados de inimigos por todos os lados e temos de marchar quase sempre debaixo do seu fogo. Unimo-nos em virtude de umha decisom livremente tomada, precisamente para luitar contra os inimigos e nom cair no pántano vizinho, cujos habitantes, desde o início, nos censuram por nos termos separado num grupo à parte e por termos escolhido o caminho da luita e nom o da conciliaçom. E eis que alguns de nós começam a gritar: «Vamos para o pántano!» E quando procuramos envergonhá-los replicam: «Que gente tam atrasada sodes! Como é que nom tendes vergonha de nos negar a liberdade de vos convidar a seguir um caminho melhor!» Oh!, sim, senhores, som livres nom só de nos convidar, mas também de ir para onde melhor lhes parecer, até para o pántano; até pensamos que o seu verdadeiro lugar é precisamente o pántano e estamos dispostos a ajudá-los, na medida das nossas forças, a mudar-se para lá. Mas nesse caso larguem-nos a mao, nom se agarrem a nós e nom manchem a grande palavra liberdade, porque nós também somos «livres» para ir onde melhor nos parecer, livres para combater nom só o pántano como aqueles que se desviam para o pántano!

Voltar ao índice

b) Os novos defensores da «liberdade de crítica»

É esta palavra de ordem («liberdade de crítica») que a Rabótcheie Dielo (nº 10), órgao da «Uniom dos Social-democratas Russos» no estrangeiro10, formulou solenemente nestes últimos tempos, nom como postulado teórico, mas como reivindicaçom política, como resposta à pergunta: «É possível a Uniom das organizaçons social-democratas que actuam no estrangeiro?»: «Para umha Uniom sólida, é indispensável a liberdade de crítica» (p.36).

Desta declaraçom decorrem duas conclusons bem definidas: 1) A Rabótcheie Dielo assume a defesa da tendência oportunista na social-democracia internacional em geral; 2) A Rabótcheie Dielo exige a liberdade do oportunismo no seio da social-democracia russa. Examinemos estas conclusons.
O que «acima de tudo» desagrada à Rabótcheie Dielo é a «tendência do Iskra e da Zariá11 para prognosticar a rotura entre a Montanha e a Gironda na social-democracia internacional»12.
«Em geral –escreve B. Ktitchévski, director da Rabótcheie Dielo–, falar-se em Montanha e Gironda13 nas fileiras da social-democracia parece-nos umha analogia histórica superficial, estranha na pena de um marxista: a Montanha e a Gironda nom representavam dous temperamentos ou correntes intelectuais diferentes como poderá parecer aos historiadores-ideólogos, mas classes ou camadas diferentes: a média burguesia, por um lado, a pequena burguesia e o proletariado, por outro. Mas, no movimento socialista contemporáneo nom há choques de interesses de classe; em todas (sublinhado por B. Kritchévski) as suas variedades, incluindo os bernsteinianos mais declarados, coloca-se inteiramente no campo dos interesses de classe do proletariado, da sua luita de classe pola libertaçom política e económica» (pp. 32-33).

Afirmaçom ousada! Nom ouviu B. Kritchévski falar do facto, observado há muito tempo, de que foi precisamente a participaçom ampla da camada dos «académicos» no movimento socialista dos últimos anos que assegurou umha tam rápida difusom do bernsteinianismo? Mas, antes de mais, em que fundamenta o autor a sua opiniom de que também os «bernsteinianos mais declarados» se colocam no campo da luita de classe pola libertaçom política e económica do proletariado? Ninguém o sabe. Esta defesa resoluta dos bernsteinianos mais declarados nom é comprovada por nengum argumento, por nengumha razom. O autor, polos vistos, entende que, repetindo o que de si própio dim os bernsteinianos mais declarados, deixa de ser necessário apresentar provas da sua afirmaçom. Mas que cousa mais «superficial» pode haver do que esta maneira de julgar toda umha tendência na base do que de si próprios dim os seus próprios representantes? Que pode haver de mais superficial do que a «moral» subseqüente a propósito dos dous tipos ou caminhos diferentes, e até diametralmente opostos, do desenvolvimento do partido (pp. 34-35 da Rabótcheie Dielo)? Os social-democratas alemáns, vejam lá, reconhecem umha completa liberdade de crítica; os franceses, polo contrário, nom o fam, e é precisamente o seu exemplo que demonstra todo o «mal da intoleráncia».
Precisamente o exemplo de B. Kritchévski, respondemos nós, mostra que há pessoas que, intitulando-se por vezes marxistas, consideram a história exactamente «à maneira de Ilováiski». Para explicar a unidade do partido socialista alemám e a fragmentaçom do francês nom há nengumha necessidade de rebuscar nas particularidades da história de um ou de outro país; de comparar as condiçons do semiabsolutismo militar e do parlamentarismo republicano; de examinar as conseqüências da Comuna e as da lei de excepçom contra os socialistas; de comparar a situaçom económica e o desenvolvimento económico; de recordar que o «crescimento sem par da social-democracia alemá» foi acompanhado por umha luita de umha energia sem paralelo na história do socialismo nom só contra os erros teóricos (Mühlberger, Dühring 14, os socialistas de cátedra15), mas também contra os erros tácticos (Lassalle), etc., etc. Tudo isto é supérfluo! Os franceses querelam entre si porque som intolerantes; os alemáns estám unidos porque som bons rapazes.

E note-se que, por meio desta incomparável profundidade de pensamento, «recusa-se» um facto que deita por terra completamente a defesa dos bernsteinianos. Só através da experiência histórica se pode resolver definitivamente, e sem voltar atrás, o problema de saber se se colocam no campo da luita de classe do proletariado. Portanto, o que tem mais importáncia neste sentido é precisamente o exemplo da França, por este ser o único país onde os bernsteinianos tentárom agir independentemente, com a aprovaçom calorosa dos seus colegas alemáns (e, em parte, dos oportunislas russos: ver R. D., nº 2-3, pp. 83-84). Fazer referência à «intransigência» dos franceses –além do seu significado «histórico» (no sentido de Nozdriov (16)– mais nom é do que umha tentativa de dissimular, sob palavras acrimoniosas, factos extremamente desagradáveis.

Aliás, nom temos qualquer intençom de dar aos alemáns de presente a B. Kritchévski e aos outros numerosos defensores da «liberdade de crítica». Se os «bernsteinianos mais declarados» som ainda tolerados nas fileiras do partido alemám, som-no unicamente na medida em que eles se submetem à resoluçom de Hannover(17), que rejeitou decididamente as «emendas» de Bernstein, bem como a de Lübeck(18), que contém (apesar de toda a sua diplomacia) umha advertência directa a Bernstein. Pode-se, do ponto de vista dos intereses do partido alemám, discutir a oportunidade desta diplomacia e perguntar se, neste caso, vale mais um mau acordo do que umha boa querela; pode-se, em resumo, discordar quanto à conveniência deste ou daquele meio de repudiar o bernsteinianismo, mas nom se pode deixar de ver o facto de que o partido alemám repudiou o bernsteinianismo duas vezes. Portanto, crer que o ejemplo dos alemáns confirma a tese segundo a qual «os bernsteinianos mais declarados se colocam no campo da luita de classe do proletariado pola sua libertaçom económica e politica» é nom compreender absolutamente nada do que se passa sob os olhos de todos nós (19).

Mas mais ainda. A Rab. Dielo, como já vimos, apresenta à social-democracia russa a reivindicaçom da «liberdade de crítica» e defende o bernsteinianismo. Polos vistos, deve ter-se convencido de que os nossos «críticos» e os nossos bernsteinianos tinham sido injustamente ofendidos. Mas quais precisamente? Por quem, onde e quando? Em que, precisamente consistiu a injustiça? Sobre isto a R. Dielo guarda silêncio; nem umha única vez menciona um crítico ou um bernsteiniano russo! Só nos resta escolher umha das duas hipóteses possíveis. Ou a parte injustamente ofendida nom é senom a própria R. Dielo (confirma-o o facto de nos dous artigos do seu número 10 se referirem unicamente as ofensas dirigidas pola Zariá e polo Iskra à R. Dielo). Neste caso como explicar o facto tam estranho de que a R. Dielo, que sempre negou tam obstinadamente qualquer solidariedade com o bernsteinianismo, nom tenha podido defender-se a si própria sem intervir a favor dos «bernsteinianos mais declarados» e da liberdade de crítica? Ou fôrom terceiros os injustamente ofendidos. Quais podem ser entom os motivos para nom os mencionar?

Assim, vemos que a R. Dielo continua a jogar às escondidas, no que se entretivo (como mostraremos mais adiante) desde que existe. Além disso, note-se esta primeira aplicaçom prática da tam famosa «liberdade de crítica». De facto, esta liberdade reduziu-se imediatamente nom só à falta de toda a crítica, mas também à ausência de qualquer juízo independente em geral. Essa mesma R. Dielo, que evita mencionar, como se fosse umha doença secreta (segundo a feliz expressom de Starover 20, o bernsteinianismo russo, propom para curar esta doença copiar pura e simplesmente a última receita alemá contra a variedade alemá da doença! Em vez de liberdade de crítica, imitaçom servil, ou... pior ainda: simiesca! O idêntico conteúdo social e político do oportunismo internacional contemporáneo manifesta-se numas ou noutras variedades consoante as particularidades nacionais. Num país, um grupo de oportunistas actua, desde há muito, sob umha bandeira separada; noutro, desdenhando a teoria, seguírom na prática a política dos radicais socialistas; num terceiro, alguns membros do partido revolucionário evadírom-se para o campo do oportunismo e procuram alcançar os seus objectivos nom por meio de umha luita aberta a favor dos princípios e da nova táctica, mas valendo-se de umha corrupçom gradual, imperceptível e, se se pode usar esta expressom, nom punível do seu partido; num quarto país, estes mesmos tránsfugas empregam idênticos processos nas trevas da escravatura política, com umha relaçom completamente original entre a actividade «legal» e a «ilegal»; etc., etc. Mas falar da liberdade de crítica e do bernsteinianismo como umha condiçom para a uniom dos social-democratas russos, sem analisar em que é que precisamente se manifestou e que frutos particulares deu o bernsteinianismo russo, significa falar para nom dizer nada.

Tentemos nós próprios entom dizer, ainda que seja em poucas palavras o que nom quijo dizer (ou talvez nom tenha sabido sequer compreender) a R. Dielo.

Voltar ao índice

c) A crítica na Rússia

A particularidade fundamental da Rússia, no aspecto que estamos a analisar, consiste em que já o próprio começo do movimento operário espontáneo, por um lado, e a viragem da opiniom publica avançada para o marxismo, por outro, se distinguírom pola uniom de elementos notoriamente heterogéneos, sob umha bandeira comum e para luitar contra o inimigo comum (contra as concepçons políticas e sociais caducas.) Referimo-nos à lua de mel do «marxismo legal». Foi em geral um fenómeno extraordinariamente original, em cuja possibilidade ninguém teria podido sequer acreditar na década de 80 ou no início da de 90. Num país autocrático, com umha imprensa completamente subjugada, numha época de terrível reacçom política que reprimia as mínimas manifestaçons de descontentamento político e de protesto, a teoria do marxismo revolucionário abriu subitamente caminho na literatura visada pola censura, exposta numha linguagem esópica, mas compreensível por todos os «interessados». O governo tinha-se habituado a nom considerar como perigosa senom a teoria de «A Vontade do Povo» (revolucionária), sem que notasse, como vulgarmente acontece, a sua evoluçom interna, regozijando-se com toda a crítica dirigida contra ela. Antes de o governo se aperceber, antes de o pesado exército de censores e gendarmes ter tido tempo de dar com o novo inimigo e cair sobre ele, passou nom pouco tempo (na nossa medida russa). E, entretanto, as obras marxistas eram editadas umhas atrás das outras, fundavam-se jornais e revistas marxistas, toda a gente se tornava marxista, os marxistas eram lisonjeados, adulados, os editores estavam entusiasmados com a venda extremamente rápida das obras marxistas. É compreensível que entre os marxistas principiantes, rodeados por esta atmosfera de inebriamento, tenha havido mais de um «escritor envaidecido»(21)...

Hoje pode-se falar tranquilamente deste período, como do passado. Ninguém ignora que o florescimento efémero do marxismo à superfície da nossa literatura tivo a sua origem na aliança entre elementos extremos com elmentos muito moderados. No fundo, estes últimos eram democratas burgueses, e esta conclusom (comprovada com toda a evidência pola evoluçom «crítica» ulterior que sofrêrom) impunha-se a certas pessoas já na época em que a «aliança» estava ainda intacta22.
Mas, neste caso, nom serám os social-democratas revolucionários, que figérom esta aliança com os futuros «críticos», os maiores responsáveis pola «confusom» subseqüente? Esta pergunta, seguida de umha resposta afirmativa, ouve-se, por vezes, na boca de pessoas que vem as cousas de maneira demasiado rectilínea. Mas estas pessoas nom tenhem razom nengumha. Só podem recear as alianças temporárias, mesmo com elementos inseguros, aqueles que nom tenhem confiança em si próprios; e nengum partido político poderia existir sem essas alianças. Ora, a uniom com os marxistas legais foi umha espécie de primeira aliança verdadeiramente política realizada pola social-democracia russa. Graças a esta aliança foi possível obter umha vitória assombrosamente rápida sobre o populismo, assim como umha difusom extremamente ampla das ideias marxistas (embora sob umha forma vulgarizada) Além disso, a aliança nom foi concluída completamente sem «condiçons». Testemunha-o a compilaçom marxista Materiais sobre a Questom do Desenvolvimento Económico da Rússia, queimada pola censura em 1895. Se se pode comparar o acordo literário com os marxistas legais com umha aliança politica, pode-se comparar este livro com um pacto político.

A rotura nom se deve, evidentemente, ao facto de os «aliados» se terem rebelado democratas burgueses. Polo contrário, os representantes desta última tendência som aliados naturais e desejáveis da social-democracia, sempre que se trate de tarefas democráticas desta, tarefas que a situaçom actual da Rússia coloca em primeiro lugar. Mas é condiçom indispensável para esta aliança que os socialistas tenham plena possibilidade de relevar à classe operária a oposiçom hostil entre os seus interesses e os interesses da burguesia. Mas o bernsteinianismo e a tendência «crítica», para a qual evoluiu em geral a maior parte dos marxistas legais, eliminavam esta possibilidade e corrompiam a consciência socialista aviltando o marxismo, pregando a teoria da atenuaçom das contradiçons sociais, proclamando que é absurda a ideia da revoluçom social e da ditadura do proletariado, reduzindo o movimento operário e a luita de classes a um trade-unionismo estreito e à luita «realista» por reformas pequenas e graduais. Era exactamente o mesmo que se a democracia burguesa negasse o direito do socialismo à independência e, por conseqüência, o seu direito à existência; na prática isto significava tender a converter o nascente movimento operário em apêndice dos liberais.

Naturalmente, nestas condiçons a rotura tornou-se necessária. Mas a particularidade «original» da Rússia manifestou-se em que essa rotura significou apenas a eliminaçom dos social-democratas da literatura «legal», a mais acessível para todos e mais amplamente difundida. Nela se entricheirárom os «ex-marxistas», que se tinham agrupado «sob o signo da crítica» e que obtivérom quase o monopólio para «demolir» o marxismo. As palavras de ordem «Contra a ortodoxia!» e «Viva a liberdade de crítica!» (repetidas agora pola R. Dielo) tornárom-se imediatamente palavras muito em voga; e que nem mesmo os censores nem os gendarmes conseguírom resistir a essa moda, mostram-no as três ediçons russas do livro do famoso (famoso à maneira de Heróstrato) Bernstein (23) ou a recomendaçom dos livros de Bernstein, do Sr. Prokopóvitch e outros por Zubátov (Iskra, n.° 10). Aos socias-democratas incumbia entom umha tarefa já de si difícil, e incrivelmente mais dificultada ainda devido a obstáculos puramente exteriores: a tarefa de combater a nova corrente. E esta corrente nom se limitou ao terreno da literatura. A viragem para a «crítica» foi acompanhada de um movimento em sentido contrário: a propensom dos social-democratas práticos para o «economismo».

Este interessante assunto, como surgiu e se estreitou a ligaçom e a irterdependência entre a crítica legal e o «economismo» ilegal, poderia servir de tema para um artigo especial. Aqui basta-nos assinalar a existência icontestável dessa ligaçom. O famoso Credo adquiriu umha celebridade tam merecida precisamente por ter formulado abertamente esta ligaçom e ter revelado involuntariamente a tendência política fundamental do «economismo»: que os operários travem a luita económica (ou mais exactamente: a luita trade-unionista, porque esta abrange também a política especificamente operária) e que a intelectualidade marxista se funda com os liberais para a luita política. O trabalho trade-unionista «no povo» foi a realizaçom da primeira metade desta tarefa, e a crítica legal a realizaçom da segunda metade. Esta declaraçom foi umha arma tam excelente contra o «economismo» que, se o Credo nom tivesse existido, valeria a pena tê-lo inventado.

O Credo nom foi inventado, mas sim publicado sem o consentimento e talvez mesmo contra a vontade dos seus autores. Polo menos, o autor destas linhas, que contribuiu para trazer à luz do dia o novo «programa»24, tivo que ouvir lamentaçons e censuras polo facto de o resumo dos pontos de vista dos oradores ter sido divulgado em cópias, rotulado com o nome de Credo e até ter sido publicado na imprensa juntamente com o protesto! Referimos este episódio porque revela um traço muito curioso do nosso «economismo»: o medo da publicidade. Esta é umha característica, nom só dos autores do Credo, mas do «economismo» em geral: manifestárom-no tanto o Rabótchaia Misl25 –o adepto mais franco e mais honesto do «economismo»– como a R. Dielo (ao indignar-se com a publicaçom de documentos «economistas» no Vademecum26), bem como o Comité de Kíev, que nom quijo, há cerca de dous anos, autorizar que se publicasse a sua Profession de foi27 em conjunto com a refutaçom28 desta última, bem como muitos e muitos representantes isolados do «economismo».

Este medo da crítica que manifestam os adeptos da liberdade de crítica nom pode ser explicado unicamente como simples astúcia (se bem que, de vez em quando, as cousas nom aconteçam, indubitavelmente, sem astúcia: nom é vantajoso expor aos ataques do adversário os rebentos ainda frágeis da nova tendência!). Nom, a maioria dos «economistas», com absoluta sinceridade, vê com maus olhos (e pola própria essência do «economismo» tem de desaprovar) todas as controvérsias teóricas, divergências de fracçom, amplas questons políticas, projectos de organizar os revolucionários, etc. «Seria melhor deixar tudo isto à gente do estrangeiro!», dixo-me um dia um dos «economistas» bastante conseqüentes, exprimindo assim esta opiniom muito difundida (e também puramente trade-unionista): o que a nós nos incumbe é o movimento operário, as organizaçons operárias que temos aqui, na nossa localidade, e o resto som invençons dos doutrinários, umha «sobrestimaçom da ideologia», segundo a expressom dos autores da carta publicada no n.º 10 do Iskra, fazendo coro com o n.° 10 da R. Dielo.

Agora cabe perguntar: dadas estas particularidades da «crítica» russa e do bernsteinianismo russo, em que deveria consistir a tarefa dos que de facto, e nom somente em palavras, queriam ser adversários do oportunismo? Primeiramente, era preciso pensar em retomar o trabalho teórico que, mal tendo começado na época do marxismo Iegal, agora tinha voltado a recair sobre os militantes ilegais: sem um trabalho destes, nom era possível um crescimento eficaz do movimento. Em segundo lugar, era necessário empreender umha luita activa contra a «crítica» legal, que corrompia profundamente os espíritos. Em terceiro lugar, havia que actuar energicamente contra a dispersom e as vacilaçons no movimento prático, denunciando e refutando qualquer tentativa de rebaixar, consciente ou inconscientemente, o nosso programa e a nossa táctica.

É sabido que a R. Dielo nom cumpriu nem a primeira, nem a segunda, nem a terceira destas tarefas, e mais adiante teremos de esclarecer, em pormenor e nos seus mais diversos aspectos, essa verdade bem conhecida. Mas por agora, queremos simplesmente mostrar a flagrante contradiçom existente entre a reivindicaçom da «liberdade de crítica» e as particularidades da nossa crítica nacional e do «economismo» russo. Com efeito, lançade um olhar sobre o texto da resoluçom com que a «Uniom dos Social-democratas Russos no Estrangeiro» confirmou o ponto de vista da R. Dielo:

«No interesse do ulterior desenvolvimento ideológico da social-democracia, reconhecemos que a liberdade de críticar a teoria social-democrata nas publicaçons do partido é absolutamente necessária, na medida em que esta crítica nom contradiga o carácter de classe e o carácter revolucionário desta teoria.» (Dous Congressos, p. 10)

E apresentam-se os motivos: a resoluçom «coincide na sua primeira parte com a resoluçom do Congresso do Partido em Lübeck a propósito de Bernstein» ... Na sua simplicidade, os «aliados» nem sequer notam que testimonium paupertatis (certificado de indigência) passam a si próprios com esta maneira de copiar! ... «Mas ... na sua segunda parte, restringe a liberdade de crítica de um modo mais estrito do que o Congresso de Lübeck.»

A resoluçom da «Uniom» é portanto dirigida contra os bernsteinianos russos? Porque se assim nom fosse, seria completamente absurda a referência a Lübeck! Mas nom é verdade que «restrinja de um modo estrito a liberdade de crítica». Na sua resoluçom de Hannover, os alemáns rejeitárom, ponto por ponto, exactamente as emendas apresentadas por Bernstein e, na de Lübeck, figérom umha advertência pessoal a Bernstein, mencionando-o na resoluçom. Contudo, os nossos imitadores «livres» nom fam a menor alusom a umha única das manifestaçons da «crítica» especialmente russa e do «economismo» russo. Dado este silêncio, a mera alusom ao carácter de classe e ao carácter revolucionário da teoria deixa muito mais liberdade para falsas interpretaçons, sobretudo se a «Uniom» se recusa a classificar o «chamado economismo» como oportunismo (Dous Congressos, p. 8, parágrafo 1). Mas dizemos isto de passagem. O importante é que as posiçons dos oportunistas em relaçom com os social-democratas revolucionários som, na Alemanha e na Russia, diametralmente opostas. Na Alemanha, os social-democratas revolucionários, como é sabido, som pola manutençom do que existe: polo antigo programa e pola antiga táctica, conhecidos por todos e que fôrom explicados em todos os seus pormenores pola experiência de dezenas e dezenas dezenas de anos.

Os «críticos», polo contrário, querem introduzir modificaçons e, como som umha ínfima minoria e as suas aspiraçons revisionistas som muito tímidas, compreende-se os motivos por que a maioria se limita a rejeitar pura e simplesmente as «inovaçons». Na Rússia, polo contrário, som os críticos e os «economistas» que querem manter aquilo que existe: os «críticos» querem continuar a ser considerados como marxistas e que se lhes assegure a «liberdade de critica» de que gozavam em todos os sentidos (porque, no fundo, nunca reconhecêrom quaisquer laços de partido29; além disso, nom tínhamos um órgao de partido reconhecido por todos e capaz de «restringir» a liberdade de crítica, nem sequer por meio de um conselho); os «economistas» querem que os revolucionários reconheçam «a plenitude de direitos do movimento no presente» (R. D. n.° 10, p. 25), isto é a «legitimidade» da existência do que existe; que os «ideólogos» nom procurem «desviar» o movimento do caminho «determinado pola interacçom dos elementos materiais e do meio material» (Carta no n.° 12 do Iskra); que se reconheça como dejável travar a luita «que é possível para os operários nas circunstáncias presentes» e, como possível, a luita «que travam realmente no momento presente» (Suplemento separado do «R. Misl», p. 14). Polo contrário, a nós social-democratas revolucionários, desagrada-nos este culto da espontaneidade, quer dizer, do que existe «no momento presente», exigimos que seja modificada a táctica que prevaleceu durante esses últimos anos, declaramos que «antes de nos unirmos e para nos unirmos é necessário começar por demarcar-nos clara e resolutamente» (ver anúncio da publicaçom do Iskra). Numha palavra, os alemáns conformam-se com o que existe, rejeitando as modificaçons; quanto a nós, rejeitando a submissom e a resignaçom com o estado de cousas actual, exigimos a modificaçom do que existe.

É precisamente esta «pequena» diferença que os nossos «livres» copiadores de resoluçons alemás nom notárom!

Voltar ao índice

d) Engels sobre a importáncia da luita teórica

Dogmatismo, doutrinarismo», «ossificaçom do partido, castigo inevitável do espartilhamento violento do pensamento», tais som os inimigos contra os quais arremetem cavaleirescamente os campeons da «liberdade de crítica» na Rab. Dielo. Muito nos agrada que esta questom tenha sido posta na ordem do dia; somente propomos completá-la com outra:

E quem som os juízes?

Temos diante de nós dous anúncios de ediçons literárias. Um é o «Programa do Órgao Periódico da Uniom dos Social-democratas Russos, Rab. Dielo» (umha separata do n.° 1 da R. D.). O outro é o «Anúncio sobre o recomeço das Publicaçons do Grupo «Emancipaçom do Trabalho»30. Ambos datam de 1899, quando a «crise do marxismo» estava, desde há muito, na ordem do dia. Pois bem, em vao procuraríamos na primeira obra alusom a este fenómeno e umha exposiçom clara da atitude que, perante ele, o novo órgao pensa tomar. Nem este programa nem os suplementos ao mesmo, aprovados polo III Congresso da «Uniom» em 1901 (Dous Congressos, pp. 15-18), mencionam o trabalho teórico nem os seus objectivos imediatos no momento presente. Durante todo este tempo, a redacçom da R. Dielo deixava de lado as questons teóricas, embora elas preocupassem os social-democratas do mundo inteiro.

O outro anúncio, polo contrário, assinala logo de início que, durante estes últimos anos, se tem observado um interesse menor pola teoria e reclama com insistência «umha atençom vigilante para o aspecto teórico do movimento revolucionário do proletariado» e exorta a «criticar implacavelmente as tendências bernsteinianas e outras tendências anti-revolucionárias» no nosso movimento. Os números da Zariá publicados mostram como este programa foi cumprido.

Vemos, pois, que as frases altissonantes contra a ossificaçom do pensamento, etc., dissimulam o desinteresse e a impotência no desenvolvimento do pensamento teórico. O exemplo dos social-democratas russos ilustra com particular evidência um fenómeno europeu geral (assinalado também há muito polos marxistas alemáns): a famosa liberdade de critica nom implica a substituiçom de umha teoria por outra, mas a liberdade de prescindir de toda a teoria coerente e reflectida, significa eclectismo e falta de princípios. Quem conhece, por pouco que seja, a situaçom real do nosso movimento nom pode deixar de ver que a ampla difusom do marxismo foi acompanhada por um certo abaixamento do nível teórico. Muitas pessoas, muito pouco preparadas teoricamente e inclusivamente sem preparaçom algumha, aderírom ao movimento polos seus êxitos práticos e polo seu significado prático. Por isso, pode-se julgar que falta de tacto manifesta a Rab. Dielo ao lançar, com ar triunfante, esta frase de Marx «Cada passo do movimento efectivo é mais importante do que umha dúzia de programas.»(31) Repetir estas palavras numha época de dissensons teóricas, é exactamente o mesmo que exclamar ao passar um cortejo fúnebre «Oxalá tenhades sempre algo que levar.» Além disso, estas palavras de Marx fôrom tiradas da sua carta sobre o programa de Gotha32, na qual condena categoricamente o eclectismo na formulaçom dos princípios: já que é necessário unir-se –escrevia Marx aos dirigentes do partido–, fazede acordos para atingir os objectivos práticos do movimento, mas nom vos permitades o tráfico com os princípios, nem fagades «concessons» teóricas. Este era o pensamento de Marx, e eis que há entre nós pessoas que, no seu nome, procuram diminuir a importáncia da teoria!

Sem teoria revolucionária nom pode haver também movimento revolucionário. Nunca se insistirá demasiadamente nesta ideia numha altura em que a prédica em voga do oportunismo aparece acompanhada de umha atracçom polas formas mais estreitas da actividade prática. E para a social-democracia russa a importáncia da teoria é ainda maior por três razons, muito freqüentemente esquecidas, a saber: primeiramente, porque o nosso partido apenas começou a formar-se, apenas começou a elaborar a sua fisionomia, e está muito longe de ter ajustado contas com as outras tendências do pensamento revolucionário que ameaçam desviar o movimento do caminho correcto. Polo contrário, estes últimos tempos distinguírom-se precisamente (como Axelrod já há muito tinha predito aos «economistas») por umha reanimaçom das tendências revolucionárias nom social-democratas. Nestas condiçons, um erro, «sem importáncia» à primeira vista, pode levar às mais deploráveis conseqüências e é preciso ser míope para considerar como inoportunas ou supérfluas as discussons de fracçom e a delimitaçom rigorosa dos matizes. Da consolidaçom deste ou daquele «matiz» pode depender o futuro da social-democracia russa por muitos longos anos.

Em segundo lugar, o movimento social-democrata é, pola sua própria natureza, internacional. Isto nom significa apenas que devemos combater o chauvinismo nacional. Significa também que um movimento incipiente num país jovem só se pode desenvolver com êxito desde que aplique a experiência de outros países. E para isso nom basta simplesmente conhecer essa experiência ou copiar simplesmente as últimas resoluçons: para isso, é preciso saber assumir umha atitude crítica perante essa experiência e comprová-la por si próprio. Quem imaginar o gigantesco crescimento e ramificaçom do movimento operário contemporáneo compreenderá que reserva de forças teóricas e de experiência política (assim como revolucionária) é necessário para o cumprimento desta tarefa.

Em terceiro lugar, a social-democracia russa tem tarefas nacionais como nunca tivo nengum outro partido socialista do mundo. Mais adiante teremos de falar dos deveres políticos e de organizaçom que nos impom esta tarefa de libertar todo o povo do jugo da autocracia. De momento, queremos simplesmente indicar que só um partido guiado por una teoria de vanguarda pode desempenhar o papel de combatente de vanguarda. E, para se fazer umha ideia um pouco concreta do que significa isto, que o leitor recorde os precursores da social-democracia russa, como Herzen, Belínski, Tchernichévski e a brilhante plêiade de revolucionários da década de 70; que pense na importáncia universal que actualmente a literatura russa vai adquirindo; que... mas basta!

Citaremos as observaçons feitas por Engels em 1874 sobre a importáncia que a teoria tem no movimento social-democrata. Engels reconhece na grande luita da social-democracia nom duas formas (a política e a económica) –como se fai entre nós— mas três, colocando a seu lado a luita teórica. As suas recomendaçons ao movimento operário alemám, já robustecido prática e politicamente, som tam instrutivas do ponto de vista dos problemas e discussons actuais que o leitor, esperamo-lo, nom levará a mal que transcrevamos umha longa passagem do prefácio do livro Der deutche Bauernkrieg, que de há muito se tornou umha raridade bibliográfica:

«Os operários alemáns tenhem duas vantagens essenciais sobre os operários do resto de Europa. A primeira é que pertencem ao povo mais teórico da Europa e conservam em si esse sentido teórico quase já completamente perdido polas chamadas classes «cultas» da Alemanha. Sem a filosofia alemá que o precedeu, sobretudo sem a filosofia de Hegel, o socialismo científico alemám, o único socialismo científico que algumha vez existiu, nunca se teria constituído. Se os operários nom tivessem tido esse sentido teórico, este socialismo científico nunca se teria tornado, tanto como se tornou hoje, carne da sua carne, sangue do seu sangue. E que esta vantagem é imensa demonstra-o, por um lado, a indiferença por toda a teoria, que é umha das principais razons de que o movimento operário inglês avance tam lentamente, apesar da excelente organizaçom dos diferentes ofícios, e, por outro lado, demonstram-no a perturbaçom e a confusom semeadas polo proudhonismo, na sua forma inicial, entre os franceses e os belgas, e, na sua forma caricatural, que lhe deu Bakúnine, entre os espanhóis e os italianos.

«A segunda vantagem consiste no facto de os alemáns terem sido quase os últimos a integrar-se no movimento operário. Do mesmo modo como o socialismo teórico alemám nunca esquecerá que assenta nos ombros de Saint-Simon, Fourier e Owen –três pensadores que, apesar de todo o carácter fantasista e de todo o utopismo das suas doutrinas, se contam entre os maiores cérebros de todos os tempos e se antecipárom genialmente a umha infinidade de verdades cuja exactidom agora estamos a demonstrar científicamente, também assim o movimento operário da Alemanha nunca deve esquecer que se desenvolveu sobre os ombros do movimento inglês e francês, que tivo a possibilidade de tirar simplesmente partido da sua experiência custosa, de evitar no presente os erros que entom, na maior parte dos casos, nom era possível evitar. Onde estaríamos agora sem o precedente das trade-unions inglesas e da luita política dos operários franceses, sem esse impulso colossal que deu especialmente a Comuna de París?

«Há que fazer justiça aos operários alemáns por terem aproveitado, com rara inteligência, as vantagens da sua situaçom. Pola primeira vez desde que o movimiento operário existe, a luita é canduzida metodicamente nas suas três direcçons, coordenadas e ligadas entre si: teórica, política e económico-prática (resistência aos capitalistas). É neste ataque, concêntrico por assim dizer, que reside precisamente a força e a invencibilidade do movimento alemám.

«Esta situaçom vantajosa, por um lado,e as particularidades insulares do movimento inglês e a repressom violenta do movimento francês, por outro, fam com que os operários alemáns se encontrem agora à cabeça da luita proletária. Nom é possível prever durante quanto tempo os acontecimentos lhes permitirám ocupar este posto de honra. Mas, enquanto o ocuparem, é de esperar que cumprirám devidamente as obrigaçons que lhes imponhem. Para isso, terám de redobrar os seus esforços em todos os domínios da luita e da agitaçom. Em particular, os dirigentes deverám instruir-se cada vez mais em todas as questons teóricas, libertar-se cada vez mais da influência da fraseologia tradicional, própria da antiga concepçom do mundo, e ter sempre presente que o socialismo, desde que se tornou umha ciência, exige ser tratado como umha ciência, isto é, ser estudado. A consciência assim alcançada e cada vez mais lúcida deve ser difundida entre as massas operárias com zelo cada vez maior, deve consolidar-se cada vez mais fortemente a organizaçom do partido e a dos sindicatos.
«... Se os operários alemáns continuam a avançar assim, nom digo que marcharám à cabeça do movimento –nom convém de modo nengum ao movimento que os operários de umha naçom em especial marchem à cabeça do mesmo—, mas que ocuparám um posto de honra na primeira linha de combate e se encontrarám bem apetrechados para isso se, de repente, duras provas ou grandes acontecimentos deles exigirem maior coragem, maior decisom e energia.»

Estas palavras de Engels revelárom-se proféticas. Alguns anos mais tarde, os operários alemáns fôrom inesperadamente submetidos a duras provas ao ser decretada a lei de excepçom contra os socialistas. E, com efeito, os operários alemáns enfrentárom-nas bem apetrechados, e soubérom sair vitoriosos dessas provas.

O proletariado russo terá de sofrer provas ainda infinitamente mais duras, terá de combater um monstro em comparaçom com o qual a lei de excepçom num país constitucional parece um verdadeiro pigmeu. A história coloca-nos hoje umha tarefa imediata, que é a mais revolucionária de todas as tarefas imediatas do proletariado de qualquer outro país. O cumprimento desta tarefa, a destruiçom do baluarte mais poderoso, nom só da reacçom europeia, mas também (podemos hoje dizê-lo) da reacçom asiática, tornaria o proletariado russo a vanguarda do proletariado revolucionário internacional. E temos o direito de esperar que obteremos este título de honra, merecido já polos nossos precursores, os revolucionários da década de 70, se soubermos animar o nosso movimento, mil vezes mais vasto e mais profundo, com a mesma decisom abnegada e a mesma energia.

Voltar ao índice


Notas:

7. A propósito. É um facto talvez único na história do socialismo moderno, e, no seu género, extremamente consolador que, pola primeira vez, umha disputa entre tendências diferentes no seio do socialismo se tenha convertido de nacional em internacional. Anteriormente as discussons entre lassalianos [partidários do socialista pequeno-burguês alemám F. Lasalle e da Uniom Geral Operária Alemá, fundada em 1863, criticados por Marx e Engels polo seu apoio práticos à política de Bismark, N. Ed.] e eisenachianos [membros do Partido Operário Social-Democrata da Alemanha, fundado em 1869, liderado por A. Bebel e W. Liebknecht, ideologicamente influenciados por K. Marx e F. Engels. Finalmente fundidos com a U. G. O. A. Lassalliana em 1875 para fundarem o Partido Social-Democrata da Alemanha, N. Ed.], entre guesdistas e possibilistas, entre fabianos [organizaçom reformista inglesa fundada em 1884 aderida ao Partido Trabalhista em 1900, N. Ed.] e social-democratas [da Federaçom Social-Democrata da Inglaterra fundada em 1884 e formada por reformistas, anarquistas e marxistas, N. Ed.], entre partidários de «A Vontade do Povo» [Naródnaia Vólia, associaçom política secreta de carácter populista-terrorista surgida em 1879 de carácter socialista utópico populista enfrentada à autocracia e aniquilada após a execuçom do Tsar Alexandre II em 1881, N. Ed.] e social-democratas eram discussons puramente nacionais, reflectiam particularidades nitidamente nacionais, desenvolviam-se por assim dizer, em planos diferentes. Actualmente (isto é hoje muito claro), os fabianos ingleses, os ministerialistas franceses, os bernsteinianos alemáns, os críticos russos [assim eram chamados os marxistas legais, surgidos nos anos 90 do séc. XIX e partidários da evoluçom do feudalismo para o capitalismo na Rússia, mas nom da revoluçom socialista, N. Ed.] constituem umha só familia, elogiam-se mutuamente, aprendem uns com os outros e, em comum, levantam-se contra o marxismo «dogmático». Será que, nesta primeira batalha verdadeiramente internacional contra o oportunismo socialista, a social-democracia revolucionária internacional conseguirá fortalecer-se suficientemente para acabar com a reacçom política que desde há tanto tempo impera na Europa?

8. Em galego, O 18 de Brumário de Louis Bonaparte.

9. Fábula de Krilov. (N. Ed.)

10. Fundada em 1894 polo grupo «Emancipaçom do Trabalho», reconhecido como representante do POSDR no estrangeiro em 1898, e finalmente dissolvido no II Congresso do POSDR, em favor da nova «Liga da Social-Democracia Revolucionária Russa no Estrangeiro» (N. Ed.).

11. Zariá (Abrente): revista política marxista, editada em 1901-1902 em Estugarda pola redacçom do Iskra. Só aparecêrom quatro números (em três volumes) (N. Ed.).

12. A comparaçom das duas correntes existentes no seio do proletariado revolucionário (a revolucionária e a oportunista) com as duas correntes da burguesia revolucionária do seculo XVIII (a jacobina –a «Montanha»– e a girondina) foi feita no artigo de fundo do número 2 do Iskra (Fevereiro de 1901). O autor desse artigo foi Plekhánov. Os democratas-constitucionalistas, os «sem título» [grupo da intelectualidade burguesa consituído na Rússia no período de refluxo revolucionário de 1905-1907, apoiantes da direita social-democrata russa e internacional, N. Ed.] e os mencheviques gostam ainda agora de falar do «jacobinismo» na social-democracia russa. Mas hoje em dia preferem calar ou... esquecer que Plekhánov lançou este conceito pola primeira vez contra a ala direita da social-democracia. (Nota de Lenine para a ediçom de 1907, N. Ed.)

13. Montanha e Gironda eram os dous grupos da burguesia durante a revoluçom burguesa francesa de fins do século XVIII. Montanha era o grupo jacobino, representante da classe revolucionária naquela altura, defensor da destruiçom do absolutismo e do feudalismo. Os girondinos, ao contrário, vacilavam entre a revoluçom e a contra-revoluçom e mantinham compromissos com a monarquia. Lenine acabará, após a cisom do POSDR em bolcheviques e mencheviques, identificando a corrente menchevique com a girondina. (N. Ed.)

14. Quando Engels atacou Dühring, muitos representantes da social-democracia alemá inclinavam-se para as opinions deste último e acusárom Engels, inclusivamente em público, num congresso do partido, de aspereza, de intoleráncia, de polémica imprópria de camaradas, etc. Most e os seus camaradas propugérom (no Congresso de 1877) eliminar do Vorwärts [Avante, órgao central do Partido Social-Democrata da Alemanha entre os anos 1891 e 1933, N. Ed.] os artigos de Engels «por nom apresentarem interesse para a enorme maioria dos leitores», e Vahlteich declarou que a publicaçom desses artigos tinha prejudicado muito o partido, que também Dühring tinha prestado servicos à social-democracia: «devemos aproveitá-los todos no interesse do partido, e se os professores discutem, o Vorwärts nom tem de modo algum que servir para campo de tais disputas» (Vorwärts, 1877, n.° 65, 6 de Junho). Como se vê, também este é um exemplo da defesa da «liberdade de crítica», sobre o qual fariam bem em reflectir os nossos críticos legais e oportunistas ilegais, que gostam tanto de se referir ao exemplo dos alemáns!

15. Socialistas de cátedra: corrente alemá durante as décadas de 70 e 80 do séc. XIX, correspondente aos «marxistas legais» russos. (N. Ed.)

16. Personagem da maior obra satírica do escritor russo N. Gógol, Almas mortas, que representa o tipo de indivíduo presunçoso e falso. Gógol chamava-o «homem histórico» porque onde quer que ele aparecesse surgiam escándalos e «histórias». (N. Ed.)

17. No Congresso do Partido Social-Democrata da Alemanha de 1898. (N. Ed.)

18. Congresso do Partido Social-Democrata da Alemanha de 1901. (N. Ed.)

19. Há que notar que, ao tratar do problema do bernsteinianismo no seio do partido alemám, a R. Dielo se limitou sempre a um mero relato dos factos, «abstendo-se» por completo de fazer a sua própria apreciaçom deles. Ver, por exemplo, o n.° 2-3, p. 66, sobre o Congresso de Stuttgart [do Partido Social-Democrata da Alemanha, N. Ed.]; todas as divergências som reduzidas a problemas de «táctica», e afirma-se apenas que a imensa maioria se mantém fiel à táctica revolucionária anterior. Ou o n.º 4-5, pp. 25 e seguintes, que é umha simples repetiçom dos discursos pronunciados no congresso de Hannover, com a resoluçom de Bebel; a exposiçom das concepçons de Bernstein, bem como a crítica das mesmas, som de novo adiadas (como no n.° 2-3) para um «artigo especial». O curioso é que na p. 33 do n.° 4-5, lemos: «...as concepçons expostas por Bebel contam com o apoio da enorme maioria do Congresso», e um pouco mais adiante: «... David defendia as opinions de Bernstein... Em primeiro lugar procurava demonstrar que... Bernstein e os seus amigos, apesar de tudo (sic!) se colocavam no campo da luita de classe ...» Isto foi escriro em Dezembro de 1899 e, em Setembro de 1901, a R. Dielo já nom acredita, provavelmente, que Bebel tivesse razom e repete como sua a opiniom de David!

20. Trata-se do artigo de A. Potréssov (Starover) Que Aconteceu?, publicado no nº 1 da revista Zariá de Abril de 1901. (N. Ed.)

21. Um Escritor Envaidecido é o título de um conto de Máximo Górki. (N. Ed.)

22. Aludimos ao artigo de K. Tuline contra Struve, redigido com base na conferência intitulada O Reflexo do Marxismo na Literatura Burguesa. Ver o prólogo. (Nota de Lenine para a ediçom de 1907. Lenine refere-se ao seu artigo «O Conteúdo Económico do Populismo e a sua Crítica no Livro do Sr. Struve (Reflexo do Marxismo na Literatura Burguesa)», publicado em 1895 - N. Ed.)

23. O livro intitula-se originariamente Premissas do Socialismo e as Tarefas da Social-Democracia, publicado na Rússia em 1901 sob diversos títulos. (N. Ed.)

24. Trata-se do protesto dos 17 contra o Credo. O autor destas linhas participou na redacçom deste protesto (fins de 1899). O protesto e o Credo fôrom publicados juntos no estrangeiro, na Primavera de 1900. Já se sabe actualmente polo artigo da senhora Kuskova (publicado, creio, na revista Biloie [O Passado, revista histórica dedicada principalmente à história do populismo, editada com interrupçons entre 1900 e 1926, N. Ed.]), que foi ela a autora do Credo e que, entre os «economistas» de entom no estrangeiro, o Sr. Prokopóvitch desempenhava um papel proeminente. (Nota de Lenine à ediçom de 1907 – N. Ed.)

25. Em galego, Pensamento Operário: jornal, órgao dos «economistas», publicado entre 1897 e 1902 (16 números). (N. Ed.)

26. Refere-se ao Vademecum para a Redacçom da Rabótcheie Dielo. Compilaçom de Materiais Editada polo Grupo «Emancipaçom do Trabalho» com um prefácio de G. Plekhánov, publicado em Genebra, em 1900. (N. Ed.)

27. Profession de foi (Profissom de fé): panfleto do Comité de Kíev do POSDR (1899), coincidente em muitos pontos com o Credo dos «economistas». (N. Ed.)

28. Polo que sabemos, a composiçom do Comité de Kíev foi modificada posteriormente.

29. Esta ausência de laços de partido públicos e de tradiçons de partido constitui já por si só umha diferença tam fundamental entre a Rússia e a Alemanha que deveria ter posto em guarda todo o socialismo sensato contra qualquer imitaçom cega. Mas aqui está umha amostra daquilo a que chegou a «liberdade de crítica» na Rússia. Um critico russo, o Sr. Bulgákov, fai ao crítico austriaco Hertz esta reprimenda: «Apesar de toda a independência das suas conclusons, Hertz neste ponto (acerca das cooperativas), polos vistos permanece demasiado ligado à opiniom do seu partido e, embora em desacordo em pormenores, nom se decide a abandonar o princípio geral» (O Capitalismo e a Agricultura, t. II, p. 287). Um súbdito de um Estado politicamente escravizado, no qual 999/1000 da populaçom estám corrompidos até a medula dos ossos polo servilismo político e pola absoluta incompreensom da honra de partido e dos laços de partido, repreende com sobranceria um cidadao de um Estado constitucional, por este estar demasiado «ligado à opiniom do partido»! Nada mais resta às nossas organizaçons ilegais do que pôr-se a redigir resoluçons sobre a liberdade de critica...

30. Primeiro grupo marxista russo, fundado por G. Plekhánov na Suíça em 1883. (N. Ed.)

31. Ver K. Marx: Crítica do Programa de Gotha. (N. Ed.)

32. Programa de Gotha: programa do Partido Operário Socialista da Alemanha, aprovado em 1875 no Congresso de Gotha, no qual se unificárom os dous partidos socialistas alemáns, que até entom tinham estado separados: os eisenachianos (dirigidos por A. Bebel e W. Liebknecht, influenciados ideologicamente por Marx e Engels) e os lassallianos. O programa foi domolidoramente criticado por K. Marx e F. Engels, ao considerá-lo umha volta atrás em comparaçom com o Programa de Eisenach, de 1869. (N. Ed.)

 

II A ESPONTANEIDADE DAS MASSAS E A CONSCIÊNCIA DA SOCIAL-DEMOCRACIA

Voltar ao Índice