O ESTADO E A REVOLUÇOM
A doutrina do marxismo sobre o Estado e as tarefas do proletariado na revoluçom
CAPÍTULO II
O
ESTADO E A REVOLUÇOM. A EXPERIÊNCIA DOS ANOS 1848-1851
1. A VÉSPERA DA REVOLUÇOM
As primeiras obras do marxismo maduro, a Miséria da Filosofia e o Manifesto
Comunista, datam precisamente da véspera da revoluçom de 1848. Devido a
esta circunstáncia, paralelamente à exposiçom das bases gerais do marxismo,
temos aqui, em certa medida, um reflexo da situaçom revolucionária concreta de
entom. E, por isso, o mais racional seria, creio, analisar o que os autores
dessas obras dixérom acerca do Estado, imediatamente antes das suas conclusons
da experiência dos anos 1848-1851.
«... A classe operária –escreve
Marx na Miséria da Filosofia– substituirá,
no curso do desenvolvimento, a velha sociedade burguesa por umha associaçom
que exclui as classes e o seu antagonismo, e deixará de haver um autêntico
poder político, pois precisamente o poder político é a expressom oficial do
antagonismo de classes no seio da sociedade burguesa» (p. 182 da ed. alemá
de 1885)(
[1]
).
É instrutivo comparar com esta exposiçom geral da ideia do
desaparecimento do Estado depois da supressom das classes a exposiçom que é
dada no Manifesto Comunista escrito
por Marx e Engels alguns meses depois, precisamente em Novembro de 1847:
«... Enquanto traçamos as
fases mais gerais do desenvolvimento do proletariado, seguimos de perto a
guerra civil, mais ou menos oculta no seio da sociedade existente até o ponto
em que estala abertamente umha revoluçom e o proletariado estabelece o seu
domínio polo derrube violento da burguesia ...
«... Já atrás vimos que o
primeiro passo na revoluçom operária é a passagem» (à letra: elevaçom) «do
proletariado a classe dominante, a luita pola democracia.
«O proletariado usará o seu
domínio político para ir arrancando todo o capital das maos da burguesia, para
centralizar todos os instrumentos de produçom nas maos do Estado, isto é, do
proletariado organizado como classe dominante, e para multiplicar o mais
rapidamente possível a totalidade das forças produtivas» (pp. 31 e 37 da 7ª
ediçom alemá de 1906)([2]).
Vemos aqui a formulaçom de umha das ideias mais notáveis e mais
importantes do marxismo na questom do Estado, precisamente a ideia da «ditadura
do proletariado» (como começárom a dizer Marx e Engels após a Comuna de Paris),
e em seguida umha definiçom extremamente interessante do Estado e que pertence
também ao número das «palavras esquecidas» do marxismo. «O Estado, isto é, o proletariado
organizado como classe dominante.»
Esta definiçom do Estado nom só nunca foi explicada na literatura de
propaganda e de agitaçom dominante dos partidos social-democratas oficiais.
Mais ainda. Foi precisamente esquecida por ser absolutamente inconciliável com
o reformismo, é umha bofetada na cara para os preconceitos oportunistas
habituais e as ilusons filistinas quanto ao «desenvolvimento pacífico da
democracia».
O proletariado precisa do Estado –isto repetem todos os oportunistas,
social-chauvinistas e kautskianos, asseverando que é essa a doutrina de Marx, e
«esquecendo-se» de acrescentar que, em primeiro lugar, «segundo Marx, o
proletariado só precisa de um Estado em extinçom, isto é, constituído de modo a
que comece imediatamente a extinguir-se e nom poda deixar de se extinguir. E,
em segundo lugar, os trabalhadores precisam de um «Estado», «isto é, o
proletariado organizado como classe dominante».
O Estado é a organizaçom especial da força, é a organizaçom da violência
para a repressom de umha classe qualquer. Qual é entom a classe que o
proletariado deve reprimir? Naturalmente apenas a classe dos exploradores, isto
é, a burguesia. Os trabalhadores precisam do Estado apenas para reprimir a
resistência dos exploradores, e dirigir esta repressom, realizá-la na prática,
só o proletariado está em condiçons de o fazer, como única classe
revolucionária até o fim, única classe capaz de unir todos os trabalhadores e
explorados na luita contra a burguesia, no seu completo afastamento.
As classes exploradoras precisam do domínio político no interesse da
manutençom da exploraçom, isto é, no interesse egoísta de umha minoria
insignificante contra a imensa maioria do povo. As classes exploradas precisam
do domínio político no interesse da completa supressom de toda a exploraçom,
isto é, no interesse da imensa maioria do povo contra a minoria insignificante
dos escravistas contemporáneos, isto é, os latifundiários e os capitalistas.
Os democratas pequeno-burgueses, esses pretensos socialistas que
substituíam a luita de classes polos sonhos de entendimento das classes,
concebiam a própria transformaçom socialista de um modo sonhador, nom sob a
forma do derrubamento do domínio da classe exploradora, mas sob a forma da
submissom pacífica da minoria à maioria que ganhou consciência das suas
tarefas. Esta utopia pequeno-burguesa, indissoluvelmente ligada ao
reconhecimento de um Estado colocado acima das classes, conduzia na prática à
traiçom dos interesses das classes trabalhadoras, como o mostrou, por exemplo,
a história das revoluçons francesas de 1848 e 1871, como o mostrou a
experiência da participaçom «socialista» nos ministérios burgueses na
Inglaterra, em França, na Itália e em outros países no fim do século XIX e no
princípio do século XX([3]).
Marx luitou durante toda a sua vida contra este socialismo pequeno-burguês
ressuscitado hoje na Rússia polos partidos dos socialistas-revolucionários e
dos mencheviques. Marx levou a doutrina da luita de classes de modo conseqüente
até a doutrina do poder político, do Estado.
O derrubamento do domínio da burguesia só é possível polo proletariado,
como classe especial, cujas condiçons económicas de existência a preparárom
para este derrubamento, lhe dam a possibilidade e a força para o realizar. Ao
mesmo tempo que a burguesia fracciona e pulveriza o campesinato e todas as camadas
pequeno-burguesas, agrupa, une, organiza o proletariado. Só o proletaridado
–devido ao seu papel económico na grande produçom– é capaz de ser o chefe de todas as massas trabalhadoras e
exploradas que a burguesia explora, oprime e esmaga muitas vezes nom menos mas
mais fortemente que os proletários, mas que som incapazes de umha luita independente pola sua emancipaçom.
A doutrina da luita de classes, aplicada por Marx à questom do Estado e
da revoluçom socialista, conduz necessariamente ao reconhecimento do domínio político do proletariado, da sua
ditadura, isto é, de um poder nom partilhado com ninguém e que se apoia
directamente na força armada das massas. O derrubamento da burguesia só pode
ser realizado pola transformaçom do proletariado em classe dominante capaz de reprimir a resistência inevitável,
desesperada, da burguesia e de organizar para um novo regime de economia todas as massas trabalhadoras e
exploradas.
O proletariado necessita do poder de Estado, de umha organizaçom
centralizada da força, de umha organizaçom da violência, tanto para reprimir a
resistência dos exploradores como para dirigir
a imensa massa da populaçom, o campesinato, a pequena burguesia, os
semiproletários, na obra da organizaçom da economia socialista.
Educando o partido operário, o marxismo educa a vanguarda do
proletariado, capaz de tomar o poder e de conduzir
todo o povo ao socialismo, de dirigir e de organizar umha nova ordem, de
ser o educador, o dirigente e o chefe de todos os trabalhadores e explorados na
obra da organizaçom da sua vida social, sem a burguesia e contra a burguesia.
Polo contrário, o oportunismo hoje dominante educa no partido operário
representantes dos trabalhadores mais bem pagos, que se desligam da massa, que
se «arranjam» bastante bem sob o capitalismo, que vendem por um prato de
lentilhas o seu direito de primogenitura, isto é, renunciam ao papel de chefe
revolucionários do povo contra a burguesia.
«O Estado, isto é, o proletariado organizado como classe dominante»
–esta teoria de Marx está indissoluvelmente ligada a toda a sua doutrina sobre
o papel revolucionário do proletariado na história. O remate deste papel é a
ditadura proletária, o domínio político do proletariado.
Mas se o proletariado precisa do Estado como organizaçom especial da violência contra a burguesia, entom daqui impom-se
por si umha conclusom: será concebível a criaçom de tal organizaçom sem
suprimir previamente, sem destruir a máquina do Estado que a burguesia criou para si própria? É a esta conclusom que
conduz directamente o Manifesto Comunista
e é desta conclusom que Marx fala quando fai o balanço da experiênçia da
revoluçom de 1848-1851.
Quanto à questom do Estado, que é a que nos interessa, Marx fai o
balanço da revoluçom de 1848-1851 no seguinte raciocínio da obra O 18 de Brumário de Louis Bonaparte:
«... Mas a revoluçom é
profunda. Ela ainda vai na viagem polo purgatório. Ela fai o que tem a fazer
com método. Até 2 de Dezembro de 1851» (dia da realizaçom do golpe de Estado de
Louis Bonaparte) «tinha realizado metade da sua preparaçom, e agora realiza a
outra metade. Ela começou por aperfeiçoar o poder parlamentar para o poder
derrubar. Agora, que o conseguiu, aperfeiçoa o poder executivo, reduze-o à sua expressom mais pura, isola-o,
contrapom-no a si como único objecto de censura, para concentrar contra ele todas as suas forças de destruiçom» (sublinhado
nosso). «E quando tiver completado esta segunda metade do seu trabalho
preparatório, a Europa saltará do seu lugar e gritará com júbilo: Bem revolvido,
velha toupeira!»
«Este poder executivo com a
sua imensa organizaçom burocrática e militar, com a sua máquina de Estado de
múltiplos degraus e artificial, umha hoste de funcionários de meio milhom ao
lado de um exército de outro meio milhom, este terrível corpo de parasitas que,
como umha retina, envolve o corpo da sociedade francesa e lhe obstrui todos os
poros, nasceu no tempo da monarquia absoluta, no declínio do sistema feudal que
ele ajudou a acelerar.» A primeira revoluçom francesa desenvolveu a
centralizaçom, «... mas ao mesmo tempo o volume, os atributos e os
serventuários do poder do governo. Napoleom completou esta máquina do Estado».
A monarquia legítima e a monarquia de Julho «nada lhe acrescentárom a nom ser
umha maior divisom do trabalho... »
«... A república parlamentar
viu-se finalmente obrigada, na sua luita contra a revoluçom, a reforçar os
meios e a centralizaçom do poder do governo com medidas repressivas. Todas as revoluçons aperfeiçoárom esta
máquina em vez de a quebrarem» (sublinhado nosso). «Os partidos que
alternárom na luita polo domínio viam na posse deste imenso edifício do Estado
o despojo principal do vencedor.» (O 18
de Brumário de Louis Bonaparte, pp. 98-99, 4.ª ed., Hamburg, 1907).
Neste notável raciocínio, o marxismo dá um imenso passo em frente em
comparaçom com o Manifesto Comunista. Aí
a questom do Estado é ainda posta de umha maneira extremamente abstracta, nas
noçons e nos termos mais gerais. Aqui a questom é posta de maneira concreta e a
conclusom é extraordinariamente precisa, definida, praticamente tangível: todas
as revoluçons anteriores aperfeiçoárom a máquina do Estado, mas é preciso
demoli-la, quebrá-la.
Esta conclusom é o principal, o fundamental na doutrina do marxismo
sobre o Estado. E precisamente esta cousa fundamental nom só foi completamente esquecida polos partidos
social-democratas oficiais dominantes mas francamente deturpada (como veremos mais adiante) polo teórico mais destacado
da II Internacional, K. Kautsky.
No Manifesto Comunista fai-se
o balanço geral da história, que obriga a ver no Estado o órgao de dominaçom de
classe e conduz à conclusom necessária de que o proletariado nom pode derrubar
a burguesia sem ter conquistado primeiro o poder político, sem ter alcançado a
dominaçom política, sem ter transformado o Estado em «proletariado organizado
como classe dominante», e que este Estado proletário começará a extinguir-se
logo após a sua vitória, porque numha sociedade sem contradiçons de classe o
Estado é desnecessário e impossível. Aqui nom se coloca a questom de como deve
ser, do ponto de vista do desenvolvimento histórico, esta substituiçom do
Estado burguês polo proletário.
Marx coloca e resolve precisamente esta questom em 1852. Fiel à sua
filosofia do materialismo dialéctico, Marx toma como base a experiência
histórica dos grandes anos da revoluçom –1848-1851. Também aqui a doutrina de
Marx, como sempre, é um balanço da
experiência iluminado por umha profunda visom filosófica do mundo e um rico
conhecimento da história.
A questom do Estado é posta de maneira concreta: como surgiu
historicamente o Estado burguês, a máquina de Estado necessária à dominaçom da
burguesia? quais as suas transformaçons, qual a sua evoluçom no decurso das
revoluçons burguesas e face às acçons autónomas das classes oprimidas? quais as
tarefas do proletariado em relaçom com esta máquina de Estado?
O poder de Estado centralizado, próprio da sociedade burguesa, surgiu na
época da queda do absolutismo. As duas instituiçons mais características desta
máquina de Estado som: o funcionalismo e o exército permanente. Nas obras de
Marx e Engels fala-se repetidas vezes de como mil laços ligam estas
instituiçons precisamente à burguesia. A experiência de cada operário ilustra
esta ligaçom com umha evidência e um relevo extraordinário. A classe operária
aprende a conhecer esta ligaçom na sua própria pele –eis porque capta tam
facilmente e assimila tam solidamente a ciência da inevitabilidade desta
ligaçom, ciência que os democratas pequeno-burgueses ou negam por ignoráncia e
por leviandade, ou ainda mais levianamente reconhecem «em geral», esquecendo-se
de tirar as conclusons práticas correspondentes.
O funcionalismo e o exército permanente som um «parasita» no corpo da
sociedade burguesa, parasita gerado polas contradiçons internas que dilaceram
esta sociedade, mas precisamente um parasita que «obstrui» os poros vitais. O
oportunismo kautskiano hoje dominante na social-democracia oficial considera
que esta concepçom do Estado como um
organismo parasitário é um atributo particular e exclusivo do anarquismo.
Evidentemente, esta deturpaçom do marxismo é extraordinariamente vantajosa para
os filisteus que conduzírom o socialismo à vergonha inaudita de justificar e
embelezar a guerra imperialista por meio da aplicaçom a ela da noçom de «defesa
da pátria», mas tudo isto é umha deturpaçom incontestável.
O desenvolvimento, o aperfeiçoamento, a consolidaçom deste aparelho
burocrático e militar prosseguem através de todas as revoluçons burguesas que a
Europa viu muitas vezes desde o tempo da queda do feudalismo. Em particular,
precisamente a pequena burguesia é atraída para o lado da grande e é submetida
a ela, em grau significativo, por meio deste aparelho, que dá às camadas
superiores do campesinato, dos pequenos artesaos, dos comerciantes, etc.,
lugarzinhos relativamente cómodos, tranquilos e honrosos, que colocam os seus
possuidores acima do povo. Vede o que
se passou na Rússia durante o meio ano que se seguiu a 27 de Fevereiro de 1917:
os lugares de funcionários, que antes eram dados de preferência aos cem-negros,
tornárom-se objecto de caça dos democratas-constitucionalistas, dos
mencheviques e dos socialistas-revolucionários. No fundo, nom se pensava em
quaisquer reformas sérias, procurando-se adiá-las «até a Assembleia Constituinte»
–e adiar a Assembleia Constituinte pouco a pouco até o fim da guerra! Mas para
a partilha da presa, para a ocupaçom dos lagarzinhos de ministros, de
vice-ministros, de governadores-gerais, etc., etc., nom perdêrom tempo nem
esperárom por qualquer Assembleia Constituinte! O jogo das combinaçons em
relaçom com a composiçom do governo era apenas, no fundo, a expressom desta
distribuiçom e redistribuiçom da «presa» que se fazia tanto em cima como em
baixo, em todo o país, em todas as administraçons centrais e locais. O
resultado, o resultado objectivo do meio ano de 27 de Fevereiro a 27 de Agosto
de 1917 é incontestável: as reformas som adiadas, realizou-se a distribuiçom
dos lugarzinhos burocráticos, e os «erros» da distribuiçom fôrom corrigidos com
algumhas redistribuiçons.
Mas, quanto mais se procede às «redistribuiçons» do aparelho burocrático
entre os diversos partidos burgueses e pequeno-burgueses (entre os
democratas-constitucionalistas, os socialistas-revolucionários e os
mencheviques, para tomar o exemplo russo), tanto mais claro se torna para as
classes oprimidas, com o proletariado à cabeça, a sua hostilidade irredutível
em relaçom com toda a sociedade
burguesa. Daí a necessidade para todos os partidos burgueses, mesmo para os
mais democráticos e «revolucionário-democráticos» entre eles, de reforçar a
repressom contra o proletariado revolucionário, de consolidar o aparelho de
repressom, isto é, a própria máquina de Estado. Tal curso dos acontecimentos
obriga a revoluçom a «concentrar todas as
suas forças de destruiçom» contra o poder de Estado, obriga a colocar a
tarefa nom de melhorar a máquina de Estado mas de destruí-la, de suprimi-la.
Nom fôrom raciocínios lógicos, mas sim o desenvolvimento real dos
acontecimentos, a experiência viva dos anos 1848-1851, que levárom a colocar
assim a tarefa. Até que ponto Marx se atém estritamente à base factual da
experiência histórica, vê-se polo facto de que em 1852 nom pom ainda
concretamente a questom de saber polo quê
substituir esta máquina de Estado que deve ser suprimida. A experiência nom
tinha ainda dado, entom, materiais para tal questom, colocada pola história na
ordem do dia mais tarde, em 1871. Em 1852 apenas se podia constatar, com a
precisom da observaçom própria da história natural, que a revoluçom proletária se aproximou da tarefa de «concentrar
todas as suas forças de destruiçom» contra o poder de Estado, da tarefa de
«quebrar» a máquina do Estado.
Aqui pode surgir a questom
de se é justo generalizar a experiência, as observaçons e as conclusons de
Marx, transplantá-las para limites mais amplos do que a história de França
durante três anos, 1848-1851? Para analisar esta questom, lembraremos em
primeiro lugar umha observaçom de Engels, e passaremos depois aos factos.
«A França –escrevia Engels
no prefácio à 3ª ediçom do 18 de Brumário–
a França é o país em que as luitas históricas de classes fôrom sempre levadas,
mais do que em qualquer outra parte, até a decisom final, o país em que,
portanto, também as formas políticas em mudança, no seio das quais aquelas se
movem e nas quais os seus resultados se resumem, estám marcadas com contornos
mais precisos. Centro do feudalismo na Idade Média, país modelo da monarquia
una de estados desde a Renascença, a França desmantelou o feudalismo na grande
Revoluçom e fundou o domínio puro da burguesia com umha classicidade como em
nengum outro país europeu. E também a luita do proletariado em ascensom contra
a burguesia dominante surge aqui numha forma aguda que é desconhecida em
qualquer outra parte» (p. 4 na ed. de 1907).
A última observaçom envelheceu, na medida em que, a partir de 1871,
começou umha interrupçom na luita revolucionária do proletariado francês,
embora esta interrupçom, por mais longa que seja, nom exclua de maneira
nengumha a possibilidade de que a França se revele, na revoluçom proletária do
futuro, como o país clássico da luita de classes até o fim decisivo.
Mas lancemos um olhar geral à história dos países avançados no fim do
século XIX e no princípio do século XX. Veremos que esse mesmo processo se
operou mais lentamente, sob formas mais variadas, numha arena muito mais ampla:
por um lado, elaboraçom de um «poder parlamentar» tanto nos países republicanos
(França, América, Suíça) como nos monárquicos (Inglaterra, Alemanha até certo
ponto, Itália, países escandinavos, etc.); por outro lado, luita polo poder
entre os diversos partidos burgueses e pequeno-burgueses que distribuíam e
redistribuíam a presa dos lugarzinhos burocráticos, deixando imutáveis os
fundamentos da ordem burguesa; finalmente, aperfeiçoamento e consolidaçom do
«poder executivo», do seu aparelho burocrático e militar.
Nom há dúvida algumha de que som estes os traços gerais de toda a
evoluçom moderna dos Estados capitalistas em geral. Em três anos, 1848-1851, a
França mostrou de umha forma rapida, brusca, concentrada, os mesmos processos
de desenvolvimento que som próprios de todo o mundo capitalista.
E, em particular, o imperialismo, época do capital bancário, época dos
gigantescos monopólios capitalistas, época de transformaçom do capitalismo
monopolista em capitalismo monopolista de Estado, mostra o reforço
extraordinário da «máquina de Estado», o crescimento inaudito do seu aparelho
burocrático e militar em ligaçom com o reforço da repressom contra o
proletariado, tanto nos países monárquicos como nos países republicanos mais
livres.
A história mundial conduz agora inevitavelmente, numha escala
incomparavelmente mais ampla do que em 1852, à «concentraçom de todas as
forças» da revoluçom proletária para a «destruiçom» da máquina de Estado.
Polo quê a substituirá o proletariado? A Comuna de Paris deu sobre isto
o material mais instrutivo.
3. COMO MARX COLOCAVA A QUESTOM
EM 1852 (
[4]
)
Mehring publicou em 1907, na revista Neue
Zeit ([5]) (XXV, 2, 164), extractos da carta de
Marx a Weydemeyer de 5 de Março de 1852. Esta carta contém, entre outros, o
seguinte raciocínio notável:
«Ora, no que me di respeito,
nom me cabe o mérito de ter descoberto nem a existência das classes na
sociedade moderna nem a luita que travam entre si. Já muito antes de mim
historiógrafos burgueses tinham apresentado o desenvolvimento histórico desta
luita das classes e economistas burgueses tinham apresentado a anatomia
económica das mesmas. O que figem de novo foi, 1.º, demonstrar que a existência
das classes está meramente ligada a fases históricas determinadas do
desenvolvimento da produçom (historische
Entwicklungsphasen der Produktion); 2.º, que a luita de classes conduz
necessariamente à ditadura do proletariado; 3.º, que esta mesma ditadura
constitui apenas a transiçom para a aboliçom de todas as classes e para umha
sociedade sem classes...»
Nestas palavras, Marx conseguiu exprimir com um relevo surpreendente, em
primeiro lugar, a diferença principal e radical entre a sua doutrina e a
doutrina dos pensadores avançados e mais profundos da burguesia e, em segundo
lugar, a essência da sua doutrina acerca do Estado.
O principal, na doutrina de Marx, é a luita de classes. Assim se di e se
escreve muito freqüentemente. Mas é incorrecto. E desta incorrecçom muitas
vezes resulta umha deturpaçom oportunista do marxismo, a sua falsificaçom num
espírito aceitável para a burguesia. Pois a doutrina da luita de classes foi
criada nom por Marx mas pola burguesia
antes de Marx, e, falando em geral, é
aceitável para a burguesia. Quem
reconhece unicamente a luita de
classes, esse ainda nom é marxista, esse pode encontrar-se ainda dentro dos
limites do pensamento burguês e da política burguesa. Limitar o marxismo à
doutrina da luita de classes significa truncar o marxismo, deturpá-lo,
reduzi-lo ao que é aceitável para a burguesia. Só é marxista aquele que alarga o reconhecimento da luita de
classes até o reconhecimento da ditadura
do proletariado. Nisto consiste a diferença mais profunda entre o marxista
e o vulgar pequeno (e também grande) burguês. É nesta pedra de toque que é
preciso experimentar a compreensom e o reconhecimento efectivos do marxismo. E nom é de estranhar que, quando a história
da Europa colocou á classe operária na
prática perante esta questom, nom só todos os oportunistas e reformistas
mas também todos os «kautskianos» (pessoas que vacilam entre o reformismo e o
marxismo) se tenham revelado lamentáveis filisteus e democratas
pequeno-burgueses, que negam a
ditadura do proletariado. A brochura de Kautsky A Ditadura do Proletariado, publicada
em Agosto de 1918, isto é, muito tempo depois da primeira ediçom da presente
obra, é um modelo de deturpaçom filistina do marxismo e da sua infame renegaçom
de facto. simultaneamente com o seu
reconhecimento hipócrita em palavras (ver
a minha brochura: A Revoluçom Proletária e o Renegado Kautsky, Petrogrado
e Moscovo. 1918).
O oportunismo contemporáneo, na pessoa do seu principal representante, o
ex-marxista K. Kautsky, cai inteiramente dentro da caracterizaçom da atitude burguesa em Marx, porque esse
oportunismo limita o domínio do reconhecimento da luita de classes ao domínio
das relaçons burguesas. (E dentro deste domínio, nos seus limites, nom existe
um único liberal instruído que se recuse a reconhecer «em princípio» a luita de
classes!) O oportunismo nom estende o
reconhecimento da luita de classes precisamente até aquilo que é o essencial,
até o período de transiçom do
capitalismo para o comunismo, até o período do derrubamento da burguesia e da sua completa supressom. Na
realidade, este período é inevitavelmente um período de umha luita de classes
de um encarniçamento sem precedentes, sem precedentes na agudeza das suas
formas. E, conseqüentemente, o Estado deste período deve necessariamente ser um
Estado democrático de umha maneira nova (para
os proletários e para os nom possidentes em geral) e ditatorial de umha maneira nova (contra a
burguesia).
Mais. A essência da doutrina de Marx acerca do Estado só foi assimilada
polos que compreendêrom que a ditadura de umha só classe é necessária nom só para qualquer sociedade de classes em
geral, nom só para o proletariado que
derrubou a burguesia, mas também para a totalidade do período histórico que separa o capitalismo da «sociedade sem
classes», do comunismo. As formas dos Estados burgueses som extraordinariamente
variadas, mas a sua essência é apenas uma: em última análise, todos estes
Estados som, de umha maneira ou de outra, mas necessariamente, umha ditadura da burguesia. A transiçom do
capitalismo para o comunismo nom pode naturalmente deixar de dar umha enorme
abundáncia e variedade de formas políticas, mas a sua essência será
necessariamente umha só: a ditadura do
proletariado.
O ESTADO E A
REVOLUÇOM. A EXPERIÊNCIA DA COMUNA DE PARIS DE 1871. A ANÁLISE DE MARX
1.EM QUE CONSISTE O HEROISMO DA TENTATIVA DOS COMMUNARDS([6])?
É sabido que, alguns meses antes da Comuna, no Outono de 1870, Marx
preveniu os operários parisienses, provando que a tentativa para derrubar o
governo seria umha asneira inspirada polo desespero([7]). Mas
quando, em Março de 1871, se impujo aos
operários a batalha decisiva, e eles a aceitárom, quando a insurreiçom se
tornou um facto, Marx, apesar dos maus presságios, saudou com o maior
entusiasmo a revoluçom proletária. Marx nom se obstinou na condenaçom pedante
de um movimento «extemporáneo», como o tristemente célebre renegado russo do
marxismo Plekhánov, que em Novembro de 1905 escreveu encorajando a luita dos
operários e dos camponeses, mas que, após Dezembro de 1905, gritava à maneira
dos liberais: «nom se devia ter pegado em armas.»
Marx, porém, nom apenas se entusiasmou com o heroísmo dos communards, «que assaltavam o céu»,
segundo a sua expressom([8]). No
movimento revolucionário das massas, se bem que ele nom tivesse atingido o seu fim,
via umha experiência histórica com umha importáncia imensa, um certo passo em
frente da revoluçom proletária mundial, um passo prático mais importante do que
centenas de programas e de raciocínios. Analisar esta experiência, tirar dela
liçons de táctica, rever na base dela a sua teoria –eis como Marx colocou– a
sua tarefa.
A única «correcçom» que Marx julgou necessário fazer no Manifesto Comunista foi feita por ele na
base da experiência revolucionária dos communards
parisienses.
O último prefácio à nova ediçom alemá do Manifesto Comunista, assinado por ambos os seus autores, é datado
de 24 de Junho de 1872. Neste prefácio os autores, Karl Marx e Friedrich
Engels, dim que o programa do Manifesto
Comunista «está hoje, num passo ou noutro, obsoleto».
«... A Comuna,
nomeadamente –prosseguem–, forneceu a prova de que «a classe operária nom pode
limitar-se a tomar conta da máquina de Estado que encontra montada e a pô-la em
funcionamento para atingir os seus objectivos próprios» ...»([9])
As palavras desta citaçom postas duas vezes entre aspas fôrom tiradas
polos autores da obra de Marx A Guerra
Civil em França.
Assim, Marx e Engels consideravam que umha das liçons principais e
fundamentais da Comuna de Paris tinha umha importáncia tam gigantesca que a
introduzírom como umha correcçom essencial ao Manifesto Comunista.
É extraordinariamente característico que precisamente esta correcçom
essencial tenha sido deturpada polos oportunistas, e nove décimos, se nom
noventa e nove centésimos, dos leitores do Manifesto
Comunista ignoram certamente o seu sentido. Adiante falaremos
pormenorizamente desta deturpaçom, num capítulo especialmente consagrado às
deturpaçons. Por agora bastará assinalar que a «compreensom» corrente, vulgar,
da famosa máxima de Marx citada por nós consiste em que Marx teria sublinhado
aqui a ideia de um desenvolvimento lento, em oposiçom à conquista do poder, e
outras cousas semelhantes.
Na realidade, é exactamente o
contrário. A ideia de Marx consiste em que a classe operária deve quebrar, demolir a «máquina de Estado
que encontra montada» e nom limitar-se simplesmente à sua conquista.
Em 12 de Abril de 1871, isto é, exactamente durante a Comuna, Marx
escreveu a Kugelmann:
«Se fores ver o último
capítulo do meu 18 de Brumário verificarás
que declaro que a próxima tentativa da revoluçom francesa será nom já, como até
aqui, passar a maquinaria burocrática e militar de umhas maos para outras mas destruí-la» (sublinhado de Marx; no
original está zerbrechen), «e esta é
a condiçom prévia de qualquer verdadeira revoluçom popular no continente. Esta
é também a tentativa dos nossos heróicos camaradas de partido parisienses» (p.
709, Neue Zeit, XX, 1, 1901-1902)([10]).
(As cartas de Marx a Kugelmann fôrom publicadas em russo nom menos do que em
duas ediçons, umha das quais sob a minha redacçom e com um prefácio meu.)
Nestas palavras: «destruir a maquinaria de Estado burocrática e
militar», encerra-se, numha expressom curta, a principal liçom do marxismo
sobre a questom das tarefas do proletariado relativamente ao Estado na
revoluçom. E precisamente esta liçom nom só foi absolutamente esquecida mas
ainda francamente deturpada pola «interpretaçom» dominante, kautskiana do
marxismo!
Quanto à referência de Marx ao 18
de Brumário, citamos atrás na íntegra a passagem correspondente.
É interessante assinalar especialmente dous lugares no citado raciocínio
de Marx. Em primeiro lugar, limita a sua conclusom ao continente. Isto era
compreensível em 1871, quando a Inglaterra era ainda um modelo de país
puramente capitalista mas sem casta militar e, em grau significativo, sem
burocracia. Por isso Marx excluía a Inglaterra, onde a revoluçom e até a
revoluçom popular parecia, e era entom possível, sem a condiçom prévia da destruiçom da «máquina de Estado que
encontra montada».
Agora, em 1917, na época da
primeira grande guerra imperialista, esta limitaçom de Marx já nom é válida.
Tanto a Inglaterra como a América, os maiores e os últimos representantes em
todo o mundo da «liberdade» anglo-saxónica no sentido da ausência de casta
militar e de burocratismo, escorregárom completamente para o pántano lamacento
e sangrento, comum a toda a Europa, das instituiçons burocrático-militares, que
tudo subjugam, que tudo esmagam. Agora, tanto na Inglaterra como na América, «a
condiçom prévia de qualquer verdadeira revoluçom popular» é a demoliçom, a destruiçom da «máquina de Estado que encontra montada» (preparada
aí, de 1914 a 1917, até a perfeiçom «europeia», comum ao imperialismo).
Em segundo lugar, merece umha especial atençom a observaçom
extraordinariamente profunda de Marx de que a destruiçom da máquina burocrática
e militar de Estado é «a condiçom prévia de qualquer verdadeira revoluçom popular». Esta noçom de revoluçom
«popular» parece estranha na boca de Marx, e os plekhanovistas russos e os
mencheviques, esses discípulos de Struve que desejam passar por marxistas,
poderiam talvez declarar um «lapso» tal expressom em Marx. Eles reduzírom o
marxismo a umha deturpaçom tam miseravelmente liberal que, excepto a antítese:
revoluçom burguesa e revoluçom proletária, nada existe para eles, e mesmo esta
antítese é compreendida por eles de umha maneira extremamente morta.
Se tomarmos como exemplo as revoluçons do século XX, teremos
naturalmente que reconhecer que as revoluçons portuguesa e turca som burguesas.
Mas nem umha nem outra é «popular», pois a massa do povo, a sua imensa maioria,
nom intervém de umha forma visível, activa, autónoma, com as suas
reivindicaçons económicas e políticas próprias, nem numha nem noutra destas
revoluçons. Polo contrário, a revoluçom burguesa russa de 1905-1907, embora
nela nom tenha havido êxitos tam «brilhantes»
como por vezes aconteceu nas revoluçons portuguesa e turca, foi,
indubitavelmente, umha revoluçom «verdadeiramente popular», porque a massa do povo,
a sua maioria, as «camadas inferiores») mais profundas da sociedade, esmagadas
polo jugo e pola exploraçom, levantárom-se autonomamente, e deixárom em todo o
curso da revoluçom a marca das suas reivindicaçons,
das suas tentativas para construir à
sua maneira umha sociedade nova no lugar da antiga, em destruiçom.
Na Europa de 1871, o proletariado nom constituía a maioria do povo em
nengum país do continente. A revoluçom «popular» que arrasta verdadeiramente a
maioria para o movimento só podia ser popular englobando tanto o proletariado
como o campesinato. Ambas as classes constituíam entom o «povo». Ambas as
classes estám unidas porque a «máquina de Estado burocrática e militar» as
oprime, as esmaga, as explora. Quebrar esta
máquina, demoli-la –tal é verdadeiramente
o interesse do «povo», da sua maioria, dos operários e da maioria dos
camponeses, tal é a «condiçom prévia» da livre aliança dos camponeses pobres e
dos proletários, e sem tal aliança a democracia é instável e a transformaçom
socialista é impossível.
Era para esta aliança que, como é sabido, a Comuna de Paris abria
caminho, nom atingindo os fins devido a umha série de razons de carácter
interno e externo.
Conseqüentemente, ao falar de umha «verdadeira revoluçom popular», Marx,
sem esquecer de modo nengum as particularidades da pequena burguesia (delas
falou muito e freqüentemente), tinha em conta, com o maior rigor, a efectiva
correlaçom das classes na maioria dos Estados continentais da Europa em 1871.
E, por outro lado, ele constatava que «quebrar» a máquina de Estado é exigido
polos interesses tanto dos operários como dos camponeses, os une e coloca
perante eles a tarefa comum da eliminaçom do «parasita» e a sua substituiçom
por algo de novo.
Polo quê precisamente?
2. POLO QUE SUBSTITUIR A MÁQUINA
DE ESTADO QUEBRADA?
A esta pergunta Marx dava em 1847, no Manifesto Comunista, umha resposta ainda completamente abstracta,
ou melhor, umha resposta que indicava as tarefas mas nom os meios para as
resolver. Substituí-la pola «organizaçom do proletariado como classe
dominante», pola «luita pola democracia» –tal era a resposta do Manifesto Comunista.
Sem cair em utopias, Marx esperava da experiência do movimento de massas a resposta à questom de quais as
formas concretas que tomaria esta organizaçom do proletariado como classe
dominante, de que maneira precisa esta organizaçom se conciliaria com a mais
completa e a mais conseqüente «luita pola democracia».
Marx, na Guerra Civil em França, submete
a experiência da Comuna, por mais limitada que tenha sido, à análise mais
atenta. Citemos as passagens mais importantes desta obra:
No século XIX
desenvolveu-se, vindo da Idade Média, «o poder de Estado centralizado, com os
seus órgaos omnipresentes –exército permanente, polícia, burocracia, clero,
magistratura». Com o desenvolvimento do antagonismo de classe entre o capital e
o trabalho, «o poder de Estado foi adquirindo cada vez mais o carácter de um
poder público para reprimir a classe operária, de umha máquina de dominaçom de
classe. Depois de cada revoluçom que caracteriza um processo da luita de
classes, o carácter puramente repressivo do poder de Estado apresenta-se cada
vez mais abertamente». O poder de Estado torna-se, depois da revoluçom de
1848-1849, «o instrumento nacional da guerra do capital contra o trabalho». O
segundo Império consolida isto.
«O contrário directo do
Império foi a Comuna.» «A Comuna foi a forma determinada» «de umha república
que devia eliminar nom apenas a forma monárquica da dominaçom de classe mas a
própria dominaçom de classe... ».
Em que consistia precisamente
esta forma «determinada» de república proletária, socialista? Qual era o Estado
que ela tinha começado afundar?
«...o
primeiro decreto da Comuna foi a supressom do exército permanente e a sua
substituiçom polo povo armado...»
Esta reivindicaçom figura agora no programa de todos os partidos que
querem chamar-se socialistas. Mas o que valem os seus programas, isso vê-se da
melhor maneira pola conduta dos nossos socialistas-revolucionários e
mencheviques, que, de facto, recusárom, exactamente depois da revoluçom de 27
de Fevereiro, a realizaçom desta reivindicaçom!
«...A Comuna constituiu-se a
partir dos conselheiros municipais eleitos por sufrágio universal nas várias
circunscriçons de Paris. Estes eram responsáveis e amovíveis a cada momento. A
sua maioria consistia naturalmente de operários ou de representantes
reconhecidos da classe operária...
...A polícia, até aí o
instrumento do governo estatal, foi imediatamente privada de todos os seus
atributos políticos e transformada no instrumento responsável e amovível a cada
momento da Comuna... Do mesmo modo os funcionários de todos os outros ramos
administrativos... A começar polos membros da Comuna e daí para baixo, o
serviço público tinha de ser exercido mediante um salário operário. Os direitos adquiridos e os dinheiros de
representaçom dos altos dignitarios desapa-recêrom com os próprios
dignitários... Umha vez eliminados o exército permanente e a polícia, os
instrumentos do poder material do velho governo, a Comuna estabeleceu
imediatamente como objectivo quebrar o instrumento de repressom espiritual, o
poder dos padres... Os funcionários judiciais perdêrom aquela aparente
independência... daí em diante deviam ser eleitos, responsáveis e
amovíveis...»([11])
Deste modo, a Comuna substitui
aparentemente a máquina de Estado quebrada «apenas» por umha democracia mais
completa: supressom do exército permanente, plena elegibilidade e amovibilidade
de todos os funcionários públicos. Mas na realidade este «apenas» significa a
substituiçom gigantesca de umhas instituiçons por instituiçons de tipo
fundamentalmente diferente. Aqui observa-se exactamente um dos casos de
«transformaçom da quantidade em qualidade»: a democracia, realizada de modo tam
completo e conseqüente quanto é concebível, converte-se de democracia burguesa
em proletária, de Estado (=força especial para a repressom de umha classe
determinada) em qualquer cousa que já nom é, para falar propriamente, Estado.
Reprimir a burguesia e a sua resistência continua a ser necessário. Para
a Comuna isto foi especialmente necessário, e umha das causas da sua derrota
reside em que ela nom o fijo com suficiente decisom. Mas o órgao de repressom é
aqui já a maioria da populaçom e nom a minoria, como tinha sido sempre tanto na
escravatura, como na servidom, como na escravatura assalariada. E umha vez que
é a própria maioria do povo que
reprime os seus opressores, já nom é
necessária umha «força especial» para a repressom! É neste sentido que o
Estado começa a extinguir-se. Em vez
de instituiçons especiais de umha minoria privilegiada (funcionalismo
privilegiado, comando do exército permanente), a própria maioria pode realizar
directamente isto, e, quanto mais a própria realizaçom das funçons do poder de
Estado se tornar de todo o povo, menos necessário se torna esse poder.
A este respeito é particularmente notável umha medida da Comuna
sublinhada por Marx: aboliçom de todos os dinheiros de representaçom, de todos
os privilégios pecuniários dos funcionários, reduçom dos vencimentos de todos os funcionários do Estado ao nível
do «salário operário». É aqui
exactamente que se manifesta de modo mais evidente a viragem da democracia burguesa para a democracia proletária, da
democracia dos opressores para a democracia das classes oprimidas, do Estado
como «força especial» para a
repressom de umha classe determinada, para a repressom dos opressores pola força geral da maioria do povo, dos
operários e dos camponeses. E é precisamente sobre este ponto, particularmente
evidente e talvez o mais importante
no que respeita à questom do Estado, que as liçons de Marx som mais esquecidas!
Os comentários populares —som inumeráveis— nom falam disto. «É costume»
silenciar isto como umha «ingenuidade» que fijo a sua época —à maneira dos
cristaos que, tendo chegado à situaçom de religiom de Estado, «esquecêrom» as
«ingenuidades» do cristianismo primitivo com o seu espírito democratico
revolucionário.
A reduçom da remuneraçom dos altos funcionários do Estado parece
«simplesmente» umha reivindicaçom de um democratismo ingénuo, primitivo. Um dos
«fundadores» do oportunismo moderno, o ex-social-democrata Ed. Bernstein,
exercitou-se mais de umha vez a repetir os gracejos burgueses vulgares sobre o
democratismo «primitivo». Como todos os oportunistas, como os kautskianos
actuais, nom compreendeu de modo nengum que, em primeiro lugar, é impossível a transiçom do capitalismo
para o socialismo sem um certo «regresso» ao democratismo «primitivo» (pois
como passar de outro modo para a realizaçom das funçons do Estado pola maioria
da populaçom e por toda a populaçom sem excepçom?), e, em segundo lugar, que o
«democratismo primitivo» na base do capitalismo e da cultura capitalista nom é
o democratismo primitivo dos tempos antigos ou pré-capitalistas. A cultura
capitalista criou a grande produçom, as fábricas, os caminhos-de-ferro, os
correios, os telefones, etc. E, nesta
base, a imensa maioria das funçons do velho «poder de Estado»
simplificou-se de tal maneira, e pode ser reduzida a operaçons de registo, de
inscriçom, de controlo tam simples, que estas funçons estám completamente ao
alcance de qualquer pessoa alfabetizada, que estas funçons podem perfeitamente
ser realizadas polo habitual «salário operário», que se pode (e se deve) tirar
a estas funçons qualquer sombra de privilégio, de «hierarquia».
A elegibilidade completa, a amovibilidade a cada momento de todos os funcionários públicos sem excepçom, a
reduçom dos seus vencimentos ao habitual «salário operário», estas medidas
democráticas simples e «compreensíveis por si mesmas», unindo completamente os
interesses dos operários e da maioria dos camponeses, servem ao mesmo tempo de
ponte que conduz do capitalismo para o socialismo. Estas medidas dim respeito à
reorganizaçom estatal, puramente política da sociedade, mas só adquirem,
naturalmente, todo o seu sentido e importáncia em ligaçom com a realizaçom ou a
preparaçom da «expropriaçom dos expropriadores», isto é, com a transformaçom da
propriedade privada capitalista dos meios de produçom em propriedade social.
«A Comuna —escrevia Marx—
fijo da palavra de ordem de todas as revoluçons burguesas, governo barato, umha
verdade ao suprimir as duas maiores fontes de despesas, o exército e o
funcionalismo.»
Do campesinato, assim como de outras camadas da pequena burguesia, apenas
umha insignificante minoria «sobe», «se torna alguém» no sentido burguês, isto
é, se converte ou em pessoas abastadas, em burgueses, ou em funcionários
privilegiados e com umha posiçom garantida. A imensa maioria do campesinato, em
qualquer país capitalista em que exista campesinato (e estes países
capitalistas som a maioria), é oprimida polo governo e aspira a derrubá-lo,
aspira a um governo «barato». Só o proletariado pode realizar isto, e, ao
realizá-lo, dá ao mesmo tempo um passo para a reorganizaçom socialista do
Estado.
3. A SUPRESSOM DO PARLAMENTARISMO
«A Comuna —escrevia Marx—
devia ser nom um corpo parlamentar mas um corpo de trabalho, executivo e
legislativo ao mesmo tempo ...
...Em vez de decidir, de
três em três anos ou de seis em seis, que membro da classe dominante havia de
representar e reprimir (ver-und
zertreten) o povo no parlamento, o sufrágio universal devia servir ao povo
constituído em Comunas como o voto individual serve a todos os outros patrons
para escolherem operários, capatazes e contabilistas no seu negócio. »
Esta notável crítica do parlamentarismo, feita em 1871, também pertence
agora, graças à dominaçom do social-chauvinismo e do oportunismo, ao número das
«palavras esquecidas» do marxismo. Os ministros e os parlamentares de
profissom, os traidores do proletariado e os socialistas «interesseiros» dos
nossos dias deixárom inteiramente aos anarquistas a crítica do parlamentarismo
e, nesta base espantosamente razoável, declarárom «anarquista» toda a crítica ao parlamentarismo!! nom
é de admirar que o proletariado dos países parlamentares «avançados», sentindo
repugnáncia ao ver «socialistas» tais como os Scheidemann, David, Legien,
Sembat, Renaudel, Henderson, Vandervelde, Stauning, Branting, Bissolati e C.ª,
tenha cada vez mais concedido as suas simpatias ao anarco-sindicalismo, embora
este seja irmao gémeo do oportunismo.
Mas, para Marx, a dialéctica revolucionária nunca foi esta frase oca na
moda, esta roca de criança que dela figérom Plekhánov, Kautsky e outros. Marx
soubo romper impiedosamente com o anarquismo devido à sua incapacidade para
utilizar mesmo o «cortelho» do parlamentarismo burguês, sobretudo quando
manifestamente nom há umha situaçom revolucionária; mas soubo também, ao mesmo
tempo, fazer umha crítica verdadeiramente proletária e revolucionária do
parlamentarismo.
Decidir umha vez em cada certo número de anos que membro da classe
dominante reprimirá, esmagará o povo no parlamento, eis onde está a verdadeira
essência do parlamentarismo burguês, nom só nas monarquias constitucionais
parlamentares mas também nas repúblicas mais democráticas.
Mas, se se pom a questom do Estado, se se considera o parlamentarismo
como umha das instituiçons do Estado, do ponto de vista das tarefas do
proletariado neste domínio, qual é
pois o meio de sair do parlamentarismo? como se pode passar sem ele ?
Somos forçados a dizer umha e outra vez: as liçons de Marx, baseadas no
estudo da Comuna, estám tam esquecidas que, para o «social-democrata»
contemporáneo (lede: o traidor contemporáneo do socialismo), é simplesmente
incompreensível outra crítica do parlamentarismo que nom seja a crítica
anarquista ou reaccionária.
O meio para sair do parlamentarismo, naturalmente, nom consiste na
supressom das instituiçons representativas e da elegibilidade, mas na
transformaçom das instituiçons representativas de lugares de charlatanice em
instituiçons «de trabalho». «A Comuna devia ser nom um corpo parlamentar mas um
corpo de trabalho, executivo e legislativo ao mesmo tempo.»
Uma instituiçom «nom parlamentar mas de trabalho», isto atinge
directamente os parlamentares contemporáneos e os «canzinhos de colo»
parlamentares da social-democracia! Olhade para qualquer país parlamentar, da
América à Suíça, de França à Inglaterra, à Noruega, etc.: o verdadeiro trabalho
«de Estado» fai-se nos bastidores, é executado polos departamentos, polas
chancelarias, polos estados-maiores. Nos parlamentos apenas se palra, com a
finalidade especial de enganar a «gente simples». Isto é tam verdade que, mesmo
na república russa, república democrático-burguesa, todos estes vícios do
parlamentarismo se manifestárom imediatamente, mesmo antes de ter tido tempo
para constituir um verdadeiro parlamento. Heróis do filistinismo apodrecido
como os Skóbelev e os Tseretéli, os Tchernove os Avxéntiev conseguírom
apodrecer mesmo os Sovietes segundo o modelo do mais ignóbil parlamentarismo
burguês, convertendo-os em ocos lugares de charlatanice. Nos Sovietes, os
senhores ministros «socialistas» enganam os mujiques crédulos com fraseologia e
resoluçons. No governo decorre umha dança permanente, por um lado, para fazer
sentar à vez à volta do «tacho», dos lugarzinhos lucrativos e honrosos, o maior
número possível de socialistas-revolucionários e de mencheviques, por outro
lado, para «distrair a atençom» do povo. E nas chancelarias, nos
estados-maiores, «fai-se» o trabalho «de Estado»!
O Delo Naroda, órgao do
partido dirigente dos «socialistas-revolucionários», confessava recentemente
num editorial, com a incomparável franqueza das pessoas da «boa sociedade»,
onde «todos» exercem a prostituiçom política, que mesmo nos ministérios
pertencentes aos «socialistas» (desculpade a expressom), que mesmo neles todo o
aparelho burocrático permanece no fundo o antigo, funciona à antiga e sabota com
completa «liberdade» as inicitivas revolucionárias! Mas, mesmo que nom
existisse esta confissom, será que a história real da participaçom dos
socialistas-revolucionários e dos mencheviques no governo nom o demonstra? O
que é aqui característico é apenas que, encontrando-se no ministério juntamente
com os democratas-constirucionalistas, os senhores Tchernov, Russánov, Zenzínov
e outros redactores do Delo Naroda perdam
tanto a vergonha que nom se coíbam de contar em público como umha ninharia, sem
corar, que «entre eles», nos ministérios, tudo continua à antiga!! Frase
democrática revolucionária para enganar o tonto da aldeia e a morosidade
burocrática para «agradar» aos capitalistas: eis a essência da «honesta» coligaçom.
A Comuna substitui o parlamentarismo venal e apodrecido da sociedade
burguesa por instituiçons onde a liberdade de opiniom e de discussom nom
degenera em engano, porque os próprios parlamentares tenhem de trabalhar,
executar eles próprios as suas leis, comprovar eles próprios o que se consegue
na vida, responder eles próprios directamente perante os seus eleitores. As
instituiçons representativas permanecem, mas o parlamentarismo como sistema
especial, como divisom do trabalho legislativo e executivo, como situaçom
privilegiada para os deputados, nom existe
aqui. Nom podemos conceber umha democracia, mesmo umha democracia
proletária, sem instituiçons representativas, mas podemos e devemos concebê-la sem parlamentarismo,
se a crítica da sociedade burguesa nom é para nós umha palavra oca, se a aspiraçom
a derrubar a dominaçom da burguesia é a nossa aspiraçom séria e sincera e nom
umha frase «eleitoral» destinada a captar os votos dos operários, como para os
mencheviques e os socialistas-revolucionários, como para os Scheidemann e os
Legien, os Sembat e os Vandervelde.
É extremamente instrutivo que, ao falar das funçons daquele funcionalismo de que tanto a Comuna como a democracia
proletária precisam, Marx tome para comparaçom os empregados de «todos os
outros patrons», isto é, umha empresa capitalista vulgar com «operários,
capatazes e contabilistas».
Em Marx nom existe um grao de utopismo, no sentido de ter inventado,
imaginado, umha sociedade «nova». Nom, ele estuda, como um processo de história
natural, o nascimento da nova
sociedade a partir da velha, as
formas de passagem da segunda para a primeira. Toma a experiência real do
movimento proletário de massas e esforça-se por tirar dela liçons práticas.
«Aprende» com a Comuna, como todos os grandes pensadores revolucionários nom
receárom aprender com a experiência dos grandes movimentos da classe oprimida,
nunca se referindo a eles com «sermons» pedantes (à semelhança do «nom se devia
ter pegado em armas» de Plekhánov, ou o «uma classe deve auto-refrear-se» de
Tseretéli).
Nom se trata de suprimir de umha só vez, em todo o lado, até o fim, o
funcionalismo. Isso é umha utopia. Mas quebrar
de umha só vez a velha máquina burocrática e começar imediatamente a
construir umha nova, que permita gradualmente acabar com todo o funcionalismo,
isto nom é utopia, isto é a
experiência da Comuna, isto é a tarefa imediata, directa, do proletariado
revolucionário.
O capitalismo simplifica as funçons da administraçom «estatal», permite
pôr de parte a «hierarquizaçom» e reduzir tudo a umha orgánizaçom de proletários
(como classe dominante) que contrata, em nome de toda a sociedade, «operários,
capatazes e contabilistas».
Nom somos utopistas. Nom «sonhamos» com dispensar imediatamente toda a administraçom, toda a subordinaçom;
estes sonhos anarquistas, baseados na incompreensom das tarefas da ditadura do
proletariado, som fundamentalmente estranhos ao marxismo e só servem na
realidade para protelar a revoluçom socialista até o momento em que os homens
sejam diferentes. Nom, nós queremos a revoluçom socialista com homens como os
de agora, que nom poderám passar sem subordinaçom, sem controlo, sem «capatazes
e contabilistas».
Mas é ao proletariado, vanguarda armada de todos os explorados e
trabalhadores, que é preciso subordinar-se. Podemos e devemos, desde já, de hoje
para amanhá, começar a substituir a «hierarquizaçom» específica dos
funcionários do Estado polas simples funçons dos «capatazes e contabilistas»,
funçons que, já hoje, estám completamente ao alcance do nível de
desenvolvimento dos citadinos em geral e que podem ser perfeitamente executadas
mediante o «salário operário».
Organizaremos a grande produçom partindo do que já foi criado polo
capitalismo, nós próprios, os
operários, apoiando-nos na nossa experiência operária, criando umha disciplina
rigorosíssima, de ferro, apoiada polo poder de Estado dos operários armados,
reduziremos os funcionários públicos ao papel de simples executantes das nossas
directivas, de «capatazes e contabilistas» (naturalmente com técnicos de todos
os géneros e níveis) responsáveis, amovíveis e modestamente pagos —eis a nossa tarefa proletária, eis por onde
podemos e devemos começar na
realizaçom da revoluçom proletária. Tal começo, na base da grande produçom,
conduz por si mesmo à «extinçom» gradual de todo o funcionalismo, ao estabelecimento
gradual de umha ordem —ordem sem aspas, ordem sem semelhança nengumha com a
escravatura assalariada— umha ordem em que as funçons de fiscalizaçom e de
contabilidade, cada vez mais simplificadas, serám desempenhadas por todos, por
turnos, tornarám-se depois um hábito e finalmente tornarám-se caducas como
funçons especiais de umha categoria
especial de indivíduos.
Um espirituoso social-democrata alemám dos anos 70 do século passado
chamou aos correios um modelo de
empresa socialista. Isto é muito justo. Os correios som agora umha empresa
organizada segundo o tipo do monopólio capitalista
de Estado. O imperialismo transforma progressivamente todos os trusts em organizaçons de tipo
semelhante. Acima dos «simples» trabalhadores, que estám sobrecarregados de
trabalho e que passam fame, encontra-se aqui exactamente a mesma burocracia
burguesa. Mas o mecanismo de gestom social aqui já está pronto. Derrubar os
capitalistas, quebrar a resistência destes exploradores com a mao de ferro dos
operários armados e demolir a máquina burocrática do Estado contemporáneo —e
temos diante de nós um mecanismo de elevado equipamento técnico, liberto do
«parasita» e que os próprios operários unidos podem perfeitamente pôr a
funcionar contratando técnicos, capatazes, contabilistas, pagando o trabalho de
todos eles, assim como o de todos os funcionários do «Estado» em
geral, com um salário de operário. Tal é a tarefa concreta, prática,
imediatamente realizável em relaçom com todos os trusts, e que liberta os trabalhadores da exploraçom, tendo em
conta a experiência já começada na prática (especialmente no domínio da
construçom do Estado) pola Comuna.
Toda a economia nacional organizada como os correios, de
forma que os técnicos, os capatazes, os contabilistas, como todos os funcionários públicos, recebam
um vencimento que nom exceda um «salário operário», sob o controlo e a direcçom
do proletariado armado —eis o nosso fim imediato. Eis de que Estado, eis de que
base económica temos necessidade. Eis o que trarám a supressom do
parlamentarismo e a manutençom das instituiçons representativas —eis o que
libertará as classes trabalhadoras da prostituiçom destas instituiçons pola
burguesia.
4. A ORGANIZAÇOM DA UNIDADE DA
NAÇOM
«... Num breve esboço da
organizaçom nacional, que a Comuna nom tivo tempo para elaborar mais
desenvolvidamente, di-se expressamente que a Comuna devia ser... a forma
política mesmo da aldeia mais pequena...» polas Comunas devia também ser eleita
a «Delegaçom Nacional» em Paris.
«...
As poucas mas importantes funçons que depois ainda restavam a um governo
central nom deviam ser abolidas, como deliberadamente se falsificou, mas
entregues a funcionários comunais, isto é, rigorosamente responsáveis ...
...A unidade da naçom nom
devia ser quebrada, mas, polo contrário, organizada pola Constituiçom Comunal;
devia tonar-se umha realidade por meio da destruiçom daquele poder de Estado
que se fazia passar pola encarnaçom desta unidade, mas que queria ser
independente e superior face à naçom, junto de cujos corpos ele era de facto
apenas umha excrescência parasitária... Enquanto houvesse que amputar os órgaos
meramente repressivos do velho poder governamental, as suas funçons
justificadas deviam ser despidas de um poder que reivindicava estar acima da
sociedade e devolvidas aos servidores responsáveis da sociedade.»
Até que ponto os oportunistas da social-democracia contemporánea nom
compreendêrom —seria talvez mais certo dizer: nom quigérom compreender— estes
raciocínios de Marx, é o que mostra da melhor maneira o livro, famoso à maneira
de Heróstrato, As Premissas do Socialismo
e as Tarefas da Social-Democracia, do renegado Bernstein. Precisamente a
propósito das palavras citadas de Marx, Bernstein escrevia que este programa,
«polo seu conteúdo político, revela, em todos os traços essenciais, a maior
semelhança com o federalismo – de Proudhon... Apesar de todas as outras
divergências entre Marx e o «pequeno-burguês» Proudhon (Bernstein coloca a
palavra «pequeno-burguês» entre aspas, as quais deviam ser, na opiniom dele,
irónicas), nestes pontos o curso do seu pensamento é tam próximo quanto
possível». Naturalmente, prossegue Bernstein, a importáncia das municipalidades
cresce, mas «parece-me duvidoso que a primeira tarefa da democracia seja esta
aboliçom (Auflösung – literalmente:
dissoluçom, decomposiçom) dos Estados contemporáneos e esta mudança completa (Umwandlung – transformaçom) da sua
organizaçom como a imaginam Marx e Proudhon —formaçom de umha assembleia
nacional, de delegados das assembleias provinciais ou regionais, as quais, por
seu turno, seriam compostas por delegados das comunas— de maneira que toda a
forma anterior das representaçons nacionais desapareceria completamente»
(Bernstein, As Premissas, pp. 134 e 136 da ediçom alemá de 1899) .
Isto é simplesmente monstruoso:
confundir as concepçons de Marx sobre a «supressom do poder de Estado-parasita»
com o federalismo de Proudhon! Mas isto nom é casual, pois nom vem sequer à
ideia do oportunista que Marx nom fala aqui de modo nengum do federalismo em
oposiçom ao centralismo, mas de quebrar a velha máquina de Estado burguesa
existente em todos os países burgueses.
Só vem à ideia do oportunista aquilo que vê à sua volta, no meio de
filistinismo pequeno-burguês e de estagnaçom «reformista», a saber: unicamente as
«municipalidades»! Quanto à revoluçom do proletariado, o oportunista até
desaprendeu de pensar nela!
Isto é ridículo. Mas é de notar que neste ponto nom se tenha discutido
com Bernstein. Muitos refutárom Bernstein –especialmente Plekhánov na
literatura russa, Kautsky na europeia, mas nem
um nem outro dixérom algumha
cousa acerca desta deturpaçom de Marx
por Bernstein.
O oportunista desaprendeu tam bem de pensar revolucionariamente e de
reflectir acerca da revoluçom que atribui «federalismo» a Marx, confundindo-o
com o fundador do anarquismo, Proudhon. E Kautsky, e Plekhánov, que querem ser
marxistas ortodoxos, defender a doutrina do marxismo revolucionário, calam
acerca disto! Aqui reside umha das raízes desta extrema vulgarizaçom das
concepçons sobre a diferença entre o marxismo e o anarquismo, que é
característica tanto dos kautskianos como dos oportunistas, e de que ainda
teremos que falar.
Nos citados raciocínios de Marx acerca da experiência da Comuna nom há
nengum vestígio de federalismo. Marx coincide com Proudhon exactamente acerca
de umha cousa que o oportunista Bernstein nom vê. Marx diverge de Proudhon
acerca de umha cousa na qual Bernstein vê a sua coincidência.
Marx coincide com Proudhon em que ambos defendem que se deve «quebrar» a
máquina de Estado actual. Esta coincidência do marxismo com o anarquismo (tanto
com Proudhon como com Bakúnine), nem os oportunistas, nem os kautskianos querem
vê-la porque se afastárom do marxismo neste ponto.
Marx diverge quer de Proudhon quer de Bakúnine na questom do federalismo
(nom falando já da ditadura do proletariado). O federalismo é umha derivaçom de
princípio das concepçons pequeno-burguesas do anarquismo. Marx é centralista. E
nos raciocínios que citamos dele nom existe o menor desvio do centralismo. Só
as pessoas cheias de umha filistina «fé supersticiosa» no Estado podem tomar a
supressom da máquina de Estado burguesa pola supressom do centralismo!
Pois, se o proletariado e o campesinato pobre tomarem nas maos o poder
de Estado, se se organizarem com toda a liberdade em comunas e unirem a acçom de todas as comunas para
os ataques contra o capital, para destruir a resistência dos capitalistas, para
restituir a toda a naçom, a toda a
sociedade, a propriedade privada dos caminhos-de-ferro, das fábricas, da terra,
etc., nom será isto centralismo? nom será isto o centralismo democrático mais
conseqüente? e, além disso, centralismo proletário?
A Bernstein simplesmente nom pode entrar na cabeça que é possível um
centralismo voluntário, umha uniom voluntária das comunas na naçom, umha fusom
voluntária das comunas proletárias com o fim de destruir a dominaçom burguesa e
a máquina de Estado burguesa. Como todo o filisteu, Bernstein imagina o
centralismo como umha cousa que só pode ser imposta e mantida de cima, apenas
por meio do funcionalismo e da casta militar.
Marx sublinha intencionalmente, como que prevendo a possibilidade da
deturpaçom das suas concepçons, que constituem umha falsificaçom consciente as
acusaçons à Comuna de que ela queria suprimir a unidade da naçom, abolir o
poder central. Marx emprega intencionalmente a expressom «organizar a unidade
da naçom» para contrapor ó centralismo consciente, democrático, proletário, ao
burguês, militar, burocrático.
Mas... Nom há pior surdo do que aquele que nom quer ouvir. E os
oportunistas da social-democracia actual nom querem precisamente ouvir falar de
suprimir o poder de Estado, de amputar o parasita.
5. A SUPRESSOM DO ESTADO PARASITA
Já citamos as correspondentes palavras de Marx e devemos completá-las.
«... O destino habitual de
novas criaçons históricas —escrevia Marx— é serem confundidas com
contrapartidas de formas mais antigas e mesmo já caducas da vida social, às
quais em certa medida se assemelham. Assim, esta nova Comuna, a qual quebra (bricht) o Estado moderno tem sido vista
como umha revivescência das comunas medievais ..., umha liga de pequenos
Estados como Montesquieu e os girondinos([12])
a sonharam..., como umha forma exagerada da velha luita contra a
supercentralizaçom...
...A
constituiçom comunal teria, polo contrário, devolvido ao corpo social todas as
forças até aqui devoradas polo «Estado» excrescência parasitária, o qual se
alimenta da sociedade e tolhe o livre movimento desta. Só por esta acçom ela
teria posto em movimento o renascimento da França ...
...Na realidade, porém, a
Constituiçom Comunal teria colocado os produtores rurais sob a direcçom
espiritual das capitais distritais, e teria-lhes assegurado nestas, nos
operários urbanos, os defensores naturais dos seus interesses. A simples
existência da Comuna implicava, como é evidente, o autogoverno local, mas agora
já nom como um contrapeso contra o poder estatal já tornado supérfluo.»
«Supressom do poder de Estado»,
que era umha «excrescência parasitária», a sua «amputaçom», a sua «destruiçom»,
«o poder de Estado já tornado supérfluo» —eis em que termos Marx falava do Estado, avaliando e
analisando a experiência da Comuna.
Tudo isto foi escrito há um pouco menos de meio século, e agora é
preciso realizar verdadeiras escavaçons para levar ao conhecimento das amplas
massas um marxismo nom deturpado. As conclusons tiradas da observaçom da última
grande revoluçom que Marx viveu fôrom esquecidas exactamente quando chegava a
época das seguintes grandes revoluçons do proletariado.
«... A multiplicidade das
interpretaçons a que a Comuna foi submetida e a multiplicidade dos interesses
que nela se vírom expressos provam que ela era umha forma política
integralmente capaz de expansom, ao passo que todas as formas de governo
anteriores tinham sido essencialmente repressivas. O seu verdadeiro segredo era
este: ela era essencialmente um governo
da classe operária, o resultado da luita da classe que produz contra a que
apropria, a forma política, finalmente descoberta, na qual se podia realizar a
libertaçom económica do trabalho...
Sem esta última condiçom a
Constituiçom Comunal era umha impossibilidade e um engano...»
Os utopistas dedicárom-se a «descobrir» as formas políticas sob as quais
devia ter lugar a reorganizaçom socialista da sociedade. Os anarquistas
esquivavam-se completamente à questom das formas políticas. Os oportunistas da
social-democracia actual aceitárom as formas políticas burguesas do Estado
democrático parlamentar como um limite intransponível e quebrárom a cabeça a
prosternar-se diante deste «modelo», classificando de anarquismo qualquer
aspiraçom de demolir estas formas.
Marx deduziu de toda a história do socialismo e da luita política que o
Estado deverá desaparecer e que a forma transitória do seu desaparecimento
(passagem do Estado para o nom-Estado) será «o proletariado organizado como
classe dominante». Mas Marx nom se propunha descobrir
as formas políticas deste futuro.
Limitou-se a umha observaçom precisa da história francesa, à sua análise e à
conclusom a que o conduziu o ano de 1851: as cousas aproximam-se da destruiçom da máquina de Estado
burguesa.
E quando o movimento revolucionário de massas do proletariado eclodiu,
Marx, apesar do fracasso deste movimento, apesar da sua curta duraçom e da sua
fraqueza evidente, entregou-se ao estudo das formas que ele tinha descoberto.
A Comuna é a forma, «finalmente descoberta» pola revoluçom proletária,
na qual se pode realizar a libertaçom económica do trabalho.
A Comuna é a primeira tentativa da revoluçom proletária para quebrar a máquina de Estado burguesa e a
forma política «finalmente descoberta» pola qual se pode e se deve substituir o que foi quebrado..
Veremos mais adiante na nossa exposiçom que as revoluçons russas de 1905
e de 1917, noutra situaçom, noutras condiçons, continuam a obra da Comuna e
confirmam a genial análise histórica de Marx.
[2] K.
Marx e F. Engels. Manifesto do Partido
Comunista.
[3] No
fim da século XIX e começo do século XX, os círculos dirigentes da burguesia de
diversos países, pretendendo cindir o movimento operário e desviar o
proletariado da luita revolucionária por meio de algumhas cedências, recorrêrom
à manobra de convidar alguns dirigentes reformistas dos partidos socialistas a
participarem em governos burgueses reaccionários. Na Inglaterra, em 1892, John
Burns foi eleito membro do Parlamento; em França, em 1889, entrou no governo
burguês de Waldeck-Rousseau o socialista Alexandre Etienne Millerand, que
ajudou a burguesia na realizaçom da sua política. A participaçom de Millerand
no governo burguês reaccionário prejudicou muito o movimento operário de
França. V. I. Lenine caracterizou o millerandismo como apostasia e
revisionismo. Na ltália, no começo do século XX os socialistas Leonida Bissolati,
Ivanoe Bonomi e outros manifestárom-se abertamente partidários da colaboraçom
com o governo. Em 1912 fôrom expulsos do Partido Socialista.
Durante a Primeira Guerra
Mundial, os dirigentes oportunistas de direita dos partidos social-democratas
de diferentes países passárom abertamente para o lado do social-chauvinismo,
participárom nos governos burgueses dos seus países e defendêrom à sua
política. (N. Ed.)
[4]
Acrescentado na 2.ª ediçom.
[5] Die Neue Zeit (Tempo Novo): revista
teórica do Partido Social-Democrata de Alemanha; publicou-se em Estugarda de
1883 a 1923. (N. Ed.)
[6]
Participantes na Comuna de Paris de 1871. (N. Ed.)
[7]
Lenine refere-se ao Segundo Manifesto do Conselho Geral da Associaçom
Internacional dos Trabalhadores sobre a guerra franco-prussina. A todos os
membros da Associaçom Internacional dos Trabalhadores na Europa e nos Estados
Unidos, escrito por Marx de 6 a 9 de Setembro de 1870, em Londres. (N. Ed.)
[8]
Ver a carta de K. Marx a L. Kulgelmann de 12 de Abril de 1871. (N. Ed.)
[9] K. Marx e F. Engels